Patrick
1 A Fazenda
Notas iniciais
O carro seguia a uma velocidade boa considerando sua carga de suprimentos que minha mãe, Antônia, embalou com tanto afinco. Havia coisas na minha mala que eu não usava nem em casa, quanto mais na fazenda do Fernado. Meu pai, Pedro, dirigia a velha Brasília vermelha. Meus irmãos gêmeos, Caio e Gustavo, de 7 anos, se entretinham com os celulares do papai e da mamãe. Eu, por outro lado, com a cabeça para fora da janela, apreciava o vento como um cachorro (só faltava a língua de fora, mas eu estava com medo de acabar comendo um mosquito).
Os pastos passavam rápidos e o sol já se punha. O carro desacelerou e entro em uma estrada de terra a esquerda. Com o passar do tempo ela se tornava cada vez mais esburacada. Entramos por um caminho cercado de arvores e fui obrigada a recolher minha cabeça para dentro do carro, caso contrário levaria galhadas na cara. Dava para ouvir o som dos galhos arranhando as laterais da Brasília.
Escureceu.
Minha mãe assumiu o volante e meu pai dormiu no banco do passageiro. Meus irmãos já roncavam.
—Por que não dorme?-perguntou minha mãe.
—Não consigo. Estou tensa.
—Vai ficar tudo bem-disse ela-Amanhã iremos pescar.
—Vamos chegar lá hoje?-perguntei, admirada.
—Sim, já estamos chegando.
De repente as arvores se dissiparam e deram lugar a um caminho estreito cercado com cercas de arame farpado. Na sua extremidade estava um grande casarão com diversas luzes acesas. Paramos na porteira e uma figura alta nos recepcionou. Foi em direção ao banco do passageiro e colocou sua grande cabeça cabeluda e barbada para dentro.
—Véio Pedro! Véia Tônia!-gritou o homem fazendo meus pais e meus irmãos darem um pulo de susto.
—Nando!-bradou meu pai, saindo do carro e abraçando o velho amigo.
—Vão, vão!-disse ele, abanando a mão e abrindo a porteira.
Minha mãe, rindo, seguiu com o carro para o pátio do casarão e estacionou. Meu pai e o barão andavam pela estrada logo atrás, conversando e rindo. Saí da Brasília um tanto atordoada pela viagem. Fernando colocou seu pesado braço sobre meus ombros e riu:
—Como ela tá grande!-disse ele aos meus pais, que seguravam Caio e Gustavo nos braços- Da última vez que eu te vi você era uma perebinha, né Perebinha?
Perebinha... é, eu SOU uma perebinha. Para quem não sabe, “pereba” significa, pelo menos para mim, alguém que se comporta como moleque. E esse era meu apelido, Perebinha.
Entramos na casa e fomos direto para os quartos, tomamos banho e em seguida nos dirigimos para a cozinha.
—Eu não gosto de comer na sala-disse o barão.
—Não é sala! É Sala de Jantar!-disse Cida, a cozinheira/faxineira/governanta/terapeuta do Fernando.
—Tanto faz, eu não uso mesmo-disse ele, rindo.
A comida era ótima e típica da região; arroz, feijão, polenta, carne de frango e couve refogada. Delícia!
Depois olhei de um lado para ou outro e meus irmãos, agora bem despertos, também estavam intrigados: Cadê a TV?
—Não tem televisão aqui-disse Fernando, como se lesse nossas mentes e depois riu- Não disse isso a eles Tônia?
—Eles precisão de um tempo para se desintoxicar dessas coisas-disse minha mãe.
—Sem TV...-disse Gustavo, como se não acreditasse- E o celular?
—De agora em diante, ninguém mexe mais no celular-respondeu a mãe.
Caio fez um bico. Gustavo olhava o nada como se não tivesse entendido.
—Bora dormir, já é muito tarde-disse meu pai.
Todos foram para as suas camas, nos quartos de hospede.
—Amanhã tem pescaria!-gritou o barão do outro lado do casarão.
Olhei pela janela do meu quarto que dava para as propriedades. Várias casinhas estavam espalhadas pelo campo à direita; eram as casas dos colonos. Uma grande represa, à esquerda, se estendia por um espaço plano. Deitei-me na cama abaixo da janela e contemplei o céu estrelado.
Então, dormi.
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