Passagem para o paraíso
1 Passagem para o paraíso (capítulo único)
Notas iniciais
Ela era gorda, baixinha, cheia de sardas e de cabelos crespos, ruivo claro. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia o sutiã com meias para complementar. Porém possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria com os melhores best sellers na vitrine. Pouco aproveitava. E nós, suas “amigas”, menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho da Agatha Christie – podia até ser aquelas versões de bolso –, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era da paisagem de Cabo Frio mesmo, onde morávamos, com seu Forte São Mateus mais do que visto.
Atrás escrevia com uma linda letra cursiva palavras como “feliz aniversário” e “te adoro”. Mas que grande maldade! Ela era pura vingança, mascando seu Trident. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos mais bonitas, esguias, altas, de cabelos liso. Fez comigo algo imperdoável, com a cara mais lavada. Na minha ânsia de ganhar um livro, eu nem notava os insultos me dirigia: continuava a implorar emprestados os livros que ela não lesse – sabia até que possuía uma coleção limitada de Harry Potter intocada. Até que ela começou a prática de sadismo sobre a minha pessoa. Calmamente, informou-me que tinha O Sol é Para Todos, de Harper Lee. Era um livro clássico, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, passeando, atravessando a rua sem olhar para o sinal, de tão perdida na leitura. E completamente fora do meu alcance, longe da pequena prateleira onde guardava alguns livros surrados e gibis em meu quarto. Me disse que se eu passasse pela sua casa no dia seguinte ela me emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei em outra pessoa: eu não vivia, sonhava acordada com ideia de folhear páginas, o cheiro de livro novo em minha mente me inebriando.
No dia seguinte fui à sua casa, correndo tanto que nem sentia meus pés. Ela não morava numa quitinete como eu, e sim numa casa com garagem para dois carros. Não me mandou entrar, fiquei parada no portão de ferro. Olhando dentro dos meus olhos, me contou que havia emprestado o livro a outra menina, Joana, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Entristecida, saí em choque, mas logo a esperança reapareceu me deixando excitada. E eu recomeçava a saltitar, andando do meu jeito único pela orla da Praia do Forte. Nem cambaleei, ou fui atingida por um carro: a lembrança da expectativa de ter o livro amanhã em minhas mãos me deixando mais alerta do que nunca. Imaginava como passaria horas, dias, semanas, segurando o livro; degustando cada palavra. Porém minha alegria durou pouco. A maldade da filha do dono da livraria era maior do que pensava. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, admirando os arbustos da frente, com um sorriso vacilante e o coração podendo ser ouvido em lugares diversos. Somente para ouvir isso: o livro ainda não estava com ela, a menina não havia devolvido. Que eu voltasse no dia seguinte.
Não acabou por aí. Quanto tempo durou? Não lembro. Minha ânsia para ter o O Sol é Para Todos era tanta que mesmo sabendo, no fundo, que ela estava me enganado, continuei indo dia após dia na vã esperança de que me emprestasse o livro. E assim dias passaram. Cada dia uma nova desculpa. Eu sentia a desesperança me consumindo, nunca tocaria aquelas páginas. Contudo, um milagre aconteceu. Seu pai, que chegou cedo do trabalho na livraria, ouviu nossa conversa. E perguntou a filha e a mim o que estava acontecendo. Depois de explicar, ele olhou com repreensão para filha e a mim com pena. E disse à filha: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E para mim: fique aqui que vou que eu já volto. Depois alguns minutos, de um silêncio consternado recebendo olhares raivosos de sua filha, o pai voltou de dentro da casa com uma caixa de papelão. O que seria? Eu me perguntei. Quando chegou perto, me disse: esses livros são pra você, alguns lançamentos do mês, além de O Sol é Para Todos; peço desculpas em nome de minha filha.
Não acreditei! Agradeci inúmeras vezes, olhei de relance em direção a menina que me fez tanto mal..
Então segurei a minha caixa de livros contra o peito – eram mais de cinco! – e fui para casa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, guardei todos na minha humilde prateleira, o brilho dos novos livros ofuscando os antigos. Fiquei olhando-os, maravilhada. Não conseguia acreditar na sorte que tive, eram todos meus! Peguei o livro da Harper Lee, li algumas páginas, alisei a capa. E então me sentei, com o livro sob o colo, e finalmente mergulhei nas páginas. Estava em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com a sua passagem para o paraíso.
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