Past Vs Future
42 Capítulo 42 - O banho da liberdade
Capítulo 42
O banho da liberdade
O céu estava cinza, aproximava-se uma tempestade daqui a umas horas, ouvia os relâmpagos lá longe. Iria demorar provavelmente uma hora a chegar a mim. O vento sussurrava ao meu ouvido, parecia furioso com a minha presença ali. Provavelmente também queria estar sozinho e eu era a única que o impedia naquela praia.
Sentei-me, mostrando assim que a minha vontade iria prevalecer à sua violência. Subitamente fui atacada por uma pequena tempestade de areia. Peguei num pouco de areia e arremessei ao vento, numa tentativa inútil que este parasse ou que o magoasse.
-Pára! – falava eu – Não vou embora. – fui atacada por mais uma projecção de areia.
-Pois, eu também quero estar sozinha, por isso se não me chateares também não te chateio.
Não resultou, voltei a ser atacada pela areia e agora os meus cabelos pareciam um remoinho no topo da minha cabeça.
Algo começou a tremer no meu bolso e retirei de lá o pequeno aparelho com o nome “Angel” intermitente no ecrã.
-Importas-te? Tenho que atender uma chamada. – atirei as palavras ao ar, na esperança que o agitação à minha volta cessasse um pouco.
Não resultou.
-Angel – disse assim que o telemóvel tocou na minha orelha.
-Caroline! Como estás? – ouvi a voz de Jayden atrás a pedir a Angel para perguntar onde eu estava.
-Estou bem. – menti. Não podia estar 100% bem se andava a falar com o vento. Estava a ficar louca, a verdade era essa.
-Então o que tens feito?
-Oh nada de mais, passeado. Conhecer coisas novas, países. É incrível como nunca me tinha dado ao trabalho de o fazer. Quer dizer, já estou neste mundo á um século e ainda há tanto para ver. – era verdade, com o trabalho nos Volturi, viajávamos muito, de país em país, mas nunca nos dávamos ao trabalho para o conhecer.
-E o que tens visto? – aqui estava a pergunta traiçoeira de Angel. Se lhes dissesse o que tinha andado a ver eles saberia mais ou menos onde eu estava, ou por onde tinha passado.
-Muitas coisas. – ouvi o riso dele do outro lado, ele conhecia-me melhor do que ninguém, sabia que eu não ia dizer, pelo menos por agora.
-Sabes que te adoramos, certo? E estamos cheios de saudades tuas. – ouvia Angel a falar e formou-se um nó na minha garganta – Bem, caso queiras vir ter connosco, estamos com os Cullen em Irkutsk, na Rússia. Mas se quiseres, eu e o Jayden vamos ter contigo a algum local. Sabes, se for complicado para ti estar aqui com os Cullen.
-Obrigado! – foi tudo que consegui dizer antes de desligar.
Fazia seis meses que não estava com eles. Depois de ter morto Afton, como ele tinha desejado. Não fui capaz de voltar, ainda não sou.
Não conseguia estar perto deles. Nem dos Cullen, nem de Jayden, nem de Angel. Se não fosse eu, tudo teria sido diferente nas vidas deles. Talvez estivessem todos felizes perto de quem amam, ou pelo menos estariam naquilo que acreditavam ser o seu lar. Não estariam a fugir agora.
Os Volturi caíram, já se começava a saber disso por todo o mundo. Aro tentava, inutilmente, fazer acreditar que tudo não passava de um rumor. Que quem quebrasse as regras ia ser severamente punido. Penso que era essa incerteza que impediu muitos vampiros de começar a mutilar cidades inteiras.
-Sabes, vem aí uma tempestade. Devias estar em casa, estarias mais protegida. – diz uma voz atrás de mim. Já tinha visto o rapaz em outras ocasiões ali na praia, costuma andar a fotografar ou a pintar.
Como das outras vezes, ele veio com a sua câmara fotográfica, com o seu bloco e o carvão.
“Tu estarias mais protegido em qualquer sítio menos perto de mim” penso, mas cinjo-me ao silêncio. O rapaz, cujo nome não sei, senta-se perto de mim.
-Tenho-te visto por aqui várias vezes. – começa ele a falar. Eu continuo a olhar para o mar, talvez assim ele se afaste. Como vê que não lhe respondo, continua a falar. – Estás sempre sozinha e pareces triste. Mudaste-te recentemente?
Respondo-lhe mentalmente “Sim, mudei-me à duas semanas. Tenho saudades de quem eu era e nos últimos meses a minha vida deu uma volta de 180º e magoei aqueles que amo”. Era bom poder falar com alguém, infelizmente isso não pode acontecer com um humano, pois ele não iria perceber grande parte das coisas.
Não desvio o olhar do rebentar das ondas, a maré parece um monstro esfomeado, que a cada minuto vai engolindo o areal. Fecho os olhos e enrolo os braços à volta das pernas, aos olhos do rapaz parece que tenho frio, o que é mentira.
-Eu mudei-me para a ilha Victoria à três anos. Vim estudar artes para a UVIC. – diz apontando para o seu bloco. – Costumo vir para a praia para relembrar o tempo em que ainda morava em Inglaterra. A minha família e os meus amigos ficaram todos lá, mas eu queria uma experiencia nova, então, mudei-me para aqui. A língua é a mesma – diz encolhendo os ombros. Pega na máquina fotográfica e começa a fotografar o mar.
-Hoje o mar está particularmente bonito. As ondas estão fortes. Em parte deve-se à tempestade que se aproxima. – continua ele – É a força do vento na superfície da água que faz a ondulação. Quanto maior for a sua força, duração e o comprimento sobre a superfície da água, maior vai ser a onda.
As nuvens mais escuras aproximavam-se cada vez mais do local onde nos encontramos. O rapaz continuava a tirar fotografias, em busca da melhor. Apetecia-me pegar na sua câmara ou talvez dar-lhe algumas dicas para a fotografia ficar melhor um pouco. Em contrapartida permaneci no mesmo local, apenas olhando para o ecrã da sua Canon vendo as dezenas de fotografias que ele tirava.
Subitamente ele pára de fotografar a praia, o mar, as nuvens. Olha para mim, e rapidamente aponta a câmara na minha direcção disparando. Aparento um ar de espanto.
-Desculpa, mas não resisti. Acho que a tua beleza deve ficar registada para toda a eternidade numa foto. – diz com um sorriso tímido.
Ele fica à espera que eu diga algo, coisa que me recuso a fazer. Não posso ficar amiga deste estranho. Não posso, nem quero.
Desde que fui transformada esta é a primeira vez que estou assim tanto tempo perto de um humano sem ser a trabalho. Não me quero afeiçoar, depois é difícil separarmo-nos desta criatura tão frágil, ou algo pode correr mal, como ele acabar por se tornar na minha refeição, e isso seria ainda pior para a minha consciência. Não que tenha fome agora, mas a verdade é que ele cheira demasiado bem.
-Eu sou o William. – diz ele estendendo a mão para eu o cumprimentar. Ao invés disso, desvio o meu olhar para o lado contrário de onde ele está. Ou seja, para o lado para onde o meu outro “amigo”, o vento, sopra. A sua tentativa de nos expulsar dali acaba por entrar no meu olho.
-Estás bem? – disse ele quando elevei a mão para retirar a maldita areia do olho. Não que me magoasse, mas metia impressão.
Acenei afirmativamente, mas mesmo assim o William colocou a cabeça em frente á minha para ver se estava bem.
A sua face mostrava admiração quando viu os meus olhos.
-Uau, os teus olhos, são lindos. Nunca tinha visto uma cor dessas, parece meios dourados, mas também não o são. – a sua mão tentou alcançar a máquina fotográfica. – Importas-te? – perguntou ele levantando a máquina como sinal. Apressei-me a desviar o olhar e colocar a mão em frente, mas para não o magoar, sorri. – Ok, desculpa! É que gosto de fotografar, e os teus olhos são absolutamente lindos.
Eles estavam um pouco estranhos, tinham começado a perder definitivamente o vermelho vivo, mas ainda não eram o dourado dos Cullen. Mais alguns meses e talvez partilhasse a cor de olhos deles, agora era mais uma mistura.
Ele estava agora de joelhos à minha frente, a fitar-me. Apercebi-me da água a vir na nossa direcção, mas não o avisei. Invés disso fiquei à espera, com um sorriso na minha face. William também sorriu, pensando que me estava a retribuir o sorriso. Foi quando, sem ele esperar, um pequena onda o atingiu. O seu sorriso desapareceu, perante a sensação daquele gigante azul o ter engolido.
William estava todo encharcado nas costas, quando o seu choque passou, olhou rapidamente para o bloco e a máquina a ver se estes se tinham salvo da água, ou se todo o seu trabalho estaria danificado. Estavam ambos a salvo na minha mão.
-Obrigado. – disse lançando-se sobre os seus objectos, depois olha para mim atónito – Espera, tu sabias que vinha a onda. – Não consegui conter-me e ri-me. – Isso não se faz. – diz ele muito sério, pousando novamente as suas coisas na areia, num local mais seguro e seco.
-Agora – diz segurando-me os braços por cima do kispo e impulsionando-me para cima. Levantei-me, fingindo ser ele a faze-lo. – Vais paga-las.
Depois disto “forçou-me” para a água com ele. A verdade é que à muito que não me sentia tão viva como naquele momento, soube bem sentir-me…normal. Como se voltasse a ser humana, por momentos, dentro daquela água, senti-me eu, a Caroline. Esqueci todos os problemas, é como se os tivesse deixado na areia, sabendo, que assim que voltasse a sair da água, os problemas voltariam todos. Da mesma forma que William iria pegar na sua máquina e bloco, eu iria voltar a “pegar” nos meus problemas.
No entanto aproveitei aqueles minutos de liberdade, saltei, mergulhei, atirei água ao William. Evitei o contacto directo entre nós dois. Não queria que ele se assustasse com a minha temperatura corporal, ou a rigidez da minha pele.
Só quando me apercebi que William estava com demasiado frio, é que simulei também a minha possível hipotermia se continua-se naquela água.
Quando saímos da água e notámos que não iríamos ter nada com que nos agasalhar até chegar a casa, fiquei com um pouco de pena daquele humano. Esperava mesmo que ele não ficasse doente.
-Bem, foi óptimo ter um monologo contigo rapariga dos olhos bonitos. – foi aí que me apercebi, que durante todo o tempo em que estivemos juntos eu não tinha pronunciado uma única palavra. – Tomar banho contigo foi ainda melhor, no entanto agora tenho que ir, antes que apanhe uma pneumonia.
Dito isto ele pegou nas suas coisas e antes de se afastar sorriu para mim e acenou-me.
-Caroline. – disse antes que ele virasse as costas – Também foi um prazer ouvir o teu monólogo e tomar banho contigo. – disse apontando para o oceano ainda revolto.
-Afinal ela fala! – colocou a sua mascara mais surpresa, no entanto demasiado carregada, digna de um Óscar de pior actor.
Sorri para ele e encolhi os ombros.
-A minha mãe sempre me disse para não falar com estranhos.
-Então já não sou um estranho? – pergunta ele.
-Acho que depois de teres entrado comigo naquele mar, deixaste de o ser.
Ambos rimos e dirigimo-nos ao parque de estacionamento. Supus que ele tivesse carro, o que em parte me deixou mais aliviada. Significava que talvez não apanhasse nenhuma pneumonia, ou coisa do género.
-Então, ainda nos voltamos a ver? Ou estás só de passagem por aqui? – perguntou William assim que chegamos perto do seu carro.
Antes que lhe pudesse responder, as primeiras pingas chegaram.
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