Paz Temporária - Sombras do Passado
26 Xeque Mate
Cherry parou de falar e se espreguiçou na cadeira em que estava sentada. Todos os presentes na sala a olhavam atentamente desde que começara seu discurso. Ela ficou falando por mais de uma hora quase ininterruptamente e aparentava estar bem cansada. Paul e Sarah pareciam impressionados com a história de sua velha amiga. Os outros membros dos Fallen Ones que estavam presentes continuavam sem entender direito o que estava acontecendo e se entreolhavam com desconfiança. Um silêncio momentâneo tomou conta do lugar até que foi quebrado por Paul exibia um grande sorriso em seu rosto:
– Parece que você também passou por maus bocados, não é pequena?
– Pois é. Quanto a vocês eu nem preciso perguntar. As notícias sobre os Fallen Ones ficaram famosas internacionalmente.
– Heh? Sério?
– Pois é. Conseguimos atrair bastante atenção para nós principalmente por causa de seus discursos. – disse Drake.
– Por que eu não fiquei sabendo disso?
– Para não perder seu foco. – disse Sarah o abraçando por trás. – Iríamos dizer quando tudo estivesse tranquilo.
– Sacanagem. Eu ficaria feliz em saber que chegamos ao ponto de atrair a atenção de gente de fora do país.
– Bem, isso não é muito importante no momento. – disse Drake. – Só será se conseguirmos ganhar essa guerra.
– Na verdade. – interrompeu Cherry. – Importa sim.
Todos a olharam sem entender nada, exceto Paul que pareceu entender:
– Isso tem a ver com a tal “operação paz temporária”?
– Sim, em parte. Mas... – Cherry olhou as horas em seu relógio de pulso e voltou a olhar para todos. – Ainda não está na hora de revelar a porra toda.
– O que você está esperando? – disse um dos outros membros que estavam presentes com raiva. – Pare de enrolar! Se você realmente tem algo em mente diga logo. Não há tempo a perder!
Cherry o encarou com desgosto e suspirou levemente. Paul rapidamente projetou um olhar de raiva e desaprovação juntamente com Sarah que exibia uma expressão medonha em seu rosto. O homem, sentindo-se intimidado, coçou a cabeça e sentou-se em silêncio enquanto olhava para baixo. Cherry riu e voltou a falar:
– Eu sei que a situação está crítica para vocês, mas levei quatro anos para criar esse momento e vou aproveitá-lo o máximo possível.
– Pois é. Deixe-nos matar a saudade de nossa amiga. Se ela diz que tem um plano, então ela tem! Por que outro motivo ela se arriscaria a vir aqui? – disse Sarah. – Aliás, tem alguém que está morrendo de vontade de vê-la. Vou chamá-lo!
Sarah saiu do local enquanto encarava aquele membro com raiva. Ele se encolheu de vergonha e decidiu sair do local indo em direção oposta. A pequena garota vestida de oficial parecia se divertir com a cena. Paul deu bateu a mão direita contra seu rosto demonstrando desaprovação.
– Perdoe-me por isso. É que ele perdeu a família ao longo da guerra.
– Não se preocupe. Tive que lidar com situações muitos piores do que essa nesses últimos anos. Sem falar que, como você mesmo disse, não é culpa dele, e sim da situação. Aliás, para acelerar as coisas eu vou precisar de um favor seu Drake.
– Um favor?
– Sim. Preciso mostrar algo ao mundo em uma conferência como aquela que fizemos há quatro anos. Só que dessa vez em rede internacional.
– Heh. Parece que você tem algo realmente grande em mente. Como a cidade está sob nosso controle, fazer algo do tipo será como brincadeira de criança. Temos até uma sala reservada para coisas desse tipo nessa base. Só vou precisar modificar algumas configurações para poder transmitir internacionalmente.
– Quanto tempo você acha que levará?
– Uma hora no máximo.
– Perfeito.
– Se me derem licença, tenho algo para fazer.
Drake saiu da sala e entrou em um corredor diferente dos usados pelo homem e por Sarah e desapareceu da vista de todos.
– Estou ficando cada vez mais curioso. – disse Paul.
– Esse é um dos meus objetivos em manter segredo. Na verdade eu poderia dizer tudo sem problema nenhum, mas prefiro que vejam na prática.
– Fazer suspense com o uniforme... Deixar-nos curiosos... Você mudou bastante, hein pequena?
– Digo o mesmo de você. Desde quando deixou de ser aquele adolescente rebelde e virou um líder responsável que faz discursos motivacionais?
– Oh... Isso me lembra de algo. Devo a iniciativa da minha mudança a você, mesmo que indiretamente.
– Como assim?
– Eu fiquei no fundo do poço depois daquela noite e comecei a agir feito um babaca cuja vida não faz sentido. Mas decidi parar com aquilo e agir feito um ser humano decente depois de ter uma conversa com uma garotinha simpática e meiga.
– Garotinha? E onde eu entro nisso aí?
– O lance é que você conhece essa garota. Ela disse que você a protegeu de um “garoto malvado” sem nenhum motivo aparente e virou a “irmãzona” dela.
Cherry arregalou os olhos como se tivesse visto algum espírito e permaneceu assim por alguns segundos como se estivesse tentando pescar alguma memória dentro de sua mente. Depois sorriu levemente e disse quase sussurrando:
– Jackie... Como eu pude me esquecer daquela pequenina? E pensar que ela teria uma função vital na salvação desse país. Como ela está?
– Eu a vi apenas uma vez. Ela estava para se mudar para algum outro país por causa do emprego do pai, mas disse para eu lhe dar as despedidas.
– Não sabe qual para qual país ela foi?
– Não. Pelo jeito ela era muito nova para se preocupar com tais detalhes.
– Entendo... Então é realmente uma pena. Eu gostaria de vê-la novamente.
– Somos dois. Gostaria de agradecê-la por me lembrar do que realmente é importante.
– Se algum dia nossos destinos se cruzarem novamente, eu o farei em seu lugar.
– Conto com você então.
A conversa dos dois foi interrompida pelo som de passos apressados vindo do corredor. Rob Winter parou na entrada da sala com os olhos arregalados olhando atentamente para a direção de Cherry. Ela rapidamente se levantou e tomou a mesma expressão de Rob. Os dois se encararam por alguns segundos como se não acreditassem no que estava acontecendo e depois correram um em direção ao outro. Eles se abraçaram com força e começaram a chorar. Sarah apareceu depois e sorriu ao ver a cena. Ela se aproximou em silêncio de Paul e encostou sua cabeça no ombro do mesmo.
– Coitados. Deve ter sido difícil ficar tanto tempo separados.
– Pois é. Deveríamos agradecer o Rob também. Já que além de ter auxiliado os Fallen Ones diretamente com suas pesquisas, foi ele quem tirou a Cherry daquele lugar medíocre e nos deu a chance de conhecê-la.
Os dois nem se atreveram a interromper o momento de reencontro que estava acontecendo e apenas ficaram observando felizes. Aquilo durou cerca de 5 minutos, quando um homem entrou na sala parecendo estar um pouco perdido:
– É aqui que a senhorita Cherry Winter se encontra?
Cherry rapidamente se recompôs e voltou-se para o homem depois de enxugar suas lágrimas.
– Sou eu aqui.
– Oh... Desculpe-me se interrompi algo.
– Não se preocupe. Só estávamos matando um pouco da saudade. Teremos muito tempo para fazê-lo depois. Pessoal, apresento-lhes minha arma secreta: John Clarence, um dos principais representantes da UDH nos países subdesenvolvidos.
Todos os presentes se entreolharam e puderam perceber parte do segredo por trás da “operação paz temporária”. Cherry agora sorria como se acabasse de obter uma grande vitória.
– Aliás, vocês deveriam conhecê-lo ao menos de vista, pois ele foi o responsável pelo fechamento da instalação na Red Moon Forest.
– Pois é. Eu e a senhorita Cherry mantemos contato há cerca de três anos e eu estou totalmente por dentro da situação.
– Antes que possa continuar, vamos verificar se o Drake já conseguiu aprontar tudo.
Todos seguiram entraram em um dos corredores da sala e caminharam até seu final. Lá encontraram uma grande sala cheia de equipamentos eletrônicos em um lado e câmeras e um fundo branco no outro. Drake estava mexendo em um computador enquanto dois outros membros ajustavam as câmeras. Ao avistá-los, ele se levantou e foi em sua direção batendo suas mãos uma contra a outra como se estivesse tentando tirar alguma sujeira delas.
– Está tudo pronto, madame.
– Perfeito!
– Oh! Clarence!
– Olá Drake. Como vai a família?
– Vai bem. Então você é o nosso convidado especial?
– Tudo indica que sim.
– Heh, eu já deveria ter imaginado.
– Esperem um pouco. – interrompeu Paul. — De onde vocês se conhecem?
– Nos conhecemos desde aquele lance da Red Moon. Ele veio até mim porque eu tinha enviado todos os arquivos.
– Heh. Esse garoto sempre levou jeito com computação.
– E depois que essa guerra começou me certifiquei de ficar melhor ainda para poder representar os Fallen Ones com dignidade.
– Então... Posicionamo-nos naquele fundo branco? – perguntou Cherry.
– Sim. Só precisam ficar parados e me dizer a hora de começar a gravar.
– Espere aí! – disse Sarah. – Você vai falar Cherry?
– Claro! Depois de passar quatro anos da minha vida trabalhando nisso eu não poderia deixar mais ninguém fazer isso.
– Heeee... E pensar que quando te conheci você gaguejava sempre que ia falar com alguém desconhecido e era super tímida.
– As coisas mudam... Se eu não tivesse matado essa timidez eu quem estaria morta agora.
Cherry e John se posicionaram e deram um sinal para que Drake começasse a transmitir. Depois de alguns segundos de silêncio e um grande suspiro, Cherry sorriu e começou a falar:
– Boa tarde pessoas de todo o mundo! Alguns de vocês, principalmente os habitantes da parte subdesenvolvida do mundo, podem me conhecer. Meu nome é Cherry Winter e eu sou procurada por traição em Harvyre e devo estar como desaparecida em Cherland. Estou aqui hoje para passar uma mensagem muito importante aos governantes de ambos os países! E para isso, conto com um convidado muito especial: o senhor John Clarence!
– Boa tarde, como ela disse sou John Clarence e faço parte da liderança das filiais da UDH nos países subdesenvolvidos. Não é uma novidade para o mundo o fato de que Harvyre e Cherland estão em guerra e nem que está havendo uma guerra civil no primeiro. Porém, até cerca de três anos atrás, não era de nosso conhecimento o fato de que ambos os países viviam em total desequilíbrio econômico. Harvyre sofria com uma intensa ditadura militar e Cherland sofria nas mãos de políticos corruptos ambas recorrendo à violência sempre que possível e utilizando a guerra entre os países como justificativa para seus atos desumanos. Nós só ficamos sabendo de tais atrocidades por meio dessa garota que todos podem ver: Cherry. E queria dizer que todos os países vizinhos a esses dois citados estão com as fronteiras barradas e com tropas esperando o meu sinal para invadirem e colocarem as coisas nos eixos. E, aliás, o sinal é esse vídeo.
– Agora todos devem estar perguntando o motivo desse vídeo. Invadir em silêncio seria a coisa mais prudente a se fazer, mas esse caso é uma rara exceção pelo simples fato de que não há escapatória para vocês. Estive juntando provas contra os governantes de ambos os países nos últimos quatro anos e contei com a ajuda de muitos para conseguir realizar tal feito. Ou seja, mesmo que por algum milagre os culpados fujam de seus países, terão que viver escondidos da UDH para o resto de suas vidas. O que nos leva ao motivo do vídeo: eu quero espalhar o desespero e o caos entre esses filhos da puta que vêm fazendo o que bem entendem com a população há anos. Gostaria de saber quantos vão ser encontrados vivos. Com isso eu me despeço e declaro aqui o fim da guerra e da opressão dando boas vindas à liberdade e à paz. Tenham um bom dia.
Cherry fez um sinal para que Drake parasse a transmissão e esse obedeceu. Todos ficaram espantados com o discurso, mas logo começaram a gritar de alegria. Clarence retirou-se para que pudesse continuar com seu trabalho enquanto os membros comemoravam. Na verdade podia-se ouvir uma comemoração vindo de toda a cidade e que deveria estar ocorrendo na maior parte dos dois países. Todos os Fallen Ones saíram às ruas para festejar deixando apenas Cherry, Paul, Sarah e Rob sozinhos na base. Todos pareciam felizes e, principalmente, aliviados com o término de toda aquela situação.
– Finalmente acabou... – disse Sarah.
– Pois é... – confirmou Cherry. – Não temos mais que nos preocupar com essas coisas.
– Cherry por que o seu plano se chamava “paz temporária”? – perguntou Paul.
– Simples. Porque nada dura para sempre, principalmente a paz. Tenho certeza de que teremos alguns anos de sossego, mas algum dia aparecerão novos conflitos. É meio que normal.
– Entendo... Acha que ainda estaremos vivos quando isso acontecer?
– Eu não tenho ideia. Meu lance é o passado, e não o futuro.
– Verdade.
– Porém, acho que é assim que deve ser. A vida não teria graça se você soubesse o que está para acontecer. São essas pequenas surpresas do dia-a-dia que fazem a vida valer a pena.
– Você está absolutamente certa...
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