Passagio

8 Capuccino - Capítulo 8


Notas iniciais
Genteee, acreditem, ninguém está mais feliz do que eu quando eu digo que Dahdy, outra vez, DEU O AR DE SUA GRAÇA! UHUUL!
y.y último capítulo da nossa pequena, boa leitura povo!
*deixamos Capuccino dedicado a Soh, que nos deu nossa primeira recomendação. Muito obrigada fofa!*

Carla acordou com a luz solar iluminando seu rosto, tão intensa que era praticamente impossível abrir os olhos. Os cobertores feitos de seda cobriam seu corpo até o os ombros. Seus cabelos estavam soltos sobre o travesseiro e seus braços colocados em cima deles. Ela virou-se para ver se ainda estava sonhando ou se estava voltando à realidade.

Felizmente, o motivo pelo qual estivera se recusando a abrir os olhos estava ali ao seu lado, do mesmo jeito que o vira da última vez. Ricardo estava deitado de bruços sem sua camisa, tendo as pernas totalmente cobertas pelos lençóis de seda. Carla passou a mão pelos cabelos dele, os sedosos e macios cabelos que haviam dado uma volta completa em suas bochechas na noite anterior. Ele abriu os olhos vagarosamente, segurando seu rosto e dando-lhe um beijo.

– Bom dia.

Ricardo passou os dedos pela testa dela e depois deu um beijo suave no mesmo local, levantou-se e colocou a camisa verde-mar, ajeitando os cabelos com as mãos. Puxou ela para si, beijando-a levemente enquanto colocava uma das mãos em sua cintura. Tudo havia acontecido tão rápido, e do mesmo jeito que aconteceu agora iria embora, e isso com certeza não era algo que Carla quisesse imaginar no momento. Os dois dirigiram-se então até a cozinha. Ela sentou-se em um banco logo à frente de um balcão, enquanto Ricardo ligava o fogão. Ela sorriu.

– O que vai fazer? – Perguntou – Comida italiana à moda Ricardo? – Levou o indicador até a boca e depois o suspendeu – Sempre quis provar.

Ricardo pegou dois ovos e os quebrou na panela.

– Hum... Depende. – Ele riu – Podemos fazer Ricardo frito, Ricardo mexido ou omelete de Ricardo. E então, qual vai ser? – Ela sorriu, apontando o indicador para ele e mandando-o escolher – Omelete de Ricardo.

Ele capturou um pote em forma redonda onde se encontrava escrito Coffe Burro, café de manteiga em italiano. Sorrindo, perguntou:

– Preciso de queijo branco e tomates. Onde consigo? – Carla se levantou, tateou o armário em busca do queijo e em seguida uma cesta de palha, onde havia frutas e verduras, pegando o tomate. Ela entregou-os a Ricardo. – Pode cortar pra mim? – Perguntou ele entregando-lhe a faca.

Ela estava cortando desajeitadamente os tomates quando, ao ver a cena trágica, Ricardo soltou um risinho e posicionou-se atrás dela, envolvendo sua cintura com uma das mãos e colocando a outra sobre a mão com a qual ela segurava a faca. Ele ajudou-a a cortar vagarosamente, fatias finas e pequenas eram partidas a cada momento. Ela virou-se e beijou-o, segurando seu rosto com um palmo e acariciando sua nuca com o outro.

O garoto se soltou e pegou um pote de sal e o outro com pimenta, distribuindo a porção correta na panela.

Virou a omelete, colocando-a por fim em um prato. Carla sorriu.

– Está muito bom. – Disse levando um pedaço à boca. Olhou para o relógio – Estamos atrasados.

– Qual é, não precisamos ir – reclamou Ricardo, o que fez a garota quase engasgar.

– Mas é meu último dia de aula.

– Então vamos filar aula, — falou sorrindo safado – e fazer algo mais interessante. – Tipo o quê? Pensou Carla, mas não disse nada. Ricardo puxou-a pela cintura, beijando-a ferozmente enquanto deslizava a mão pelo seu corpo.

Carla apoiou suas mãos no ombro de Ricardo e tomou-o para si. Ele fez uma trilha de beijos pelo seu pescoço até chegar ao ombro, levando-a para dentro do banheiro.

•••

Ricardo alisou o rosto de Carla. Sua face era a mais macia que já tocara durante anos. Ela sorriu para ele. Estava com vontade de chorar, queria que aquele momento fosse eterno. Mas nada dura pra sempre. Ela sabia mais do que qualquer um, que ao ficar ali do lado dele, estava apenas iludindo a ele e a si mesma. Mas era o que ela queria, e o que ela precisava passar pelo menos um último momento antes de partir por tanto tempo.

– Vou sentir sua falta – sussurrou ela para ele. Ele sorriu.

– Você pode voltar depois – falou ele. Aquilo a deixou imóvel, sem reação.

– Ricardo, eu... Minha família... Nós não somos pobres, mas também não temos dinheiro o suficiente pra me manter aqui por anos. Muito menos ficar indo e vindo todo mês. Nós não podemos fazer isso, sinto muito. Achei que soubesse disso.

– Mas a gente pode dar um jeito nisso.

– Lindo... Não é bem assim.

– Como não é bem assim?

– Não é...

– Quer saber? Eu também achei uma coisa. Achei que conhecia tudo sobre você, Carla, mas definitivamente não sabia que você é determinista.

Ele se levantou, vestindo a camisa e marchando furiosamente até a porta.

– Então é assim? – gritou, se virando uma última vez para mim – É assim que vai ser? Acabar aqui e agora, sem mais nem menos?

– Não é sem mais nem menos. Não posso voltar, você não entende. – Carla falou, tentando controlar a voz. Ricardo apenas revirou os olhos, batendo a porta com força.



“Sexta-feira,18 de Novembro,15h47min

Querido Capuccino,

Não houve nada melhor do que poder fazer as pazes com Ricardo. Não houve nada melhor do que saber que eu fiz o que eu realmente queria fazer antes de ir embora. Para não mentir, haveria sim algo melhor: poder ficar ali, com ele. Queria poder congelar nós dois. Eu já tive outros relacionamentos, e sei que sempre fui uma garota comportada e tudo mais, mas meu erro desta vez foi me envolver demais. E sim, eu amei ter me envolvido demais, mesmo que agora isso só irá me causar ressentimentos por não poder mais vê-lo depois.

Eu fiz tanta coisa nesses últimos meses... Se eu tivesse continuado no Brasil com toda a certeza não teria feito. Jamais teria conseguido ver Piratas do Caribe em cartaz por tanto tempo, nunca teria conseguido ver um museu com tanta arte em exposição – nem um sotaque tão engraçado –, e também nunca teria tido a brilhante ideia de tomar sorvete de Capuccino. Eu não sou idiota, não totalmente. Eu ficaria. Mas o intercâmbio tem prazo, eu só tenho mais um dia, não há mais como procurar emprego ou qualquer coisa do tipo. Não tenho condições suficientes pra me manter aqui por muito tempo. Nem a minha família tem.

Não sei o que vai acontecer agora. Ricardo acabou de ir embora, e ele estava muito chateado comigo. Me chamou de determinista, dá para acreditar? Não, não dá. Eu não sou determinista.

Mas definitivamente estou me sentindo assim.

E fico me perguntando: se eu sei que tudo o que eu disse para ele tem sentido, que eu realmente não tenho como arcar com um relacionamento a longa distância assim, por que a ideia de manter nosso amor parece tão certa para mim?

[...]

Carla”

•••

Ela segurou com firmeza o vestido de seda indiana que usou na noite anterior. Apertou-o contra o peito. Aquilo sempre a lembraria da noite perfeita que teve com Ricardo, que era uma das coisas que mais queria lembrar e guardar, e por isso o teria sempre consigo. Mas, ao mesmo tempo, traria mágoas, tentando-a a rasgá-lo. Ela o dobrou cuidadosamente e colocou-o na mala.

A campainha tocou. Um homem alto, moreno e um pouco gordo estava na frente de sua porta. Ele estava com uma bandeja com um copo posicionado no centro e a entregou, retirando-se do local. Havia um bilhete escrito no papelão que envolvia o copo de isopor do capuccino.

“Não vá sem antes me dizer adeus com as coisas acertadas. Encontre-me no aeroporto. Eu não desisti de nós. Também não desista.” – Ricardo.

•••

Os seus passos foram rápidos e nervosos. Carla precisava encontrá-lo, receber um conforto, dizendo que iria ficar tudo bem, que eles se veriam de novo, mesmo que isso fosse uma grande mentira. Quase tropeçou muitas vezes, inclusive deixou suas malas caírem pelo chão uma ou duas vezes, mas pegou-as novamente. Subiu a escada rolante, deslizando suas mãos pelo corrimão automático. Seu estado de nervos era expresso em sua face como nunca antes. Em algumas horas, ela estaria de volta ao Brasil. Com sua vida normal, amigos antigos e sem namorado. Tudo iria acabar em algumas horas. Mas talvez não precisasse ser assim, e aquele bilhete a deu a coragem que ela não teve antes para ver o quanto ela estava sendo determinista. Eles podiam lutar, claro que podiam.

Não que ela não fosse amar ninguém depois de Ricardo, e não que ela fosse amar. Mas precisava pelo menos resolver as coisas antes que fosse embora magoada.

Estava prestes a embarcar, já na fila para entrar no voo, e nada dele. Não viu nada. Nem mesmo um reflexo que parecesse com Ricardo. Olhou para trás, e lá estava ele, a uns quinze metros de distância. Poderia ter sido uma maravilhosa última visão, se não envolvesse outra pessoa. Lá estava Maria, em toda sua glória e roupas de grife, segurando a mão de um namorado que por acaso não era o dela.

Carla desviou os olhos por apenas um segundo, para se acalmar e não perder o controle, mas foi o suficiente.

Ricardo...

Seus braços estavam na cintura de Maria, e as mãos dela em seus cabelos. Os dois se beijavam ferozmente, como se tivessem se encontrado depois de muito tempo.

Foi demais para Carla. Lágrimas desceram de seu rosto, e os joelhos ficaram instáveis e fracos. Os dedos ficaram dormentes e o copo com o capuccino que ela segurava foi derramando todas as gotas de esperança que ainda restavam nela até que bateu com um som oco no chão – tão oco quanto a mente dela parecia nesse momento, se recusando a processar o que via, se recusando a aceitar a dor que queria tomar conta do coração estraçalhado que restara.

No meio dessa vontade de se afundar em torpor, ela conseguiu perceber a maior verdade. Já não mais importaria mais o quanto ela quisesse, ela nunca voltaria.

•••

Ele tentava empurrar Maria para longe, mas ela usava o impulso para longe para rebater e se jogar ainda mais em cima dele. Ele segurava a cintura dela, tentando empurrá-la, mas a força que ela usava era surreal. Sem mais opções, mordeu a língua da garota, que tentava loucamente achar uma resposta para o beijo. Ela deu alguns passos trôpegos para trás, com a mão na boca e a testa franzida cheia de raiva.

– Mas que... – ele não ouviu o resto, pois estava correndo para a fila de embarque.

Quando estava perto, estancou e sentiu uma vontade louca de que a respiração que agora era tão ofegante simplesmente parasse. Ela lhe lançou um último olhar cheio de lágrimas e correu para o avião.

O eco dos passos dela foi cessando, deixando para ele nada mais do que uma poça de capuccino e um copo de isopor com uma mensagem que já não fazia mais sentido algum.


Notas finais
O que vocês acharam do final?? Heein??