Fiquei mais alguns minutos conversando com Jack enquanto me acalmava. Depois de estar mais tranquila me levantei e ia me despedir, mas ele me impediu:

– Onde você pensa que vai?

– Eu... Pretendia ir até meu quarto...

– Nem pensar.

Comecei a me questionar sobre a índole dele. É claro que pelo que sabia, ele não era má pessoa, mas a preocupação brotou em minha mente.

– Er... Por quê?

– Mas não é óbvio? Um dos três filhos da puta correu. Vai saber onde ele está. Eu tenho que avisar o general sobre o ocorrido. Espere-me aqui.

– Oh... Tudo bem... Obrigada...

E parece que minha preocupação, ainda bem, fora desnecessária. Não se deve confiar em todos, mas talvez eu tenha exagerado na desconfiança. Afinal, acho que seria impossível sair daquele maldito forte sozinha. Esperei por quase uma hora. Nesse meio tempo deitei no sofá e fiquei encarando o teto enquanto tentava colocar meus pensamentos no lugar. Tanta merda estava acontecendo comigo nos últimos dias que essa boa ação por parte do coronel me deixou mais aliviada. Tenho que admitir que estava quase pegando no sono quando ele voltou. Levei um susto e me sentei rapidamente. Ele notou, pois estava aparentemente prestes a rir enquanto tentava falar:

– Bem... Está tudo resolvido. O covarde que saiu correndo se entregou e os outros dois ainda estavam caídos lá, então foi fácil.

– Sério? Obrigada. O que vai acontecer com eles?

– Eles agrediram uma oficial e tentaram fazer o mesmo comigo. O fato de você não ser apenas uma interrogadora comum intensifica a gravidade dos crimes.

– Isso significa que...

– Eles terão muita sorte se pegarem perpétua.

– Oh...

– Mas isso já não é mais assunto nosso. Ninguém os obrigou a fazer isso. Apenas esqueça.

– Tudo bem... Acho que já está na hora de voltar para meu quarto.

– Tente dormir um pouco.

Eu estava quase na porta quando me lembrei de que ainda vestia o paletó dele. Ele pareceu me entender e se adiantou:

– Ah. Pode ficar. Outro dia você me devolve. Eu tenho vários desses.

– Oh... Obrigada...

– Nossa! Quase que me esqueço. Se tiver alguma ideia para podermos nos vingar desse governo medíocre me avise. Farei o mesmo se pensar em algo.

– Tudo bem.

Saí do quarto dele e caminhei em direção ao meu. Andava distraída enquanto tentava pensar em algo. Depois de descer um lance de escadas acabei trombando com alguém. Rapidamente fui me desculpar e percebi que conhecia a pessoa:

– Me desculpe...

– Tudo bem pequenina. – disse o general. – Heh. Desde quando você é coronel?

Olhei para o paletó e deu um sorriso sem graça. Por algum motivo aquela piada parecia ter graça na cabeça dele. Stevenson então sorriu e continuou:

– Fiquei sabendo do que houve com você e posso assegurar que aqueles homens terão a devida punição. Devo lhe avisar que há mais pessoas com raiva de você graças ao incidente da instalação. Tome mais cuidado quando andar por aí.

Eu não tinha certeza se ele queria me tranquilizar ou apenas me deixar mais aflita. O importante era que nenhum dos objetivos funcionaria comigo naquele momento, pois já estava com a cabeça no lugar e procurava nele algo que ainda não havia conseguido: memórias. Eu tinha que me concentrar, mas não podia levantar suspeitas. Então resolvi iniciar um assunto:

– Foi tudo graças ao coronel. Não tenho ideia do que teria acontecido comigo se não fosse por ele...

– Pois é... Esse povo exagerou. Eu sei que a raiva às vezes fala muito alto, mas machucar você logo no segundo dia de trabalho é ridículo. Depois de todo o trabalho que tivemos para te trazer para cá seria um imenso desperdício.

– Mas... Eu sou tão útil assim?

– Claro! Estávamos com um problema sério por causa de espiões. Chegamos a perder uma base graças a um único infeliz.

– Que droga hein.

– É... Os desgraçados até desenvolveram técnicas para burlar nossos detectores de mentira. Mas agora já não há escapatória para esses traidores imundos. Não há como fugir do passado e você consegue vasculha-lo por inteiro.

– Não sabia que a situação era tão crítica... Darei o meu melhor!

– É assim que se fala.

– Ah! Não pude deixar de notar a diferença entre os aposentos do coronel e os meus.

– Oh! Isso é porque ele já está aqui há bastante tempo. Continue fazendo um bom trabalho e as portas se abrirão para você.

– Tudo bem! Er... Acho melhor eu ir... Tenho que trocar essa roupa.

– Não se preocupe. Adeus, pequenina.

– Tchau, senhor general.

Fui diretamente ao meu quarto e fechei a porta. Tive que me esforçar muito para me conter enquanto andava pelos corredores, pois estava com uma puta vontade de rir. Era tão engraçado como pensaram que eu trabalharia para eles só por estar presa em um forte. A conversa foi relativamente curta, mas os resultados foram grandiosos. Aquele sujeito que se pagava de bonzinho era, na verdade, um soldado corrupto que abusava de seu poder sempre que podia e vivia no luxo enquanto se divertia com a situação miserável de boa parte da população. Infelizmente não consegui extrair todo seu passado, mas com o tempo eu conseguiria fazer isso. O que me restava era descobrir o que fazer com toda essa informação. Mesmo assim minha animação era espantosa. Encostei minhas costas na porta com as mãos na boca e escorreguei lentamente até me sentar. Eu devia estar esboçando um largo e psicótico sorriso enquanto tentava conter minha gargalhada. Eu nem me lembro para onde estava olhando, só sei que não prestava atenção em nada que estava na minha frente e acabei me assustando com um barulho vindo de dentro do meu quarto. Voltei ao mundo real e olhei em direção à origem do som. Havia um Garoto de uns 19 ou 20 anos deitado na minha cama trajando uma roupa de oficial. Ele tinha cabelos curtos, espetados e negros como seus olhos. Ao perceber que havia sido notado, ele rapidamente sentou-se e me encarou com um sorriso no rosto. Seus olhos eram vazios e quase sem brilho algum. Ficamos nos encarando por alguns segundos até que ele coçou a cabeça de forma desajeitada e decidiu começar uma conversa:

– Heh. Perdoe-me. Você deve estar se perguntando quem sou eu e o que estou fazendo aqui. Fique tranquila, pois logo irei lhe explicar.

Eu fiquei pasma. Sua voz era a mesma que havia ouvido quando interrogava o coronel. A voz que me aconselhou a mentir e acobertá-lo. A voz que me salvou. Ou seria apenas coisa da minha cabeça? De qualquer jeito, era estranho ter um garoto não identificado no meu quarto. Eu tinha vacilado demais desde que cheguei ao forte, então rapidamente pus meus pensamentos em ordem e comecei a investigar seu passado.

– Tenha paciência. Existem outros meios de conhecer as pessoas além de seus olhos.

E lá vou eu ficando pasma novamente. Teria ele previsto o que eu estava tentando fazer? Talvez sim... Talvez não... Mas o que realmente me assustou foi o fato de que... Eu não conseguia ver seu passado. Era a primeira vez que isso acontecia. Esfreguei meus olhos e tentei novamente. Nada. Concentrei-me o máximo possível e, mesmo assim, falhei. Enquanto quebrava minha cabeça tentando descobrir o que havia de errado, o garoto riu e me olhou com uma expressão amigável:

– Fique tranquila. Não há problema nenhum com seus olhos ou seu “dom”.

– Mas... Mas... Quem... O que...

– Calma. Por hora, digamos apenas que eu sou um amigo especial. Pode me chamar de Gabriel.

– O que...

– O que estou fazendo no seu quarto? Percebi que você e seu mais novo amigo estavam com uns probleminhas de falta de criatividade e resolvi dar uma mãozinha.

– O que quer dizer com isso?

– Cherry, Cherry... Você tem uma habilidade tão versátil e mesmo assim está com problemas.

– Como assim?

– Pense comigo. Você pode descobrir todos os segredos mais obscuros por trás de qualquer ser humano que encare por alguns minutos. Existe habilidade mais útil que essa para desestruturar um governo? Duvido muito.

– O único problema é que eu não tenho provas materiais...

– É aí que você se engana.

– O quê?

– Como eu disse você pode descobrir todos os segredos mais obscuros das pessoas. E nesse caso em particular, quando se há segredos, há evidências. Todo ato realizado por pessoas que se acham intocáveis deixa rastros e ninguém melhor que você para encontra-los. Vasculhe as lembranças dos chefões corruptos e ache essas suas “provas materiais”.

Bang! Bem no meio da minha cara. Eu tinha tudo em minhas mãos e estava cega esse tempo todo. Ele não poderia estar mais certo sobre... Sobre tudo! Uma animação ainda maior cresceu dentro de meu pequeno e frágil corpo. Olhei para o Gabriel que, por algum motivo, parecia compartilhar daquela animação comigo:

– Está tudo claro agora?

– Se ficar mais claro eu perco a visão. Quer dizer... Só tenho mais algumas perguntas... Por que está nos ajudando?

– Bem, digamos que um governo baseado na violência que negligencia seu povo não me agrada nem um pouco.

– Oh... Só mais uma coisa... O que é você?

– Hehehe... A resposta para essa pergunta fica para uma próxima ocasião. Por hora, devo me retirar. Até a próxima, Cherry.

– Oh... Até...

Ele se levantou e veio em minha direção. Demorei um pouco para lembrar que estava na frente da porta e saí do caminho. Abri a porta, Gabriel sorriu e se retirou do meu quarto fechando a porta logo em seguida. Percebi que havia me esquecido de perguntar como entrar em contato com ele e sai do quarto. Mas tudo o que encontrei foi um corredor vazio. Ok, admito que aquilo foi estranho pra caralho, mas pelo menos ajudou muito. Eu já sabia o que fazer, como fazer e não poderia estar mais ansiosa para começar.

Notas finais
Ok ok... Eu sei que disse que tentaria agilizar a produção da história e talz... mas acontece que eu empaquei legal nesse capítulo ;-; Peço desculpas pelo atraso colossal e agradeço a quem leu até aqui. Vou tentar fazer o próximo capítulo o mais rápido possível! Até =D