Passado, Presente ou Futuro
15 Capítulo XV
Notas iniciais
Quando acordei, porém, dessa vez, não fiz meu reconhecimento da área usual. O motivo tinha nome: Will.
– Bom dia, Ella. — ele disse, beijando minha testa.
Ele estava sentado na maca e segurava minha mão, do mesmo jeito que na noite anterior, porém a mão esquerda. Vestia a blusa do Acampamento, assim como no dia em que nos conhecemos. E no dia seguinte. Talvez ele devesse variar um pouco.
– Oi. — respondi, sorrindo.
– Estou atrasado, mas prometi que não sairia do seu lado enquanto não acordasse.
– Ah. — me sentei e percebi que meu ombro praticamente não doía mais. — Mais esgrima?
– O que mais seria? — ele abriu um sorriso, me fazendo sorrir também. — Quero saber se você me libera.
– Te libe... Ah. Não. — respondi, forçando seriedade ao máximo, mas logo comecei a rir.
– Eu posso ficar, se quiser.
– Não, Will. — falei, dessa vez sinceramente. — Não vou deixar. Vai logo.
Ele riu como se lembrasse de alguma coisa e me puxou para um beijo e, sem falar mais nada, correu.
Olhei para o curativo, que parecia bastante menos nojento que o anterior, embora coçasse mais. Por causa disso, resolvi tirar sozinha.
Foi complicado e enjoado, pois eu não tinha os instrumentos certos, ou melhor, nenhum instrumento. Mas logo consegui achar a ponta e comecei a desenrolar a faixa, que embora provavelmente menos que a anterior, tinha bastante sangue. Assim que terminei, joguei a faixa no chão e examinei meu ferimento. Já havia uma casquinha se formando e talvez fosse minha cabeça pregando truques, mas parecia que o diâmetro havia diminuído bem pouquinho. Obviamente nas costas estaria pior, mas eu não tinha como ver. Tentei mexer o ombro e contive um grito. Eu não conseguia mexer sem sentir toda aquela dor absurda do dia anterior e, embora isso fosse esperado, eu tinha esperanças de que a ambrosia faria sua mágica e me curasse rapidamente. Não rolou, Ella, não rolou.
Assim que a Nick chegou – depois de berrar comigo por ter tirado a faixa sozinha –, ela colocou algum tipo de tala e me enfaixou de novo. Embora eu tenha praticamente ajoelhado aos seus pés, ela negou de pés juntos me dar ambrosia. Aparentemente, eu havia extrapolado meu limite da vida inteira em um dia e por mais que eu dissesse que não tinha problemas com me queimar, ela se recusava a correr o risco. Ela disse que eu descansasse, pois a adaga havia acertado uma veia importante e se meus batimentos aumentassem, eu corria um risco, mais ou menos 40% de chance de morrer.
Eu não acreditava que passaria um dia inteiro fazendo nada, sentada naquela maca chata, naquela ala hospitalar chata. Perguntei-me onde estaria meu perigo e a ação de semideusa naquele momento. Um dia pensando na vida era inaceitável, pois eu começaria a tentar descobrir meu passado e além de sentir mais dor de cabeça, trairia minha decisão de não procurar nada do tipo. Então me resolvi. Eu havia fugido da ala hospitalar uma vez, uma segunda vez não seria tão difícil, seria? Tudo bem que a ala estava cheia, por causa dos feridos no caça – mesmo não estando tão cheia quanto na noite anterior – e meu ferimento não tinha sido curado magicamente como o da primeira vez. Mesmo assim comecei a bolar meu plano. Inconvenientemente, minha maca era a última, o que significava que eu precisaria passar por todas as outras macas até chegar à porta. Alguns semideuses que se assemelhavam a médicos – provavelmente filhos de Apolo – andavam de maca em maca, o que atrapalhava ainda mais o meu plano.
Depois de ponderar bastante, encontrei o plano perfeito. Levantei-me num momento em que a Nick não estava entre mim e a saída, armei minha postura confiante – apesar de estar com um curativo gigante no ombro – e simplesmente saí andando, normalmente. Ninguém pareceu suspeitar de nada nem tentou me impedir, e até um ou outro campista sorria para mim enquanto eu passava por suas macas. Não pude conter um riso ao atravessar a porta e saí andando sem rumo, pelo Acampamento.
– Que pena que foi o ombro, hein? Esperava que pudéssemos ter mais uma aula de arquearia. — um loiro se dirigiu a mim.
– Ah, oi Lyu. — sorri, feliz por encontrá-lo. — Estou feliz por não ter sido uma perna ou sei lá. Não aguentaria ficar sem andar.
– É, pode ser. — ele deu de ombros.
– Está indo para a ala hospitalar? Por favor, não diga a Nick que me viu, ela vai me matar assim que souber que fugi.
– Ah, não. Dentre as minhas habilidades herdadas do meu pai, medicina e afins não estão na lista. — seu tom despreocupado mudou para acusador e ele arqueou uma sobrancelha. — Você disse fugi?
– Disse? Não me lembro disso. Eu disse caí. — respondi, rindo.
– Ah, claro, entendo. — ele suspirou. — Foi muito legal te ver, mas estou meio que atrasado pra uma coisa.
– Chata? — perguntei
– Muito.
– Boa sorte. — disse, dando um soco em seu ombro — com minha mão esquerda, claro — como sinal de encorajamento.
– Até mais.
Embora tenha achado meio suspeita essa “coisa” para a qual ele estava atrasado, logo esqueci, afinal, não era da minha conta. Ele era um conselheiro, e eu uma novata. Talvez eu também tivesse coisas chatas para fazer logo.
Depois de um tempo andando a esmo, percebi para onde meus pés me levavam, e apesar de não ser a arena de combates, onde o Will estava, fiquei feliz por saber que encontraria rostos familiares no chalé 1.
Um garoto que eu não conhecia estava de pé encostado à parede do chalé. Ele era alto e esguio e vestia uma camisa roxa com as letras SPQR em dourado assim como a coroa de louros que envolvia as letras, uma calça jeans preta e coturnos – o que me fez pensar que ele estava doente, pois com o sol praticamente a pino, a temperatura no Acampamento só aumentava. Seus cabelos pretos estavam bagunçados de forma que parecia que ele havia acabado de levantar da cama e seus olhos negros me encaravam com curiosidade. Não baixei o olhar e o encarei de volta. Ele desviou o olhar e quase me senti vitoriosa na disputa, mas então percebi seu motivo. A Madu acabara de sair do chalé, falando alguma coisa que não entendi. Assim que me viu, ela fez sinal para que eu chegasse mais perto.
– Ei Ella! Achei que fosse ficar na ala hospitalar o dia inteiro. — ela falou, ignorando o garoto.
– Hm... Fui liberada mais cedo, mas não posso me mexer muito bem. — menti, apontando para o curativo gigante. Ela não pareceu acreditar.
– Como você arrumou isso? — o garoto perguntou, ainda com o olhar curioso.
Abri a boca, mas Madu falou antes que qualquer som saísse:
– A Ella arrasou no caça ontem à noite. Rendeu o Will sozinha e alertou à defesa de que haviam inimigos perto da bandeira, dando bem o tempo que eu precisava para capturar a bandeira azul.
– O Will, é? — ele perguntou.
– Ah! Quase esqueci. Ella, esse é o Champs. Champs, essa é a Ella, minha mais nova maninha.
– Que espécie de nome é Champs? — perguntei, com desdém.
– É meu apelido. Meu nome é Matheus, mas me chamam de Champs porque eu costumo vencer tudo o que participo. Champs, champion, campeão.
– E humilde. — sussurrei para mim mesma.
A Madu riu e percebi que eu talvez não tivesse sussurrado baixo o suficiente.
– Ella, estávamos indo para o refeitório encontrar com a galera e, já que você perdeu a comemoração de ontem, o que acha de se juntar a nós?
– Ela vem com a gente. — Matheus respondeu por mim.
Pensei seriamente em dar uma resposta malcriada a ele, mas me contive. Ele receberia o que merecia mais tarde. Assenti para a Madu e nós duas andamos lado a lado, o deixando para trás.
– Ele é do Acampamento Júpiter. — ela sussurrou para mim. – Nossos Acampamentos tem um sistema meio que de intercâmbio. Todo final de semana um certo número de campistas pode ir para o outro Acampamento se tiver notas e comportamentos “satisfatórios”.
– Ele não me parece do tipo satisfatório, Madu. — sussurrei de volta.
– Espere até a segunda-feira e então tente repetir isso. — ela riu.
– Não vou esperar coisa nenhuma.
Quando chegamos lá, vi que “a galera” era, na verdade, meia dúzia de pessoas. Dentre essas pessoas, duas eu não conhecia. Uma era loira, de cabelos compridos ondulados e olhos azuis um tanto acinzentados. Mesmo sentada, eu conseguia ver suas curvas, ela era muito bonita, mas se sentava ao lado do Pablo, o que me deu um tanto de ciúmes. Já a outra, tinha cabelos negros, compridos e lisos. E quando digo compridos, quero dizer compridos. Mesmo presos em um rabo de cavalo, seus cabelos iam até a altura da cintura. Usava uma blusa como a do Matheus, e sua pele estava morena de sol, o que percebi por causa da linha vermelha queimada de sol abaixo de seus olhos, passando pela ponte do nariz. Ela parecia um tanto tímida, diferente da primeira, que conversava e ria alto. Os outros eram Pablo, Gustavo, Felipe – o loiro gostoso, digo, alto que eu havia reparado na reunião – e Nando.
– Ella! — Pablo foi o primeiro a me notar.
– Eu a busquei na ala hospitalar e trouxe para cá, lá estava um tédio. — Madu falou antes que eu pudesse abrir a boca e vi que realmente ela não tinha acreditado na minha desculpa e não queria que ninguém mais se encrencasse com aquilo. Esperei Matheus protestar, mas não.
– Nossa. Achei que você ainda fosse ficar o dia inteiro lá. Pelo que a Nick me disse...
– Ah, vocês não acharam mesmo que iam me privar da diversão, acharam? — interrompi o Gustavo, fazendo todos na mesa rirem.
As apresentações foram rápidas. A loira se chamava Lauren, a morena Mikaela – mas a chamavam de Mika. Apresentaram-me ao Felipe, mas se referiram a ele como Ferrari, o que imaginei que fosse um apelido ou sobrenome. Então comecei a comer. Não tinha percebido que estava com fome até sentir aquele cheiro de café da manhã. Também não percebi o quanto tinha comido até que Matheus chamou minha atenção.
– Acho que temos aqui alguém que pode competir com o Pablo e o Nando, o que acha, Ella?
– Que? — perguntei, tentando entender.
– O que o Champs quer dizer é que você come muito. — Gustavo falou e vi nele um sorriso ameaçando aparecer.
– Por mais incrível que pareça, ele foi até educado quanto a isso. — Lauren completou, rindo.
– Se isso é educação... — observei, empurrando meu prato para longe.
– Eu ainda estou aqui, gente, ouvindo. Mas falei sério. Finalmente alguém pode desbancar vocês, caras.
– Ninguém me vence e você sabe disso. — Pablo brincou, rindo.
– Aparentemente o campeão não é tão campeão assim, não é? — provoquei, arrancando mais risadas.
Naquele momento eu meio que me desliguei de tudo. Simplesmente olhei para eles como se eu não estivesse lá, como se fosse uma cena de filme. Como eu sentava na cabeceira, tinha visão ampla de todos. Todos riam e eu sabia que realmente estavam felizes. À minha direita, Lauren era seguida de Pablo e seus braços roçavam de vez em quando. Depois deles, Ferrari e Mika, que tinham as mãos entrelaçadas embaixo da mesa. À minha esquerda, Gustavo e Nando, que, com seus jeitos responsáveis, se juntavam à brincadeira. Brincadeira que consistia em falar do Champs, que se sentava depois da Madu, que parecia cutucá-lo o tempo todo. Eles são como uma família, pensei. Era sobre isso que o Gustavo falava no dia anterior. A vida de semideus era um fardo muito grande para se carregar sozinho, mas lá estava a solução: amigos. Família.
– O que acha, Ella? — Lauren me tirou do devaneio.
– Que o Champs precisa urgentemente de um novo apelido. Esse não rola mais. — respondi, rindo junto a eles.
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