Passado obscuro

1 O passado te condena


Notas iniciais
Mangá: http://myth.smackjeeves.com/comics/865667/myth-a-promise/

Essa fic foi feita para uma amiga, de quem eu sinto muita saudade e com quem já não tenho mais contado. Yuki, sinto tua falta 3
Bem, essa história foi escrita entre 2012-2013 e estou repostando agora, revisando a escrita e a coesão.
Espero que gostem dessa "nova versão".

– Me peça desculpas! – ouvia-se o grito ao longe.

Eu nem sabia mais por que essa louca queria que eu pedisse desculpas, o fato é que eu não iria pedir. Não mesmo.

– Hades! Espero que goste de ter um cachorro manco! – a deusa preparou mais uma de suas flechas, idêntica àquela que cravou no ombro do deus do submundo. Mirou na pata o cão gigante e soltou a corda. Um tiro certeiro e rápido, tão rápido que o deus só teve tempo de ouvir o animal grunhir.

Sua fúria não podia ser medida naquele momento. Fez Cérbero parar de correr e desceu de suas costas, materializando sua espada. Acompanhou com os olhos cada movimento de Artemis. Aguardou pacientemente que ela descesse de seu lobo e deixasse o arco e as flechas de lado, empunhando apenas uma pequena adaga.

– Eu avisei que se não pedisse desculpas, eu iria atirar! – Artemis não era do tipo que aceitava muito bem as coisas, muito menos algum tipo de provocação.

– E eu avisei que se atirasse no cachorro seria o seu fim. – sua voz era séria, sua expressão era de pura fúria.

– Pode vir. Te derrotaria de olhos fechados.

Um dos fatos curiosos sobre Hades, é que ele sabia muito bem como enganar as pessoas ao seu redor fossem elas deuses ou humanos. Sempre se fazia de indefeso quando podia, deixando a ideia de que era fraco, mas não era bem assim.

Moveu-se com velocidade incrível, mas sua oponente também era uma deusa. Artemis desviou de seu golpe, fazendo com que a lâmina apena cortasse alguns fios de seu cabelo. O que deixou o deus ainda mais irritado. Moveu-se novamente, dessa vez ainda mais rápido, acertando a perna da mulher, causando um corte profundo. A luta acontecia de forma muito rápida, mais rápida do que os olhos humanos poderiam acompanhar. Alguns fios de cabelo loiro voavam para o chão a cada investida. Quando o deus se deu por satisfeito, parou e olhou sua oponente, os cortes sangravam o suficiente para acabar com qualquer mortal, seu cabelo estava péssimo. A adaga que ela usava inicialmente havia sido atirada longe no meio da batalha. Os olhos negros de Hades estavam fixos nos dela, mas ainda havia um tom de desafio ali. Num piscar de olhos, Artemis havia sacado uma de suas flechas e aberto um ferimento profundo no antebraço direito do deus. A ferida queimava e tinha deixado-o um tanto desnorteado. Foi obrigado a segurar a espada com a mão esquerda e antes que a deusa pudesse se vangloriar de algo, derrubou-a no chão e se sentou sobre sua cintura, imobilizando-a.

– Quando lutar com um deus, deve ter certeza de que pode vencer, ou vai acabar assim novamente. – cravou a espada na palma de sua mão, arrancando um grito de dor, quase ao mesmo tempo em que foi atirado longe pelo lobo prateado. Levantou-se rapidamente a tempo de ver Artemis jogar sua capa sobre a espada e montar no animal.

– Não vai conjurar sua espada por um bom tempo – sorriu convencida de sua vitória.

A fúria de Hades apenas aumentou, se é que era possível. – Sabe que é proibido tirar o símbolo de poder de outro deus! – vociferou a voz grave ecoando por todo o lugar – Me devolva ou vai se arrepender!

– E o que vai fazer? – perguntou em tom de deboche.

– Declaro guerra agora mesmo, Artemis! Você sabe que suas caçadoras não podem fazer nada contra mim! Não são páreo para um dos grandes! Agora me devolva e eu reconsidero o seu caso!

Artemis encarou-o como se duvidasse, mas ele não brincaria num momento como esse. O que fez a deusa recolher a capa e desaparecer dali.

– Eu vou acabar com você... – falou para si mesmo. Andou até Cérbero e usou seu cosmo para cicatrizar o ferimento em sua pata. Pegou sua espada no chão e voltou a montar no animal. – Não perde por esperar “sobrinha”.

Os dois não se encontraram por um bom tempo. Artemis teve trabalho com os ferimentos que Hades causou em seu corpo. A espada que ele carregava tinha propriedades mágicas, fazia com que cada ferimento aberto queimasse como fogo e demorasse ainda mais a cicatrizar, mesmo em um deus.

Era dia, hora em que Artemis — ao contrário de todos os outros — dormia. Deuses não precisam dormir, não precisam comer. Mas era o que faziam quando precisavam recuperar suas forças. E como sempre acontecia, Hypnos entrava em ação. Aquele era um sonho que ela não iria esquecer.

Avistou a criança a correr pelo jardim. A grama verde tocava seus pés descalços. Tinha os cabelos e olhos mais negros que a mais profunda escuridão, a pele era branca como neve. Corria com os braços abertos, como se estivesse voando, nem parecia notar que ela estava ali. Alguns segundo observando-o e ela o reconheceu, não por se parecer com o deus que conhecia, mas por seus olhos. Surpreendeu-o chegando por atrás e pegando a criança no colo.

– O que está aprontando, senhor Hades? – perguntou com a voz calma, como raramente falaria com o deus.

– Eu sou um pássaro – falou sorridente. Balançava as pernas querendo voltar para o chão e correr.

– E para onde você vai voar?

– Para junto dos outros pássaros – sorriu radiante – quero ser livre como eles.

A deusa retribuiu o sorriso e colocou o pequeno no chão – Quero te mostrar algo. – sentou-se no chão e soltou um leve assovio, logo em seguida um pardal pousou em sua mão.

– Que lindo... – o jovem deus se impressionou com a beleza do pássaro. Estendeu a mão para tocá-lo, mas não sabia se deveria.

Artemis percebeu o êxito e então deixou as mãos em formato de concha, aconchegando o pássaro ali – Quer tocá-lo?

Receoso, o menino se aproximou e acariciou a cabeça do animal com o dedo indicador, um sorriso nos lábios – Ele é lindo...

Ela não resistia a um sorriso como aquele. Não conseguia deixar de se perguntar se era aquele mesmo deus que ameaçara declarar guerra.

– Vou soltar ele agora, tudo bem?

Ele assentiu com a cabeça, acompanhando o pássaro voar para longe. – O lugar dele é lá... – apontou para o céu – voando livre. Um dia eu vou ser livre como ele e então vou poder voar todos os dias e ver o sol nascer. – seu sorriso era inocente.

A deusa não entendia como uma alma tão pura e boa poderia ter sido escolhida para reger o mundo inferior. – Você gosta de ver o sol nascer?

– Sim, eu gosto. É muito bonito, tudo parece mais bonito com a luz do sol. – e balançava para frente e para trás – agora eu vou voar moça, até mais. – voltou a correr pelos extensos campos do monte Olimpo.

Artemis acordou a tempo de ver o deus do sono deixar a varanda de seu templo. Queria respostas, queria saber se aquilo tinha algum significado ou se era para ela apena se arrepender de ter provocado tanto o deus do submundo. Não demorou a se vestir e sair em busca de Hypnos, mas encontrou apenas Poseidon no caminho.

– Parece que vai á caça, Artemis... – falou o deus dos mares, sempre brincando com a deusa.

– Não desta vez, Poseidon. Estou procurando Hypnos, o viu?

– Não... – estreitou os olhos – Por que o está procurando? Já sei, teve pesadelos e agora vai lhe sentar a flechada assim como fez com Hades – falou no tom debochado de sempre.

Artemis não deu atenção e saiu andando, estava acostumada com o jeito de Poseidon, sempre irritando a quem podia. A deusa andou por boa parte do monte Olimpo e não encontrou nem sinal de Hypnos. Já era noite quando ela se deu por vencida, mas então sentiu sua presença, indo diretamente ao encontro dele.

– O que significa aquilo?! – exigiu saber.

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– Onde estava Hypnos? – Hades perguntou. Os braços cruzados na frente do peito – Te procurei a tarde inteira. Não senti seu cosmo pelo castelo.

– Estava fazendo meu trabalho no Olimpo, meu senhor. – Hypnos era um dos deuses que servia aos ideais de Hades.

– Você nunca faz isso, sempre faz tudo daqui. A não ser que queira controlar tudo de perto...

Ele sabia que Hades queria uma resposta e que não o deixaria sair até que a obtivesse. Levantou-se e encarou o deus do submundo, não como um de seus aliados, mas como o deus que era. – Achei que já era hora de você e Artemis pararem de se enfrentar. Não precisamos de mais discórdia no Olimpo. – sua voz era séria. Era difícil sustentar o olhar de Hades, profundo e um tanto aterrorizante quando ele queria.

– O que a mostrou? – Hades sabia que agora não ia adiantar ficar irritado com ele, já estava feito.

– Sua infância. A melhor memória que tem dela.

Hades bufou, se irritou, por mais que não quisesse – Eu não preciso de alguém pra ficar com pena da criança que eu fui, Hypnos! – vociferou.

– Não foi para sentir pena que eu a mostrei! Eu não quero que o senhor volte para o castelo da maneira como voltou dias atrás! – segurou o pulso de Hades, fazendo-o descruzar os braços e puxou a manga de seu manto, revelando a cicatriz que o ferimento causado por Artemis deixara. – Não quero que isso se espalhe por todo seu corpo! – falava sério.

– Isso não lhe diz respeito. – falou com a voz mais baixa, reconhecendo que o deus agira por bem, mas ainda irritado por ter seu passado descoberto.

– É claro que diz. Se você não estiver aqui quem vai dar continuidade à Guerra Santa? Thanatos e eu não podemos fazer isso sozinhos.

Hades se calou. Puxou o braço de volta, cobrindo a cicatriz com o manto. Não havia o que retrucar.

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– E por que achou interessante me dar um sonho como esse? – a deusa perguntou olhando em seus olhos dourados.

– Porque existem coisas que você julga sem saber. – Hypnos respondeu em um tom baixo e calmo, como era de costume.

– Era real?

O deus sorriu ao ouvir o tom de voz que Artemis usou. – Sim. Nada mais do que uma memória viva de Hades. A melhor que ele tem.

Ela assentiu com a cabeça. – Como ele se tornou do modo que é?

– Isso não cabe a mim responder. Não apenas por não me dizer respeito, mas por eu não saber a resposta.

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Caminhou pelos corredores escuros até chegar a uma porta alta e escura. Era moderna, contrastando com o resto das coisas no castelo, puxou-a para um dos lados, revelando um ambiente claro e bem iluminado, ao contrário de todo o resto. Avistou o deu sentado na cadeira, revisando uma pilha de papéis sobre a mesa de vidro. Ele nem se deu o trabalho de levantar os olhos.

– O que quer Artemis? Diga logo, estou ocupado.

A deusa suspirou e se aproximou, era estranho ver Hades vestido com terno e gravata, se vestia assim apenas quando visitava o mundo humano. Sentou-se na cadeira de frente para ele, finalmente ganhando sua atenção.

– Eu quero propor uma trégua. – falou olhando em seus olhos negros.

– Eu não preciso que você sinta pena do que eu fui – falou entre dentes, já prevendo o porquê daquilo tudo.

– Eu não sinto pena de você, Hades. Não me faça rir. – Artemis continuava séria – Eu só não quero mais que aquilo aconteça. Cansei de brigar.

– Que seja, mas por que eu deveria confiar em você?

– Sua delicadeza me comove... – sorriu – estenda a mão.

O deus estendeu a mão como ela havia pedido, olhando em seus olhos. Viu a luz prateada a envolver.

– Então... É trégua. – falou com um sorriso nos lábios e desapareceu logo em seguida.

Hades abriu a mão, sorrindo ao ver o pardal esculpido em madeira. Um bilhete escrito à mão surgiu sobre a mesa.

“Espero que goste do pedacinho de liberdade.”

Seu sorriso se abriu, o deus pegou um cordão e amarrou o pequeno obejeto, pendurando-o no pescoço e escondendo por debaixo da roupa.

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Hades sempre foi o mais sério de nós três, ria poucas vezes e seu olhar era sempre misterioso. Como irmão mais velho, sempre era cobrado mais dele, mais postura, mais respeito. E isso foi o que – em parte – acabou com a criança que ele era... Mas isso não foi nada comparado com o que aconteceria alguns anos depois. Começou alguns dias depois daquele em que ele corria feliz e falava sobre liberdade.

Ele sempre visitava Cronos. Talvez porque ainda tivesse esperança de que o velho fosse deixar aquele trono e cumprir o papel de um pai. Eu nunca soube realmente o que houve, Hades esconde isso muito bem, mas Cronos passou a controlá-lo, queria destruir Zeus, era a única coisa em que ele pensava. Nunca soube que é amor, nunca reconheceu o que Hades fez e faria por ele. Ainda éramos pequenos quando ele tentou assassinar Zeus pela primeira vez, eu e Réia conseguimos detê-lo, mas isso custou a vida dela... Depois disso Zeus conseguiu fugir e se esconder, eu não pude fazer nada contra Hades, era meu irmão e era mais poderoso do que eu.

Conseguimos nos juntar e derrubar Cronos, mas Hades não era mais o mesmo, não haveria como ser... Ninguém sabe o que Cronos colocou em sua mente, ele não fala sobre isso. E ainda se sente culpado por ter atentado contra a vida do irmão mais novo, por isso se curva à todas as vontades de Zeus. Já eu acho que ele é um idiota mimado, não merece a devoção de Hades. É mais do eu óbvio que ele roubou na escolha e mandou Hades para o inferno. Ele sabia que tudo o que Hades mais amava era a luz e a vida, por isso tirou tudo dele. Mas Hades aceitou tudo calado, como punição por se deixar controlar por Cronos.

Em minha opinião, Hades já aguentou demais, e fosse eu daria um belo murro no mimadinho ali, mas não posso fazer nada.

Bem, era saber sobre o passado dele que você queria, agora que sabe, com licença, senhorita rainha das caçadoras – Poseidon falou, deixando o local com uma reverência e um sorriso sarcástico.

Notas finais
Espero que tenham gostado. A história do mangá é realmente muito bonita, e eu gosto mais dela do que a mitologia XD
Yuki e eu escrevemos essa história em um dos nossos RPs na fandom de Saint Seiya no tumblr e é minha história preferida, justamente pelo passado de Hades.
Comentários são bem vindos ♥ beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!