Durante alguns segundos meu corpo foi dominado por todas aquelas sensações e eu senti que estava prestes a perder a consciência. Mas tão inexplicavelmente quanto chegaram, elas também se foram, restando apenas o som da minha respiração ofegante.

— Mas que droga foi essa!? — consegui dizer após recuperar o fôlego. De um dia para o outro parecia que minha vida havia virado um ímã de coisas estranhas.

Um novo som preencheu o ar e, ainda um pouco atordoado, demorei alguns segundos para perceber do que se tratava. Novamente batiam na porta, dessa vez de forma mais delicada. Guardei rapidamente a carta em uma gaveta e lavei meu rosto para só então ir ver quem era.

— Finalmente... — a doce voz tão familiar chegou aos meus ouvidos. Era Jullie. Seus cabelos negros estavam soltos e iam até a altura dos seus ombros, contrastando com a pele branca que tinha. Os olhos, castanho escuros, possuíam um brilho que me encantava todas as vezes que eu o via.

— Estava apenas testando sua paciência. — proferi sorrindo, logo em seguida envolvendo ela em meus braços e a beijando calorosamente antes mesmo dela entrar. Eu não queria esperar nem mais um segundo para sentir a maciez daqueles lábios rosados.

— Parece que alguém está animadinho hoje.

— Isso foi só uma amostra, nosso final de semana está apenas começando. Mas vamos entrar, nosso almoço está pronto e nos esperando, madame.

— Hum... deixa eu adivinhar! — levou a mão ao queixo e fez uma expressão de profunda concentração que me fez querer beijá-la novamente, tão linda ficava daquele jeito. — Eu diria que meu adorável chef preparou um requintado prato de macarrão com carne moída.

— Ei, como você sabe?

— Tirando o cheiro da comida e a mancha de molho de tomate na sua blusa!? Meu amor... a única coisa que você faz para comermos é macarrão com carne moída. Sempre! — o som de sua risada preencheu o ar e ela deu um beijo em minha bochecha.

— Ah é?! Não é todo homem que se esforça em cozinhar algo para a namorada, sabia?! Se as outras mulheres soubessem disso eu já teria uma fila de pretendentes esperando na porta do meu apartamento.

— Claro que sim, Thomas. — riu de novo.

Os poucos segundos da sua presença já eram o bastante para me trazer paz novamente. Não importava quão desesperado eu estivesse era sempre assim: bastava ela ficar comigo e eu começava a melhorar pouco a pouco.

A tarde passou enquanto comíamos e conversávamos. Todas as coisas estranhas que haviam acontecido iam sendo deixadas de lado pela minha mente e o mundo parecia estar voltando a ser um lugar normal. Mas não por muito tempo.

— O que é esse bilhete colado no seu espelho? — ouvi a voz de Jullie vindo do banheiro. Àquela hora o céu já começava a escurecer, mostrando o brilho das poucas estrelas que conseguiam aparecer sobre as luzes da cidade.

— Bilhete?! Que bilhete? — fui até lá e a encontrei lendo uma pequena folha amarelada, seu rosto mostrando uma expressão estranha. — Deixa eu ver.

Após algum tempo ela me entregou o papel, a expressão estranha ainda dominando sua face enquanto me observava lendo.

23 de maio de 1996

Você não vai acreditar! Parece que aquelas pessoas que dizem “Há um lado bom para tudo” estão realmente certas!! No final, apanhar do Coisa tantas vezes desde que minha mãe morreu fez de mim alguém realmente corajoso. Corajoso o bastante para enfrentar um grupo de idiotas que caçoavam de um menino. Bem... acabei sendo atacado por eles também, mas pelo menos eles foram embora algum tempo depois e deixaram eu e o garoto em paz.

Ele não tinha amigos, assim como eu. Mas o problema dele era outro: ninguém gostava de ficar olhando para aquele rosto rosado, enrugado e cheio de marcas do que parecia ter sido uma grave queimadura. Nem mesmo eu gosto muito. Porém, começamos a conversar após esse incidente e descobri que, ao contrário da sua aparência, a sua personalidade era bem agradável.

E foi assim que consegui meu primeiro amigo de verdade (depois de você, é claro). Ainda não sei muito sobre ele, mas vou te contando conforme for descobrindo. Ah, já ia me esquecendo: o nome dele é


A página possuía um rasgo irregular que havia cortado o final da frase, mas não era nisso que eu pensava no momento. “Como colocaram essa droga de página no meu espelho?!” Pensei. “Não é possível, simplesmente não é possível.”

Indignado, contei à Jullie sobre o diário de Thomas enquanto eu revistava cada cômodo do meu pequeno apartamento em busca de alguém que pudesse estar escondido lá. Não havia ninguém.

— Thomas... — não só sua expressão, sua voz também estava estranha, hesitante — eu preciso ir embora.

— O quê? Já? Pensei que ia passar a noite aqui comigo. Olha, não precisa ficar assustada com isso, é só alguma bobeira.

— Não é isso, é que... eu preciso ir. Tenho um trabalho para fazer, sabe... então acho melhor voltar mais cedo para minha casa. Não faz essa cara! No próximo final de semana eu pro... eu prometo que vamos ficar juntos.

— Se você diz...

Ela se despediu com um último beijo e me deixou parado em pé na porta. Aquela partida havia sido tão inesperada que nem ao menos me ofereci para acompanhá-la até lá em baixo. Agora a frustração daquela noite perfeita perdida tomava conta de mim e decidi que iria na casa do Erick arrancar qualquer informação que ele estava omitindo sobre toda aquela história. Ele parecia saber algo que não queria contar e, se não soubesse nada, pelo menos eu teria alguém em quem descontar minha raiva.

Subi no ônibus com a intenção de chegar lá de surpresa só porque eu sabia que ele odiava quando eu fazia aquilo. Entretanto, percebi que percorrer todo aquele caminho para encontrar a casa dele vazia só me deixaria mais frustrado, então liguei para ele. Alguns segundos se passaram até que atendesse.

— Erick?!

— Por favor... não. Para. Não, não, não, NÃO. — gritos desesperados de dor e de choro vieram do celular, arrepiando minha pele e fazendo meu coração bater forte. A ligação caiu.

Liguei para a polícia e em seguida tentei falar com ele novamente, mas ninguém atendia. Os poucos minutos que faltavam para chegar ao ponto de ônibus em que eu devia descer pareciam uma eternidade. Se eu não estivesse tão preocupado teria percebido o homem de roupas negras e com um capuz escondendo o rosto que dobrava a esquina indo na direção oposta a que levava à casa do meu amigo.

Saltei do veículo quando ele parou e corri pela calçada, já avistando a residência de Erick. Ao que parecia a polícia ainda não havia chegado. Encontrei a porta entreaberta quando a alcancei e, assim que entrei, um cheiro indescritível chegou ao meu nariz fazendo meu estômago embrulhar.

Estava tudo escuro e silencioso. Andei cautelosamente pelos cômodos, acendendo as luzes e segurando uma faca que havia pegado na cozinha. Sala de estar; Sala de jantar; Banheiro; Escadas; Corredor. Fui passando um por um até que cheguei na porta quarto do Erick. Pela intensidade do odor, agora quase insuportável, eu podia dizer que a sua fonte estava ali dentro.

Ao adentrar, a visão de um corpo totalmente desfigurado deitado em uma poça de sangue me atingiu ao mesmo tempo em que entendi o que era aquele fedor. Deixei a faca cair no chão e me curvei bruscamente para vomitar. Aquele era o cheiro de carne queimada. A carne queimada de meu amigo Erick.