Passado X Presente
2 Rio de Janeiro
Notas iniciais
As palavras ecoavam dentro do crânio de Rio de Janeiro, fazendo-o estremecer involuntariamente, não de dor, mas de receio. Porém o presidente continuava seu discurso com tal furor, quase com raiva, tão destoante de sua personalidade usualmente calma e pacífica que o carioca começou a se questionar se ele não estaria bêbado. As pessoas do Automóvel Clube não se mexiam, como se vítimas de um encanto. E o presidente João Goulart continuava, gesticulando como se tivesse em sua volta não somente os sócios do clube, mas todo o Brasil. Jornalistas levantavam seus microfones mais alto, tentando captar cada palavra do discurso. Rio de Janeiro, no entanto, não estava enfeitiçado pelas palavras que seu chefe proferia, o que o ajudou a observar alguns poucos rostos naquele mar de pessoas. Rostos impassíveis, rostos furiosos, rostos desdenhosos e perigosos. Militares. Eles estavam em todos os lugares ultimamente, e Rio de Janeiro não era idiota. Ele sabia o que eles queriam, ele sabia que a corda bamba na qual ele tentara conduzir o presidente havia sido cordada, e os equilibristas logo iriam cair.
Ele saiu para rua, com uma súbita necessidade de ar fresco. Carros passavam na avenida abaixo, pessoas voltando para suas casas. Alheias ao que estava ocorrendo, alheias ao que iria acontecer, ao que causaria um desmoronamento de tudo que eles conheciam. De repente, Rio de Janeiro não conseguia mais respirar, e uma dor começou a se espalhar do seu torso até seu coração. Sendo uma capital já faz algum tempo, ele reconheceu a estranha sensação, e quando um mensageiro apareceu com um telegrama vindo de Minas Gerais, o carioca nem precisou ler para saber o que estava acontecendo. O golpe começara. E ele não conseguiria pará-lo. Promessas vãs ecoavam em seus ouvidos. "Futuro", elas diziam. Sim. Um futuro de incerteza. De força bruta.
As esperanças de Rio de Janeiro pareciam estar desmoronando uma a uma, e todas as mentiras com as quais confortara seus irmãos pareceram rir em sua cara, mostrando a ele que boas intenções não protegem famílias.
Na manhã seguinte, quando eles bateram em sua porta, Rio de Janeiro nem mesmo levantou-se da cama onde havia caído, ainda vestido, na noite anterior. Tudo estava perdido. O que restava agora eram apenas seus sonhos e a mensagem rabiscada com sangue em sua parede.
"Desculpa"
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