Pathos e O Julgamento
3 Encontraram Eirene
A iluminação atracava todos os aposentos. Uma luz quentinha e amarelada como os raios do sol. Os sintomas causados por ela invadiram os sentidos de Pathos, o que a fez despertar de um sono reparador. Ela dormia num piso claro e liso: por mais que fosse o chão, era confortável, porém não condizia tanto com o local o qual pertencia.
Com os olhos ainda semicerrados, recém acordada de um sono que nem ao menos sabia do como fora dominada. Diferentemente do habitual costume de afugentar-se do frio com o ato de abraçar o próprio corpo, dessa vez, ergueu os braços, estendendo bem cada músculo, querendo que cada partícula de seu ser soubesse que estava viva e acabara de despertar.
A claridade invadiu sua vista, às vezes piscando os cílios com força, procurando se acomodar com a discrepância das características do ambiente que se encontra agora. Havia 3 mesas retangulares distribuídas pelas extremidades do cômodo, circuncidando a mesa central acinzentada; tinha alguns aposentados pontuados estrategicamente. O local tinha uma janela de grades e na outra parede um espelho: Pathos estava numa sala de interrogatório.
- Você conhece essa senhora?
Uma voz dominante fez a pergunta exigindo por uma resposta. Pathos levantou suas orbes para localizar a imagem de um delegado. O homem seguia sentado de maneira imponente na carteira principal.
- Por favor, levante-se. — Ele pediu.
Seus olhos capturaram os detalhes do cenário. Haviam pessoas que nunca viu anteriormente, por mais que a sensação de tê-las olhando para si fosse familiar. Por decorrência de tal situação, com uma ação quase automática cobriu sua pele. Não havia frio ou gelo, mas sim desconforto. A todos estava exposta a sua nudez, ao contrário de quando seu corpo sem penas habitava no branco vazio.
O delegado puxou a cadeira para que Pathos pudesse se acomodar. No canto entre as duas paredes, — a que tinha a janela e a outra que continha o espelho — uma mesa era utilizada por um escrivão: olhos cobertos por lentes escuras e reflexivas, não desfocava a vista do papel e seus dedos exercia a sua função na máquina de datilografia de maneira frenética, mas ainda no fúnebre silêncio. Rosto magro e branco, totalmente inexpressivo, redigia o ato do interrogatório, com costas curvadas como uma corcova.
Já o oposto dele, o delegado, moveu suas mãos para perto do rosto de Pathos, de maneira abrupta e impaciente, roubando a sua atenção. Em seguida gesticulou para a direção de uma outra mesa; nela seguia sentada aquela que emanava toda aquela iluminação. Eirene estava ali, assustada.
Pathos ficou mortificada. A sua parceira querida seguia posicionada à sua frente, distanciada em aproximadamente um pouco mais de 2 metros, dentro daquela sala. Como qualquer um faria, correria até o ente até então desaparecido e permitir-se debulhar em prantos, em mistura de alívio e exaustão. Contudo era nítido que, tudo que fizesse dentro do recinto era anotado e registrado meticulosamente. Não era confortável: a sensação parecida de estar no vale de aves de rapina, transparecia que não era autorizada a explanação de qualquer ato, por mais nobre que seja.
- Eu te perguntei. Conhece essa senhora? — A voz soou mais firme dessa vez, como quem estivesse cansado de repetir a pergunta.
Cada poro arrepiou-se sentindo um perigo iminente, conforme a temperatura aparentava regredir 10 graus. — Sim, eu conheço. É minha amante, senhor.
- Nós a encontramos depois de um tempo que fora registrada como desaparecida e queremos obter informações antes do tribunal. Queremos saber o autor do crime.
- Com licença, mas vocês suspeitam que minha Eirene tenha sido sequestrada?
- Sim e desejamos encontrar o responsável para puni-lo. — Um tom autoritário emergiu. — Antes que a senhora Eirene possa ser liberada, primeiro precisamos saber de você. Sendo as duas envolvidas num relacionamento, por quê não moveu esforços para recuperá-la?
- O quê?
Uma expressão de terror adornou o rosto de Pathos. Aquilo foi uma acusação demasiadamente densa, quase como uma ofensa para o contexto. O semblante do delegado era ilegível, um retrato abstrato. Os ornamentos que compunham a face de um indivíduo, permaneciam deslocados de sua origem. Parecia um assustador quadro pintado a tinta de óleo — causava confusão e espanto visceral; a voz parecia se desprender dos olhos, pois a língua habitava os glóbulos oculares, os dentes espalhados na região das narinas e boca, por último: lábios sustentados verticalmente tomando a metade do rosto; ressequidos e crispados, abriam e fechavam repetidas vezes, contudo sem emanar som algum como deveria por natureza. Dentro deles uma escuridão devastadora e muitos olhos.
A voz ecoava por todos os lados do cômodo. Parecia gritos e não simples trocas de palavras. — Preciso que responda!
O encontro de olhares era intenso e repetitivo: Pathos expressava impotência perante a Eirene, que por sua vez transmitia desespero. O suor frio perpassa a sua têmpora, enaltecendo a lucidez da ocorrência atual. Não era sonho ou pesadelo. Era verídico e lúcido.
- Por favor, não faz sentido tal questionamento. Eu só almejo a minha companheira de volta!
- Nos causa estranheza tal afirmação. Retratam-nos que ao solicitarem fatos a você, negligenciou o pedido e permaneceu dentro de sua habitação, quebrando qualquer demonstração de preocupação efetivada anteriormente. Se recorda?
Pathos ficou petrificada no lugar. Por que ela iria negar ajuda para encontrar Eirene que seguia desaparecida?
- Para preservar a integridade da possível vítima e assegurar a lisura da investigação, determino que as partes sejam ouvidas separadamente.
Eirene é escoltada para fora da sala, com isso Pathos sem tardar protesta:
- Não façam isso, ela não consegue falar, é totalmente dependente de mim. Por favor, não façam isso!
Antes de qualquer outra palavra a mais com a intenção de reverter a decisão do delegado, a porta de aço foi fechada de forma bruta, sem deixar uma brecha sequer do lado de fora.
- Senhora Pathos, necessitamos da sua colaboração. Onde você estava no dia que a sua parceira foi constatada como desaparecida?
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