Path of Fear - There is no escape
1 A Entrega
A Entrega
O silêncio da floresta morta era mais pesado que o som dos passos de Maria.
As árvores, outrora parte de um parque urbano, agora se entrelaçavam com prédios engolidos por raízes que quebravam o concreto como se fosse barro seco. Telhados desabados, fachadas tomadas por musgo escuro e, entre tudo isso, o ar úmido e denso carregava o cheiro inconfundível de terra podre e ferro velho.
Maria avançava, corpo tenso, os olhos dançando entre janelas vazias e vãos escuros. A espingarda pendia pelas costas, mas sua mão estava firme segurando a pistola. Um passo em falso naquele beco verde e os Tomados poderiam ouvir ou sentir.
O sol lutava para romper as nuvens acinzentadas. Rachaduras na rua deixavam brotar galhos finos, como dedos tentando agarrar os pés de quem passasse. Era assim em todo lugar agora — o concreto perdia a guerra.
Ela parou diante de uma parede grafitada com tinta vermelha: “VOCÊ ENTRA, MAS NEM SEMPRE SAI”. Essa era a senha visual da facção cujo nome era Garganta.
Maria soltou o ar devagar e se aproximou da entrada do antigo depósito. Dois homens armados, cobertos por máscaras de ferro enferrujado, apontaram seus rifles antes mesmo dela terminar o primeiro passo.
— Tá atrasada, mercadora. — disse um deles após perceber quem era, a voz abafada, olhos escondidos por lentes verdes.
— E vocês tão vivos. Então tá todo mundo de parabéns. — Maria respondeu, erguendo as mãos com sarcasmo.
Com um gesto ríspido, os guardas a revistaram. Ela não se importava. O importante era o que carregava no cunhete preso na mochila de carga: quatro rifles automáticos restaurados, além das duas caixas de munição adaptada e um pequeno presente envenenado que só ela sabia onde estava.
O interior do galpão era uma mistura de mercado e armadilha. Gaiolas pendiam do teto com Tomados, os infectados deste mundo, acorrentados dentro, servindo de ameaça — ou talvez estudo. Barris, ferramentas e pedaços de armamento ocupavam mesas improvisadas.
Foi então que ele apareceu.
Gean Dilkin, o dono da facção Garganta, desceu os degraus do mezanino como um rei de esgoto. Usava um sobretudo escuro cheio de remendos e folhas secas costuradas, e caminhava como quem sabia que ninguém ali ousaria respirar mais alto que ele.
— Maria dos Anjos — disse, abrindo os braços com um sorriso tão falso quanto uma promessa de cura. — A boca mais cara da Zona Oeste... e a mais perigosa, dizem.
Maria sorriu. Falso por falso, ela também sabia brincar.
— Depende do dia. Hoje eu vim só vender.
— Porque somente vender, não quer ficar mais um pouco? — disse, indo em direção a uma garrafa de vinho velha e empoeirada. — Aceita?
Maria olha torto para a proposta e começa a soltar a caixa no chão da forma mais delicada possível — ela largou o caixote no chão de concreto com um estrondo seco. Como se tivesse tocado um sino de carne, os Tomados presos nas gaiolas começaram a se agitar, grunhindo com a garganta cheia de musgo e raiva.
— Você está de sacanagem?! — grita Dilkin, apontando o dedo para Maria.
— O que foi? — olha em volta. — Não consegue lidar com seus filhotes?
— É claro que consigo, o problema são os que não são meus filhos — sorri, abrindo o vinho e colocando em uma taça.
— Chefe! — Viktor se aproximou, rifle em punho. — Os Tomados tão inquietos. Melhor fazer uma varredura no perímetro.
— Não tem problema, garoto, ela vai lidar com eles na saída — toma um gole e se volta para ela. — Vamos, me mostre a mercadoria.
— Me mostre o pagamento — Maria pega em seu rifle.
— Então é assim que quer jogar? — ele sorri, pega um chip Prata e mostra a ela.
Maria olha incrédula para a proposta de Dilkin — “Ele só pode estar achando que sou drogada”.
— Três dias na trilha, duas paradas forçadas, seis refeições. Com esse chip aí? Só pago a conta de água de um morto — diz enquanto gesticula os números que saem da sua boca.
— Você realmente não é fácil, mas está certa, queridinha, deixa apenas eu encontrar nos meus bolsos — após um tempo, retira um chip Ouro. — E agora, consigo um beijinho dessa boca?
— Com certeza, com o capeta — Maria fecha a cara, dá um chute no cunhete que ele vai arrastando na direção de Dilkin.
— Calma, não tinha algo a mais para entregar? — ele começa a procura por entre os armamentos.
— Não é que o bocudo tem razão? — ela retira sua mochila, abre os bolsos laterais, pega as duas caixas de munição 7.62mm e mantem segurando com uma de suas mãos, como se estivesse tentando intimidar. — O chip Bronze ou nada feito.
Dilkin cerra os olhos — “É assim, é?”.
— Sem problemas — serra os dentes e pega o chip. — Acredite, se qualquer coisa acontecer com você no caminho de volta, será culpa minha — ele olha para os Tomados e depois volta para ela, logo lançando o chip em sua direção.
— Não preciso de sua proteção e muito menos me sinto ameaçada por você — Maria pega o lançamento e, em seguida, cospe no chão. — Pegue suas tralhas que eu voltarei para meu recanto — logo que termina sua fala, pega seu cunhete vazio, se vira e começa a ir embora.
— A gente ainda vai se esquentar, nem que seja no inferno — ele fala isso um pouco alto e depois olha para seus armamentos, suspira. — Ah... Como eu odeio essa mulher...
A porta do galpão rangeu às costas de Maria como se estivesse reclamando da despedida.
O ar do lado de fora parecia ainda mais podre, como se a presença de Dilkin tivesse deixado um rastro viscoso. Ela ajeitou a mochila, testou o peso dos chips nos bolsos e se pôs em movimento. O caminho de volta seria longo — e solitário.
A floresta morta sussurrava entre as ruínas. Galhos estalavam com o vento, mas o som era tão irregular que mais parecia passos seguindo à distância.
Maria não ligava mais. O medo havia morrido junto com o mundo.
Ela seguiu por um corredor de concreto quebrado onde uma antiga linha de metrô havia desmoronado, criando um vale raso tomado por raízes. Aquilo já fora uma cidade vibrante. Com nomes. Com luzes. Com gente. Agora só restava a carcaça.
E foi naquele silêncio, quebrado apenas pelo som da água pingando de um poste caído, que ela se permitiu lembrar...
“O cheiro de pão queimado ainda era o mesmo.
Mesmo depois de tudo, mesmo depois da floresta engolir as padarias, dos mercados virarem ninhos de raiz, Maria ainda podia lembrar do cheiro exato do pão que o menino tentava assar pela primeira vez — e errava lindamente.
— Mãe... tá bom assim? — ele dizia com a voz fina e olhos arregalados, segurando a colher como se fosse uma arma sagrada.
Ela fingia analisar a massa com a seriedade de uma juíza de guerra.
— Tá... quase bom — dizia por fim, franzindo a testa. — Só precisa parar de colocar canela como se fosse sal.
Ele ria. Sempre ria. E esse som, mais do que o sabor de qualquer receita, era o que tornava aquela cozinha o melhor lugar do mundo.
Na TV ao fundo, um apresentador falava algo sobre o Projeto XY-94. A planta que crescia três vezes mais rápido. A que purificava o ar. A que ia salvar a humanidade da própria ruína.
Maria abaixava o volume. O menino odiava notícias.
— A planta é legal, mãe? — perguntou, sem parar de mexer.
— Não tanto quanto você, filhote.
Ele sorriu. Aquele tipo de sorriso que fazia os olhos desaparecerem nas bochechas.”
Maria desviou por uma viela de concreto úmido, onde grafites antigos se confundiam com raízes novas, serpenteando por muros rachados. Sentiu o cheiro de terra molhada... e pão queimado — segurou forte em seu colar. Às vezes a saudade inventava cheiros. Às vezes, era só o fim do mundo brincando com seus sentidos.
Foi aí que ela ouviu. Não era só silêncio. Era aquele tipo de silêncio. O que vem antes de um grito. Ou depois de um suspiro que nunca devia existir.
A respiração gutural e irregular de um Tomado cortou o ar como um prego riscando vidro. Maria congelou, os olhos varrendo os cantos da viela.
CRACK.
Um galho seco estalou às suas costas.
Ela se virou num segundo soltando o caixote, pistola erguida, dedo pronto. Nada. Só um boneco de posto derretido e uma parede pichada com “DEUS FOI EMBORA”.
“Isso só pode ser obra daquele desgraçado...”, pensou, com os dentes cerrados. Era típico dos Gargantas soltarem Tomados perto de rotas conhecidas. Ou talvez fosse Dilkin tentando “avisá-la” do que ele chamava de “amizade”.
Continuou, agora mais alerta, pisando em um tapete de folhas mortas e cascalho. Passou por um carro tombado coberto de raízes — nele, os esqueletos de dois corpos ainda abraçados no banco de trás. O amor resistia a muita coisa, menos à infecção.
Ao alcançar a rua do prédio, viu a marca de sempre no poste: um símbolo desenhado com carvão, uma espécie de “P” com traços duplos. Sinal de que ninguém havia entrado. Pelo menos, não alguém que soubesse o que estava fazendo.
Subiu os degraus do edifício com cuidado, evitando os trechos com musgo escorregadio. A porta do 302 rangeu como sempre, avisando que Maria estava de volta.
— Finalmente, caramba — disse Raul, sem levantar do chão onde afiava uma lâmina. — Já estava achando que ia ter que vender minha alma por um miojo.
— Com sua alma, nem um biscoito quebrado, Raul — respondeu Karina, do outro lado da sala, organizando frascos num pano empoeirado.
Maria entrou, largando o cunhete com um baque surdo. O grupo estava reunido — pelo menos, o que restou. Raul, o ex-entregador de gás e comediante nas horas erradas. Karina, que um dia foi farmacêutica e agora era praticamente a curandeira do grupo. Na janela, Fabiano limpava a mira do rifle como se fosse um ritual diário.
— Cadê o outro? — perguntou Maria, tirando a jaqueta molhada.
Karina respondeu sem olhar.
— Quem? Léo? No telhado. Fazendo as perguntas de sempre pro céu.
Raul riu com o canto da boca.
— E o céu segue sem responder. Mas ele insiste.
Maria ficou em silêncio por um momento. O nome Léo ainda doía. E mesmo sabendo que não era o mesmo, ainda preferia não ouvir aquele nome dito em voz alta.
— Deixem ele lá, vamos ao que interessa, eu fui dá última vez — retira o chip de seus bolsos e levanta. — Agora é com vocês... e eu estou com fome — fala com uma voz cansada.
— Está tranquilo, pode deixar comigo — Fabiano se desgruda um pouco do rifle e pega os chips, sem muita cerimônia, começa a sair do apartamento.
Todos ficam sem entender. Karina fica preocupada.
— Espero que ele esteja bem — Karina diz enquanto não tira os olhos dos potes. — Ele não tem falado muito.
Karina continuou mexendo nos potes, mas sua expressão já não era a mesma. Raul ficou em silêncio, afiando a lâmina devagar, sem olhar para ninguém. Maria se jogou no sofá puído, onde uma manta cobria as molas expostas.
Fechou os olhos por um instante. Não para dormir, mas para lembrar.
A mente a traiu com um som: risadinhas de criança misturadas ao tilintar de colher batendo contra tigela. Era ele, seu filho. Correndo de meias pela cozinha de azulejo branco enquanto ela fingia ser um monstro que roubava mingau.
Quando abriu os olhos, tudo estava escuro. E o mingau era apenas o cheiro vago de terra e mofo que vinha das paredes.
Raul apagou a lamparina com um sopro curto. O breu tomou conta da sala.
— Boa noite, Maria — murmurou Karina, já se enrolando em um lençol fino.
“Boa noite?”, pensou Maria. “Por quanto tempo eu dormi?”.
— Boa noite — respondeu ela, quase sem voz, se levantando para procurar a comida. — Será que não deixaram para mim? — questionou sussurrando.
Após tatear um pouco ao redor da casa, achou o que procurava, seu pote velho com o cheirinho da comida — “Com certeza foi o Léo...”.
Na cidade morta, do lado de fora, o som arrastado de um Tomado passou pela rua. Mas ninguém se levantou. Era só mais uma noite. E, mesmo assim, mais uma era sempre melhor que nenhuma.
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