Passado, Presente ou Futuro
12 Capítulo XII
Notas iniciais
Ouvi um barulho e os três pararam, na defensiva. Uma garota que não consegui ver direito passou correndo na direção do trio erguendo uma espada.
– Conhece? — ouvi Deb sussurrando para Davi.
– Marianna Dias. Defesa. Devemos estar perto. — Davi respondeu.
Pensei que se eu me juntasse à Marianna, talvez tivéssemos uma pequena chance contra eles, mas antes que eu me decidisse, Marianna já estava no chão.
– VOCÊ A MATOU, WILL? — Deb gritou
– O que você acha? — Will respondeu, dando de ombros.
– Ela só apagou, Deb. Pode sossegar. — Davi respondeu, ignorando o Will.
Pensei que esse seria meu futuro se não tomasse cuidado com eles, então os segui mais um pouco até decidir o que fazer. Eles andavam devagar, então nem era difícil seguir, o difícil era não fazer barulho estando no meio do mato, entre mil galhos e folhas secas no chão e não pisar em nenhum.
De repente ouvi uma saraivada de flechas e então Deb tinha uma flecha cravada em seu antebraço e uma em sua perna direita, Davi tinha duas em seu braço direito que segurava a espada — o que o fez soltá-la — e o Will tinha três em sua perna esquerda. Dos três, Davi fez mais escândalo. Saiu furioso correndo na direção de onde as flechas tinham vindo, espada já em punho, e acabei até sentindo pena do arqueiro fosse ele quem fosse. Deb se sentou no chão analisando o ferimento e começou a chorar. Will parecia indiferente. Parecia que nada havia acontecido. Se eu não tivesse pensado rápido que aquela era a minha chance perfeita, provavelmente teria ficado escondida pensando no quanto ele parecia inabalável. No quanto ele era lindo. Até no quanto ele devia ter sofrido com a morte de seu melhor amigo e namorada a ponto de ficar tão frio daquele jeito, tão duro.
Ele ficou surpreso com minha aparição, mas vi um esboço de sorriso em seus lábios.
– Oi, Ella. — ele falou, sem pegar a espada nem nada do tipo.
– Preparado para perder pela quarta vez? — perguntei, erguendo minha espada de forma ofensiva.
– Eu queria mesmo te ver, mas não imaginava que seria uma situação desse tipo. — ele ergueu a espada.
– Pode deixar que me ver será o menor dos seus problemas. — respondi, atacando.
– Talvez você toda seja o maior dos meus problemas, Ella. — ele deu um sorriso malicioso se defendendo e logo me atacando.
Ele era rápido, forte e experiente. Quando ele atacou me perguntei no que eu estava pensando quando achei que venceria ele a não ser que ele deixasse. Meu futuro era o mesmo da Rafaela. Carma.
Até que consegui atacar algumas vezes e cheguei a rasgar sua camisa, onde a armadura não protegia, mas nada comparado a o que ele fazia. Minha blusa estava bastante estilizada cheia de buracos. Ele havia cortado minha barriga da onde a armadura não protegia e a blusa começou a ficar mais vermelha que laranja. Dessa vez ele não parecia se preocupar comigo. Infelizmente para mim, que teria que arrumar outro jeito de distraí-lo, até porque sem distrações eu nunca o venceria. Não sabia o que tinha dado na minha cabeça a ponto de pensar que era a única que poderia derrota-lo.
– Você parece que não me ouve, Ella. Seu problema é sua guarda. Sua guarda é muito aberta.
Achei engraçado não o fato de ele estar me ajudando na luta contra ele, mas de ele estar falando comigo como se nada tivesse acontecido. Como se não tivéssemos nos beijado, como se ele não tivesse ficado todo sério sem motivo da ultima vez que nos vimos e como se ele não tivesse se engraçado todo para a Clara. Mas mesmo assim, segui seu conselho e tentei fechar um pouco mais a minha guarda, mas sem deixar de atacá-lo. Ele começou a ir para trás e eu rezava silenciosamente que ele tropeçasse e caísse. Infelizmente isso não aconteceu. Ele acertou meu pulso direito e minha mão afrouxou na espada, o que o deu uma brecha enorme para me atacar novamente, embora não o tivesse feito. Ele simplesmente me encarava, com a espada abaixada. Seus olhos brilhavam, mas não consegui decifrar sua expressão.
– Você agora é minha prisioneira. — ele disse, acertando com sua espada minha mão fechada em torno da minha espada fazendo minha mão abrir – e sangrar um pouco – a ponto de soltá-la.
– Isso é melhor do que ser apagada como a Marianna. — respondi, dando de ombros.
– Você...? — ele começou, mas não falou mais nada.
Ele foi em direção ao Davi, que gritava coisas ininteligíveis, provavelmente se dirigindo ao Will. Pedindo ajuda, talvez.
Vi minha chance. Mesmo machucada, ainda consegui pegar minha espada e a firmar na mão. Corri em direção aos garotos e vi duas pessoas sentadas no chão aos pés do Davi amarrados por cipós.
– Oi, Ella. — Davi falou, mostrando um sorriso genuíno. — Você também é nossa prisioneira?
– Nunca vou ser nada do seu irmão. Nem mesmo prisioneira no caça. — respondi, o atacando novamente.
O elemento surpresa me ajudou e consegui fazer um corte bastante considerável em seu braço. Ele se defendeu do meu segundo ataque, mas o terceiro foi o melhor. Rasguei seu rosto ao lado de seu olho esquerdo até o queixo. O mais incrível era que ele sorria. Quero dizer, o garoto tinha buracos na roupa, duas flechas na coxa — e que coxa, hein? — e um talho na cara e ainda ria como um bobo. Um bobo... Feliz? Não. Mais para orgulhoso talvez. Com rapidez arrisquei um giro. Sem tropeços ou quedas. Um progresso e tanto, yay. Fui parar atrás dele, e embora eu fosse mais baixa, consegui envolver seu pescoço com meu braço e erguer minha espada rente a seu pescoço. O virei de modo que ficasse olhando para o Davi, que ainda estava ali, parado e olhando. Talvez eu tivesse virado o Will como uma afronta ou ameaça ao Davi, não sei. Muitas vezes não me entendo, principalmente quando se tratava do Will.
Então senti. A dor. Queimava. Ardia. Demais. Senti o sangue escorrendo e pingando do meu cotovelo e me arrisquei a olhar para direita, para meu ombro. Uma adaga estava enterrada pela metade na parte de trás do meu ombro, perto da omoplata, e a Deb encarando-a. Digamos que fui esfaqueada pelas costas no sentido literal da coisa. Soltei o Will — ainda sem soltar a espada, o que nem sei como fui capaz — , que se virou para mim. Seu sorriso de antes desaparecera completamente dando lugar a uma expressão confusa olhando para mim, mas seu olhar se levantou em direção à Deb e a incredulidade prevaleceu em seus olhos verdes.
Caí de joelhos, chorando e gritando muito alto. O mundo começara a girar. Não acreditava que iria desmaiar de novo. Numa boa, já estava cansativo essa de apagar e acordar num lugar diferente o tempo todo. Para a minha sorte, alguém do vermelho apareceu. Aparentemente o trio estava mesmo certo, estávamos bem perto da bandeira afinal, ou não teriam tantos campistas por ali, lutando. Sem contar aqueles dois arqueiros, que estavam imobilizados. Reconheci aqueles com elmo vermelho. A Mapa, linda e radiante como todas as outras vezes que a vi, empunhando uma espada encrustada de pedras azuis e correndo de encontro ao Davi e o Nando, mais de longe mirando para caso a Mapa precisasse. Mais dois campistas do azul surgiram. Olhei novamente para meu braço e, com o sangue escorrendo por meus dedos e pelas costas, não fazia a menor ideia do que fazer para melhorar. Filipe e Paulo apareceram também, partindo rapidamente contra quem quer que lutasse contra eles. O time vermelho tinha um timing para ninguém pôr defeito, afinal. Obviamente eu não iria apagar sem tentar nada. Como o Will permanecia na minha frente e minha espada em minha mão, eu desferi um arco com ela, na tentativa de acertar as pernas dele. Com certeza não seria aquele grupo que pegaria nossa bandeira. Vi que ele havia chegado para trás, mas se tinha o acertado, não sabia ao certo. A lucidez até voltava, mas alguém esbarrou em mim, o que me fez cair para frente, deitada com o rosto encostando na grama. Estava olhando para um par de joelhos prostrados ao meu lado, quando ouvi um sinal como o do início do caça. Aí sim não enxerguei mais nada. Apaguei legal.
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