Paz Temporária - Sombras do Passado
19 De heroína a algoz
Deixe-me voltar àquela terrível e inesquecível noite a quase cinco anos atrás. Aquela noite que mudou nossas vidas e nos mostrou o quão frio e cruel o mundo pode ser. Depois de ser levada da minha própria casa para evitar que meu pai e meus melhores amigos não fossem mortos por algo de minha iniciativa, fui colocada no porta-malas de um carro preto parado na esquina e segui viajem por horas que mais pareceram uma eternidade. Chorei durante todo o percurso e não tenho vergonha de admitir. Inúmeros pensamentos corriam por minha mente, mas estava desesperada demais para conseguir me concentrar. Quando me dei conta, o carro havia parado e o porta-malas foi aberto. Um dos homens de preto me tirou de lá e quase me arremessou contra o chão. Tive sorte de conseguir colocar as mãos na frente e evitei bater meu rosto. Levantei lentamente e olhei em volta. Estava em uma espécie de forte militar cercada por grandes muros. À minha frente estava um homem que aparentava estar por volta dos 40 anos trajando um uniforme utilizado apenas por altas patentes do exército. Eu não entendo muita coisa sobre hierarquia militar, mas pelo número de medalhas penduradas em seu peito deveria ser alguém importante. Em uma situação comum, seria ridiculamente fácil descobrir quem era a figura que me encarava com curiosidade graças à minha pequena maldição, mas para isso eu precisaria me concentrar... O que era impossível, devido ao estado em que me encontrava. Ficamos em silêncio por alguns minutos, então ele se aproximou de mim e perguntou em um tom amigável:
– Você é a... Cherry, certo?
Tentei responder, mas as palavras não saíam e algumas lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Ele colocou a mão direita em seu bolso e tirou um lenço de pano. Depois se agachou perto de mim e limpou meu rosto.
– Acalme-se. Você passou por uma experiência muito chocante não é?
Eu concordei com a cabeça involuntariamente.
– Você e seus amigos fizeram algo muito grave. Mas fique tranquila, terá a vida toda para pagar por isso.
Eu sei que ele falava de um jeito amigável e simpático para tentar amenizar a situação, mas isso só piorou tudo. Sua naturalidade me fez ficar ainda mais desesperada.
– Nossa! Mas como sou mal educado! Ainda não me apresentei certo? Sou o General Stevenson e sou responsável por toda essa instalação em que nos encontramos. Ou seja, sou seu chefe. O Cabo Winkston vai te acompanhar até seus aposentos. Dar-lhe-emos um dia de descanso e, depois, você começará seu trabalho como interrogadora. Não nos decepcione.
O Sr. Winkston era o maldito que me arremessou para fora do carro. Como não tinha escolha, o acompanhei pela instalação. Ele me mostrou todo o lugar antes de me levar ao meu destino. Um ótimo jeito para começar a me acostumar com minha prisão. Meu quarto, ou melhor, minha cela ficava no dormitório dos oficiais, mas não tinha nenhum luxo. Nela havia apenas um armário, uma pequena cômoda e uma cama de solteiro com um uniforme militar extremamente bem dobrado em cima do travesseiro. Ele saiu e eu rapidamente fechei a porta. Ao me aproximar da cama, percebi uma porta aberta ao lado do armário que dava para um banheiro.
– Heh... Pelo jeito peguei a cela “presidencial”...
Voltei meu olhar para o uniforme e, depois de encará-lo por alguns segundos, soltei um grande suspiro. Já não estava mais chorando, na verdade parei logo após minha conversa com o general. Abri o armário e encontrei outros uniformes idênticos ao que estava em cima da cama. Verifiquei as gavetas e tive um alívio, havia pelo menos um pijama. Usar aquela merda para dormir estava fora de cogitação. Tirei o infeliz que estava sobre meu travesseiro, o coloquei sobre a cômoda e me joguei na cama. Fiquei parada de bruços por alguns segundos, depois me virei e fiquei encarando o teto. Era muita coisa para absorver.
Mal dormi aquela noite. Não tenho ideia de quando caí no sono porque não tinha nenhum relógio por perto, mas só sei que foi bem tarde porque mais pareceu que fechei os olhos por alguns minutos e os abri novamente ao ouvir o “despertador”. Era uma maldita música instrumental alta pra cacete, o que era normal em locais desse tipo. Fui até a cafeteria para ver se conseguia comer algo. Quando passei pela porta senti como se todos estivessem me observando. Mas isso já era de se esperar, afinal eu era uma garota baixinha de 14 anos no meio de um mar de adultos. Eu não era a única presença feminina no local. Havia algumas mulheres trajando uniformes em algumas mesas um pouco distantes do resto do batalhão, mas mesmo assim deveriam representar, chutando alto, 10% do total de pessoas presentes no forte. Pensei em me sentar com elas, mas acabei desistindo e sentei em uma mesa vazia o mais longe possível de todos. Minha timidez ainda continuava me acompanhando fielmente. Depois do café da manhã, resolvi andar pelo local para ver se conseguia encontrar um meio de fugir dali. Infelizmente isso era impossível. Como havia dito antes, aquela bosta era totalmente cercada por muros muito altos com torres de vigia e apenas uma saída, mas usá-la estava completamente fora de cogitação. Voltei para meu quarto e me joguei novamente na cama. A essa altura do campeonato eu já estava mais calma e tentei pensar no que faria dali pra frente. Passei o resto do dia tentando bolar um plano, mas foi tudo em vão. Pelo menos eu consegui dormir naquela noite. Mas tive que acordar cedo, graças ao maldito e exagerado despertador. Lembrei-me de que teria que começar a trabalhar naquele dia, então vesti meu uniforme com um imenso desgosto e sai do meu quarto. Quando me virei para ir até a cafeteria me deparei com o cabo Winkston me encarando com uma expressão nada amigável. Ele me olhou de cima a baixo e virou o rosto como se tivesse visto algo nojento. Verifiquei rapidamente se havia algo errado com minhas roupas, mas não encontrei nenhum defeito aparente. Ele então ficou de costas para mim e começou a andar:
– Venha, tenho que lhe explicar como será seu trabalho aqui.
Eu o segui em silêncio. Aproveitei que estava mais calma e comecei a vasculhar seu passado em busca de alguma informação útil. Logo vi o motivo de sua repulsa: seu irmão trabalhava naquela maldita instalação dentro da Red Moon e foi preso graças aos esforços do meu precioso trio. Ter como guia um sujeito que me odeia era com certeza algo para ficar preocupada. Fora isso, não consegui tirar mais nada de útil da vida comum desse homem de 27 anos que entrou para o exército aos 15. Entramos no prédio onde ficavam os escritórios dos oficiais e fomos até o porão. Era um grande corredor com várias portas. Ele me levou até a última e disse para eu entrar. Obedeci sem dizer nada e adentrei a sala. Era apenas um quarto branco com uma pequena mesa de madeira e duas cadeiras. O cabo me apontou uma delas e eu me sentei nela. Fiquei esperando por alguns minutos sem fazer nada. Aquela deveria ser a sala de interrogatório e provavelmente a porta do lado levaria a uma sala onde estariam me vigiando. Suspirei e fiquei apenas esperando que algo acontecesse. Cerca de dez minutos depois, o general Stevenson entrou e sentou-se na outra cadeira.
– Desculpe pelo atraso mocinha, mas tive que resolver alguns contratempos.
Aposto que ele só dormiu demais. Afinal, oficiais tinham algumas regalias.
– O seu trabalho por aqui vai ser muito simples: todo dia você virá para cá de manhã e só sairá ao pôr-do-sol. Não se preocupe quanto à sua alimentação, pois alguém trará uma marmita na hora do almoço.
Ficar o dia inteiro dentro de um quarto no subsolo parecia algo totalmente agradável, não? Ainda bem que eu não tenho claustrofobia.
– Você não precisará sair da sala, pois os interrogados serão trazidos por homens como o cabo Winkston. Você está encarregada dos suspeitos de espionagem, mas é capaz de aparecer alguém com outro tipo de suspeita de vez em quando. Seu dever será usar sua habilidade especial para descobrir se as acusações são realmente verdadeiras.
Toda aquela confiança parecia estranha, certo? Eu já estava pensando em como ferraria eles deixando espiões soltos por aí quando ele voltou a falar:
– Estamos confiando em você, por isso não nos decepcione. Caso você inocente alguém e, mais tarde, for revelado que ele era realmente culpado... Ele, você e seus amigos vão sofrer as consequências.
Eu devo ter arregalado os olhos ao ver meus planos recém-formados serem totalmente destruídos. Eu não já não ligava muito para o que aconteceria comigo, mas arriscar a vida de outras pessoas inclusive aquelas que tentei salvar vindo até aqui era algo que eu deveria evitar. Isso significava que eu não poderia inocentar qualquer um, pois ele poderia ser pego logo em seguida e ferrar com tudo. Resumindo, eu acabaria tendo que ferrar alguém de um jeito ou de outro.
– Parece que já entendeu a situação. Podem trazer.
Olhei para a porta e um homem entrou. Ele estava aparentemente nervoso e suava bastante. O general se levantou e foi em direção à porta.
– Ele é todo seu.
O Sr. Stevenson saiu e nos deixou a sós. Ficamos nos encarando por um tempo. Eu sabia o que tinha que fazer, mas estava muito nervosa. Comecei a pensar em meus amigos e meu pai. Soltei um suspiro profundo e me concentrei.
– Sente-se.
Ele me obedeceu e começou a suar ainda mais. Rapidamente iniciei minha análise e percebi que seu nervosismo era justificável. Ele estava recolhendo informações sobre o arsenal do exército para vender a Cherland. Fiquei apenas vasculhando seu passado enquanto ele ficava cada vez mais inquieto. Ele não tinha nenhum motivo em especial para estar fazendo aquilo. Era apenas mais um caso de ganância. Ele estava esperando um interrogatório cheio de perguntas como “onde você esteve na noite X no horário Y”, mas como eu continuava em silêncio ele acabou decidindo tomar a iniciativa:
– O que você está esperando? Isso não era pra ser um interrogatório? Eu sou inocente e posso provar!
A essa altura eu já sabia tudo o que se poderia saber sobre o indivíduo e não sabia mais o que fazer por ali. Olhei para os lados tentando achar algum tipo de câmera, mas não encontrei nada. Cocei a cabeça e decidi sair atrás do general. Ele se esqueceu de em contar o que fazer depois de analisar os suspeitos. Quando me viu indo em direção à porta, o homem perdeu a paciência:
– Mas que porra é essa? Vamos! Eu estou pronto para seus joguinhos!
Eu ia falar algo, mas fui interrompida pelo barulho da porta se abrindo. O Sr. Stevenson voltou para dentro e o sujeito logo se calou.
– Já acabou, Cherry?
Eu hesitei por alguns segundos, mas logo respondi:
– S... Sim...
– Mas o quê? Ela não me perguntou nada! Isso é algum tipo de brincadeira?
– Aquiete seu cu. Com quem pensa que está falando? Esqueceu-se da hierarquia, cabo?
– Mas... Desculpe-me, senhor...
– Ela é nossa nova interrogadora chefe por ter uma habilidade especial: ela vê o passado das pessoas. Então Cherry... Qual o veredito?
Minha garganta secou e meu nervosismo foi às alturas. Estava prestes a decidir o destino de uma pessoa. Dependendo do que eu dissesse, aquele homem poderia ser morto ou continuar vivo. Ele não era um sujeito ruim, só um pouco ganancioso. Mas também não parecia ser alguém confiável. Ele provavelmente seria desmascarado mesmo sem minha ajuda. Soltei um profundo suspiro e dei minha palavra final:
– Culpado... Ele está reunindo informações sobre nossos arsenais para vender para Cherland.
– Tsc, tsc. Que coisa mais feia.
– O quê? Vai acreditar nela fácil assim?
– Claro. Ela nem te conhece. Por que iria querer te prejudicar? Bem, traição é um crime muito grave. Venha comigo.
O homem entrou em desespero e começou a chorar. Dois soldados entraram e o levaram do quarto. Aquela cena foi muito chocante para mim. Afinal, não é todo dia que você tem a oportunidade de ver a reação de alguém que acabou de entrar para o corredor da morte. O general deu dois tapas nas minhas costas enquanto sorria:
– Ótimo trabalho. Continue assim. Próximo!
Passei o resto do dia mandando gente para a morte e livrando alguns inocentes. O pôr-do-sol parecia nunca chegar. Quando eu finalmente sai daquele lugar fui direto para meu quarto. Estava enojada com toda aquela situação e me sentia uma pilha de lixo. Tomei um longo banho, mas mesmo assim não me sentia limpa. Joguei-me novamente na cama e fiquei olhando o teto pelo resto da noite. Consegui pegar no sono, mas as cenas de desespero dos acusados sendo levados do meu “escritório” me assombraram durante os sonhos. Foi um dos dias mais longos e desgastantes de minha vida.
Fale com o autor