Past Vs Future

2 Capítulo 2 - Uma nova vida


Capitulo 2

Uma nova vida

O tempo passava e o homem nunca mais voltava. Começava a ficar irrequieta e, ainda para mais, tinha uma dor de garganta que não conseguia explicar. Era como se tivesse engolido um gato e ele estivesse com as unhas cravadas no interior das minhas “paredes” enquanto deslizava até ao meu estômago. Já não conseguia estar mais sentada na cadeira, levantei-me e observei os objectos nas prateleiras. Os livros estavam encadernados com um papel escuro que não deixava ler o título, mas pareciam velhos, cheiravam a velho e tinham pó. Toquei com o indicador na lombada de um e puxei-o lentamente para mim, mas vi que isso deixava um rasto de pó, como não queria ter problemas por estar a mexer no que não era meu voltei a colocá-lo no sítio. Percorri com o olhar a prateleira de cima e um pequeno boneco de porcelana chamou-me à atenção. Era um querubim, com a face cheia e rosada, vestido apenas com uma fralda de pano, mas algo nele não estava bem. Com a ponta dos dedos rodei-o e reparei no que faltava, as asas. Estavam partidas. Quando me preparava para o observar mais de perto ouvi o estalido da porta do alçapão. Voltei a colocar o querubim exactamente como estava e afastei-me das prateleiras. O mesmo homem de ao bocado entrou, fechando a porta atrás de si. Na mão trazia um vestido amarelo, elegante e um espartilho. Carregava também consigo um chapéu amarelo que fazia toilette com o vestido.

– Aqui tem menina. Já pode tirar esse vestido ensanguentado. – Aproximou-se e estendeu-me as roupas elegantes.

Assim que peguei nelas olhei em redor da pequena sala mal iluminada.

– Onde é que me posso vestir? – Era um espaço comum, sem recantos ou biombos.

Só agora ele parecia ter-se apercebido desse detalhe. Pareceu-me um pouco atrapalhado, mas respondeu-me com a sua voz calma e profunda de sempre.

– Eu viro-me para que se vista. Chame-me quando precisar de ajuda com o espartilho. – Dito isto, virou-se de costas para mim, de frente para a parede.

Assim que o fez reparei nos seus suspensórios que lhe ajustavam a camisa às costas. Pareceu-me ter visto alguma coisa estranha mas ele mudou um pouco a sua posição e o efeito desapareceu. Pensei que deveria ser o reflexo da luz da vela e virei-me para me despir. Comecei por desapertar o meu vestido branco.

– Ainda não sei o seu nome. – Disse, tentando romper o silêncio constrangedor.

– Angel. – Limitou-se a responder.

– É um nome fora do comum. – Retorqui.

– Eu sou fora do comum. – Soltou uma breve risada sem alegria.

Antes de tirar o meu vestido branco lancei um olhar por cima do ombro. Como prometido, Angel estava de costas para mim, com as mãos nos bolsos das calças, esperando pacientemente pelo meu pedido de ajuda. Vesti o que ele me tinha trazido e quando precisei dele chamei-o. Estava um pouco nervosa pois tinha um homem a mexer nas minhas costas nuas, mas ele apertou-me os cordões com delicadeza, tentando sempre não me tocar na pele. Apanhei o meu cabelo com as mãos para que ele pudesse manusear o corpete mais livremente. Sem pensar, passei a mão pela garganta.

– Está a arder? – Perguntou Angel atrás de mim enquanto dava o nó final.

– Hum, sim. – Respondi com apreensão.

– Já vamos tratar disso, menina.

Ele acabou de me ajudar e enquanto eu ajeitava o chapéu na minha cabeça pegou no vestido ensanguentado e pendurou-o num prego, por cima da cama. Virei-me na sua direcção e o olhar prendou-se no vestido.

– Oh céus. – Exclamei levando uma mão até à boca.

– O que se passa menina? – Angel deu alguns passos na minha direcção, estendeu uma mão mas não me tocou.

– Angel…é um vestido. – A minha voz tremeu por instantes. – Um vestido de casamento.

Ele olhou na direcção do vestido e depois para a minha cara novamente.

– Já a encontrei assim menina. – Disse encolhendo os ombros. – Quando me chamaram para a vir buscar já a encontrei neste estado.

– O quê? – Exclamei sobressaltada. – Chamaram-no para vir buscar-me?

Ele acenou com a cabeça.

– Mas quem? – Angel limitou-se a olhar para mim. – Por favor, diga-me!

– Os Volturi.

– Mas, quem são os Volturi? – Perguntei.

– Para lhe explicar quem eles são preciso de lhe contar tudo do início. Precisa de saber o que lhe aconteceu e naquilo que se tornou. Irei explicar-lhe as regras que precisa de saber, ensinar-lhe como se alimentar e fazer-lhe uma proposta para o futuro. – Angel estava calmo, mas a sua expressão dizia que era algo que ele não gostava muito de falar.

– Sim, claro. Por favor, eu quero saber o que se passa. Não me lembro de nada, a minha mente está completamente vazia.

Ele fez-me sinal para que me sentasse na cama, assim que o fiz ele sentou-se na outra ponta, virado para mim. Suspirou profundamente e preparou-se para me explicar tudo.

– A Caroline era humana, mas há três dias atrás foi mordida e o seu corpo começou a modificar-se, a transformar-se. Hoje, já não é uma humana, mas uma vampira.

– Mas, os vampiros não existem, são lendas. – Estava a tentar racionalizar o que acabara de ouvir, mas, no fundo, não acreditava numa única palavra do que estava a dizer.

– Não. Os vampiros querem que os humanos pensem que eles são lendas, para estarem protegidos e poderem andar entre eles sem serem reconhecidos. Há três dias atrás foi mordida por um e o seu veneno instalou-se na sua corrente sanguínea. Três dias depois, você faz parte dessa raça. Eu não sei grande coisa a seu respeito, lamento não poder responder às suas perguntas acerca do seu passado, da sua vida humana. Tudo o que posso dizer, agora, é referente ao seu futuro. – Ouvi atentamente o que Angel me estava a dizer. – Existem regras que são essenciais cumprir para continuar viva. Tem que preservar o segredo para com os humanos sobre a existência de vampiros. Não se poderá expor ao sol, chamar a atenção dos humanos ou alimentar-se sem controlo. Deve sempre ser discreta. Os humanos são a sua comida e devem ser vistos como tal, não como um objecto de socialização.

Assim que ele referiu esta última parte eu preparava-me para questionar o facto de os humanos serem o meu alimento, mas o ardor na minha garganta fez-me ver que isso era verdade. Ao pensar na palavra “humano” associava logo a sangue, o que fazia com que a minha garganta ardesse. Voltei a passar a mão por ela.

– Basicamente, a regra que tem que cumprir é esta, manter segredo. Agora vou ensiná-la a caçar. – Angel sorriu mostrando os seus dentes perfeitos.

Fiquei feliz por finalmente ter saído do alçapão. A lua estava alta, o céu escuro e o vento frio batia-me na cara. Sabia que devia estar gelada com a aragem mas por alguma razão estava perfeitamente normal. Angel pareceu aperceber-se disso.

– Nunca mais irás sentir frio ou calor. Podes sentir o quente e o frio na tua pele mas não te vais arrepiar ou transpirar. Isso acabou. O teu corpo já não voltará a reagir às condições atmosféricas. – Explicou-me.

Andamos descontraidamente pelas ruas desertas.

– Onde estamos? – Perguntei.

– Chicago, Illinois, no ano de 1918.

Acenei com a cabeça. Tinha a sensação de que me faltava alguma coisa mas não sabia o quê. «A vida, talvez.» acabei por exclamar para mim própria.

Angel levou-nos até à beira de um bar que ainda se encontrava aberto àquela hora. Dois homens estavam à entrada, cada um com o seu copo de cerveja na mão e falavam alto, gesticulando intensamente. Cheirei o ar. «Bêbados», pensei.

– Muito bem. Ali estão as suas vítimas. – Apontou com o queixo na direcção dos homens. – Eis o que tem que fazer: aproxima-se de um deles e tente fazer com que ele vá consigo até um lugar mais recatado, mais escuro. Depois…deixe-se levar pelos seus instintos. – Sorriu. – Se precisar de mim, eu estarei a observá-la. É só chamar.

Respirei fundo algumas vezes e ajeitei o corpete. Com elegância caminhei até aos homens. Assim que olharam para mim deixei transparecer um leve sorriso sedutor. Eles pararam abruptamente de falar.

– Peço desculpa por interrompê-los, cavalheiros. Mas seria possível que um dos senhores me indicasse uma pensão aqui perto? – O meu olhar passava de um para o outro. A minha garganta apertava-se cada vez mais e estava a tornar-se difícil pensar com clareza.

– Existe uma já aqui ao virar da esquina, menina. – Indicou o mais alto dos homens.

– Teria a gentileza de me acompanhar cavalheiro? Sabe, uma senhora não deveria andar sozinha à noite na rua. É perigoso. – Mais um sorriso.

O homem despediu-se do amigo e caminhou ao meu lado pelas ruas escuras e solitárias.

– O que a trás por estes lados menina? – Perguntou-me o homem tentado fazer conversa de circunstância.

– Negócios. – Respondi.

– Ai sim? E em que área?

Já tínhamos virado a esquina e certifiquei-me que a rua estava deserta, era agora, este era o momento.

– Alimentação. – Assim que o disse atirei-me a ele, empurrando-o contra a parede de tijolo de um prédio. O meu lábio superior subiu expondo as minhas presas. O homem assustou-se e quando se preparou para gritar tapei-lhe a boca com a mão.

Ele tentava soltar-se, mas estava preso entre o meu corpo de pedra e os tijolos atrás de si. Virei-lhe a cara para o lado direito e aproximei a minha cabeça do seu pescoço. Inalei o aroma do sangue a passar pela veia jugular. Angel tinha razão, o meu corpo sabia exactamente o que tinha que ser feito. Os meus dentes cravariam a sua pele, mesmo em cima da veia e depois sugava-lhe o sangue, até à última gota. Isto mataria o homem em apenas alguns minutos. Abri a boca e quando me preparava para o trincar algo me fez recuar.

Eu queria o seu sangue, mais do que tudo, mas não assim. Não quando tinha dois olhos a pedir-me misericórdia e sentia a sua respiração ofegante na mão com que lhe tapava a boca. O meu corpo recuou uns centímetros e fechei a boca. Ao meu lado apareceu Angel.

– O que se passa? – Perguntou-me.

– Não consigo! – Disse. Larguei o homem que se apressou a fugir de nós a sete pés.

– O que está a fazer? – Angel correu na direcção do fugitivo e deu-lhe uma cacetada na nuca. Este caiu redondo no chão.

– Porque fez isso? – Gritei.

– Ele está apenas inconsciente. Agora vá, alimente-se! – Pegou o homem pelos colarinhos e atirou-o para os meus pés.

O facto de ele estar caído no chão, inconsciente, não fazia a mínima diferença. Ainda assim não me apetecia sugar-lhe o sangue, embora fosse isso que queria ao mesmo tempo.

– Não, Angel, peço imensa desculpa mas não consigo. Teremos que arranjar outra solução. – Disse, fitando-o nos olhos.

Notas finais
Espero pelo vosso feedback...qualquer duvida ou questão estejam à vontade!!
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