Paws - Um Amor de Cão
10 ... ou, pelo Menos, era para ser uma reconciliação
Notas iniciais
– Hermione? Hermione?
Pisquei, atordoada.
Aos poucos, comecei a recobrar os sentidos.
Sacudi a cabeça, gemendo, enquanto o rosto vincado de Stuart entrou em meu campo de visão.
Atônita, percebi que ainda estava no chão do restaurante, com várias pessoas me encarando preocupadas, e com Stuart apoiando meu corpo. Os ganidos angustiados de Teddy eram o único som ao redor.
– O que... aconteceu? – murmurei, ainda tonta, olhando um garçom terminando de limpar a taça de vinho que se quebrara.
– Eu não sei – o rosto de Stuart relaxou subitamente – você desmaiou.
Ele fez um meneio irritado para Teddy, que recomeçara á latir atrás de nós.
Stuart me ajudou á levantar, sentando-me de volta da cadeira.
Teddy ladeou-me, erguendo-se nas patinhas traseiras e me encarando com preocupação nos olhinhos miúdos.
– Estou bem, rapaz – afaguei sua cabecinha, olhando aborrecida para os clientes que ainda nos observavam. Acuadas, as pessoas voltaram á se virar para suas mesas.
– Quer que eu chame uma ambulância, senhorita? – disse o garçom, tenso.
– Não, obrigada – dispensei, mordendo o lábio. Tirando a leve tontura, eu estava razoavelmente bem.
– Tem certeza, Hermione? – Stuart mordeu o lábio.
– Sim. Tudo bem.
O garçom assentiu, colocando uma nova taça em nossa mesa e deixando o local, com os cacos da taça embalados numa sacola.
Teddy se acocorou em minha perna, ganindo.
Senti um carinho indisfarçável por aquela bola de pelos. Ele parecia sinceramente aflito por minha inesperada síncope, e aquela preocupação toda era mais do que eu podia esperar daquele cachorrinho tão encantador.
Resfoleguei, tentando disfarçar meu próprio aturdimento com meu ligeiro desmaio.
A carne que havíamos pedido chegou alguns segundos depois, servia numa terrina.
– Está mesmo se sentindo bem, Hermione? – ouvi Stuart indagar.
– Vou ficar – sacudi a cabeça, ainda levemente tremula.
Stuart assistiu-me comer em silêncio, parecendo pensativo.
O movimento foi tão rápido que mal pude processar.
Num átimo, Teddy se ergueu, correu para baixo da mesa e desapareceu.
Pulei, assustada, quando Stuart gritou de dor, se erguendo da cadeira e apertando a mão direita.
– Me joguei de joelhos, agarrando o cão que estava por baixo da toalha, ainda rosnando.
– Teddy! – arfei.
Aflita, minha única e desesperada reação foi encolher ainda mais a guia de sua coleira, afastando-o de Stuart. Em seguida. com os olhos saltados, me aproximei do rapaz, que ainda praguejava.
– Meu Deus, Stu... desculpa. Eu não sei o que deu nele – olhei desgostosa para as pessoas que haviam voltado a nos espionar, enquanto segurava a mão dele – deixe-me ver.
Stuart negou com a cabeça, vincando a testa.
– Não importa... esquece – ele bufou, apanhando alguns guardanapos da mesa e enrolando-os na mão ferida, voltando a sentar-se – vejo isso depois. Pode terminar de comer.
Olhei para Teddy, indignada. O que havia dado nele?
No entanto, percebi que Teddy sequer parecia acuado com minha expressão reprovadora. Na verdade, ainda se mantinha alerta, o corpo enrijecido e tenso, me olhando fixamente.
Eu não entendia o que estava havendo com aquele cachorro. Era impossível que ele tivesse algo contra Stuart, sendo que havia acabado de conhecê-lo.
Arrisquei voltar a encher a nova taça com o vinho, tentando distrair a mim e Stuart daqueles dois acontecimentos bizarros.
Aspirei o odor adocicado da bebida, ainda espantada com o como era atrativo. Tinha uma fragrância estranhamente familiar, mas eu não sabia qual era.
Lembrava algo rural... campestre. E um odor mais ocre também, amadeirado.
Porém, quando senti o terceiro toque inusitado em meu olfato, finalmente percebi o porquê era familiar.
Hortelã.
Tudo finalmente se encaixou.
Tudo mesmo.
Ergui-me de um salto, desamarrando Teddy da mesa e olhando furiosamente para Stuart.
Como... e por quê? Como?
Stuart parecia aturdido.
– O que houve, Hermione?
Levantei a taça de vinho em sua direção, ensandecida.
– Deu tudo errado, não foi, Stuart?
Joguei a taça na mesa, empapando-a de vermelho, e puxei Teddy pela coleira, nos retirando do restaurante.
Stuart veio correndo atrás de nós, com a expressão incrédula. De supetão, pôs-se diante de mim, segurando meu pulso.
– Aonde pensa que vai, Hermione?
Desvencilhei meu braço dele, irritada.
– Poção do amor, Temple?? Isso foi sério mesmo??
Teddy voltara a rosnar com vontade para Stuart, já não se importante em impulsionar a guia para tentar dilacerar o joelho dele.
A testa de Stuart se contraiu, mas agora sabia que não era de indignação.
– E como...?
– Eu quero saber é por que, seu infeliz – sorri sarcasticamente – parece que seu irmão esqueceu-se de lhe contar um detalhezinho besta sobre poções do amor... – senti minhas mãos se fecharem em punho – elas não funcionam em pessoas que já estão apaixonadas de verdade por alguém, seu idiota manipulador.
Stuart recuou, me olhando de modo petulante. Ainda segurava a mão que Teddy havia mordido.
– Como se eu fosse adivinhar que você estava gostando de um zé-ninguém qualquer.
Bem, foi nessa hora que decidi fazer algo que devia ter feito oito anos antes.
Impulsionei minha perna, chutando com vontade entre as pernas de Stuart. Ele gritou, caindo de joelhos na calçada.
– Esse zé-ninguém é dez vezes mais homem do que você, seu desgraçado. E nunca pensaria em enfeitiçar uma pessoa só para humilha-la e torna-la seu brinquedinho... ou fosse lá qual fosse seu plano. Ele é superior á vermes como você.
Ele se contorceu no concreto, me fitando furioso, ainda atordoado.
– Sua... sua...
–Ah, é... – chutei o braço que me impedia de continuar andando — e se chegar perto de Isabella outra vez, seu patife, você vai estar morto.
Afastei-me com Teddy, deixando Stuart agonizando no chão.
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Ainda estava abalada com que havia acontecido, tremendo de fúria e alarmada com minha própria burrice, mas, naturalmente, não disse nada do que havia acontecido para meus pais.
Porém, a história foi outra quando voltei para fora, para falar com Julia e Isabella.
Elas simplesmente não esconderam o horror quando lhes contei por que Stuart fizera tanta questão de fazer com que nos encontrássemos.
O difícil foi tentar segurar o ódio por Stuart Temple, quando Isabella desabou em meu ombro, se acabando de chorar.
– Ah, amiga... – afaguei a cabeça dela, condoída – se eu tivesse alguma ideia...
– Não... – Isabella soluçou – até foi bom... saber quem era ele de verdade. Eu podia... podia ter sido eu... não é?
Julia se empertigou, zangada.
– Se eu ver aquele serzinho do pântano aqui outra vez, vou arrancar as coisinhas dele e enfia-las na bunda daquele infeliz, que nem recheio de peru de Natal.
Foi o suficiente para tirar Isabella de seu torpor angustiado e faze-la rir, soluçante.
Balancei a cabeça, gargalhando.
– Só você mesmo pra fazer nós duas rirmos num momento desses, Julia...
– Que nojo, Julia! – Isabella guinchou, ainda rindo.
Sorrindo, afaguei o pelo macio de Teddy, que estava no colo de Julia.
– Então, quer dizer que nosso meninão aqui percebeu o que Stuart estava fazendo?
– Acho que sim – meneei a cabeça, perplexa – só não sei como... mas ele percebeu. Posso jurar que ele tentou me avisar.
Teddy deitou a cabecinha em minha palma, botando a linguinha para fora como uma cobrinha canina e me fazendo rir.
– Desculpa, garoto – beijei seu focinho – eu devia ter confiado em você...
Por algum motivo, ao encarar os olhinhos de Teddy, percebi que minhas desculpas não eram necessárias. E, por mais estranho que fosse, a compreensão que vi ali aliviou minha consciência.
E ali estava a prova de que homens sem caráter jamais poderiam ser chamados de cachorros. Afinal, Teddy era um, e tinha mais caráter que muita gente naquele mundo.
Na verdade, qualquer comparação de Stuart com um animal seria injusta e maldosa. Nenhum animal merecia ser comparado á aquilo.
– Obrigada, Hermione.
Ergui a sobrancelha, surpresa.
– Por que, Isabella?
Isabella sorriu.
– Por ter me tirado dessa provável enrascada.
Julia me devolveu Teddy, rindo.
– Pois é. Homens não prestam – ela vacilou diante de meu olhar inquisitório – bem, tirando os ruivos namorados de nossas amigas. E os gays. Prestam, mas jogam no outro time, fazer o que.
– Menina, realiza. Tira o olho gordo do namorado dela! – Isabella gargalhou.
– Ele tem irmãos, Hermione? Diz que sim, vai...
– Tchau, suas doidas. Boa noite – bati no ombro de Julia, sorrindo, e me despedi delas.
Teddy ladrou, erguendo a cabecinha para olha-las, até que a porta se fechou.
Abracei meu cachorrinho, sentindo, maravilhada, pela primeira vez, o palpitar veloz de seu pequeno coraçãozinho contra meu peito. Era a sensação mais gostosa do mundo.
– Você não existe mesmo, Teddy.
Teddy me lambeu, fazendo-me rir.
– Muito bem, mocinho. Hora de ir para a cama... que amanhã é outro dia.
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