Patrick
3 A Mercearia
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com o barulho de panelas caindo. Fui até a cozinha. Eram 6 horas da manhã, o que nas férias pode ser chamado de “madrugada”. Fernando estava tendo problemas sérios com o pó de café.
—O que está fazendo?-perguntei.
—A Cida teve que ir pra cidade-respondeu ele-Um parente dela está no hospital.
—Está tentando fazer o café?
—Tentando...-respondeu ele e riu.
—Posso ajudar?
Ele parou e pensou.
—Vai na mercearia.-disse ele-Compre três sacolas de pão.
Coloquei imediatamente minhas galochas e corri para a porta dos fundos que dava para um grande pátio de cimento. Havia uma casa no lado direito; tinha três portas abertas e era bem antiga. Entrei pela porta do meio e me vi em um tipo de mercadinho com estantes praticamente vazias e muito empoeiradas, como sempre foram. Peguei os pães em uma delas e os coloquei no balcão onde uma grande caixa registradora antiga ocupava boa parte do espaço. Procurei o sininho para chamar o atendente, mas não vi coisa alguma.
Havia uma porta atrás do balcão que dava para o estoque.
—Oi!-gritei, na esperança de alguém me atender.
Imediatamente ouvi um som de passos pesados batendo no chão velho de madeira e seu dono passou pela porta e se posicionou na minha frente. Era o Patrick. Estava mais alto do que eu me lembrava, é claro. Estudei com ele no sexto ano, mas depois nunca mais o vi. Ele era um pestinha e sempre que minha família visitava o barão Fernando nós logo nos aprontávamos e íamos correr juntos pelo milharal. Agora ele parecia diferente. Seus cabelos cor de palha não estavam penteados com excessivo gel como de costume, estavam desgrenhados e arrepiados e o rosto não tinha as cheias bochechas de antes. Além disso, suas mãos eram grandes, como se usasse luvas acolchoadas. Eram lindas mãos!
—O que deseja?-disse ele secamente, interrompendo meu pensamento.
Estendi os pães e sorri.
—Só os pães.
Ele fitou minhas mãos com os grandes olhos castanhos, não porque eram grandes (na verdade eram mãos comuns), mas sim para ver se eu carregava algum dinheiro.
—São para o barão?-perguntou ele com uma voz grave que me fez derreter.
—Sim-respondi.
Ele se abaixou atrás do balcão e pegou um grande caderno velho com “BARÃO” escrito na capa. Folheou diversas páginas rabiscadas com o que julguei ser contas, e escreveu em uma delas “3 pães-R$6,90” com letras e números grosseiros. Depois me fitou novamente.
—Só isso?
—Sim, obrigada-respondi com um sorriso.
Ele voltou para a porta do deposito com os mesmos passos pesados e sumiu de vista.
—Foi bom te ver também, Patrick-disse eu ao vazio e voltei para o casarão.
Fernando estava sentado na mesa com meus pais.
—Tinha pão no armário-disse ele, franzindo a testa-Desculpe.
—Sem problemas-disse-O Patrick trabalha na mercearia?
—Sim-disse o barão-Ele assumiu o lugar do pai quando ele morreu.
—O Gafira morreu?-perguntei, indignada. Gafira era o apelido do pai de Patrick, um homem divertido e brincalhão que sempre me dava balas de coco quando eu era criança.
—Sim-respondeu Fernando com tristeza.
Não querendo prolongar o assunto fúnebre, me sentei a mesa e me forcei a engolir o café amargo que Fernando havia feito.
—A Cida vai voltar logo, não se preocupem-disse ele e todos riram.
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