O sinal para o começo das aulas tocou faz pouco tempo, então todos os alunos estão, logicamente, sentadinhos em seus assentos. A maioria está prestando atenção nas aulas ministradas pelos nossos esforçados professores, alguns dormindo pela noite passada em claro, uns gordinhos já sentiam fome e comiam o lanche trazido de casa nas sombras das muralhas formadas pelos seus livros. Eu? Que pergunta… eu estou correndo. Fugindo de algo que não sei explicar o que é, mas que com certeza quer beber meu sangue.

Para você entender, vamos voltar um pouco depois do sinal tocar.

— Professor me desculpe, mas posso ir ao banheiro?

— Mas Aoi, a aula começou faz dois minutos.

— Eu sei, mas agora que deu vontade, o que posso fazer?

O suspiro do professor careca de história japonesa veio seguido de um sim, Haruna acha graça e esbanje um pequeno sorrisinho.

Na pia, depois de esvaziar a bexiga, normalmente olhamos para as mãos sendo lavadas abaixo da torneira, mas de canto percebo a presença de alguém.

— O banheiro da esquerda está entupido.

Falo gentilmente para o garoto que percebi entrar, mas ao virar meu rosto para cumprimenta-lo, ninguém estava lá. Mas tenho certeza que percebi alguém entrando.

Após usar o banheiro, volto caminhando por um corredor que estava completamente vazio, no horário de aulas, toda a escola parece vazia. Mas me deparo com a figura de uma pessoa escorada em um quadro de avisos.

Ah! Um detalhe, numa de suas mãos… um machado.

O tempo lá de fora deixa o ambiente um pouco hostil. Quando finalmente percebo aqueles olhos vermelhos, sim… aqueles olhos vermelhos começam a vim em minha direção, o rastro deixado pelo brilho é semelhante aos faróis traseiros de carros em um timelapse.

Não consigo ver mais nenhum detalhe, apenas os dois tachos vermelhos daquela figura negra que exala uma aura das trevas. Para piorar, o som daquela machado sendo arrastado me faz perceber que, sim! Eu sou o alvo daquela coisa.

Soou frio a cada passo daquilo e ali percebo que, minhas experiências em jogos de terror não significam nada naquele momento. Finalmente descobri a diferença de realidade para realismo, malditas empresas que investem em gráficos e esquecem que o conteúdo é o mais importante!

Mais aquilo ainda não era o ápice, engulo seco quando percebo uma lua minguante deitada se formar abaixo daquelas tochas vermelhas, um sorriso medonho pressagia minha morte.

Estou completamente paralisado, pois o medo tomou conta de mim. Aquilo se aproxima devagar, passo seguido de passo, e no mesmo ritmo o machado é arrastado.

Então é assim que será o meu fim? O clima pesado daquele corredor me fez lembrar de um pequeno flashback de minha infância.

Haruna e eu caminhávamos por uma trilha no meio da floresta de um sítio de meu tio. Nesse momento, um coelho negro com os olhos vermelhos atravessa nossa frente, mas invés de seguir seu caminho, ele parou e ficou nos encarando.

— Aoi-chan, olha! Que fofo.

— Espere, Haruna! Ele é um morfo!

— Morfo?

— Lembra que o Super W ajudou a princesa a matar um coelho negro dos olhos vermelhos que queria dominar o reino? Os dois o exilaram em uma fenda temporal. E se esse coelho for… aquele coelho?

Bendita inocência infantil.

— Ele… Ele…

Me ponho em frente ao gaguejo de Haruna.

— Aoi-kun!

— Não se preocupe Haruna, nesse momento, todo mundo sabe o que um cavaleiro deve fazer.

— Aoi-kuuun, você vai…!

— …pegar a heroína e fugir!

Segurando as mãos de Haruna, corro em direção contrária. Lembro de ter me sentido um herói de verdade. Ela até me deu uma parte de seu bolo como recompensa por aquele ato.

Voltando ao momento paralisante que estou nos dias atuais. Observo aquela figura negra com uma aura das trevas, seus olhos vermelhos cintilantes junto de um sorriso branco a faz ótima para ser o vilão de uma série de terror infantil.

— A…O…I…

A voz sai abafada, mas percebo que aquilo chamou meu nome…

— A…O…I…

Aquelas letras são em formato de melodia, aquilo está cantando o réquiem de meu fim.

Continuo paralisado e no momento que aquela criatura levanta seu machado, eu mordo meus lábios até sair sangue. A dor fará a adrenalina subir e me fazer escapar daquilo.

O choque do machado abre uma pequena rachadura no chão. Sinto aqueles olhos em minhas costas depois de conseguir correr.

Na minha frente, apenas corredores vazios e infinitos, não consigo chegar a lugar nenhum mesmo correndo meu máximo.

Depois de um tempo correndo e sendo perseguido por aquilo, consigo ver a escada que levará para o corredor abaixo ou corredor acima, numa situação dessas, a melhor opção não é se prender no terraço.

Quando decido ir para a escada que leva ao andar abaixo, escuto um vento passar a centímetros da minha orelha, logo em seguida, escudo o barulho do machado conflitando com a parede no fim do corredor.

Aquilo passou a centímetros da minha cabeça. Ao olhar para trás, minha expressão de medo se mostra ao ver aquela visão aterradora, uma criatura dos olhos vermelhos correndo como um cachorro, não… como uma besta selvagem, tão rápido quanto o pulo que ela deu em cima de mim. Por sorte, consegui pular antes e caiu escada abaixo. Com meu rosto todo machucado pela queda, ainda consigo olhar para trás.

Lá em cima, parado como um animal quadrúpede, estava a criatura olhando fixamente para mim. O sorriso de lua minguante aparece novamente, mas dessa vez, fumaça sai de dentro daquela boca. Aquilo com certeza era a pressão alta de seu corpo em contato com o ambiente frio de outono.

Aquela coisa estica a mão e arranca o machado que estava preso na parede. Eu apenas me esforço e corro escada a baixo.

Meu objetivo era entrar na primeira sala que aparecesse, mas quem disse que eu conseguia calcular o tempo de abrir a porta para entrar sem que aquele machado arranque minha cabeça? Além de ser algo rápido, preciso ter sorte de ser uma porta destrancada.

Corro até o final deste corredor, tento olhar para trás e não vejo mais aquele monstro.

Novamente consigo ver a escada que dá para o térreo e finalmente entrar em uma área aberta, nesse momento, sinto seu hálito incrivelmente quente em meu pescoço.

Aquilo estava sentado em minhas costas.

Pronto… pelo jeito, aquilo só não havia me matado antes por capricho. Minha vida estava em suas mãos desde o início.

Quando percebi, já estava caído no chão, o golpe que aquela coisa deu em minha cabeça foi suficiente para imobilizar todo o meu corpo.

No chão, com visão turma, só sinto o hálito daquela coisa em minha cara. Seus olhos vermelhos e brilhantes me observam fixamente e suas duas mãos juntas formando um único punho estão prontas para descerem com toda a força em cima do meu peito

— Ser morto… por um monstro não é tão ruim assim, para um amante de videogames que já matou incontáveis bestas, já era hora de uma delas ter sua vingança. Vamos ver… Do que me arrependo…

Uma garota dos cabelos loiros estava em minha cabeça, não consigo ver seu rosto, mas consigo ver as lágrimas caindo.

— Verdade… Eu ainda não me desculpei com ela.

Percebo aqueles punhos vindo em minha direção.

— Espero que na próxima vida, eu possa encontra-las novamente.

Com olhos fechados, sinto batidas em meu peito, estavam doendo sim, mas não o tanto quanto eu estava esperando. Ao abrir os olhos lentamente, vejo aqueles cabelos negros compridos cobrindo seus olhos vermelhos, sua pele branca faz jus ao seu nome.

— Aoi… Maldito!

Essas palavras vinham a cada soco que aquela baixinha dava em meu peito, quando minha visão começa a voltar ao normal, vejo Yuki em cima de mim, com expressão totalmente irritada e socando meu peito com toda sua força.

— Maldito! Maldito! Aoi maldito!

— Então era você…

Aquilo era uma ilusão? Será?

Inclino um pouco meu tronco e ela se assusta, quase caindo para trás, eu seguro seus braços para parar de me bater, encaro seus olhos vermelhos cheio de lágrimas decoradas com ódio em seu olhar.

No chão, eu e Yuki estávamos nos encarando na posição de lótus.

Ela faz força para tentar soltar seus braços segurados por mim, vendo que era inútil, ela simplesmente joga sua testa na minha, o impacto foi grande o suficiente para nós dois cairmos chorando pela dor.

A dor me fez acordar e rapidamente me levanto, segurando os ombros daquela baixinha.

— Yuki! Pare!

— Não vou parar até beber seu sangue e fazer uma fogueira com seus ossos!

Ela está falando sério!! Seus olhos estão dizendo que ela realmente quer isso!!

Yuki abre a boca e morde uma das minhas mãos. Gritei tão alto que alguns alunos vieram ver o que estava acontecendo.

Eles encontram Yuki abaixada, segurando sua cabeça. Sim, tive que dar um soco para ela soltar, não é do meu feitio, mas era a única coisa que eu podia fazer. As presas de Yuki são mais grandes que o normal, por isso, uma mordida dela dói demais.

— Por que…

Com voz ainda trêmula, Yuki se levanta aos poucos.

— Por que… você abandonou o evento na metade?

Agora sim, caiu a ficha, antes de Haruna me visitar ontem à noite, eu estava participando de um evento com nossa guilda no jogo Last Magic X, guilda na qual Yuki é a chefe.

— Você colocar seu paladino no automático não nos fez chegar ao final da torre. Apesar de termos sido a melhor guilda, não conseguimos o prêmio principal.

— EU REALMENTE SINTO MUITO YUKI!

Eu estou de joelhos, com minha testa grudada no chão. Um ato de prostração.

Aquele evento era superimportante e tive que abandoná-lo, deixando meus amigos nas mãos de ações feitas aleatoriamente pela inteligência programada no jogo.

Ela pisa em minha cabeça como se eu fosse um verme.

— Por sua causa, perdemos a chance de ter um item incrivelmente valioso, sabia?

— Sim! Eu sei! Mas Yuki, escuta!

Eu levanto minha cabeça e pela benção do deus Erós, os pés de Yuki continuaram em cima dela.

Diante dos meus olhos, de cor azul e com alguns pequenos babados brancos, está a calcinha de Yuki. Embaixo de sua saia está um pouco escuro, mas isso é um charme para uma calcinha.

— Isso!

Sinto o eu pervertido vibrar, aquela é a primeira vez que vejo a calcinha de Yuki. Sua pele branca sempre me fez curioso, suas coxas são tão branquinhas que me faz querer saber se ficam vermelhas rapidamente se amassadas.

Meus olhos se fixaram tanto que não deram conta do que veio em seguida, um chute tão bem dado quanto o de um jogador de futebol profissional.

Minha cabeça girou e ela marcou um gol importantíssimo para o campeonato.

Ali estava eu, caído. Com a cabeça em uma posição que assustaria muita gente. Já longe, Yuki andava pisando no chão tão forte que eu conseguia sentir o vácuo deixado por seus passos.

— Maria…

Por que esse nome veio em minha mente? Verdade, aquela experiência de quase morte me fez lembrar de uma pessoa.

***