Paz turbulenta
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Daniele estava no Olimpo, o último lugar que pensou um dia ir. Observava ao longe seu pai, com mais dois homens, conversavam meio alterados. Mas ela não estava sozinha, ao seu lado tinha um menino. Era muito alto, deveras forte, possuidor de longos cabelos ruivos mais claros que o dela. Suas feições infantis denunciavam que ele tinha no máximo 16 anos.
A bela menina não era a única que estava analisando alguém, Hércules fazia o mesmo com ela. Observava-a discretamente, a garota tinha feições delicadas, um lindo furinho no queixo e o nariz arrebitado, os cabelos iam até a cintura. Ela parecia enfeitiça-lo, como imãs opostos, era atraído. Percebeu com curiosidade que sua mão estava dentro de uma fonte d'água.
Daniele e Hércules foram tirados de seus devaneios quando Zeus, Poseidon e Tritão se aproximaram. O primeiro irradiava felicidade, já os outros dois exibiam Carrancas e murmuravam entre si. Zeus foi o primeiro a se pronunciar:
― Daniele, minha linda menina! Quanto tempo não nos vemos ― ao perceber a confusão em seu rosto, se adiantou ― você com certeza não se lembra de mim, nem da minha casa: o Olimpo. Meu querido sobrinho, tritão, certificou-se de que esse mundo não faria parte do seu. É uma pena que agora você tenha se tornado o centro dele!
Depois do discurso, o Rei dos Mares ergueu seus olhos para sua filha e sentiu o coração apertar diante do rosto aflito que ela tinha. Mas Zeus pareceu alheio a tudo e continuou seu discurso:
― Que indelicadeza a minha, quero que conheça meu filho Hércules, comemorem! Vocês irão se casar! ― o lugar caiu em um completo silêncio
Os dois jovens foram arrancados de sua inércia. Não acreditavam no que estava acontecendo, a risada de Daniele ecoou alto, quebrando o silêncio.
― Não pode estar falando sério ― Daniele riu, mas ao perceber que era a única, parou. Sua voz atingiu um timbre de desespero ― não posso me casar com ele, tenho 19 anos, moro no fundo do mar, preciso voltar para casa, não conheço vocês. Poderia ficar aqui listando os inúmeros motivos para isso não acontecer, isso é... isso é uma loucura total.
O desespero tomou conta de si, ela tinha que voltar para casa. O amor da sua vida estava esperando-a, em segredo, nunca mais veria Jace. Os dois se conheceram em uma gruta, Daniele quase morreu presa, sua cauda por pouco quebrou. Porém, ele conseguiu ajudá-la, disso em diante eles ficaram inseparáveis, um verdadeiro e puro amor nasceu daquela linda amizade. Deixaram tudo em segredo, Jace sempre dizia que manter a história apenas para eles tornava tudo mais mágico.
E agora ela nunca mais o veria, não poderia se despedir nem dar um último beijo. Se soubesse que seria a última vez que estava encostando em seus lábios macios... Uma lágrima escorreu timidamente por sua bochecha, essa foi a primeira de muitas.
Hércules não estava diferente dela, desolado era pouco para descrever o que ele estava sentindo. Nasceu e viveu para ser um guerreiro, já estava conformado com a ideia de sacrificar-se pelo Olimpo. Sua dor originava-se nas lágrimas e no choramingo agonizante da pequena menina, ela foi arrancada de sua vida. Naquele momento tomou uma decisão: sua missão era fazer a ruiva feliz.
― Pai porque está fazendo isso? É uma decisão muito importante, deveríamos tratar esse assunto com mais cautela. ― Hércules tentou ponderar com seu pai, sem sucesso
― Me perdoem, esqueci de falar sobre benefícios da união de vocês. Desde sempre estamos em guerra, a melhor forma de trazer uma paz provisória é um casamento e crianças. Ainda ganharemos de brinde uma festa, uma grande festa... ― Zeus divagou.
No mesmo instante Daniele fraquejou e desabou no chão, sua mão que estava em uma fonte d'água, foi rapidamente para seu rosto, escondendo-se. Suas pernas, aos poucos, se transformaram em uma cauda azul.
Zeus olhou assustado, não contava com isso, para ele, Daniele era uma humana que fazia os mesmos encantos dos homens que as sereias. Hércules arfou diante da cena, ela estava linda. Casar-se não poderia ser tão ruim assim...
― Como vocês puderam ocultar isso de mim?! Ela é literalmente uma sereia ― rugiu para tritão e Poseidon.
― Sabe como é, não achei relevante, falamos que Daniele era uma sereia. Isso já deixa o resto claro de mais ― Poseidon falou despreocupadamente.
― Se você tivesse um pouco mais de interesse pela vida de sua família, saberia que a mãe da Daniele é uma sereia e que eu posso ter uma calda sempre que quiser ―Tritão respondeu
Hércules, alheio a discussão que iniciou-se, pegou Daniele no colo. Ela se aconchegou nele, caminharam por um tempo até chegarem a um lago. Ele se abaixou e depositou-a ali, seu nervosismo o impediu de dizer qualquer coisa. Mas logo deixou isso de lado quando viu duas orbes azuis encarando-o.
― Eu nem sei como me desculpar, não tinha a mínima ideia do que meu pai estava planejando. Nunca teria deixado isso acontecer, pelos deuses, não queria nada disso. Não que eu não quisesse me casar com você, é tão linda ― ao ouvir um riso baixo, sentiu as bochechas corarem e se praguejou mentalmente ― ah droga, normalmente não falo tanto assim, só quando estou nervoso. Não que você esteja me deixando nervoso, sabe do que mais? vou ficar quieto.
Daniele percebeu que estava rindo e ficou encantada, era a primeira vez naquele dia "acho que deveríamos recapitular, fingir que toda a confusão de mais cedo não ocorreu"
― Se você deseja assim. Meu nome é Hércules, mas isso você já sabe né? Tenho 21 anos e moro aqui desde sempre, acredite você não vai querer saber sobre mim, minha vida monótona: nunca saí do Olimpo. ― interrompeu sua apresentação quando viu uma carranca surgir no rosto dela ― o que houve? disse algo que não gostou?
― Não é nada ― pareceu encabulada ― eu só pensei que fosse mais novo, seu rosto ainda tem traços infantis.
― Todo mundo sempre me diz isso, relaxe! ― deu uma piscadela
― Acho que agora é minha vez, me chamo Daniele e tenho 19 anos, moro desde sempre no mar que fica do lado oeste, apesar de nunca ficar lá. Meu pai não pode nem imaginar que faço isso, se não estou frita. ― os dois riram do trocadilho ― Eu sempre amei objetos brilhantes, de tanto ganha-los formei uma coleção.
― Ganhar? Pensei que esses objetos eram raros no fundo do mar.
― Na verdade, eu vou muito para outros mares e lá tem navegantes em abundância, você sabe como é, eu sou uma sereia e... ― sentiu as bochechas ficando quentes e olhou para baixo ― era só cantar e eles me davam objetos brilhantes...
― Olha, eu sei que não gostaria de se casar comigo, mas não vejo outra saída para nós e me sinto na obrigação de fazer tudo direito ― pegou nas mãos dela ― juro que te farei feliz para sempre, vou protege-la e honra-la, nada me faltará. Farei o possível para que sejamos felizes nesse destino que nos foi imposto.
Um leve desespero tomou conta dele ao ver lágrimas brotando nos olhos da menina.
― É de verdade, não tem como voltar atrás? ― perguntou baixinho ― você sabe o que vão fazer comigo né? Vou perder minha cauda para sempre, seu pai vai me obrigar a tomar alguma poção ou algo do tipo. Voltar para meu lar, estará fora de cogitação... Ah não, Jace...
Ao falar o nome do amor da sua vida, sentiu um aperto no peito. Era agora ou nunca, se não contasse sobre ele, não conseguiria deixa-lo partir. Em um momento de bravura fez com que as palavras jorrassem para fora. Lentamente sentiu-se mais leve, dizer tudo isso em voz alta fez parecer mais real. Jace era um pedaço dela, sempre seria, mas era preciso encarar a realidade.
O casamento ocorreu duas semanas depois, entre os noivos nasceu uma linda amizade. Foi uma festa tão animada, para uma união que se firmou de uma maneira triste. Eles tentaram esconder o desconforto com a situação e pareceu dar certo, todos estavam concentrados nas comidas e nas danças. Os dois não se desgrudaram nenhuma hora, gesto que foi interpretado por muitos como paixão.
Para haver paz é preciso grandes sacrifícios, Daniele e Hércules agora entendiam que, as vezes, o destino escreve certo por linhas tortas.
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