Notas iniciais
Esse capítulo é um pouco menor, mas prometo compensar no próximo!

Realmente, o Lyu me levou para treinar, mas o que eu pensei que seria mais uma lição de esgrima, bem, digamos que eu estava completamente errada.

Lyu – que eu resolvi chamar de Luc – me levou até o campo de arqueria que eu já havia ido antes, com o Pablo buscar o Nando. Dessa vez, vi muitas pessoas lá. Em todos os lugares. Mais de uma pessoa mirando no mesmo alvo até.

Ele me explicou que o campo de arqueria estava lotado por causa do caça, e que era normal, todas as sextas a tarde ficava impossível praticar qualquer coisa, mas, como ele era o conselheiro do chalé de Apolo, — que pelo que ele me explicou, era o deus de bastante coisa, como música, medicina, poesia, e habilidade em arco e flecha era meio que um dom que 90% dos filhos de Apolo possuíam — ele tinha alguns privilégios, o que significava que ele poderia expulsar qualquer um de lá pra abrir espaço, mas ele não o fez. Pegou um arco de madeira e uma aljava e me explicou que precisávamos ir até o chalé dele. Não contestei e o segui. Até achei estranho o fato de termos pegado um caminho diferente do normal – sim, eu havia aprendido o caminho, aparentemente minha memória era muito boa, o que era irônico – mas não contestei. Lyu entrou no chalé sozinho e eu fiquei na porta, pelo que eu entendi havia algum tipo de regra que proibia semideuses de entrarem em chalés que não os próprios. Não que a regra fosse seguida geralmente. Esperando lá fora, avistei Pablo ao longe, e ele parecia procurar algo. Ou alguém.

– Gustavo não tinha chamado Pablo, não é, Luc?- perguntei, rindo.

– Claro que tinha, Ella. — ele hesitou por um instante. — Por que a pergunta?

– Pode falar a verdade. — disse, já gargalhando — Ele está lá perto do chalé de Zeus procurando alguma coisa. Pelo tempo, imagino que seja eu.

– Talvez — ele disse, saindo do chalé, com uma aljava nas costas, colocando um pequeno dispositivo quadrado no bolso da calça jeans — eu tenha inventado um pouco.

– Tem tanto problema assim você me levar pra treinar? Não acredito! Já sei! Você é um mau exemplo! – exclamei, fazendo um gesto dramático ao encostar as costas da mão na testa.

– Caso você não tenha percebido, você é a nova “protegidinha” deles. Sei que eles escondem algo que eles e o Quíron sabem, e não vão contar a ninguém. Esse algo, pequena Ella, tem ligação com você.

Aquilo foi meio que um soco pra mim. Escondendo alguma coisa? Não. Afinal, por que fariam tal coisa? Então eu percebi. Algo com o meu passado. Afinal, tudo realmente girava em torno disso. Meu passado. Não. Recusei-me a pensar essas coisas. Eu estava indo rumo a mais adrenalina, mais um treinamento, no qual eu esqueceria tudo e pensaria apenas no presente. Tudo o que eu queria era esquecer tudo e pensar no presente, irônico, eu sei.

Lyu segurou meu antebraço e me guiou até a floresta. Me assustei, fiquei com medo, mas não disse nada. Assim que passamos pela primeira árvore, estremeci. Ele pareceu ter percebido, e sua mão desceu meu antebraço até segurar minha mão. Chegamos a uma área descampada, meio circular, e ele me soltou. Fiquei parada lá, ainda com calafrios.

Ele foi até o centro do descampado, se abaixou, e colocou o dispositivo quadrado no chão. Nada aconteceu. Ele se levantou, olhando para o chão.

– Nossa! — exclamei, irônica — Então é isso? Muito interess... — não pude terminar a frase, pois estava maravilhada com o que estava acontecendo.

Lyu pisara no chão em cima do dispositivo. Não simplesmente pisara, ele praticamente pulara. O dispositivo tremeu e chiou. De repente havia um X de metal no chão, até onde começavam as árvores. Em cada ponta do X, surgia um alvo, e outro alvo aparecia entre dois deles. Tive que me desviar de um alvo que estava “brotando” aos meus pés. No final da “montagem”, haviam oito alvos, coloridos de branco e vermelho, todos em volta de nós.

– Muito interessante, não? — Lyu riu, me vendo de boca aberta. Mas claro, eu estava atônita, impressionada. Era realmente impressionante como tudo aquilo tinha se formado por um pequeno quadrado, menor que a mão. — Eu simplesmente amo o chalé de Hefesto.

– Nossa! Isso é... – fiquei sem palavras para descrever. Incrível? Impossível?

– Eu sei. Mas sem mais delongas, vamos treinar.

– Lyu, você esqueceu seu arco, só trouxe sua aljava.

Me fazendo morder a língua pela segunda vez consecutiva, ele pegou um pequeno bastão prateado em sua aljava. Era cilíndrico, quase do comprimento das flechas. Ele ergueu o bastão e suas duas extremidades cresceram até atingirem um tamanho de arco. Com a corda também prateada.

Ele mirou em mim um olhar de “o que acha disso agora?” e desatou a rir. Ri também mas não permiti ficar para trás. A corda do meu arco era horrível, fraca, desgastada. Mesmo assim peguei uma flecha na aljava, que era tão feia quanto o arco. A aljava e a flecha, ambas tão feias quanto o arco.

Na verdade, eu não fazia ideia de como nem segurar um arco, mas me foi automático. Muito automático. Posicionei a flecha em seu devido lugar e, segurando o arco com a outra mão, mirei em um dos alvos. Obviamente, para chegar ao alvo, a flecha passaria perto do Lyu, o que, pra mim, me pareceu muito mais interessante. Soltei a flecha.

Tudo bem que ela não atingiu o círculo vermelho central, mas chegou perto. E sim, ela passou bem perto do nariz do Lyu, o que me fez rir muito mais, pois ele ficara com a boca aberta. Depois do susto, ele começou a rir comigo e começamos a atirar a esmo, em qualquer alvo que fosse. Foi meio que uma competição não verbalizada, pois cada vez que um de nós acertava um alvo, gritava o número de pontos do local atingido. Não verbalizada simplesmente porque nenhum dos dois sugeriu uma competição. De vez em quando, acertávamos um alvo perto do local em que o outro estava em pé, arrancando gargalhadas. Ficamos assim por um tempo até que minhas flechas acabaram. Olhei para o Lyu, que continuava atirando, e vi que sua aljava continuava cheia. Resolvi ir de alvo em alvo, recolhendo minhas flechas e as colocando de volta na aljava.

– Como você faz isso? – perguntei, retirando uma flecha.

– Isso o que?

– Isso das suas flechas não acabarem nunca. É macumba?

– Quase isso. — ele respondeu, rindo. — É a aljava. Ela é magica. Foi um presente da minha irmã.

– Não sabia que você tinha irmã. — falei, já retirando a terceira flecha.

– É que ela se foi.

Interrompi minha tarefa e olhei para ele. Ele estava sentado na grama, abraçando os joelhos.

– Sinto muito, Luc... Eu não...

– Ah, não. Ela não morreu. — ele hesitou. — Pelo menos eu acho que não. Dizem que gêmeos sentem quando acontece algo com o outro, e eu nunca senti nada, então...

– Então o que aconteceu?

Ele fechou os olhos e respirou fundo, e eu percebi que seria uma longa e triste história.