Passado Obscuro
3 Capítulo 2 - Sra. Edwards, Irmã Falsa e Tarde Longa
Notas iniciais
São Francisco, Califórnia; Duas semanas depois.
Ao sair do taxi fico instantaneamente com saudade de Youngstown. Tá certo que São Francisco é uma cidade muito mais bonita e desenvolvida do que a décima primeira no ranking de “Melhores para se viver em Ohio”, mas lá é que eu cresci. Lá é o meu lugar e não aqui.
Meu pai fez questão de trazer meu presente de aniversário, se quer saber. Ele vai chegar daqui a mais ou menos uma semana trazido por Ben, outro amigo do meu pai, que é um aventureiro daqueles que andam por ai com apenas uma mochila nas costas. Ahm, e ele ainda vai ter a gentileza de encher o tanque do Fusca e lavar aquela velharia para mim. Obrigada, isso melhora muito a minha situação.
Minha mala não está tão pesada, o que ajuda bastante na hora de tira-lá do porta malas. A casa onde vamos viver não me impressiona muito (na verdade eu estava com expectativas de que a nova mulher do meu pai pudesse ser rica, mais errei feio). Tem dois andares e parece ser apenas dois cômodos maior que a nossa antiga casa. Ao fundo consigo ver o reflexo de água, o que me dá a entender que há uma piscina lá. Na frente um pequeno jardim enche a minha visão. Parece bem cuidado.
– Olha Jane tudo bem você ser mal educada comigo, mas eu não vou permitir que ofenda Sara ou Ginna, entendido? – meu pai carrega a sua própria mala com uma mão e com a outra aponta o dedo indicador no meu rosto. Reviro os olhos e ele me joga um olhar mais que mortal.
– Tudo bem. – respondo por fim tão baixo que nem mesmo eu ouço direito. Com isso, ele sai andando em direção a porta de entrada. As paredes de fora são amarelas bem claras e as janelas cobertas de cortinas, todas azuis. Antes da porta de entrada há uma escada de madeira e, quando vou encostar-me ao corrimão para puxar a minha mala, entra uma farpa no meu dedo. Ótimo, começamos bem!
Meu pai espera até que eu pare ao seu lado e enfim toca a campainha, que é daquelas que ficam mais de meia hora tocando. “Tim dom dom dom tim... Tim dom dom dom tim...” Parece até uma musica de elevador, se pensar bem.
– Querido! – uma mulher morena de olhos cor mel que parece ser da mesma idade do meu pai ou até um pouco mais jovem abre a porta. Ela usa um vestido amarelo e azul e isso me faz querer rir. Tipo, ela se vestiu igual a casa! – Vamos entrando.
Primeiro ela dá passagem para nós. Depois fica nas pontas dos pés para beijar a bochecha do meu pai. Ele retribui o gesto sorrindo e com os olhos brilhando.
De repente, ao ver aquela cena, me dou conta que não posso ficar brava com ele. Meu pai está apenas tentando superar a morte da minha mãe e, se ele conseguiu, tenho que conseguir também. Quando a mulher se vira para mim a abraço.
– Oi, eu sou a Jane. – falo depois de me desvencilhar de seus braços, surpresa com o meu próprio gesto. Eu não sou de abraçar as pessoas, pode ter certeza. Na verdade, nem quando alguém sorri pra mim na fila do supermercado eu retribuo.
– Prazer Jane. – ela sorri, vacilando o olhar entre mim e o meu pai. Acho que ela não acredita no que acabei de fazer. – Quero que se sinta em casa e desejo com todo o coração que sejamos amigas.
– Claro Sra. Edwards.
– Oh! Chame-me de Sara, querida. – ela coloca a mão sobre o meu ombro e sorri acolhedora. Depois se vira para a escada e fala alto, mas não a ponto de gritar. – Ginna!
Uma voz de menina grita um “Já vou!” em resposta. Quando desce as escadas olho para sua mãe e para ela sem parar. Serio, elas são iguaiszinhas! Cabelos castanhos, olhos mel, corpo pequeno e sorriso doce. Quando Ginna acaba de descer cumprimenta primeiro o meu pai, parece que eles já se conheciam o que me deixa incomodada, e depois vem em minha direção.
– Oi, você deve ser a Jane. – ela me abraça e sinto o seu hálito no meu pescoço. Quando penso que vai me soltar sussurra no meu ouvido com uma voz ameaçadora. – Não quero você se metendo comigo.
Olho, chocada, para a menina em minha frente. Nós temos mais ou menos a mesma altura, o que me faz olhar bem dentro de seus olhos. Ela está sorrindo, forçando as bochechas ao máximo. Até se formam covinhas.
– Bom, já que todos já se conheceram, vamos almoçar? – pergunta Sra. Edwards. Penso se ela também não está fingindo igual a vaca que está parada em minha frente. Minha raiva começa a voltar.
– Claro, querida. – meu pai fala tão naturalmente que eu ameaço pular no seu pescoço. Era assim que ele sempre chamava a minha mãe, como ele consegue chamar ela assim.
Sigo todos passando pela sala de estar, que é muito bem arrumada. Os sofás, um de três e outro de dois lugares, são de cor creme e parecem novos. Eles estão cobertos de almofadas, algumas verdes e outras azuis. Há uma mesa de centro de madeira clara com um vaso de flores falsas, que não parecem falsas. A TV é de LCD e eu chutaria ter 40 polegadas. No canto há uma estante e nas paredes há quadros diversos.
Passando por lá, virando a direita, há a sala de jantar. É pequena, a única coisa que está lá é uma mesa de 6 lugares coberta de comida. Deixo todos se acomodarem primeiro para que eu me sente depois. Fico ao lado de meu pai, que está em frente a Ginna. Na ponta, Sara sorri.
– Espero que gostem do almoço. Eu fiz especialmente para vocês. – ela começa a servir o meu pai da macarronada e depois pega o meu prato, mesmo eu protestando. Quando todos já estão servidos, Sara faz um sinal e começamos a comer.
– Então Jane, você sabe dirigir? – Sara pergunta olhando em minha direção. Engulo a seco o resto de macarrão que eu tinha na boca antes de responder.
– Sim. Meu pai me ensinou. – emito a parte do Fusca por vergonha. Pelo que vi do lado de fora da casa Ginna tem um carro e ele é bem melhor que o meu.
– Eu dei a ela um carro de aniversario. – valeu, pai. Também te amo. – Na verdade ele vai chegar daqui a uma semana.
– Ahm que maravilha! – Sara fica animada. Ela olha para mim e quero me matar pela pergunta que eu sei que ela vai fazer. – Que carro é, querida?
– Um... Um Fusca. – vejo que Ginna engasga do outro lado da mesa e se segura para não rir da minha cara. Quero muito ir embora.
– Ginna! – repreende Sara. Percebo que quando ela fica brava sua sobrancelha treme. – Pare com isso já! Um Fusca é um clássico!
– Classicamente horrível, só se for. – assim que fala Ginna tampa a boca e pede desculpas. Mas eu posso ver o seu sorriso atrás de sua mão. Essa daí não me engana mais.
– Olha, eu estou cansada demais para ficar aqui jogando papo no lixo. Se me dão licença eu vou comer no meu quarto que é... – deixo a pergunta no ar e Sara responde com um olhar compreendido. Já vi que arrumei uma briga entre mãe e filha.
– O segundo a direita, querida. – agradeço a Sara com a cabeça e saio do cômodo. Quando piso na sala de estar já consigo ouvir o som da briga entre as duas.
A escada fica em frente a porta de entrada e, quando estou subindo os primeiros dois degraus, ouço a campainha tocar. Como estou mais perto da porta, atendo eu mesma.
– Oi gata! – um menino da minha idade ou talvez até mais velho do que eu me olha dos pés a cabeça. Ele tem a pele clara e os olhos verdes, que deixam seu rosto meigo. Seus cabelos são castanhos e ele usa roupas estilosas, o que inclui uma calça abaixada, mostrando um pouco a sua cueca. – Será que a Gin tá ai?
Admito que, assim que o vi parado na porta, também o olhei dos pés a cabeça. O cara é o maior gato! Mas o que mais me surpreendeu foi ele ter me olhado assim. Quer dizer, eu não sou a menina mais “gostosa” do mundo, como os meninos falam. Meus peitos são pequenos, minha magreza me impressiona e a única coisa melhorzinha que existe no meu corpo é minhas coxas. Além de meu corpo ser pequeno, 1,65 de altura.
– Gin? – pergunto ainda abismada com a beleza do garoto. Só depois percebo que ele fala de Ginna. – Ahm, Ginna! É claro.
Antes mesmo de eu chama-la a criatura aparece do meu lado com o mesmo sorriso falso que antes. Ela o beija na boca com paixão e depois olha bem nos meus olhos dizendo “Ele é meu!”.
– Oi amor! O que você está fazendo aqui hoje? – pergunta para o garoto ainda pendurada em seu pescoço. Antes de ele responder tomo a palavra.
– Bom, eu vou subir. Prazer em conhecê-lo. Eu sou Jane.
– Harry. – ele sorri sedutor. Viro de costas, mas antes que eu pudesse subir os primeiros degraus a voz de Sara me para.
– Jane! – olho para baixo para encontrar ela e o meu pai. Vejo Gin falar algo baixinho no ouvido de Harry. Os dois descem as escadas que antecedem a porta de entrada, mas Sara também os para. – Onde pensa que vai Ginna?
– Patrick vai dar uma festa. Eu e Harry vamos para a casa da Jessica para nós arrumar. – serio, eu conseguia ver em seus olhos que isso era mentira. Até um idiota veria isso, mas Sara não notou.
– Tudo bem. Porque não leva Jane com você? – a olho assustada. Eu? Com eles?
– Não! – eu e Ginna gritamos ao mesmo tempo e Sara revira os olhos. Antes de falar, vejo o meu pai sussurrar algo em seu ouvido. E pela primeira vez na minha vida agradeço por ser superprotegida pelo meu pai.
– Se ela não for com vocês, eu proíbo você de ir. – Sara conclui decidida apontando para Gin. Antes que eu ou Ginna possamos reclamar meu pai toma a palavra.
– Nem pensar, Sara. Jane só pode sair de casa comigo ou com a minha autorização e eu não autorizo ela a sair. – já disse que te amo, papai querido?
– Ahm, pare com isso Richard! – Sara protesta. Ela agarra o meu pulso e me leva até o lado de Ginna, já na varanda, fora da casa. – Você vai sim. Podem voltar antes das 23:00 horas. Ahm! E divirtam-se.
Com isso ela bate a porta da casa na nossa cara. Bufando, Ginna segue para o conversível vermelho parado em frente a casa. Harry me espera e começa a perguntar coisas insignificantes. Eu dou respostas curtas e evito falar da minha vida. Deu pra perceber que essa tarde será longa. Bem longa.
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