Patrick John e os sanguinários
1 Quando aquela criatura devorou minha filha caçula
Notas iniciais
Faz tempo que quero contar esta história para alguém, não é baseada em fatos reais mas foi este enredo que matutou em minha cabeça por anos.
Esta é a primeira história de uma série de contos.
Não sou um Stephen King da vida para escrever terror, mas vou levando ao meu jeito.
Espero do fundo do coração que gostem :). Beijos e até o próximo capítulo!
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Abro os olhos e sinto uma pontada de desespero em meu coração. Afinal chegou a hora. Minha entrevista é daqui a pouco tempo. Depois de um longo cochilo levanto-me da cama, ainda atordoado de sono.
Me pergunto se as pessoas estão interessadas em quando vou lançar um novo trabalho ou se apenas querem fazer chacota comigo. Concluo vagamente que é a segunda opção.
Vou direto para uma bela chuveirada. Ao sair do banho, coloco minha adorável raglan de David Bowie, uma calça jeans surrada, um tênis preto e meu boné com a inicial "A". Minha esposa comprou aquele acessório em uma viagem, onde pediu a uma costureira que bordasse a primeira letra de seu nome, "Alice". Desde de seu falecimento nunca deixo de usá-lo sempre que posso.
Entro no carro e fico uns três minutos pensando, com a porta aberta. Decido finalmente partir quando Anna me tira daquele "transe" com sua vozinha de anjo.
As ruas estão praticamente vazias, com excessão de uns dez carros que avistei pelo caminho. Geralmente é assim na pacata cidade Cristal. Pacata mas extensa. Apesar de a maior concentração de indivíduos estar na região sul.
Na entrevista:
— As pessoas vivem á base do impressionismo, se é que me entende. Buscam maneiras de mostrar aquilo que lhes convém e não o que realmente é verdade — falo tentando disfarçar as mãos suadas.
— Meu caro Patrick John, nos diga então como nós podemos descartar o impressionismo?
Jackson não estava realmente a fim de saber, apenas queria uma resposta convincente para aumentar a audiência do programa. Ele estava sendo somente Jair Jackson, o entrevistador de sucesso da Tv local.
Não seria eu quem lhe daria esta magnífica resposta, afinal nem sabia o que dizer. Então digo a pior coisa, com a pior das hipóteses de dar certo:
— Não sei.
Todos riem.
— Tudo bem senhor Patrick — J. Jackson fala com um sorrisinho malicioso — Vamos para o intervalo comercial!
Devem estar se perguntando quem sou eu. Direi.
Me chamo Patrick John Galileu, tenho 47 anos. Timidamente tímido. Sempre necessito colocar, por pouco que seja, um defeito em cada pessoa que conheço. Sou autruísta e amo meus três filhos. Apesar de fazê-los ter de conviver com meu fracasso como escritor.
Ao término da entrevista, ainda tenho de permanecer sentado na arquibancada do programa para visualizar os outros quadros do mesmo.
Aguento todas as chacotas possíveis. Dei uma mínima risada quando me apelidaram como o "louco do Bowie".
Minha filha caçula, Anna, de 8 anos segura minha mão fortemente. Da casa ela é a que mais me apoia, apesar de sua idade. Não que Clarice e Jordan também não façam isso, mas é menos.
Clarice é uma garota doce, mas marrenta na maior parte do tempo. Tem 16 anos, cabelos castanho escuros, miopia igual ao papai aqui e adora Harry Potter como a maioria dos adolescentes.
Jordan tem 14 anos e é o mais reservado. Não sai de casa sem seu gorro preto e amarelo. Faça sol, faça chuva. Adora games de terror. Ás vezes me preocupo, porque ele lida com a vida como se tudo que acontecesse de estranho fosse algo sobrenatural.
Formamos a família mais perfeita na minha humilde opinião. Só faltou Alice estar aqui para ver como cuido tão bem da garotada. Ela morreu assim que Anna nasceu. Sinto que Aninha considera-se culpada por isso, mas faço de tudo para ela ficar bem.
— Pai, vamos! O programa já acabou.
— Ah, sim querida. Estava viajando em pensamentos — falo esbanjando um sorriso.
— Novidade, não é senhor Patrick?
Nós rimos.
Já eram 19:00hrs quando saímos.
Ao abrir a porta de casa, logo vejo Clarice e Jordan sentados no sofá a minha espera.
A garota corre em minha direção e abraça-me.
Já Jordan diz um "sinto muito por não ter conseguido respondê-lo pai..." e fica tudo certo.
No preparo para o jantar, os garotos me ajudam.
Anna arruma a mesa. Clarice cuida da comida junto comigo e Jordan prepara o suco.
Confesso que não sou bom cozinhando, mas dou meus pulos. Assim como dizia minha mãe.
No fim das contas, tudo ficou delicioso. Comemos macarrão com frango refogado e batata doce. O suco foi de acerola e a mesa ficou bem arrumadinha.
Já eram 23:00hrs quando resolvo levar as garotas para a cama. Anna estava com muito sono e queria que Clarice ficasse cuidando dela, já que tinha medo de dormir sozinha. Eu desta vez iria ficar com Jordan, antes de ele ir dormir também.
Sentamos no sofá para assistir um filme de terror qualquer na netflix. Uma hora se passa. O filme já está quase acabando quando percebo que Jordan dormiu. Olho para a tela da Tv e levo um susto quando a criatura mais horrenda lança um grito agudo. Desligo a Tv.
Verifico se a porta principal está trancada (sempre faço isso). Olho de um lado para outro e vejo se está tudo no lugar. Aparentemente sim. Vou até a sala e dou um cutucão no menino e ele logo vai cambaleando sonolento para seu quarto. Apago a luz da sala e deixo apenas a luz da cozinha acesa.
A rua está em silêncio, a casa está em silêncio. Absurdamente amedrontador.
Até que alguém bate na porta. Meu coração acelera. Ouço sussurros, que são incompreensíveis.
— Socorro!
Enrijeço da primeira vez.
— Socorro!
Hesito da segunda vez.
— Socorro!
Destranco e abro a porta desesperadamente.
Ninguém.
Tremendo, saio para o lado de fora e bato a porta atrás de mim (isso foi idiotice, eu sei).
— Socorro!
Escuto agora por todos os lados.
Até que para.
Silêncio novamente.
Entro de novo em casa. Tranco a porta.
Apalpo-me para averiguar se estou com febre. Penso estar louco.
Corro até o quarto de Jordan primeiro.
Nada.
Corro até o quarto onde estão as meninas.
Logo me deparo com a pior das cenas.
Uma criatura curva, magricela de pele putrificada e chifres grandes e pretos além de garras afiadas. Ela estava com minha filhinha Anna nos braços. A menina nem gritava. Estava sufocada com o próprio medo. Para piorar, fico paralisado de horror. Literalmente não consigo me mexer.
As lágrimas molham meu rosto ao ver aquela maldita monstruosidade devorando Aninha.
— Wendigo desgraçado! — consigo gritar.
A fera me olha rispidamente com seus olhos esbugalhados e vermelhos. Pula a janela e, assim como surgiu, desaparece.
Não entendo do porque ele também não me atacou.
Ouço sussurros.
— Pa-pa-pai! — Clarice grita.
Abraço-a.
Olho para trás e vejo Jordan paralisado. Aparentemente ele havia acordado com meu grito.
— Você disse Wen-wen-wendigo pai?
— Disse — falo assustado mas ao mesmo tempo encorajado a ir atrás da fera e de alguma forma matá-la, para vingar a terrível morte de minha filha.
Notas finais
O universo desta cidade Cristal foi baseada em meu intelecto. Agradeço a compreensão :).
OBSERVAÇÃO 2: Wendigo é uma criatura lendária da mitologia norte-americana. Especificamente dos índios norte-americanos.
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