A viagem para cidade fora especialmente exaustiva. Viajara confinada em um cubículo da carruagem, ainda com correntes a prendendo. A única corrente de ar vinha das grades de um pequeno comungol daquele compartimento, de onde era possível contemplar àquela altura o enigmático corpo celeste envolto em seu brilho prateado. Divertiu-se com a ironia de poder desfrutar de uma visão tão bela através daquelas grades que estavam ali para distanciar-lhe do mundo.

Quando a carruagem parou, foi retirada do cômodo por cinco homens de negro. Três deles mantinham as espadas empunhadas como se esperassem algum tipo de ataque. Não estava certa do quanto eles tinham a temer.

A sua frente pôde notar duas silhuetas: Uma masculina de cabelos negros presos em um adereço real, e a de um mulher de cabelos azuis que iam até a cintura. Ela atentou-se ao objeto de ouro cravejado por três rubis, uma relíquia do império. O general Sasuke era o terceiro na linha de sucessão. Provavelmente escolhera a carreira militar pela impossibilidade de acesso ao trono. Algo que ele falou, a fez ir em sua direção. Ela aproximou-se pedindo passagem aos guardas e levando as mãos até suas correntes.

Ela se recusou a encará-la.

— Foi para isso que me traiu? Para se tornar cachorrinha da realeza? — indagou querendo forçá-la a olhá-la, enquanto ela desfazia-se das correntes.

— Você sabe porque fiz isso. — disse, voltando por fim seu olhar para ela firmemente.

Queria negar para si mesma que sabia, amaldiçoá-la e gritar com ela todos os motivos que faziam aquilo ser inaceitável até que implorasse seu perdão, mas ela não podia.

— Em todo caso, bom pra você.

— E eu sou tão prisioneira aqui quanto você. — concluiu, livrando-a dos grilhões. — Eles me fizeram acordar de cooperar também, Sakura.

Hinata era uma sensitiva, com habilidades espirituais desde pequena. Podia sentir espíritos, interagir com eles, e mesmo guiar a tripulação por caminhos seguros, através da identificação da energia espiritual do ambiente. Seria útil ao mar para eles, como fora desde que se tornaram piratas.

— Mas você vai apreciar a estada. Tem café, sabonete e cobertores de lã. — ia contando a outra animada, esperando, talvez, que as coisas voltassem ao normal.

Se fosse em outra época, ela riria com a amiga.

Mas não era outra época.

Ao invés disso, buscou desviar a atenção dela, observando pela primeira vez a grandiosidade do palácio que se fazia a sua frente. Situado no alto do Vale do Sol, com vista privilegiada para a entrada da cidade, o castelo possuía quatro torres baluarte em formato circular e uma fachada com janelas quadrangulares, composta em sua extensão por duas torres mais largas.

Quando entrou no Palácio de Fogo, esperava ser mandada para uma masmorra e mofar lá até que decifrasse o código do Tamísia — O que certamente não funcionaria, e ela seria decapitada em algumas semanas. Mas Hinata parecia estar certa, podia não ser tão ruim.

O general solicitou que uma serva, juntamente com seus guardas, a acompanhasse até seus novos aposentos, localizado em um dos quartos da torre norte, assim que chegaram. As pedras eram frias e o ambiente era rústico, com uma cama cuja cabaceira era ornamentada com madeira entalhada e armários que se estendiam por quase uma parede inteira, dando-lhe imediatamente algumas ideias ao checar suas ligas e dobradiças, e uma janela, para sua surpresa. Paredes de pedras não eram tão difíceis de escalar, mas a visão lhe causava vertigem. Não era uma boa ideia. Além de haver guardas por toda a parte. Ele devia confiar em suas estratégias de segurança o suficiente para cedê-la aquele quarto. O de Hinata ficava ao lado, mas não queria pensar nela, não queria pensar em sua traição, tão pouco no fato de não conseguir sentir tanto ódio quanto devia.

Sentou-se na sacada e se pôs a observar daquela distância as chamas azuis que iluminavam a cidade de fogo, que resplandeciam gerando pontos de luz que se assemelhavam a estrelas quentes queimando em tono de sua própria glória.

A beleza da cidade à sua frente, com seus templos ornamentados com ouro, suntuosas edificações, casas comerciais que expunham em suas vitrines brilhantes ela própria, e seus transeuntes sempre tão elegantemente vestidos do mais nobre linho, cobiçando cada novidade que aquelas vitrines ofereciam, não atenuava o seu ódio. Não conseguia evitar de pensar que seu povo havia sido dizimado em nome daquele luxo que orgulhosamente ostentavam. E era ali, em meio a tudo que odiava, que sua vida parecia exigir um outro começo.

Notas finais
Tomei a liberdade de reimaginar o País de Fogo em um outro tempo e contexto. Espero que gostem.