Patronwood - Entre luz e trevas
4 Capítulo IV - Em brasa
Notas iniciais
Sentada do lado de fora da sala de Laurier, em um banco de madeira alto e polido, eu balançava minhas pernas incessantemente, era a resposta do meu corpo demonstrando o quanto eu estava ansiosa. Já fazia um hora que meus tios haviam entrado por aquela porta, tentei ouvir algo, mas era impossível.
Toquei meu nariz com cuidado lembrando do reflexo no espelho quando me olhei esta manhã, era inacreditável, ele não estava ruim. Apenas uma pequena sombra roxa aparecia no canto de uma narina e no alto da minha bochecha, não era nada que rendesse mais olhares curiosos, pelo menos era no que eu cria. O machucado do meu braço não passava de um arranhão indefeso e eu tinha um pressentimento de que Zara tinha muito a ver com isso, mas obviamente ela não iria me contar. Bufei. Afastei esse pensamento de minha cabeça, o que importava era que eu havia saído incólume do ataque de Philip, se pudesse, esfregaria na cara dele. Ou talvez não. Lembrar de sua feição irada ainda me assustava, mas eu nunca iria admitir isso.
Um barulho no fim do corredor fez-me enrijecer sobre o banco, ouvi passos apressados e rapidamente uma figura conhecida estava no corredor, usando o mesmo casaco preto de ontem, em todo o seu porte e olhos verdes, Derek. Soltei a respiração com alívio, não era Philip.
Notei que a expressão de Derek foi tomada por surpresa, mas isso não passou de uma mudança rápida. Cheguei a me perguntar eu havia imaginado. Ele diminuiu os passos se aproximando.
– Então ainda está viva. — havia descontentamento em sua voz. Ele me olhava, furtivo.
– Para a tristeza de alguns, sim. — respondi secamente.
Ele franziu a testa e ergueu a mão tocando minha bochecha suavemente com a ponta do indicador, senti um formigamento no local e uma pausa em sua respiração acusou-lhe de sentir o mesmo. Como eu conseguia perceber esse pequenos detalhes no rapaz? Eu não sei, mas percebia. Afastei-me rapidamente.
– Está melhor do que eu imaginava… — disse Derek recolhendo a mão, uma epifania transcorreu seu rosto. — Ah, claro. — ele riu amargamente.
– Você é muito estranho, garoto. — arrastei-me no banco para longe dele e cruzei os braços.
– Eu sou o estranho? — ele balançou a cabeça como se se desfizesse de alguma linha de pensamento irrelevante — Porque veio para cá? — colocou as mãos nos bolsos do casaco, eu sentia o peso de seu olhar sobre mim.
– Não é da sua conta. — fingi procurar algo em minha mochila.
– Sua vida aqui não será fácil Violet, devia buscar gente para ficar ao seu favor e não se comportar como um criança mimada a quem não foi dado o que queria. — seu tom transbordava ironia, o que me deixou mais irritada.
Quando percebi, já estava de pé na frente dele, apontando-lhe o dedo.
– Você. Não. Sabe. Nada. Sobre. Mim! — encarei aqueles olhos que pareciam queimar sob a minha raiva.
Por um longo tempo ele não disse nada, então segurou meu braço e o puxou em volta de minha própria cintura, fazendo-me virar de costas e encostar em seu tronco. O formigamento agora estava em quase todos os lugares do meu corpo. Eu não paralisei como quando os outros me tocavam, aquilo era diferente, mas de qualquer maneira, fiquei imóvel.
– Eu lhe dei uma dica, não devia desperdiçá-la assim. — Derek sussurrou em meu ouvido. Seu perfume amadeirado exalava, era embriagante.
– Ah é? Deixa eu adivinhar, você é uma dessas pessoas que vai cuidar para que minha vida seja infernizada. — afirmei com escárnio tentando me soltar.
– Talvez. — seu sussurro agora estava mais próximo de minha bochecha, prendi a respiração.
– Largue-me! Agora! — quase gritei. Ele me soltou.
Derek passou a mão pelos cabelos ondulados e bagunçados.
– Bastante esotérica. — ele disse por fim e a passos apressados seguiu por onde havia chegado.
Esfreguei a testa com os dedos, tentando me recompor. O que foi aquilo? Senti como se eu fosse uma pedra atraída e repelida ao meso tempo.
– Concentre-se Violet, concentre-se. Todos aqui são esquisitos, não faça parte deste time. Não faça parte do time dele. — disse a mim mesma, aliás, constantemente eu falava comigo mesma.
– Querida, você está bem? — a voz de Zara quase me assustou.
– Hmmm… Claro… Claro, era só que... — Aaron também saiu da sala com Laurier. — Vocês estavam demorando. Fiquei um pouco preocupada.
– Está tudo bem. — ela se colocou ao meu lado e pôs as mãos sobre meus ombros. Eu ainda não estava acostumada a ser tocada, mas no caso de Zara já era meio caminho andado e Derek foi… Bem, eu queria esquecer Derek.
– Qualquer coisa que aconteça Violet, deve vir falar com Laurier e sob hipótese alguma cometa a inconsequencia de sair do Liceu sozinha como fez ontem. Fui claro? — meu tio alertou, sempre severo.
– Perfeitamente. — respondi firme. Ele me olhou taciturno.
– Então estamos conversados, mais tarde Peterson virá buscá-la. — disse ele formalmente.
Assenti um pouco nervosa.
– Não se preocupe. Hoje será diferente. Você vai gostar daqui. Também estudei neste lugar e quer saber? Eu adorava. — Zara me confidenciou em voz baixa e sorriu, não pude deixar de sorri de volta. — Até mais tarde, querida. — Ela beijou minha testa e passou o braço pelo do meu tio, juntos, saíram.
Fiquei olhando para eles, nunca os havia visto juntinhos assim, formavam um casal bonito. Personalidades contrastantes, mas que pareciam se equilibrar perfeitamente. Acho que tia Zara era a leveza de que tio Aaron precisava e ele a tempestuosidade que não havia dentro dela.
– Violet? — pela primeira vez, Laurier falou, virei-me para ouvi-la. — Não saia do Liceu, pode ser perigoso. Siga as orientações. Não damos colher de chá aos alunos e com você não será diferente. É proibido sair no horário de aulas, mas desta vez vou deixar passar porque você ainda não havia recebido os avisos sobre regras e condutas. Da próxima, não terá a mesma sorte. — sua voz era firme, carregada de advertência.
– Sim, Senhora Laurier. — respondi com respeito, afinal, ela era a maior autoridade ali, ademais, não adiantaria em nada eu expor minhas razões.
A diretora voltou até sua sala e depois saiu de lá com algumas folhas. Uma se tratava de um mapa grande, envelhecido e dobrado do Liceu para que eu não me perdesse em seus inúmeros corredores, explicou-me ela, e as outras continham meus horários de aulas bem explicados, contendo o nome dos professores e indicações das salas. Agradeci e segui em direção aos olhares fuzilantes que eu sabia que iria receber.
Ao chegar na sala, aconteceu o que eu esperava, e ainda mais, o perfeito silêncio deu lugar a cochichos, conversas e risadas. Concentrei-me nas palavras de Zara: Não se importe.
Respirei fundo e procurei por um lugar vazio no fundo da sala e para o meu alívio lá estavam três carteiras livres, direcionei-me para a mais distante delas, ao lado da janela grande de vidro e madeira escura. Enquanto passava por aqueles jovens estranhos sentia o peso de seus olhares em minhas costas. Fechei os olhos e balancei a cabeça tentando não ficar nervosa, porém as palmas das minhas mãos já estavam úmidas.
Baixei a cabeça para evitar qualquer afronta enquanto lia o meu horário. Aquela aula seria dada pelo Professor Rhuberman, Cognição Histórica. Nunca havia visto esse tipo de matéria. Felizmente, logo o professor entrou na sala e notei que os alunos viraram-se para ele. Rhuberman devia ter uns sessenta anos, mas era alto e esbelto, tinha cabelos grisalhos, pele parda e seus olhos castanhos estavam em mim, para variar.
– Bom dia turma. Ora, ora, ora. Vejo que temos uma aluna nova… Quer se apresentar? — ele sorriu mostrando um canino de ouro.
Fiquei em silêncio sem saber ao certo onde estava minha voz.
– Como se ninguém soubesse quem ela é. — falou uma garota sentada na fila ao lado da que eu estava. Sua voz era desdenhosa.
– Gardien. Sou Violet Gardien. — eu disse por fim.
– Muito prazer, Violet. Fico feliz em saber que possui o dom da fala. — disse o homem de forma irônica e começou a tirar livros grossos de sua maleta — E Senhorita Styler, fale quando for requisitada. — completou ele.
A garota bufou e olhou para mim com a testa franzida, mas fingi que estava muito concentrada na caligrafia elegante que o professor começava a traçar no quadro negro.
Para minha surpresa as primeiras três aulas daquela manhã foram super normais, eram sobre acontecimentos da história que eu já havia estudado na escola da Colônia. Como as aulas foram seguidas, confesso que eu estava cansada daquele assunto, porém notei que o Professor Rhuberman usava um tom de crítica, como se ele só estivesse contando aquilo porque era obrigado e houvesse outras coisas mais que precisavam ser esclarecidas para os alunos, contudo algo o impedia. Suas expressões e palavras podiam ser bastante reveladoras.
Sai da sala de aula quando a maioria dos jovens já tinha ido e procurei no mapa onde era o refeitório. Eu estava com bastante fome. Finalmente entendi onde ficava o corredor que eu deveria cruzar e então no caminho senti um braço passar por meus ombros e a pele morna tocar em minha nuca, esquivei-me num rompante. Olhei para o intruso.
– Opa, não fique tão na defensiva, marretinha. — era Theo.
– Você é muito folgado, sabia? — disse um pouco irritada e continuei andando. Ele se apressou e ficou ao meu lado.
– Desculpe. Pensei que fôssemos amigos. — seu tom era divertido.
– Eu não sou amiga de pessoas que conheci no dia anterior. — digo, sarcástica.
– Hmmm entendi agora. — ele sorriu pra mim.
– Entendeu o que? — olhei-o diretamente pela primeira vez. Seu sorriso combinava com o rosto jovial e bem delineado.
– Que você é uma garota difícil. E quer saber? — ele se colocou em minha frente, parei de andar. — Eu gosto disso. — Theo piscou e recomeçou a caminhar. — Venha!
Tentei assimilar aquilo, mas desisti, passei a mão no rosto desejando que não estivesse enrubescido e o segui. Vi uma claridade maior no fim do corredor e só então entendi o porque dela quando o caminho desemborcou em um pátio enorme com paredes de vidro e teto abobadado. Lá estavam dispostas em fileiras perfeitas, mesas grandes e retangulares. Os alunos andavam com bandejas nas mãos, em direção a grupos particulares, como pude notar. Alguns riam, outros comiam quietos, outros pareciam envolvidos em um assunto super interessante. Tudo estava normal, até passarmos pelas fileiras e as pessoas começarem a encarar a mim e Theo. Engoli a seco e fingi que não percebi, de agora em diante essa seria minha tática.
Quando Theo se sentou em uma das mesas da fileira do meio quase não acreditei, Derek também estava sentado lá.
– Seu mascote? — ele perguntou com desdém.
– Não haja como idiota. Ela vai se sentar aqui com a gente. — rosnou Theo.
Derek apenas revirou os olhos.
Vi um movimento ao lado da mesa e quando me virei, uma menina de cabelos na altura dos ombros, ruivos e ondulados deixou sua bandeja cair no chão, ela me olhava, pasma.
– Gardien! — ela quase gritou numa voz meio infantil.
Afastei-me.
– Calma. — disse Theo, tocando meu braço, o puxei no mesmo instante. — Esta é Millie, minha irmã gêmea. — sua voz era paciente. — E Millie, deixe de ser escandalosa! — agora seu tom era mais severo.
– Des… Desculpe, mas é que.. que — a menina gaguejou. — Uma lenda está na nossa mesa! Ela é real mesmo? — Millie se aproximou e eu me retraí mais ainda. Do que ela estaria falando?
Olhei de esguelha e Derek parecia se divertir com a cena. Palerma.
– Oi. — resolvi conversar — Sou Violet. E bem, pelo menos até agora pouco eu era de verdade sim.
Ela riu e veio ficar ao meu lado.
– Você já os conhecia? — apontou para os meninos.
– Os conheci ontem. — tentei achar semelhança em algum traço de Millie e Theo. Estava claro que os dois eram bivitelinos.
– Então os boatos são verdadeiros? Foram vocês dois quem bateram no Philip?! Porque não me contou, Theo? — ela fez uma carranca para o irmão.
– Justamente por esse estardalhaço que eu sabia que iria fazer. — ele bufou impaciente. — Não dê nenhum palavra com nossos pais. — ordenou à irmã.
– Tudo bem, você sabe que eu não falo nada, deixe de ser ridículo. — Millie fez um bico que pareceu ser muito conhecido por Theo.
– Chega disso! Vamos pegar o nosso almoço. — vociferou Derek que até agora estava apenas observando a pequena discussão entre os irmãos.
Ele então se levantou e seguiu para os fundos do refeitório onde havia estufas com diversas travesas fumegantes. Todos nós seguimos com ele. Os olhares e comentários das pessoas se arrastavam pelo caminho, era muito desconfortável.
Estavámos pegando nossas bandejas quando uma garota alta cheia de curvas, cabelo preto e comprido se aproximou e colocou o braço em volta do pescoço de Derek, ela era bonita.
– Oi gato! Não o vi ontem por aqui. — sua voz tinha um toque de sensualidade que eu só havia ouvido nos filmes em que mulheres estão tentando levar os homens para a cama.
– Estive ocupado. — ele respondeu seco, mas pegou na cintura dela e apertou de leve. A menina deu risadinhas exageradas.
Franzi a testa, por alguma razão não gostei de presenciar aquilo.
– Olá Theo. — a menina disse ao se virar e esculpiu um sorriso cheios de dentes brancos. — Oi ruiva. — cumprimentou Millie. — Olá famosinha das trevas. — seu sorriso se desfez quando ela me notou. — Sou Scarlat Murien. Não sabia que vocês agora tinha este tipo de companhia. — completou a garota apontando para mim.
Theo que até então olhava Scarlet embevecido, fechou a cara, juntamente com Millie, só assim notei semelhança entre os dois.
– O que há de errado com o fato de eu ser a companhia? — perguntei sem demonstrar irritação.
– Acho que você é o próprio erro, querida. — a garota tinha um sorriso sínico nos lábios.
– Porque as pessoas não enxergam que também existe um lado bom na chegada dela? — Millie disse, erguendo uma sobrancelha.
– Ninguém tem certeza. — Derek interveio. — Já as noites sem fim já estão cravadas em pedra.
– E logo você já vem dizer isso? Não seja hipócrita Derek! — Theo se colocou de frente para ele. Derek tirou os braço de Scarlet de seu pescoço e encarou o oponente.
– Parem! — uma voz ecoou no silêncio que agora pairava no refeitório. Assustei-me ao perceber que era minha. — De que diabos estão falando?
– O mal mora dentro de você.
Olhei em volta para saber quem tinha dito aquilo, mas não identifiquei a voz.
– Você deveria existir somente para ele.
Girei em torno de mim mesma e mais uma vez não consegui identificar o dono da voz.
– O mal mora dentro de você.
– Não resista.
– Venha comigo.
– Você deveria existir somente para ele.
– Não resista.
Mais vozes zumbiam em meu ouvido. Vozes distorcidas e medonhas. Elas começaram a repetir tudo cada vez mais rápido e em volume alto.
– O sangue vai jorrar.- Outra voz mais grave se sobrepôs.
Logo todas elas estavam gritando. Tapei os ouvidos com as mãos enquanto o cenário ao meu redor escurecia. As pessoas com quem eu estava e os outros alunos tinha uma aparência diferente. Suas peles eram pálidas como uma manhã de inverno, suas roupas estavam manchadas de vermelho. Alguns pescoços pediam de corpos eretos.
A boca de Theo sangrava, ele me olhava com cólera. O colo de Millie tinha marcas de cortes profundos, uma de suas mãos tentava me alcançar quando eu dei um passo desajeitado para trás. Scarlet tinha metade do couro cabeludo arrancado, o líquido vermelho escorria por seu rosto.
Afastei-me e me choquei contra alguém, quando virei para olhar, era Derek. O sangue escorria de seus olhos em linhas tênues, seu rosto imaculado era mais lívido do que nunca. Ele agarrou meu braço com força, suas unhas estavam grandes e pontiagudas perfurando minha pele. Eu tentava me soltar, mas suas garras rasgavam-me cada vez mais. Quando ele ergueu uma adaga de prata comprida e afiada com um brilho que ofuscou meu olhar, meu corpo enrijeceu. Derek inclinou o braço para trás e com agilidade fincou o objeto em meus estômago. Uma dor lancinante atravessou meu corpo. Gritei. Ele riu doentiamente e puxou a adaga de volta fazendo meu corpo se contrair.
– É chegada a hora. — ele disse, mas não era a voz dele, era uma voz horrenda e mortal.
Então em uma linha reta e objetiva, a adaga atravessou a carne da minha garganta.
**
Havia um prado cercado de montanhas verdes e majestosas, flores rasteiras faziam cócegas em meus pés, abaixei para tocá-las. Um doce aroma tomou minhas narinas, não pude deixar de sorrir. Não havia outro som a não ser o do vento leve que balançava meus cabelos e um vestido comprido branco que eu usava. Talvez a morte fosse assim. Você passa por um caminho doloroso para então acordar em calmaria, em beleza…
**
– Violet!
As montanhas sumiram. O prado. As flores. O perfume. Tudo sumiu.
Não se vão. Por favor…
Ouvi vozes, vozes demais. Muitas maldiziam. Algumas pediam socorro. Poucas choravam.
Ao abrir os olhos, deparei-me com correria, fúria e compaixão de dois pares de olhos negros.
– Você está bem? — perguntou Theo, colocando uma mão em minhas costas e segurando meu cotovelo com a outro, ajudando-me a levantar. Por alguma razão eu estava sentanda, encolhida num canto do refeitório. Logo dei um passo para trás, para fugir de seu toque.
Aflita olhei para meu estômago e toquei meu pescoço. Eu estava inteira. Suspirei de alívio, porém um alívio que durou pouco.
O ar estava tomado por uma névoa opaca, um cheiro pungente e desconhecido podia ser sentido. Não sei como explicar, mas na pele eu conseguia detectar uma tensão e ela era ruim. Vários alunos dirigiam-se para a saída enquanto outros estavam de olhos fechados, sussurrando algo inaudível junto com Laurier e outros professores. Visualizei Millie acompanhando as pessoas nos sussurros e Derek também. Vê-lo fez com que um arrepio percorresse meu corpo.
– Eu quero sair daqui. — disse a Theo que prontamente me guiou para uma porta aos fundos, contrária à saída por onde os jovens passavam apressados.
Havia um pequeno corredor que dava para uma escada de pedra, e depois outra. Descemos quatro lances ao todo até que uma portinha de madeira clara nos levou a um jardim.
– Ninguém parece se lembrar dessa passagem. — Theo riu e caminhou comigo sobre um pedaço pequeno de grama. Atravessou pelos galhos esparramos de um salgueiro que dava para o jardim principal. Sentamo-nos em um banco de frente ao lago onde pétalas de flores brancas e lilases boiavam. Lembrei-me do meu paraíso.
– O que você viu? — perguntou o garoto de repente.
Demorei um pouco para assimilar sua pergunta.
– Como sabe que eu vi alguma coisa? — perguntei. Aquele assunto não seria meu favorito naquele momento.
– Sua expressão ficou distante, de repente. Você ficou parada, olhando para o nada, como se fosse uma boneca. As coisas começaram ficar estranhas. O clima ficou carregado. Então você começou a dar passos. Se afastar e gritou. Uma ventania alastrou-se pelo refeitório trazendo aquela névoa desconhecida. Então tudo se transformou em balbúrdia. — ele narrou os fatos com uma incrível calma. — Parecia mesmo que você estava tendo uma visão.
Coloquei a cabeça entre os joelhos e suspirei.
– Havia vozes gritando comigo e depois eu enxerguei todos à minha volta de maneira diferente. Vocês pareciam… Pareciam… — não conseguia concluir minha fala.
– Parecíamos? — incitou Theo.
– Mortos.
Ele ficou sem fala por um momento, olhando-me, depois tocou minha mão.
– Vai ficar tudo bem. Nós estamos todos bem.
Eu tentei deixar com que ele me tocasse. Sua mão era firme e calorosa. Mas sentia como se diversos alfinetes perfurassem minha pele. Era uma dor psicológica, eu sabia disso, mas não conseguia evitar. Recolhi a mão. Theo me observou por um tempo que se estendeu, mas não disse nada.
– Liceu de Ensinamento Patronwood — a voz da diretora soou em alto falantes ao lado do chafariz, uma sineta tocou e ela continuou. — Todos os alunos, por favor, encaminhem-se para suas respectivas salas de aula. As aulas serão ministradas normalmente. Repetindo, todos os alunos. Não serão suportadas exceções. — tive a impressão de que o último aviso era direcionado a mim. — Grata.
– Então, vamos? — ele sorriu se levantando.
– Vamos.
**
Passei pelas três últimas aulas com mais dificuldade que as primeiras. Durante as explicações dos outros professores, ouvi alguns comentários como “Esquisita”, “Amaldiçoada”, “Pária” e o que mais me intrigou foi um papel jogado em minha mesa dizendo: Herdeira maldita.
Faltando poucos minutos para acabar o último tempo eu já me sentia sufocada. A professora de Botânica Transcendental explicava algo sobre a terra e as plantas, assunto o qual, não prestei atenção desde o início da aula, mas fiz anotações; não entedia o porquê de ter tal matéria.
Assim que tocou o sinal, sai rapidamente da sala e me tranquei no banheiro. Não queria ver ninguém. Não queria que ninguém me visse. Fiquei sentada na privada fechada um bom tempo, refletindo sobre o bilhete. A quem eu devia perguntar sobre aquilo? Meu tio? Fora de questão. Zara? Dificilmente. Theo? O mais provável… Ou talvez Millie. Ela me passara a impressão de ser alguém aberta a conversas e pelo que notei, estava bastante interessada em quem eu era.
Fiquei mais ou menos quarenta minutos envolvida em meus pensamentos e contando os segundos inúmeras vezes. Quando não ouvi mais nenhum barulho sai do box onde estava e me olhei no espelho, eu não havia chorando, mas o pouco rímel que passei naquela manhã estava borrado. Lavei o rosto, ajeitei a saia e as meias brancas, sai do banheiro.
Os dois lados do corredor estavam vazios.
– Menos mal. — disse para mim mesma pegando o mapa dentro da mochila com o intuito de encontrar o corredor dos armários.
Segui as indicações da folha antiga e por cada lugar que eu passava as luzes pareciam diminuir. Quando cheguei no corredor certo, estava bastante escuro, contudo, eu conseguia enxergar os números dos armários.
Caminhei apontando com o dedo para cada número até chegar ao 75. Levantei o fecho e vi o mini teclado com números de 0 a 1, coloquei a senha e o abri.
– Aaa! — gritei e me joguei abruptamente para trás, chocando-me contra a fileira oposta de armários. O que vi era cruel e assustador.
Tapei a boca e encarei o coelho que antes era branco, ensanguentado e cheio de larvas rastejantes caído no chão. Mais sangue pingava do meu armário fazendo um barulho intermitente que me deu arrepios.
Inalei o ar forte porque repentinamente eu não conseguia mais senti-lo em meus pulmões. Era como se eu estivesse me afogando. Segurei na minha garganta e fiz força para que o ar entrasse. Eu não estava conseguindo respirar, não estava.
Deixei meu corpo escorregar até o chão, apertei os olhos e me concentrei em respirar.
Ar.
Ar.
Eu precisava de ar.
Lágrimas brotaram em meus olhos enquanto eu lutava para fazer com que meus pulmões funcionassem e encarava o pobre animal caído no chão com olhos arregalados que agora combinavam com a cor manchada de seu pelo.
– Olhe para mim. Concentre-se em mim. — uma mão estava apoiada em minhas costas. Senti um formigamento distinto.
Levantei minha cabeça e me deparei com os olhos verdes de Derek.
Minha primeira reação foi me arrastar para longe dele, mas ele me segurou no lugar.
– Concentre-se em mim, Violet. — ele dizia olhando no fundo dos meus olhos — Esqueça tudo á sua volta. Inspire.
Encarei aquele verde esmeralda e deixei que o cenário sumisse. Imaginei que eu estivesse no meu paraíso, na campina. Inspirei, porém não resolveu muita coisa. Será que eu iria morrer ali?
– Expire. — ele comandou.
Expirei rapidamente.
– Devagar, devagar. — Derek franziu a testa e colocou a mão sobre meu tórax. — No mesmo tempo em que eu pressionar e soltar, estar bem?
Afirmei com a cabeça notando que estava trêmula.
– Inspire. — ele pressionou a mão devagar e eu aderi aquele ritmo. — Expire — Ele afrouxou o aperto, lentamente. Eu o segui.
Derek repetiu o movimento várias vezes, até que eu consegui que o ar entrasse e saísse sem dificuldade. No final do processo estava ofegante e grogue com o susto.
Senti seus braços ao meu redor, ele me ergueu, fiquei de olhos fechados encolhida e concentrada na minha respiração e no formigamento que seu toque me causava e que não passava despercebido.
Quando abri os olhos estávamos do lado de fora, em um jardim que eu não conhecia. Havia apenas um espaço aberto forrado por grama num to escuro de verde e cercada por roseiras. Ele se abaixou e me colou sentada no chão, sentou-se ao meu lado.
– O ar livre fará você se sentir melhor. Como está? — sua voz pela primeira vez desde que o ouvi, soou gentil.
– Melhor, obrigada. — respondi entre inspiradas fortes, era tão bom poder respirar normalmente.
– Você sofre de asma? — ele inclinou a cabeça para o lado, examinando-me com o olhar.
Balancei a cabeça negativamente.
– Nunca aconteceu nada parecido comigo.
– Então deve ter sido o susto. Aqueles idiotas. — Derek revirou os olhos.
– Que idiotas? — quis saber.
– Não sei ao certo, mas desconfio de alguns colegas de classe. — ele respondeu passando o dedo pelo queixo quadrado perfeito.
Levei um tempo para perguntar o que eu queria pois estava anestesiada pelo rosto belo de Derek. Como podia ser tão sombrio e sexy ao mesmo tempo?
Repelida e atraída. Eu.
– Porque você ajudou? — eu disse por fim — Você poderia até encabeçar a lista de quem faria uma coisa horrível dessas. — acusei.
– Eu? — ele riu amargo — Você é muito inocente, Violet. Diversas outras pessoas querem sua cabeça numa bandeja. Não é comigo que tem que se preocupar assim.
– Você é uma delas? — engoli a seco, lembrando-me da cena macabra pela qual passei e a qual apenas eu parecia ter vivenciado, poucas horas atrás, no refeitório.
Derek me encarou por um minuto inteiro que pareceu durar uma eternidade. Ele ergueu a mão, imaginei que iria tocar meu rosto, mas desistiu e abaixou a mão.
– Talvez eu devesse ser, mas não quero. — ele respondeu simplesmente, levantou-se e saiu.
**
Estou em casa, no meu quarto, tentando organizar o que anotei nas últimas aulas. Acho que eu estava funcionando no automático, mas agora, lendo com calma meus resumos, consigo entender, mais ou menos. Há notas sobre forças da natureza, placas tectônicas, biogenética e plantas medicinais. Terei que me esforçar mais.
Suspiro e rolo na cama.
Tio Aaron me deu várias broncas mais cedo por ter demorado tanto para chegar. Peterson havia me esperado por mais de uma hora. Pedi desculpas e preferi não comentar o ocorrido, eu não queria ser taxada de A Problemática do Liceu, a garota que sempre precisaria que os tios fossem resolver seus problemas.
Meus pensamentos constantemente voltavam-se a Derek. Era difícil entender seu comportamento em relação a mim. Era mais difícil ainda entender porque seu toque era diferente de todos os outros.
Uma coceira no flanco direto tirou-me de meus pensamentos, era estranha. Caminhei até o espelho e levantei a blusa do pijama para olhar se havia sido picada por algum inseto, mas o que vi foi diferente, uma linha vermelha que começava na minha cintura, subia até a metade do meu tronco e terminava na frente da costela. Tinha a forma de um L de cabeça para baixo com as bordas redondas. Franzi a testa. Parecia que uma unha havia riscado forte minha pele pálida. Eu mesma devia ter feito aquilo sem notar, pensei.
Ignorei, apaguei as luzes e fui dormir imaginando que no dia seguinte aquela marca não estaria mais ali. Ledo engano.
**
Algo como brasa queimava-me, o suor escorria pela minha testa, abracei a mim mesma tentando me proteger, mas como combater o vilão que ataca de dentro para fora?
Abri os olhos de supetão, estava em meu quarto e fazia frio, porém eu estava queimando… Não era um sonho, era real.
Coloquei a mão sobre o lado do meu corpo e apertei. Outra onda de combustão me atacou e não contive um grito agudo. Rolei na cama. Eu não estava literalmente em chamas, mas era como se estivesse e a área era restrita. A pele onde eu coçara mais cedo.
A escuridão indicava que a noite estava longe de acabar. De novo o calor inimaginável atacou-me, era cortante. Gritei mais uma vez e apertei os olhos. Como aquilo doía.
– Violet! — a voz de Zara. — O que esta havendo?
Abri os olhos e a vi junto com meu tio ao pé da cama. Suas expressões eram assutadas e preocupadas.
– Minha pele está queimando! Por favor, façam parar! — clamei contorcendo-me.
Minha tia prontamente colocou-se ao meu lado.
– Acalme-se, vai ficar tudo bem. — ela disse segurando meu braço e tirando minha mão do caminho, levantou um pouco minha blusa. Tentei ficar quieta e pude notar que sua expressão escureceu ao ver algo que eu não via.
– Está queimando! — gritei de novo com desespero.
Aaron logo colocou-se ao lado de Zara.
– Ignati vadicae. Markie reliquiae. — meu tio pronunciou de olhos fechados, com sua voz grave concentrada.
O calor começou a minguar de forma lenta, mesmo assim cada segundo que se passava era uma diminuição daquele martírio.
Meu corpo relaxou, fiquei imóvel e em silêncio. Os dois continuaram ao lado da cama, tensos e apreensivos.
Inclinei a cabeça e só então vi do que se tratava, a marca vermelha que eu vira antes de dormir agora era negra, como se alguém a tivesse feito ali com agulha e tinta.
– O que está acontecendo comigo!? — indaguei com a voz carregada de desespero.
– Você precisa descansar. — respondeu Zara.
– Eu não quero descansar! Quero respostas! — estava confusa, com nervos à flor da pele. Afinal, que dia havia sido aquele?
– Você não sabe o que é melhor para si mesma, Violet. — Aaron tocou minha testa e aquele movimento trouxe todo o cansaço que eu carregava daquele dia. Minhas pálpebras pesaram. Minha respiração se acalmou. Fechei os olhos.
Senti cobrirem-me e o som de passos alcançarem a porta.
– Eu não imaginava que isso aconteceria tão cedo. — ouvi sussurros que me eram claros.
– Que a árvore iria renascer já era esperado. Resta saber quantos serão seus galhos.
E a porta se fechou no mesmo instante em que o sono me tomou completamente.
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