Passado Obscuro
36 Capítulo 35 - É Assim Que Se Faz
Notas iniciais
A tarde passou como um borrão.
Tudo. O sorvete de sei lá o que o qual eu pedi. As piadas que Ian fez para tentar me fazer rir de qualquer jeito. Minhas idas ao banheiro de uma em uma hora. A volta para a casa silenciosa e principalmente os beijos sem sentimento.
E mesmo assim as horas com Ian não valeram nem mesmo um milésimo de segundo do tempo que passei com Andrew. Quando os lábios de Ian tocavam nos meus a única coisa que eu pensava era nos olhos de Andy, em minhas pernas em volta da sua cintura e no seu cabelo loiro agarrado em meio de meus dedos.
– Foi a melhor tarde da minha vida. – Ian me ajuda a descer da moto e eu retiro o meu capacete. Ele faz o mesmo. – Está comprovado, você é ainda mais especial do que eu pensava.
– Obrigada. – eu engulo a seco a aponto para o Fusca com a cabeça. – Agora eu preciso ir. Amanha a gente se vê.
– Hey! – eu já estou a caminho do Fusca quando Ian pega no meu braço e me puxa de volta para perto dele. – Tenho duas perguntas para fazer antes de você ir.
– Ahmm... Pode falar.
– A primeira é muito simples. – ele se aproxima de mim e gruda o meu corpo na moto. – Quero saber se você vai me dar um beijo de despedida.
Eu me forço a sorrir. É o sétimo beijo que damos e, como todos os outros, não consigo sentir nada mais do que um simples formigar de lábios. Ian tenta esquentar o beijo apertando a minha cintura e beijando parte do meu pescoço, mas mesmo assim é como estar beijando uma porta.
– A segunda coisa é mais simples ainda. – um grande pausa. Ele aproveita para roçar o seu nariz com o meu. Depois, para a minha surpresa, se ajoelha na calçada.
– O que está fazendo? – eu olho em volta para ver se alguém na rua percebe e puxo o seu braço para cima. – Levante já!
– Só quando você aceitar namorar comigo.
Eu esperava isso. Mas agora, quando o pedido é feito, não consigo encarar a ideia de namorar Ian, um cara que nem se quer tenho atração. De deixar Andrew de lado, tudo o que passamos de lado. E principalmente meu amor por ele.
Seu pai. Faça pelo seu pai.
– Eu aceito Ian. Aceito namorar com você.
***
Ginna deixou tudo como eu havia pedido naquele dia. Minhas roupas essenciais, a chave do Fusca, minha caixa de fotos, alguns dos meus livros prediletos e mais um monte de coisas. Eu pedi para ela colocar tudo isso dentro do porta malas do Fusca e o estacionasse perto da escola. Assim, logo depois do meu encontro com Ian, pude pegar tudo e voltar para a casa de Julian.
Cheguei exatamente as 20:00 horas. Não reparei quem estava na sala vendo TV, apenas subi as escadas de dois em dois degraus e tranquei a porta do que seria o meu quarto daqui para frente.
Entrei no banho quase de roupa e tudo. Eu precisava tirar o resto de Ian que estava no meu corpo, precisava me livrar dos beijos, abraços e todas as outras coisas que fizemos.
Passei um bom tempo lá, pensando. Depois, quando sai enrolada na minha toalha branca, me olhei através do espelho embaçado preso na parede. Quem eu era? Quais escolhas eu fiz? Quais são as certas? E as erradas?
Pare!
O que está feito, está feito. Começarei de novo. Serei alguém diferente. É a única forma de superar tudo o que passei.
Peguei na maçaneta da porta do banheiro que levava ao quarto e a puxei com a maior inocência. Só que eu não sabia o que iria encontrar atrás daquela porta. Ou melhor, quem eu iria encontrar.
– O que está fazendo aqui? – exclamei prendendo a minha toalha melhor em volta do meu corpo. Eu fiquei vermelha da ponta do meu dedão até o meu ultimo fio de cabelo.
– O que foi aquilo com o Ian hoje de tarde? – perguntou Andrew com as orelhas vermelhas de raiva. Ele ignorou totalmente a minha pergunta.
– Saia do meu quarto! – falei começando a mover as minhas pernas e indo em sua direção. Ele está parado do lado direito da minha cama com os braços cruzados no alto do peito.
– Responda a minha pergunta. – ele caminha pra mais perto de mim e para a mais ou menos dois passos de me alcançar. Andy ergue o dedo indicador e aponta para mim.
– Eu e Ian só nos beijamos! – declaro apertando o meu coração no peito. Além de ter que falar com Andrew eu ainda tenho que falar com ele apenas de toalha?
– Eu não acho que aquilo foi apenas um beijo, Jane! Você disse que me amava e logo depois beija outro? – ele se aproxima mais e fala isso com dor na voz. Estamos a um palmo de distancia.
– Andrew, é melhor você ir embora.
Ele solta um som de deboche da boca. Entretanto não é isso que chama a atenção no seu modo de estar. Pela primeira vez sinto insegurança no seu modo de agir. Seus olhos não grudam nos meus e suas mãos não param quietas em volta do corpo.
– Eu não quero te perder. – sua mão direita toca em minha bochecha. Imediatamente sinto meus pelos da nuca se irisarem, um frio na barriga involuntário e um grande tremor nas pernas.
Tá, vamos analisar a situação. Eu estou no meu quarto apenas de toalha quando o amor da minha vida, o qual também é meu irmão, entra e coloca a mão na minha bochecha, dizendo em seguida que não quer me perder. É ou não é para eu me sentir totalmente perdida?
– Eu te amo. – murmura chegando perto de meus lábios. A minha respiração está rápida e eu não consigo mexer as minhas pernas. Ele coloca a sua mão esquerda na minha cintura e eu começo a sentir o seu cheiro de hortelã e desodorante masculino.
– Andy... – minha voz sai fraca. Droga!
Pai. Lembre-se do seu pai. O quanto ele sofreu por ficar longe do amor da sua vida, de ter que “morrer” para te dar tudo o que teve até agora. Jane, é a hora de recompensa-lo. De mostrar o seu amor por ele.
Eu empurro Andrew com lagrimas nos olhos. Ele acaba caindo em cima da minha cama e, assim que vê que eu choro, coloca a mão na cabeça.
– Ahm, merda. – sussurra para si mesmo. Andy se levanta e volta até mim. – Desculpe Jane, eu não queria fazer isso. Fiquei louco quando vi você com Ian e...
– Você ainda não entendeu né? – grito e seguro a minha toalha mais apertada. – Acabou. Nós dois não existe mais, nunca existiu de verdade.
– Para, por favor...
– Eu não vou parar! Porque o tempo não para pra a gente pensar no que fazer a seguir, as pessoas não param de julgar para a gente chorar livremente e principalmente o meu coração não para de sentir para o nosso amor ter tempo acabar! – eu fungo o nariz e aponto a porta com a cabeça. – Saia.
Andrew, cabisbaixo e parecendo carregar uma mala pesando toneladas nas costas, segue para a porta. Ele me olha por trás dos ombros, como se estivesse pedindo “Por favor, me deixe ficar aqui com você” e quando percebe que não vou voltar atrás na minha decisão pega na maçaneta e sai pelo corredor da mansão batendo a porta.
Assim que se vai vou até a porta e a tranco. Antes mesmo de colocar a roupa já estou no chão com as mãos na cabeça. As lagrimas vem como uma chuva de verão, inesperada e fortemente.
– Filha! O jantar está na mesa! – é Julian, do andar de baixo, quem grita isso. Eu enxugo as lagrimas e me visto devidamente. Assim que desço as escadas o vejo sorrir orgulhoso, como se soubesse que eu cumpri a minha parte do acordo. Quando o abraço ele sussurra em meu ouvido:
– É assim que se faz, minha filha.
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