Notas iniciais
Drabble inspirado na frase "Rio Grande do Sul" da minha fic "27 Vozes". "Se todo Estado tem um fato do qual, mesmo com o passar dos anos, eles não conseguem se perdoar, o de Rio Grande do Sul é o de ser a "Mãe dos Ditadores"." Aproveitem, PhoenixOfWind

Aquele prédio sempre a assustara. Grandiosa, com seu pequeno jardim e altas paredes, com sua bandeira verde-e-amarela dançando na brisa da tarde no meio do pátio, a Academia Militar de Porto Alegre repousava, gigantesca, um marco no coração da capital. E no de Rio Grande do Sul também.

(Ela conseguia se lembrar dos dias nos quais ela percorrera fileiras e fileiras de futuros militares, estáticos em atenção. Ela lembrava-se de seus olhares confusos e indagadores, afinal, o que uma mulher estava fazendo na Academia? Mas o pior de tudo era que ela lembrava, com vívida intensidade, dos rostos deles. Cinco rostos diferentes, mas com os mesmos olhos frios. Aqueles olhos sempre a assombrariam.)

Como um simples prédio poderia ter causado tanta dor? E não somente nela, sua criadora, mas em todos seus irmãos? Uma voz em sua mente sussurrava, persistentemente, que tudo tinha sido culpa dela, Rio Grande do Sul. Todas as mortes. Todos os gritos. Todas as cicatrizes que adornavam os corpos dos estados, até mesmo o seu próprio. E ela concordava com aquela voz sibilante. Tinha sido sua culpa. Ela havia falhado como estado, ela havia se tornado, como muitos a chamavam hoje em dia, a "Mãe dos Ditadores". Tinha sido ela a principal causadora da miséria que envolvera o país. Ela e aquela maldita Academia.

(E de pensar que ela já olhara aquele prédio com orgulho, dizendo ao Pai que dele, que dela!, viriam os futuros heróis do país! Ele havia sorrido. E aquela esperança, aquela confiança, havia sido manchada de sangue.)

Ela não se aproximaria daquele lugar. Se ali, do outro lado da rua, ondas de náusea e dor já a dominavam, o que possivelmente poderia acontecer se ela ficasse frente a frente com aquele colégio? Muitos diziam que ela era corajosa, mas não. Rio Grande do Sul era covarde. Ela procurava refúgio contra as incertezas do futuro no passado, mas ela não podia recorrer à essa tática quando o que a assombrava era o próprio passado. Os fantasmas de sua memória sempre seriam mais fortes do que ela. Realmente, uma covarde.

(Talvez ela fosse visitar o cemitério ali perto. A gaúcha era a única que sabia que muitos dos desaparecidos se encontravam lá. Se ela não conseguia lutar contra a culpa, era melhor abraçá-la.)

Rio Grande do Sul era incapaz de esquecer. Vitórias gloriosas, derrotas humilhantes, todo seu passado remexia-se, inquieto, dentro de sua mente. Em cada passo que ela dava naquelas ruas antigas do centro da cidade, ele ressurgia. Em cada cadete que ela via sair daquele prédio amaldiçoado, em cada olhar que ela trocava com seus irmãos. Não importava quanto tempo fazia desde aquela época, a culpa sempre estava ali. Os anos passavam, mas Rio Grande do Sul não conseguia se perdoar.

Notas finais
Realmente existe um cemitério perto da Academia Militar, sabiam? Eu sempre achei isso um tanto perturbador. Aí eu tomei uma certa licença poética para escrever sobre ele. Espero que tenham gostado.