Pecadores ocultos (Reescrita)

1 Cap. 01 As pétalas murchas


—Padre João, preciso de sua ajuda, já que o senhor é mais experiente que eu.

—Diga padre Tomás.

—Padre. Nossa igreja é rígida em relação às tradições, tanto que ainda temos o confessionário e aprendemos que tudo que nos é falado nele jamais deve ser dito fora dele.

—Está certo padre. Mas aonde você quer chegar?

—Estou em uma situação complicada e não sei se saberei dar o melhor conselho. Você poderia me ajudar?

—Pelo visto a conversa será longa, é melhor sentarmos.

Ele gesticulou para os bancos da igreja e nos sentamos de frente à imagem de Jesus Cristo.

—Ontem à noite, quando eu estava para fechar a igreja veio até mim, uma bela mulher, alta, de olhos pretos e pele branca, estava vestida de um modo simples, mas seu vestido era muito bonito, ela me disse que precisava de ajuda. Nós fomos até o confessionário e ela logo me perguntou:

—Padre, é pecado guardar rancor?

—Não -Respondi rapidamente- Mas isso lhe faz muito mal. Concluí.

—Mesmo que eu esteja com a razão? Ela insistiu.

—De quem você está com raiva querida? Perguntei percebendo que em sua voz havia tristeza.

—Do meu noivo. Ela respondeu respirando fundo.

—E o que ele fez para merecer o ódio da sua futura esposa?

—Ele me traiu padre! –Ela respondeu exaltada- me traiu quando mais precisava dele.

—Você tem certeza do que está acusando seu noivo?

—Tenho.

—E o que ele disse para se defender?

—Falou como um ator shakespeariano, disse que me amava, mas que aquilo foi um momento de fraqueza.

—Foi apenas uma vez querida? Perguntei à mulher para me contar mais para ter um julgamento mais próximo da verdade.

—Eu não sei. Ele não me contou nem quem era a desgraçada.

—Estamos na casa de Deus moça.

—Desculpe. Nunca fui muito religiosa.

—Tudo bem, a igreja é aberta para todos. Mas está muito tarde para uma mulher bonita como você andar sozinha.

—Eu descobri hoje. Não suportei ficar na mesma casa que ele.

—Minha jovem, você o ama?

Esta pergunta parecia ter-lhe cortado a língua, pois ela se calou por algum tempo, mas de maneira vaga respondeu:

—Padre, durante o tempo em que estivemos separados, ele me provou seu amor, mas descobri da pior forma que ele não foi fiel.

—Somos todos pecadores, tente entender que às vezes os homens não resistem as tentações, eles falham. Infelizmente seu marido não conseguiu resistir para alguma mulher.

—Padre eu temo em pensar que talvez ele a ame mais, pois insiste em não me contar quem é.

—Talvez seja para evitar mais problemas.

—E que outros problemas ele poderia querer esconder?

—Ele te ama. Apenas foi fraco, cedeu à carne. Mas essa é uma decisão sua então vá se acalmar e somente quando estiver tranquila pense em como vai agir.

—Obrigada padre. Quando eu decidir, virei falar com o senhor novamente.

—Eu estarei esperando.

—Mas padre Tomás, o que tem demais nessa história? Não consigo entender.

—Padre João, tem muita coisa que esta mulher não contou.

—Ela mesma disse que não era muito religiosa. Talvez não estivesse se sentindo a vontade.

—Não estou falando disso. Hoje pela manhã, logo após abrir a igreja venho um homem, com a barba descuidada e com uma aparência de derrotado.

—Logicamente é o esposo dela.

—Mas ele me contou a história toda do que aconteceu com tantos detalhes a mais que eu não sabia exatamente o que aconselhar.

—Pois me conte o que ele lhe falou.

Após abrir a igreja fui buscar a vassoura para varrê-la, quando virei vi este homem e a soltei da minha mão que ao cair no chão o assustou e falou:

—Desculpe padre. Mostrando-me as palmas das mãos que foram erguidas.

—Eu que peço desculpas. Fui desastrado — Ele olhou para o chão, pensando um pouco, parecia que ele queria falar comigo, mas não sabia como ou por onde começar.

—Você está bêbado ou algo assim? Perguntei espantado pela forma que ele se encontrava.

—Não. Estou tão horrível que você se assustou?

—Bem -fiquei um pouco envergonhado- alguns dias atrás eu me deparei com alguns ladrões. Sinto muito se lhe julguei.

—Tudo bem. Respondeu-me olhando para os lados.

—-Mas e com você, está tudo bem?

Ele suspirou bem forte e ao pensar um pouco mais me disse:

—Eu preciso de ajuda.

—Quer se confessar? Perguntei tentando olhar em seus olhos que estavam sempre em qualquer direção, exceto para mim.

—Mais do que isso, preciso de um socorro, não sei o que fazer.

—Venha comigo, por favor. Pedir indicando o caminho para o confessionário.

Ele sentou-se com força, suspirou novamente, passou as mãos pelo rosto, pelo cabelo e depois as esfregou na calça simples que usava, não estava mal vestido, mas tinha simplesmente colocado as roupas sem nenhuma preocupação. Pela primeira vez ele tentou me olhar nos olhos, mas não conseguiu, deu uma risada quase que forçada e disse:

—Eu não sei por onde começar, a história é longa.

—Que tal pelo começo? Tentei ajudá-lo a falar.

—Como comecei os meus pecados ou o começo da minha história?

—Pela qual você achar melhor. Estou aqui para lhe ajudar.

Ele inspirou profundamente, elevou a mão esquerda ao rosto, coçou a barba e com o indicador e o polegar no queixo, sustentou o rosto, seu olhar se perdia indo ao nada.

—Pelo o que você me falou este homem parece muito abalado, mas por que tanta demora em falar?

—No começo eu também não entendia, mas a história dele padre é muito confusa e acredito que ele foi uma vítima das armadilhas do demônio.

—O que ele fez de tão ruim assim?

—Se eu disser o senhor não compreenderia e iria logo condena-lo.

—Mas padre, se ele pecou não podemos ignorar.

—Mas foi pelas circunstâncias em que ele se encontrava.

—Então me conte logo para que eu possa compreendê-lo.

—Está bem. Depois de algum tempo em silêncio absoluto ele cruzou os braços e começou a me fazer perguntas sem sentido e que me deixaram bem preocupado.

—Como quais?

—Padre é pecado não conseguir resistir à carne?

—Sim.

—E ficar feliz por isso?

—O salário do pecado é a morte. Isso é apenas uma falsa e temporária alegria.

—Se eu ocultar a verdade para proteger quem eu amo?

Fiquei sem resposta para está pergunta.

—E se eu ficar feliz com uma tragédia que me impediu de sofrer muito mais?

—É terrível, não é a toa que é uma tragédia.

—Até que ponto o passado pode influenciar o presente?

—Quando se aceita a Deus tudo é esquecido. Respondi não sabendo se foi a melhor resposta.

—Mas e o futuro?

—Deixo-o vir e você saberá.

Ele tossiu e cobriu a boca com o punho fechado.

—Padre o que eu lhe contar aqui quero te pedir que nunca mais toque nesse assunto com ninguém, está será uma conversa que nunca mais quero voltar a ter. Está bem?

—Tudo bem. Concordei assustado com o que poderia ser.

—Padre o senhor pecou! Disse para ele que não contaria a ninguém e agora vem falar comigo sobre isso?

—Mas padre não é algo tão simples e eu sei que o senhor terá melhor entendimento do que eu. Justifiquei-me.

—Ainda assim, é errado. Você prometeu que não falaria.

—Deixe-me continuar com a história, está bem?

—Está bem. Continue então.

—O senhor promete padre que não contará a ninguém? Ele duvidou de mim.

Então prometi.

—Padre! Pare de me olhar assim!

—Ainda acho errado.

Depois que prometi, eu o perguntei seu nome e ele me respondeu:

—David.

—Muito bem então David. Conte-me o que aconteceu com você.