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12 Capitulo 12
–Aham, sei. –Ele me olhou. –Sua cabeça não doeu depois dos puxões de cabelo que ela te deu ontem? Conseguiu dormir?
–Na verdade eu não dormi muito. –Falei baixinho, somente segundos depois percebi o que tinha acabado de falar.
–Como assim não dormiu? –Ele arregalou os olhos me olhando fixamente.
–Nada não, eu só fiquei pensando no que aconteceu com a Júlia, nada demais. –Andei mais rápido passando na sua frente e indo em direção ao local onde serviam o café da manhã.
–Não acredito que você tenha gastado sua noite com isso. –Gustavo praticamente berrou enquanto sentava do lado do Giovani e eu do lado do Alex que estavam já nos esperando ali.
–Porque você está gritando? Eu só fiquei preocupada com ela, só isso. –Desviei o olhar para a comida, eu conseguia ouvir o suspiro de alivio do Alex que estava ao meu lado.
–Tudo bem, da próxima vez falo mais baixo, não se preocupe. –Ele riu e continuou comendo. Passamos mais de uma hora ali comendo e falando bobagens, estava tudo realmente calmo e tranquilo, confesso que achei aquilo até um pouco estranho. Depois que o Gustavo e o Giovani foram embora eu e o Alex saímos e fomos caminhar um pouco no jardim, não havia nada melhor para fazer naquele lugar.
–Esse lugar é muito chato. –Reclamei. –Seria legal fugir daqui.
–Fugir? Acho que não é possível. –Alex parou de andar.
–Deve ter um jeito, vem, vamos falar com os meninos. –O puxei pelo braço. Fomos até o Giovani e depois fomos procurar o Gustavo.
–Fugir? –Giovani riu.
–Sim, vocês conhecem algum jeito?-Perguntei.
–Bem, eu conheço um jeito. –Todos olharam para o Gustavo.
–Que jeito? –Alex perguntou.
–Bem, depois que eles dão o “toque de recolher”, não ficam muitos guardas nos corredores, se formos rápidos conseguimos escapar e sair pela porta dos fundos sem que ninguém perceba. –Gustavo respondeu.
–Eu acho que conseguimos. –Falei olhando para os outros que concordaram, menos Giovani.
–Eu não vou fazer isso. –Giovani falou se levantando. –Nem morto.
–Tudo bem, fique aqui nesse tédio. –Falei me levantando também. –Eu vou sair desse lugar.
–Boa sorte. –Giovani se virou e saiu.
–Podemos fazer isso amanhã. –Alex falou se levantando também.
–Acho uma ótima ideia. –Gustavo concordou.
O dia passou devagar, deve ser porque eu estava ansiosa pra sair daquele lugar. Nós já tínhamos um plano: Esperávamos chegar a hora de todos irem para a cama, fingíamos estar dormindo e quando os guardas saíssem nós nos encontraríamos atrás do convento. A hora de colocar o plano em ação chegou, eu estava muito nervosa, mas consegui fazer tudo como o planejado, me deitei na cama enquanto os guardas estavam naquele corredor, depois de checar que o caminho estava livre sai e encontrei o Alex no outro corredor, o Gustavo nos esperava com um celular atrás do convento.
–Onde você conseguiu isso? –Perguntei tomando o celular das mãos dele.
–Eu tenho meus segredinhos pra esconder as coisas. –Ele riu pegando o celular de volta. –Arrumei uma festa para nós irmos essa noite.
–Uma festa? –Alex falou animado.
–Festa? –Perguntei.
–Sim, vocês não vão desistir agora né? –Ele perguntou nos olhando.
–Claro que não. –Respondi.
Saímos o mais rápido dali para que não nos vissem, pegamos um taxi duas quadras dali e fomos até a casa de uma menina que o Gustavo disse ser a namorada dele, lá nós nos arrumamos e saímos para a festa.
A festa era uma mansão gigante, havia muitas pessoas, era difícil até de andar no meio daquele monte de gente. A musica era alta e todos estavam bêbados. Passamos pelo portão e entramos na mansão, estava realmente cheia de gente.
Gustavo e a menina rapidamente sumiram no meio da multidão, na verdade conseguíamos ver eles praticamente se comendo no meio da multidão, mas preferi ignorar a cena e dançar. Eu não costumava beber, mas naquela noite decidi comemorar a nossa fuga daquele lugar e eu e Alex bebemos um pouco.
–Estão gostando? –Gustavo gritava para que pudéssemos ouvir.
–Claro! –Gritei sorrindo. –Mas você não me apresentou sua namorada!
–Me chamo Elena! (nome provisório) — Ela gritou me abraçando. –Prazer em conhecê-la! –Ela falou, apenas fiz um “sim” com a cabeça.
–Vamos deixar os pombinhos ai. Vamos Mila. –Alex falou me olhando, apenas o segui. Aquele lugar estava apertado e a musica estava muito, mas muito alta.
Andamos até encontrar um lugar mais espaçoso e menos barulhento. Nos sentamos um sofá que havia ali.
– Aqui é bem melhor. –Falei o beijando.
–Concordo. –Ele sorriu.
–Quando que o Gu arrumou aquela namorada? –Perguntei.
–Acho que no mês em que você ficou sem falar com a gente. –Ele respondeu.
–Estranho. –Falei largando o copo com a bebida.
–Tá com ciúmes? –Ele me olhou.
–Claro que não, eu não sinto ciúmes nem de você. –Sorri.
–Claro que sente o tempo todo. –Ele riu.
–Claro que não. –Falei séria.
–Claro que sim. –Ele riu e me deu um beijo.
Aquela noite foi ótima, dançamos, bebemos e o melhor: nos livramos do tédio daquele convento chato. No outro dia estávamos todos acabados e provavelmente já haviam sentido a nossa falta no convento. Todos estavam se retirando da festa que acabou somente quando o sol apareceu, fomos para a casa da namorada do Gustavo.
–Eu vou tomar um banho, estou acabado. –Gustavo falou jogando o casaco no sofá. –Não quer vir Elena? –Ele riu.
–Ainda estamos aqui. –Falei apontando para o Alex que estava jogado no meu colo no sofá.
–Tudo bem, quando eles saírem você vem. –Ele riu.
–Vai logo! –Elena gritou o empurrando.
–Já estou indo! –Ele gritou.
–Mas e ai, gostaram da festa? –Ela perguntou sentando no outro sofá.
–Sim, precisamos fazer isso mais vezes. –Sorri. –Mas, como você e o Gustavo se conheceram? –Perguntei.
–Nossa Mila, bem direta né. –Alex falou se levantando.
–Tudo bem, nos conhecemos em uma festa como essa e acabamos gostando um do outro, mas e vocês dois? –Ela sorriu.
–Bem, eu entrei na “clinica” e ele era meu colega de quarto, claro que isso foi quando eles permitiam meninas e meninos no mesmo quarto. –Falei enquanto Alex me olhava.
–Ela tentou me matar. — Alex falou, Elena me olhou assustada.
–Acho que você não deveria ter contado isso, agora ela vai ficar com medo de mim. –Bati no braço dele.
–Como você pode gostar da pessoa que tentou te matar? –Ela riu.
–É que eu sou irresistível. –Falei rindo.
–Percebo, m- Elena foi interrompida pelo celular do Gustavo vibrando na mesa. –Vou ver o que é.
–Deixa que eu vejo. –Peguei o celular que estava ao meu lado e abri a mensagem. Abri a mensagem e todos me olharam assustados.
–Porque você está com essa cara de quem viu um fantasma? –Elena perguntou tomando o celular das minhas mãos. – “Alguém vai queimar.” — Ela leu em voz alta.
De repente tudo foi tomado por uma fumaça, todos procurávamos a porta para sair daquele lugar, eu conseguia ver as labaredas de fogo tomando conta das janelas, foi tudo muito rápido, não havia tempo para pensar, nós tínhamos que sair dali o mais rápido possível.
–Ali! –Gritei enquanto tentava respirar no meio daquela fumaça. –A porta! -Elena, eu e o Alex saímos correndo e fomos para a frente da casa que estava em chamas.
–Espera, cadê o Gustavo? –Elena gritava desesperada.
–Você está com o telefone ai? –Perguntei enquanto tossia por causa da fumaça.
–Sim, mas para que? –Ela perguntou enquanto retirava o telefone do bolso, sua mão estava tremula e ela tossia também.
–Vou ligar para os bombeiros, temos que salvar o Gu! –Digitei os números o mais rápido que consegui e liguei. –Você está bem Alex? –Perguntei percebendo que ele estava tossindo mais que a gente.
–Eu vou ficar bem, temos que salvar o Gustavo agora. –Ele respondeu.
–Os bombeiros já vão chegar, eles vão encontrar o Gu. –Na verdade eu não acreditava que eles fossem chegar a tempo, o Gustavo estava no banho, provavelmente havia trancado a porta e não havia visto a fumaça a tempo. Eu estava nervosa, estava com medo.
–Camila? Camila! –Olho para trás de me deparo com o Leonardo correndo em minha direção e me abraçando. –O que aconteceu aqui?
–Como você me encontrou? –Perguntei surpresa.
–Ligaram do convento lá para casa e disseram que você havia sumido e que estavam a sua procura, sua irmã ficou muito preocupada e eu decidi ajudar nas buscas. –Ele disse me soltando. –Mas o que aconteceu aqui?
–Eu não sei. -Alex falou. – Recebemos uma mensagem e de repente a casa começou a pegar fogo, o Gustavo ainda está lá dentro! Não tivemos tempo de tentar encontra-lo.
–Ele vai morrer! –Elena gritou, ela estava chorando desesperadamente.
–Eu vou acha-lo. –Leonardo falou andando em direção à porta da casa em chamas.
–Você está louco? Nicole te drogou? –Gritei o puxando de volta.
–Não posso deixar ele morrer, eu posso encontra-lo e o trazer pra fora. –Ele me empurrou e entrou na casa.
Leonardo estava em meio a fumaça e o fogo, era difícil respirar e estava muito quente. Ele procurou por todos os cômodos da casa, até encontrar a porta do banheiro aberta e o corpo do Gustavo jogado logo na frente da porta. Ele o pegou e tentou achar a porta o mais rápido possível, pedaços de moveis e do teto caiam pela casa, mas Leonardo conseguiu achar a porta, quando ele saiu para fora os bombeiros já haviam chegado e a ambulância também, os médicos foram logo ao encontro de Leonardo para examinar o Gustavo.
Todos olhavam nervosos para os médicos que examinavam o pulso, a respiração e tudo. Elena havia parado de chorar, eu e o Alex conseguimos acalma-la. Passaram-se cinco minutos, Gustavo ali no chão e nós assistindo atentamente, queríamos saber o que estava acontecido, os médicos pareciam nervosos, alguma coisa estava errada. Depois de dois minutos, nós já não aguentávamos mais esperar, foi quando um médico se levantou e fez um “não” com a cabeça.
Naquele momento Elena desabou em lagrimas e saiu correndo em direção ao corpo do Gustavo jogado no chão. Seu rosto estava vermelho de tanto chorar, minha ficha demorou para cair, eu não acreditava que aquilo havia acontecido. Leonardo apenas me olhou e retirou Elena de cima do corpo do Gustavo, comecei a chorar, Alex veio até mim e me abraçou.
–Não! Não! Não! –Elena gritava enquanto levavam o corpo do Gustavo na ambulância. – Não! –Seus olhos estavam inchados e vermelhos.
Eu não sabia o que fazer e nem o que dizer, nunca pensei que isso pudesse acontecer, fiquei um tempo parada ali tentando entender tudo o que tinha acontecido, enquanto isso Leonardo e Alex nos levavam para o carro para irmos até o hospital, pois havíamos respirado muita fumaça, mas naquele momento nada doía mais do que a perda do Gu.
O enterro foi a coisa mais difícil que eu passei em toda a minha vida, meu coração doía, eu só queria que aquilo passasse e o Gu voltasse com aquele jeito idiota, rindo de todos os barracos e me dando conselhos. Eu acho que nunca chorei tanto na minha vida, minha cabeça parecia que ia explodir e meus olhos estavam vermelhos, assim como o meu rosto. Doía mais ainda ver os pais do Gu chorando sem parar, ver a Elena tendo que tomar remédios para ficar calma depois daquilo. É horrível perder alguém que a gente ama, mais horrível ainda perder alguém que você considera família, ele esteve comigo ali desde o inicio e agora ele tinha ido embora, não deu tempo nem de dizer adeus, isso doía muito.
Na verdade, nós nascemos sabendo que em algum momento da vida vamos perder alguém que amamos, seja da família ou não, mas mesmo sabendo que isso pode acontecer a qualquer momento é difícil aceitar e se conformar com o fato de que aquela pessoa não está mais entre nós, a única opção é desejar que ela esteja em um lugar melhor e chorar.
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