Paz Temporária - Sombras do Passado
3 Prazer, meu nome é Sociedade
Uma semana depois de começar a viver com Sr. Winter, Cherry começou a frequentar a Knowledge Nest. Olgden Ville contava apenas com duas escolas, a Knowledge Nest e a Golden Speech. A primeira era frequentada por moradores de classe média a classe média alta e a segunda era frequentada apenas por filhos de cientistas ou de soldados. Por mas que pudesse matricular Cherry na Golden Speech, Sr. Winter achou melhor escolher a outra escola. Afinal, somente riquinhos mimados estudavam na Golden Speech, e ele nunca gostou desse tipo de gente.
Cherry caminha até a escola, eram apenas alguns quarteirões de sua casa. Não estava animada para seu primeiro dia de aula, estava apenas nervosa. Não sabia bem o que esperar, nunca havia ido a uma escola antes. Só conseguia pensar que seria como no orfanato, onde passava seus dias sozinha em um canto qualquer.
Ao chegar ao portão da Knowledge Nest, Cherry se espanta com a quantidade imensa de jovens circulando. Não conseguia se concentrar em nenhuma pessoa, o que deixava sua visão confusa. Decidiu apenas seguir em frente e procurar sua classe. Ao entrar, vê várias crianças conversando em grupos separados. Cherry entra devagar e se senta em uma cadeira ao fundo da classe e apenas espera a chegada da professora. A sala estava muito barulhenta, mas o barulho acabou quase que imediatamente quando a professora entrou em sala.
– Silêncio! Temos uma aluna nova hoje. Vejamos... Cherry, venha até a frente.
Cherry olha assustada e depois de hesitar um pouco acaba indo até a professora.
– Se apresente mocinha.
– M-me apresentar?
– Sim, ninguém aqui te conhece então você tem que se apresentar para a sala.
– T-tudo bem... M-meu nome é Cherry, tenho 14 anos...
– Ótimo, pode se sentar.
A aula passa e Cherry apenas observa os alunos um por um e analisa suas vidas. Alguns percebem Cherry os encarando e ficam um tanto quanto assustados. Na hora do intervalo, Cherry já tinha conseguido ver o passado de todos de sua classe e já não tinha muito o que fazer. Passou o intervalo comendo sozinha embaixo de uma árvore no pátio. O resto da aula foi totalmente entediante para a garota. Depois da aula, apenas voltou a pé para casa. Não chegou nem a fazer contato com outros alunos, a maioria deles a olhava com estranheza, pena, desprezo.
Caminhou sozinha de volta para casa. O Sr. Winter ainda não tinha voltado do trabalho e Cherry ficou sozinha deitada no sofá olhando para o teto sem fazer nada. Ficou assim por alguns minutos e decidiu dar uma volta pelo bairro. Anda não tivera a oportunidade de conhecer seu novo bairro. Era uma parte nobre da cidade, ou seja, era muito diferente de onde esteve vivendo. Depois de andar alguns quarteirões acabou se sentando em um banco de uma praça. A praça era muito bonita, tinha plantações de margaridas e até algumas rosas. As árvores eram podadas simetricamente e a fonte tinha águas cristalinas.
Ficou sentada por alguns minutos apenas observando o movimento, sem nem ao menos se focar em ninguém. De repente, uma garota de uns 6 ou 7 anos é empurrada por um garoto de uns 17 anos. A garota usava roupas surradas, provavelmente morava em uma área pobre da cidade. Já o garoto usava roupas de marca, cabelos penteados, e óculos escuros. Cherry os observou por algum tempo, não chegou a cinco minutos, mas foi o suficiente para que ela decidisse intervir no que estava para acontecer.
– Então, hora de pagar pelo que seus pais devem sua porca imunda.
– Por favor, não me machuque. Eu não sei do que você está falando.
– Mas é claro que sabe! Passe logo o dinheiro ou vai ter que pagar de outro jeito.
O garoto parecia se divertir com a situação. A garota, por outro lado, não parava de chorar.
– Hey, não cansa de perturbar garotinhas, Jeff?
– Anh? Quem é você? E quem disse que isso é assunto seu?
– Não importa quem eu sou. Você não liga pra isso não é? Apenas gosta de importunar meninas, ainda mais se forem pobres.
– Cala a boca! Não interfira em negócios, meu pai é um cara poderoso e pode muito bem mandar acabar com você!
– Seu pai? Ele é apenas um pedreiro, sua mãe é quem trabalha de verdade e duvido que ela ficaria a seu favor em um assunto desses.
– Como... Sua vadia! Como ousa falar assim comigo, se você continuar eu vou...
– Vai o quê? Você só tem coragem de ser durão com que é menor e mais fraco que você. É apenas um babaca que tem vergonha de ter um pai cujo trabalho não é reconhecido na sociedade e desconta sua frustração em garotinhas indefesas.
– Sua...
– Eu realmente não sei como um inútil como você ainda consegue se olhar no espelho de manhã e não vomitar. Ah é, você quase faz isso. Nem mesmo você se aguenta. Acho que lixos como você deveriam apenas morrer e deixar esse mundo um pouco mais agradável para o resto da população.
– Sua... quem... O que é você?!
O garoto já estava quase chorando. Ele com certeza não esperava um tapa da realidade enquanto tentava aumentar o que restava de sua autoestima.
– Vá, fuja. Corra para os braços da mamãe. Conta pra ela e pro seu pai que uma garota baixinha te impediu de fazer sabe-se lá o que com uma criança de 6 anos. Isso com certeza vai fazer com que eles fiquem mais orgulhosos ainda do graaaaande filho que têm.
– Pare! Chega! Por favor!
– Ah... agora é você quem está pedindo por favor? Muito engraçado isso, Sr. machão.
– Pare... por favor...eu nunca mais vou mexer com garotinhas, eu juro!
– Hm. nesse caso...tudo bem, eu paro. Mas se eu te pegar fazendo algo desse tipo de novo, talvez seus pais descubram algo sobre seu filho exemplar que não lhes agradaria muito.
– Tudo bem! Eu juro! Não conte nada pra eles!
– Tá, tá. Apenas suma daqui.
O garoto limpa o rosto molhado por algumas lágrimas que tinha escapado e depois sai do local.
– Tsc, tsc. Não consigo mesmo entender esse povo que paga de diamante e tem resistência de papel.
Cherry se aproxima da garota, que agora estava tranquila. Ela tinha até soltado algumas risadas enquanto Cherry surrava psicologicamente o garoto.
– Está tudo bem agora, ele não vai mais te incomodar.
– Obrigada! Eu nem sei como agradecer...
– Nah, não precisa. Só volte para casa, seus pais devem estar preocupados.
– Ah, verdade. Obrigada de novo!
– Ah, eu te aconselharia a não andar muito por esses lados. Tem muito babaquinha que nem ele por aqui.
– Tudo bem. Eu só queria saber como era essa praça, sempre ouvi os outros falando sobre ela.
– Não tem problema, só tome cuidado... Acho melhor eu te acompanhar até sua casa.
– Não precisa. Você já ajudou bastante.
– Tudo bem, eu não tenho nenhum compromisso mesmo. Vamos andando.
As duas saem andando até a casa da pequena menina. Boa parte do caminho, a menina apenas encarava Cherry. Isso começou a incomodar, mas antes que perguntasse o Cherry perguntasse o motivo, a menina se antecipou:
– Moça, como você fez aquilo? Já conhecia aquele malvado?
– Não, e me chame de Cherry. Eu posso ver o passado das pessoas se encará-las por um tempo.
– Sério? Que legal! Você usa esse poder pra sair por aí defendendo pessoas indefesas de malvados como ele?
– Hahaha, não. Isso não funcionaria com todo mundo. Só funcionou com porque na verdade ele era apenas um babaca triste e sem nenhuma autoestima que descontava suas frustrações nos outros.
– Ah... entendi... moça... não... Cherry posso te chamar de irmã?
– I-i-irmã? M-mas não somos nem parentes...
– Não quer né... tudo bem... é que eu sempre quis ter uma irmã mais velha pra me defender, já que eu sou fraca...
– N-não é que eu não queira... e-eu só acho que... não sei, é meio estranho.
A menina fica cabisbaixa com uma expressão triste. Cherry acaba cedendo, mesmo que esse tipo de intimidade seja algo estranho para ela.
– Tudo bem, não fique triste. Pode me chamar de irmã ou o que quiser.
O rosto da menina se encheu de alegria e ela abriu um sorriso que cativaria qualquer um.
– Sério? Que legal!
A menina abraça Cherry com força, e esta fica sem reação. Depois disso, as duas vão até a casa da menina. Era uma casa pequena na área pobre da cidade. Elas se despedem e Cherry volta para casa pensando se algum dia as duas voltariam a se ver. Ao chegar em casa, se depara com seu pai prestes a sair.
– Cherry! Onde você estava?
– Er... Você não estava quando eu cheguei então decidi dar uma volta pelo parque.
– Nossa... Eu levei um puta susto quando cheguei e não a vi. Quando fizer algo assim de novo, deixe um bilhete tá?
– Me desculpe... eu vou lembrar-me disso.
– Não precisa se desculpar. Vamos, entre. Vou preparar algo para comermos.
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