A chuva salpicava na grama verde do jardim e escorria pela janela de vidro da sala de estar. Chuva de verão. Acomodada no sofá sem encosto junto a esta janela e perdida em meus pensamentos, demorei para notar que o cão ladrava lá fora, mas minha mãe já estava abrindo a porta.

– Quer entrar, não é amigão? Deve estar frio aí. — Disse ela acariciando- o enquanto a ferinha pulava em suas pernas.

Quando me virei para olhar a rua novamente, percebi que a minha respiração havia embaçado o vidro em forma de coração.

– Amor... não sou muito boa nisso. Pelo menos não tenho muita sorte. — Sussurrei.

– Alicia! O almoço está pronto. — Minha mãe gritou da cozinha. — Não espere esfriar. Com certa má vontade imergi dos meus pensamentos e fui ao seu encontro. Minhas pernas tinham adormecido e ao sentar à mesa, enquanto as esticava para melhorar, observei o que tinha para comer. Minha mãe é uma mulher que tem mais criatividade do que talento na cozinha. Costuma ter ideias inusitadas e nem sempre comestíveis. Depois dela ajeitar meu irmão Davi na cadeirinha, na mesa conosco, parecendo ler minha mente comentou:

– Encontrei essa receita na internet hoje, pareceu gostosa. — Deu uma risadinha sarcástica.

– Ah sim! O que é a vida sem algumas mudanças no cardápio? — Respondi enquanto ousava dar uma garfada, mas esperei com o talher a meio caminho da boca, para olhar minha mãe comer primeiro. Achei engraçado ela estar fazendo o mesmo.

– Juntas então? — Perguntou.

Dei uma piscada e comemos. Até que não estava tão ruim.

– Quase um gourmet. — Brinquei. No mesmo instante o telefone começou a tocar. — Deixa que eu atendo.

– Não adianta fugir da comida! Antes dela acabar não farei outra. — Advertiu — me entre risos.

– Que coraçãozinho ruim! Greve de fome Davi! Parceiro? — Aqueles olhinhos brilhavam e ele se divertia. Peguei o telefone. — Boa tarde. Casa da família Lumière.

– Boa tarde. — A voz no telefone era grave e séria — Aqui é do hospital Nova Alvorada. Eu poderia falar com o responsável?

Não gostei. A pessoa tem a indelicadeza de ligar para sua casa no horário do almoço, joga uma bomba falando que é do hospital e ainda insinua que você tem uma voz infantil. Definitivamente não fui com a cara dele.

– Pode falar. — Respondi.

– O que você é do Senhor Louis Lumière? — Algo no meu peito começou a bater mais forte, tentei conter, mas só resultou em lágrimas.

– É o meu pai, o que ouve com ele? Ele está bem? — Minhas palavras saíram entrecortadas por soluços. — Mãe! — Gritei, mas ela já estava do meu lado pegando o telefone.

– Sou a esposa dele, o que aconteceu com meu marido? — Houve uma pausa. — Sim, sei onde é. — Minha mãe falou com uma voz branda, como sempre. Mas sua expressão era de terror.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.