Passado, Presente ou Futuro
22 Capítulo XXII
Notas iniciais
A floresta estava escura. Mais do que nas outras vezes em que estive lá. Por causa das árvores muito altas e muito juntas, a luz da lua era algo inexistente lá. Qualquer tipo de luz, na verdade.
Meus pés ainda não me obedeciam e continuavam adentrando a floresta apesar de eu não enxergar um palmo à frente do meu nariz.
Não, disse a mim mesma. Você não vai se permitir isso, Ella. Você não vai...
Tropecei na raiz de uma árvore.
Valeu, Mapa. Magia de Hécate não tem sensor? Conveniente.
Me levantei – ainda contra minha vontade – e continuei andando.
Àquela altura meus olhos já haviam se acostumado com a escassez de luz e....
Ah não, não brinca...
Uma árvore bem na minha frente chegava mais perto e mais perto.
E eu não conseguia desviar.
E chegava mais perto.
É, bati de frente com a árvore.
Não, não foi legal.
Pouco antes de meu corpo reagir e levantar, ouvi um barulho à minha direita que me fez ficar alerta. Tão alerta quanto qualquer pessoa que não tem o controle de seu corpo pode ficar. O que não era muito.
Me levantei e ouvi o barulho novamente, mais nítido. Era um farfalhar de folhas. Me lembrei imediatamente do monstro que havia mordido minha perna e me xinguei mentalmente por não ter levado uma arma – antes de me lembrar que não adiantaria nada uma arma considerando meu estado.
Que delícia, hein.
O barulho aumentava, chegando mais perto de mim. Ou eu chegando mais perto dele.
Como último recurso, sem saber o que fazer, tentei me comunicar com meu pai.
– Se você estiver me ouvindo, Sr. Dono do céu, Pai do raio, Fabuloso, sei lá o que, poderia me dar uma ajudinha aqui? Sabe, coisa pouca. Eu ia ficar bastante feliz, sabe? Ia ficar te devendo minha vida e tal... Ia ser legal, não acha? – murmurei.
Agora é com você, grilo. Ou com você, farfalhar acompanhado de gemidos.
O que? Gemidos?
Me forcei ao máximo ficar parada, e por alguns segundos recuperei o controle o suficiente para ouvir respirações ofegantes e entrecortadas bem à minha direita, do outro lado de um monte de árvores.
– Ana...
Ué, o monstro fala?
– Desculpa, Bay... Te arranhei de novo?
Revirei os olhos querendo me bater. Confundi um casal se pegando com um monstro. Palmas para a Ella. Melhor e mais preparada semideusa do mundo. Super merece uma missão. Vai morrer lá.
Me joguei sentada do chão e abracei minhas pernas com força.
Eles caíram no chão, a garota em cima do garoto. Eles praticamente rolavam na terra se pegando.
Como meus olhos já tinham se acostumado completamente com a escuridão, pude enxergá-los bem. Ana era uma garota aparentemente nova, mas com corpo de mulher. Ela usava um vestido de alças – cujo comprimento não dava para saber ao certo, pois eles estavam rolando – amarelo claro, que começava a se tornar marrom. Tinha cabelos e olhos que estavam negros na escuridão, mas suspeitei que fossem na verdade castanhos. Ela tinha um arco e uma aljava pendurados no ombro – até o momento em que o garoto os tirou dela, jogando na terra. Bay era esguio com a pele muito branca, que criava certo contraste tanto com seus cabelos quanto com a noite. Ele usava um moletom azul de capuz e uma calça jeans.
– Eu poderia ser arranhado por você o dia inteiro. – Bay disse, seguindo outra sessão de beijos.
Eu lutava contra a compulsão. Mais que tudo, precisava chegar ao Anfiteatro para apresentar a profecia como minha, antes que a Mapa o fizesse.
Um barulho cortou o ar à minha esquerda e me xinguei – sim, de novo – por ter baixado a guarda.
Era um barulho que eu me lembrava muito bem e se assemelhava a um... latido.
Sim, era o mesmo monstro que havia me mordido no dia em que fui à floresta com o Lyu. Ele era...
Um cão?
Parecia um cão – ou talvez um lobo – gigante e negro que avançava em minha direção.
Fiquei com medo de levantar, poderia acabar indo de encontro ao monstro.
Reparei no casal novamente e eles já estavam de pé. Ana empunhava o belo arco dourado e já mirava no monstro, enquanto Bay já empunhava uma longa espada negra, cuja bainha em seu cinto eu não havia visto. Ana atirou uma saraivada de flechas, que parecia ter acertado as pernas do animal.
Vendo-os lutando, me deixei levantar. Por algum motivo, a compulsão não parecia mais tão forte quanto antes.
– Ei cãozinho, ei psiu, vem aqui cãozinho. Deixe o casal se pegar em paz, cachorrinho lindo.
Fui andando em direção ao cão, que se alarmou ao me ver e simplesmente se esqueceu do casal.
– Ella, é você? – Ana perguntou, ainda mirando no bicho.
– É, sou eu. – anunciei. – Seria um prazer conhecer vocês, se não tivesse essa ligeira impressão de que vão ser as últimas pessoas que vou conhecer.
Eles entenderam a deixa e começaram a atacar. Eles eram uma dupla e tanto, mas embora o cão grunhisse a cada ataque, ele não desistia de seu alvo – no caso, parecia ser eu – que espertamente continuava andando lentamente em sua direção.
Bay se colocou em minha direção, me defendendo e atacando o monstro. Revirei os olhos. Eu havia chegado no Acampamento há três dias, e em três dias, as pessoas insistiam em me salvar e proteger.
O cão deu uma patada em Bay, que foi jogado aos meus pés. Ana, empunhando uma pequena adaga, partiu em direção ao monstro, conseguindo rasgar uma de suas pernas, deixando-o manco. Mas ele tinha mais três pernas ainda.
Olhei para Bay, que estava bem – só sangrando um pouco –, antes de o monstro pular por cima dele, em mim, mordendo minha coxa dessa vez. E não soltou.
A dor – de algum modo – desativou completamente a compulsão em mim, mas apesar de a compulsão ter dado tchau, a boca do monstro não. Seus dentes permaneciam cravados em minha coxa e senti meu sangue escorrendo até meu pé.
Gritei. E assim como na primeira vez que me lembro de ter gritado, um vento muito forte me atingiu. No caso, atingiu o monstro, que soltou minha coxa, revelando um ferimento profundo.
Rapidamente fui até Bay, que tentava se levantar.
– Com licença, mas acho que já me salvaram o suficiente. Está na hora de eu me salvar.
Peguei a espada negra da mão dele e ergui contra o monstro, que ainda cambaleava. Eu também cambaleava. O fato de eu ser destra me atrapalhava mais ainda, mas consegui me virar segurando a espada com a mão esquerda.
O monstro deu o bote mais uma vez e talhei seu focinho antes que seus dentes encostassem em mim. Ele não se intimidou e mordeu meu braço direito, quase no ombro. Não gritei. Doeu feito o inferno, mas não gritei.
Ele deu uma risada – ou pelo menos acho que foi isso, monstros podem rir? – e se preparou para pular novamente.
No momento em que ele pulou, caí de joelhos, levantando meu braço esquerdo, fazendo a espada acertar sua barriga. Com muita dificuldade, me levantei, fazendo a espada penetrar no estômago do monstro, o que o fez desintegrar.
Fui em direção a Ana e Bay, que pareciam bem.
– Você está bem, Ella? – Ana perguntou.
Olhei para minha perna que sangrava horrores e para meu braço que doía menos.
– Estou.
Ela rasgou um pedaço da barra do vestido – que era comprido até o joelho –, amarrando bem apertado em minha perna e esticou as faixas do meu ombro de forma que cobrissem a mordida e amarrou também.
– Vamos para a ala hospitalar. – Bay disse.
– Eu preciso ir ao Anfiteatro. – eles se entreolharam – É importante.
Definitivamente aquela missão era minha. De jeito nenhum a Mapa iria no meu lugar.
Meu braço esquerdo estava em volta do pescoço do Bay, que era meu apoio, enquanto Ana andava à minha direita.
Cada passo doía, mas Bay e Ana me ajudavam e me apressavam o máximo possível.
Quando chegamos na entrada do Anfiteatro, disse a eles que fossem cuidar de seus ferimentos na ala hospitalar e que eu logo iria. Com relutância, concordaram.
Ajeitei meu emaranhado chamado cabelo em um coque mal feito e entrei.
Todos os olhares se dirigiram a mim.
– Desculpem, acho que me atrasei. – disse, corando.
Pablo começou a gargalhar e todos olharam para ele.
– É que ela chegou no Acampamento com uma blusa do Flash e essa fala é.... – ele se interrompeu ao ver que ninguém havia entendido e ficou sério. – Esqueçam.
– Achei que a reunião fosse apenas com os conselheiros dos chalés. O que ela faz aqui? Maria Eduarda, pode nos explicar o que sua campista faz aqui? – um garoto que estava abraçado com a Mapa perguntou.
Ele era bem bonito, mas seus olhos azuis eram frios e sua expressão mais ainda. Ele usava um casaco de couro marrom e calças rasgadas. Seus cabelos castanhos encostaram nos olhos e ele balançou a cabeça para tirar.
– Não sei, Riggs. Mas se ela está aqui, é por um bom motivo, não, Ella?
– Não. Digo, sim. – me confundi – Cams?
A ruiva apareceu e assentiu sem que eu precisasse dizer mais alguma coisa.
– Zeus e mais três deuses enviarão
Para tuas crias um desafio
E essas crianças aceitarão
Sem nem notar que por um fio
Suas vidas facilmente ficarão
Essas almas passarão pelo frio do mundo inferior,
Passarão pelo fogo que traz o sol
Passarão pela chuva de seu interior
Passarão pelo vento que leva o mundo em prol
Ao passado ela retornará
Um futuro terá de escolher
Mas a grande questão será
Vai ela viver ou morrer?
– Essa profecia foi recitada no momento em que fui apresentada à Cams. No começo da última estrofe, “Ao passado Ella retornará”, sou eu. Eu devo liderar essa missão, Quíron.
E todos começaram a falar protestando ao mesmo tempo.
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