País das Maravilhas
6 Frio, dor, desespero.
Notas iniciais
Olhei em volta, visivelmente perdida. Em um segundo estava com Tiago, onde mais queria estar, e agora parecia tudo escuro e frio, me chamando para a morte.
Estava onde estivera com o Sr. Wonka pouco antes de entrar no País das Maravilhas, antes de comer a coisa doce. Estava, exatamente neste minuto, no abismo que minha vida era e sempre foi.
Um garoto sentava com a mão na cabeça, tinha acabado de apanhar de outro muito maior e mais forte. Duas garotas se beijavam em um canto, pude reconhecer o cabelo loiro e quase branco de Luna e acho que a outra poderia ser Bella, mas não tinha certeza. Ela não trairia seu namorado.
Ou será que não? Tudo parecia errado naquele lugar, todos que eu parecia conhecer estavam diferentes e agiam diferente. Mike tremia em um canto, de olhos fechados, mas sorrindo um pouco. Senti novamente o frio em minhas pernas: ali estava nevando.
Estava com roupa de novo, minha calça agora bem rasgada e meu cachecol, com a blusa de frio toda suja de uma lama que não me lembrava de ter passado. Tirei-a logo que senti que aquilo não era terra molhada, mas sim vômito.
Respirei fundo, tremendo um pouco. Tinha um cheiro doce, um cheiro já conhecido. Se não me engano era maconha – precisava sair dali. Nunca quis me meter com drogas, apesar de beber tranquilamente qualquer bebida alcoólica. Mas drogas não, não queria chegar perto delas.
Senti escurecer ainda mais se fosse possível. Olhei para cima, Sr. Wonka me olhava com seu chapéu de sempre e um óculos escuro, sorrindo tranquilamente.
“Agora que acordou, mocinha...” Começou ele, me colocando em pé. “Pode ir embora. Por hoje é só, amanhã teremos mais um... passeio... pelo País das Maravilhas.”
Ele me conduziu delicadamente para a porta, nem ligando para o fato de que eu tremia mais do que gelatina e parecia estar tonta.
Não conseguia sentir meus dedos. Podia ser pelo frio ou pela tontura estranha e constante, como se tivesse bebido algo muito forte. Também parecia que meus pés não tocavam o chão, parecia que ia desabar a qualquer momento.
Seja lá o que estava sentindo nada se comparava à dor em meu peito. Dor por causa da visível perda temporária de Tiago, quem só poderia ver amanhã.
Odiava aquilo. Ele estava comigo, estava me beijando... Ele seria só meu! Porque tudo tinha que acabar??
Sentei em um banco, as esperanças sumindo de meu corpo. Minha vontade de morrer era muita, parecia que cada fio de meu corpo queria parar de pulsar sangue. Bem que Hinata tinha me avisado: aquilo sim não era legal.
Mas se tivesse que sentir esses desconfortos para poder ir ao País das Maravilhas e ver Tiago mais uma vez amanhã...
Ah, sim, eu sentiria.
Porque essa vida que estava passando aqui não valia de nada, não era importante. Só seria importante se ele estivesse ali. Mas como não está...
Morrer parece à melhor opção.
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