Paz Temporária - Sombras do Passado
24 Traidores
A viagem durou cerca de cinco horas e, como estava cansada pelo ritmo frenético de nossa gloriosa fuga, dormi todo o trajeto. Jack me acordou sacudindo de leve meu pequeno corpo quando chegamos à estação de Versilstate, a capital de Cherland e o lar do maior forte militar do país. Saímos do trem um pouco desorientado, mas logo avistamos homens do exército que provavelmente estavam à nossa espera. O coronel decidiu falar com eles primeiro e eu aproveitei esse tempo para admirar aquela grande cidade. Como passei toda a minha vida, pelo menos a parte da qual e me lembro dela, em Olgden Ville fora esses dois últimos anos no forte não estava acostumada a ver uma cidade grande como essa. Havia enormes edifícios em praticamente todas as direções em que eu olhasse e diversos carros circulando pelas ruas com as calçadas lotadas de pedestres aparentemente apressados. Tudo aquilo me fazia sentir menor ainda. Eu devia estar em uma espécie de transe, porque não ouvi Strider me chamando. Este teve que vir até mim e me puxar para o mundo real encostando o braço no meu ombro:
– Vamos, eles estão nos esperando.
– Oh... Desculpe-me. Estava viajando aqui.
– O que olhava com tanto fascínio?
– É que nunca estive em uma cidade tão desenvolvida antes. Eu sei que vai soar engraçado vindo de uma pessoa tão “alta” como eu, mas eu me sinto muito pequena diante dessas enormes construções.
– Cuidado, se ficar menor vai acabar sendo difícil de te encontrar.
– Muito engraçado... Babaca...
– Hehehe. Agora que já voltou a si, os homens estão nos esperando.
– Oh... É verdade. Vamos logo então.
Acompanhamos os dois homens até um carro que estava estacionado em frente à estação ferroviária. Sem dizer nenhuma palavra sequer, eles nos mandaram entrar dirigiram até a base militar da cidade. Apesar de a cidade ser enorme, o forte parecia ser menor do que aquele em que fiquei presa por dois malditos anos. Parece que o que Cherland investe na economia, Harvyre investe no exército. Não é à toa que eles estão tão desesperados para conseguir informações secretas e, com isso, alguma vantagem na disputa armada. O carro parou e um dos homens abriu a nossa porta para que saíssemos, novamente sem dizer nada. Cheguei a me perguntar se eles eram mudos ou apenas sérios. Quando notei que alguns soldados nos esperavam junto a um oficial me lembrei do meu primeiro dia naquela maldita base perto de uma floresta que me manteve em cativeiro até pouco tempo atrás. Um silêncio constrangedor se instaurou no ambiente. Aproveitei para checar de relance o passado do pessoal, focando principalmente no oficial que deveria ser um general pelo uniforme. Ao perceber que não falaríamos nada, ele decidiu se pronunciar. Tossiu algumas vezes e começou a andar em nossa direção:
– Olá meus caros hóspedes especiais. Espero que desfrutem o máximo do conforto que nosso humilde forte possa proporcionar enquanto tratamos de negócios.
– Não precisa ser tão formal. Eu e o Jack aqui não somos mais oficiais. Agora não passamos de traidores prestes a ferrar com nosso antigo país.
Ele deu um sorriso sádico e seus olhos brilharam. Não o culpo, aquela era uma chance única e ele não podia estraga-la.
– Tudo bem então. O cabo Nolak os levará até seus aposentos. Podem arrumar suas coisas e talvez tomar um banho ou fazer qualquer outra coisa de sua preferência. A viajem foi longa e vocês devem estar cansados. Conversaremos amanhã de manhã.
– Por mim está ótimo! Não estou tão cansada porque dormi a viajem inteira, mas com certeza apreciaria um bom banho.
– Digo o mesmo.
– Então está combinado. Sou o General Andersen Charles e estarei à sua disposição caso precisem de algo. Vocês ficarão no prédio dos oficiais por conhecerem informações de extrema importância para nós.
– Fique tranquilo. Como eu disse anteriormente, somos apenas dois traidores. Não precisa de tanta formalidade.
– Desculpe-me, mas eu faço questão de agir assim.
– Você é quem sabe...
Eu estava certa quanto aos investimentos de Cherland. Aquelas instalações não se comparavam nem um pouco com as do forte de Cherland. O quarto de oficiais parecia apenas um quarto comum de hotel. Nada como aquele espaço com sala, cozinha, banheiro e suíte. Parece que a situação por lá era mais complicada ainda do que em Harvyre, pois até os militares estavam na merda. Mas para uma garota que “cresceu” num orfanato da parte pobre de uma cidade pequena, aquela suíte humilde era mais do que o suficiente para tomar um banho e repor as energias gastas com a viajem. Pensei em ir até o quarto do Jack para conversarmos sobre a situação, mas acabei decidindo deixa-lo a sós com sua privacidade e fazer o mesmo com a minha. Depois de um bom banho quente, me atirei sobre a cama e fiquei encarando o teto, como de costume. Fiquei apenas ali olhando para aquele teto branco desbotado com algumas pequenas rachaduras na pintura sem pensar em absolutamente nada até pegar no sono. Só acordei no outro dia com o “despertador” do forte. Ah, mas como eu odiava aquele jeito desnecessariamente escandaloso de se acordar as pessoas utilizado pelo exército. Cumpri com todas minhas necessidades matinais e fui ao encontro com o general Charles. Lembrei-me de que ele não havia marcado o local de encontro, então resolvi passar no quarto do Jack e tentar descobrir com ele. Afinal, não tenho boas lembranças de caminhadas solitárias em um forte desconhecido. Tivemos que perguntar para várias pessoas sobre o paradeiro do general até descobrir que ele estava nos esperando em sua sala. Fomos até lá e, ao chegarmos, o encontramos andando de um lado para o outro muito inquieto. Quando notou que havíamos chegado, ficou sem jeito e sentou-se rapidamente à sua grande mesa. Ele pediu para que nos sentássemos e tossiu algumas vezes:
– Bem... Como foi a noite de vocês? Dormiram bem?
– Sim.
– Muito. Na verdade é a primeira vez que durmo uma noite inteira em anos! Não tinha ideia de que estava tão cansada.
– Fico feliz em saber disso. Agora... Aos negócios. Sabemos que não vão nos dar as informações que queremos de graça e estamos dispostos a negociar. Temos até uma oferta inicial.
– Que seria?
– Nós lhes garantiríamos abrigo, segurança e empregos em qualquer cidade de Cherland à sua escolha para o resto de suas vidas.
– Tentador... Mas eu tenho uma ideia melhor.
– Heh... Engraçado. Eu pensei que seria ele quem negociaria.
– Não a subestime por causa de seu tamanho ou sua idade. Essa garota sabe o que faz.
– Voltando ao que eu ia dizer, acho que tenho uma proposta que vai agradar a todos.
– E qual seria essa proposta?
– O Jack está no exército há anos, então experiência é o que não falta nele e digamos que eu tenho um “talento natural” para interrogar as pessoas. Por que não nos emprega no exército? Já que vamos ajuda-los nessa guerra, qual seria a melhor maneira de fazê-lo sem ser atuando diretamente?
O general me encarou por alguns segundos e depois coçou a cabeça. Ele provavelmente queria que algo do tipo ocorresse, mas não devia esperar que a iniciativa viesse de nós. Ele sorriu e tossiu algumas vezes:
– Ótimo! Tenho que admitir que a ideia inicial era fazer com que trabalhassem conosco, mas como essas informações são muito valiosas não poderíamos arriscar com uma propostas dessas.
– Então você aceita?
– Aceito vocês no exército, mas preciso fazer algumas modificações na proposta quanto aos cargos.
– Como assim? – perguntou Jack.
– Como ela mesma disse, gostaríamos que vocês participassem ativamente de nossas futuras vitórias, mas não há como encaixarmos seus antigos postos nisso.
– Então... Onde nos encaixariam?
– Como vocês sabem de informações sobre a localização de bases inimigas secretas, não há lugar melhor para coloca-los do que no comando de nossas forças especiais que invadirão essas bases.
– Então está nos promovendo a comandantes das forças especiais?
– Exatamente. Quanto à patente, voltarão a ser coronéis.
Naquela hora eu tentava me controlar o máximo para não rir. Aqueles idiotas estavam tão desesperados para obter alguma vantagem na guerra que nem pensaram na possibilidade de serem traídos por nós e ainda nos colocaram em cargos que lidam diretamente com informações secretas. Não havia como recusar essa maravilhosa proposta:
– Forças especiais... Interessante... Nós aceitamos.
– Muito obrigado.
– Quanto às informações, apenas nos leve até o quartel general desse pessoal e nos dê um mapa.
– Vejo que está ansiosa para começar.
– É claro. Quando se trata de guerra, cada segundo é precioso e pode fazer a diferença.
– É verdade... Levarei vocês até lá amanhã bem cedo. Não pode ser hoje, pois há uma parte burocrática chata para resolver antes da transferência.
– Tudo bem. Nós esperaremos.
Eu tinha tudo em minhas mãos. Agora era só fazer o mesmo que antes: ganhar a confiança deles e, enquanto isso, buscar todo e qualquer tipo de segredo sujo que eles possam esconder. É claro que como estaremos realizando esse processo diretamente o cuidado deve ser dobrado, mas pode se dizer que eu acabei pegando o jeito desse tipo de coisa. O segundo ato da operação “Paz temporária” estava prestes a começar.
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