Passado Meu Horário...

1 Minha única noite, nosso único reencontro...


Notas iniciais
Bem, acho que é isso, boa leitura e espero que agrade a vocês >..<'

Na noite adormecida existia uma garota. Seus mares azuis observavam tudo a sua volta, a volúpia do negro que via, com um assopro a balançar-lhe suas madeixas de fogo.

Seus ouvidos detectavam o toc toc de sapatos, mas não sabia de onde vinham. Olhava para frente, trás, lados. Nada se via. De onde vinham? Realmente não sabia!

A caminho de sua casa passou a andar. Meia-noite era seu horário e não o podia ultrapassar. Todos os dias, a mesma rotina, caminho, direção. Mas essa noite, em especial, era diferente.

Aquela rua, sempre mal iluminada, com apenas a lua para guiar-lhe o caminho. Luminárias? Sempre apagadas, o que apenas dava um ar assombroso ainda maior. Logo ela mesma aumentou o toc toc no chão, podendo ver algo piscando a sua frente.

Aproximava-se rapidamente, permitindo o vento a chicotear seu rosto de porcelana. Suas bochechas eram maçãs, grandes e coradas, pelo cansaço do caminho percorrido.

Detectou de onde vinha o piscar, podendo ver uma luminária falha. Piscava e piscava. Tudo ali conseguia aumentar o ar de filme de terror na grande tela tri-dimensional.

Ao estar em baixo da única fonte de luz ali, a escuridão voltou a tomar o centro da pequena cidade. Pernas, mãos, braços, joelhos. Tudo tremia. Não sabia onde seu coração se encontrava, na boca ou no ouvido, pois no local de origem tinha plena certeza de que não estava mais.

Sua visão turva ficou quando viu um volto passar a sua frente. Desacelerou seus passos quando sentiu algo tocar-lhe o ombro. Não se conteve, havia sido pega. Seu medo de a própria morada tornar-se a cova do infinito lhe tomou. Correu.

Seus olhos afoitos rolavam pelos lados, procurando um caminho para fugir. Apenas o escuro, o nada. Corria o mais rápido que podia até que... Parou!

Ao longe visualizou uma luz fraca, próxima a uma placa. Sua visão turva voltava a tornar-se clara e detalhada. Voltou a andar em direção a mesma, com um fogo em seu coração, esperança de uma localização.

Ao estar fronte a mesma, parou novamente, levantando levemente sua cabeça, podendo observar a placa. O nome que ali tinha escrito. Aquela única palavra que a lamparina conseguia mostrar já havia feito com que todos os pelos em seu corpo eriçassem.

Aquelas cruzes e covas pelo chão, um clima triste no ar. Cheiro cortante, chorava covarde, chegando ao contentamento. Um cheiro morto chegava-lhe as narinas e já a deixava nauseada. Estomago embrulhado, enjôo, existências enterradas. Tudo naquele local a assombrava.

Ventos fortes puseram-se a passar, uma sombra ao longe, movendo-se dentro daquele local, podia enxergar. O ponto de luz, em um suspiro, apagado foi e sentiu suas pernas a bambear, trêmulas e imunes. Mas se entregar não seria o certo. Apenas uma solução havia... Fugir.

Seus pés voltaram a mover-se com rapidez por entre a escuridão, mãos aos poucos paravam de tremer, assim como o resto do corpo. Logo salva iria estar...

Mas toda sua esperança se viu esvair, como um mar durante a vazante que tende a secar. Ouviu uma risada seca e amarga perfurando-lhe os sensíveis ouvidos.

Seu corpo enrijeceu, tenso, uma perfeita escultura de gelo, estátua no mesmo lugar. Ding Dong. Era o sino da igreja a tocar, indicando que a meia-noite havia acabado de chegar.

Fechou os olhos com força, o medo do que poderia vir a seguir lhe acertando. Suando frio, sentiu aquela mesma mão tocar-lhe o ombro. Olhou para o lado, podendo apenas ver aquele universo negro e intenso a sua frente, olhando-a nos olhos.

O resto não era visto, nada além daqueles olhos e da mão em seu ombro. Como conseguia? Estavam a frente da igreja, o sino a mover-se lentamente. Achava que era a única... Era para ser a única... Mas única não mais seria, isso estava claro nos olhos do outro.

Aquela mão com veias tufadas, grande e grossa. Próprias de um homem, sem sombra de dúvidas... Mas, será que era mesmo um homem?

Em meio a um relampejo veio-lhe a imagem do garoto a sua frente. Cicatrizes, pontos... Tristeza e solidão. Era o que via naqueles rosto. Um ser sem vida, quase um deserto em pessoa. O que era ele? O que fazia ali? Era o que rondava-lhe a cabeça e... O coração...

A mão soltou-lhe, fazendo-a se virar para o mesmo. Por que se afastava? Por entre a escuridão ele se camuflava, mas por que não mostras teu rosto? Perguntas e mais perguntas. Estava ao ponto de enlouquecer.

─ Volte! ─ pediu, vendo aqueles mesmos olhos lhe observando. Era tudo o que via dele ─ por que tens medo?

Nada. Nem mesmo um suspiro. Escuro... Muito escuro. Dormia? Por que não conseguia se mover? Por segundos, pensou tratar-se de um sonho. Um pesadelo, talvez. Mas se era um sonho, por que não despertava? Dúvida...

Conseguia mexer seus dedos? Seus braços formigaram assim que tentou. O que era aquilo? Por que estava assim?

Dor... Muita dor. Algo começou a exercer uma pressão exorbitante em seu pescoço. Gritar... Precisava gritar. Não conseguia! Algo a impedia... O que estava acontecendo consigo?

Aqueles olhos negros em um instante tornaram-se tão fogosos quanto seus cabelos, fazendo-a arregalar os olhos, começando a sentir a pressão ainda maior em seu pescoço. Ar...

Precisava de ar, onde estava? Parecia que não havia algo que a mantivesse viva ali.

Dói! Dói! Pare com isso! Essa dor não é normal! Pare! Estava a beira da insanidade. Não poder ou conseguir se mexer, não conseguir sequer gritar...

Lágrimas saiam de seus olhos, mostrando que viva ainda estava. Mas essas lágrimas rasgavam sua pele, queimando-a sem pena ou piedade.

Em sua mente gritava desesperada. Ninguém poderia lhe ajudar? Estava sozinha? Como assim sozinha? Ele estava ali, a sua frente, mas ainda assim, sentia-se como se fosse a única no mundo.

A penumbra frente aos seus olhos começou a se dissipar, e pôde ver a tão esperada luz. Apertou os olhos, em uma tentativa de aumentar a definição daquela pequena imagem que aos poucos formava-se a sua frente. A igreja...

Mas mesmo com a luz da igreja acessa não podia vê-lo, era como se fosse invisível...

Pés e mãos não respondiam aos seus comandos. Ela havia ficado paralítica? Tentou mexer a cabeça e uma explosão de dor quase lhe tirou os sentidos. Doía. Doía demais. A parca visão que havia conquistado naqueles ínfimos segundos quase se perdeu por completo.

Seus olhos não estavam fechados, mas sentia como se estivesse ficando cega. Via o sino da igreja a balançar-se novamente, mas nada podia ouvir. O que estava havendo?

Pode ver o sorriso estampado no rosto daquele a sua frente. Conseguiu mais algo... Mas como conseguia o ver? Sua visão estava quase que completamente preta. Era como se... Em sua mente, a imagem dele se formasse...

Pôde ver mais daquele brilho que se aproximava e pôde ter certeza, naquele momento, que não era algo comum. Sentiu um arrepio correr pelo seu corpo e aos poucos a dor foi cedendo, como se um remédio benéfico houvesse sido aplicado em suas chagas.

Suspirou em alívio ao ver que seus membros agora começavam a obedecer ao seu comando. Suspirou novamente, feliz, e abriu mais os olhos, procurando saber o que havia acontecido consigo.

Viu agora aquele rosto por completo, olhando-a nos olhos. Um sentimento de angustia a corroeu. Ele a olhava sem sentimento. Olhava-o fundo naquela imensidão que mais parecia-se sangue, mas nada podia ser visto.

Será que juntar-se-ia a seus pais no paraíso? Medo de isso acontecer? Não tinha, não havia um porque para tê-lo. Iria vê-los, senti-los e abraçar-los uma vez mais... Queria-os consigo e iria tê-los ali, ou melhor, estaria lá com eles, em meio a seus braços, em um abraço apertado.

Mas o ser a sua frente não parecia querer lhe matar. Mais parecia-lhe perdido... O que poderia fazer? Não sabia... Vozes...

Vozes surgiam em sua cabeça, em murmúrios indecifráveis. Era como se fossem em outra língua ou a pessoa que os falava não conseguisse falar, forçasse a própria voz. Não podia ser...

Franzindo o cenho a sua frente, ele estava, como se fizesse grande esforço. O que acontecia? O que ele tentava fazer?

Logo uma frase melhor formou-se em sua cabeça. “Salve-me” Ouvira em um sussurro. Mas, de onde vinha aquilo?

A casa caiu quando viu o outro olhando-a nos olhos. Estava óbvio e claro tudo ali. Ele queria ajuda e era isso o que pedia esse tempo todo... Mas ajuda em quê? Era tão ruim não saber...

Mas não importava-me o que acontecia, apenas iria o ajudar com o que fosse preciso. Mas não sabia como o fazer.

No silêncio de sua mente, fez uma torpe oração, completamente desajeitada e sem sentido, baseado no que sua mãe sempre havia dito em quanto estivera viva, em sua infância, pouco antes de colocá-la para dormir. De coração, clamou por ajuda.

Uma mão tocou-lhe o rosto, acariciando-o, com um leve toque de sentimentalismo. Por um motivo desconhecido, seu coração encheu-se daquele sentimento há anos perdido entre suas lembranças. Sua mãe... Era como se ela estivesse ali, ao seu lado.

Ouvir lamentos sentidos de alguém que nunca imaginou sequer sentir amor por sua própria pessoa era doloroso. A sua frente, ele chorava.

Mas qual o sentido de tê-lo ali consigo? O que ele planejava? Queria que seu coração estivesse apertado e o estomago revirado como realmente estava? Isso não lhe fazia bem...

Lembranças passadas vinham-lhe a mente e isso era arrebatador demais para si. Chorava e chorava. O dia da perda de seus pais... Aquele acidente que deixou-a sozinha com seus três irmãos mais novos...

Ainda lembrava-se do choro dos pequenos ao seu lado. Todos tão sentimentais que fazia com que ela mesma sentisse-se um nada, sem chão e sem mundo.

Mas pior ainda foi o dia em que seu irmão mais novo morreu... Não foi uma morte qualquer... Ele havia se entregado nos braços de Deus por conta própria e isso ele havia deixado óbvio a todos.

Aquela mesma carta que havia decorado em sua cabeça de tantas noites mal dormidas em que a havia relido... Até hoje guardada em sua mesinha que tinha ao lado da cama.

“Se estão lendo esta carta é porque eu já morri. Bem, vou explicar-lhes bem o porquê de eu ter feito isso. Eu não me agüento mais, sinto-me na responsabilidade da morte de nossos pais e não poderia deixar algo tão terrível de lado, como se fosse um nada.

Eu sou o culpado, quem deveria estar naquele carro era eu! Fui covarde o bastante para não ter ido com meu tio ao supermercado e com isso nossos pais tiveram de ir...

Amber... A melhor irmã mais velha que já tive... Sinto muito por ter feito o que fiz, você sempre foi a melhor irmã que alguém poderia ter. Sempre corajosa e valente, cuidando com muito carinho de mim, Eli, Kris e até mesmo de Krystal, que era apenas uma bebê quando tudo aconteceu.

Krystal, sempre a mais nova e mais fofa de todas, com suas bochechas de algodão, tão macias que era impossível não as querer apertar. Aqueles olhinhos de esmeralda de tão verdes que eram. Os cabelinhos ruivos, como de todos nós... Sentirei saudades de minha irmãzinha.

E como ficará Eli, meu companheiro de todas as horas? Ele que sempre brincava de vídeo-game comigo. Lembro-me de quando lhe apresentei o starcraft, foi deveras engraçado ele tentando entender todos os comandos. Sempre lhe ensinei os deveres e espero que você, Amber, dê conta de ensiná-lo a partir de agora.

Kris... O mais compenetrado e nerd de todos, haha! Mas não podemos deixar passar que ele era o mais alto também. É nisso que dá fazer tanta natação, por isso nunca o quis fazer... Mas, para compensar, ele sempre teve mais garotas, por ter um porte atlético. Quero saber como ele consegue algo assim. Acho que posso descobrir quando estiver a observá-los lá de cima...

Bem, Amber, por eu saber que você será a única a ler essa carta, não permitirá que nossos irmãos menores a leiam, eu peço-lhe que se despeça deles por mim. Meu coração pode ter sido pequeno para guardar as mágoas, mas é grande para manter vocês dentro dele.

Eu amo vocês... Kevin!”

Lágrimas e mais lágrimas era o que brotava em seus olhos após relembrar aquela carta. O ser a sua frente segurou-lhe fortemente em seu rosto, como se quisesse chamar sua atenção... Aquele rosto, parecia-lhe tão familiar...

Não! Não poderia ser...

- Kevin? – rios saiam de seus olhos, vendo uma lágrima de sangue esvair pelos olhos do outro – Kevin, é você mesmo?

Ele apenas acenou de cabeça em um sim, fazendo-a sentir uma pontada na cabeça. Não entendia aquilo, por quê?

- Eu sinto dor, Kevin, faça parar – ela não mais derramava lágrimas, aquela dor a impossibilitava, era como se o seu corpo não funcionasse, apenas conseguisse respirar e mais nada.

Viu Kevin fechar os olhos, em um instante sua dor sumiu e olhos marejados voltaram a lhe tomar. Era o que estava entendendo? Tudo era causado por Kevin? Mas... Como?

Viu Kevin virar as costas e ai sim, tomada de desespero, seguiu-o, mas sentiu uma forte dor em suas pernas, fazendo-a parar. Kevin havia aberto os olhos novamente.

Ele abria sua boca, mas nada conseguia falar. Virou-se para a garota novamente. Movia e movia a boca, mas nada saia. O que acontecia com seu irmão?

Ai sim lembrou-se de que, quando se matou, cortou a garganta. Era por isso que ele não conseguia falar... Mas as marcas no rosto... Não conseguia lembrar delas...

Feridas internas? Todos dizem que nos ferimos internamente quando fazemos algo de errado ou ficamos nos culpando e foi no rosto onde sua mãe mais sofreu fraturas. Claro, ele se culpava e sua alma ficou marcada...

“Eu não posso falar com você, tenho que ir” ele disse rapidamente em sua mente, fazendo-a sentir uma dor infernal em todo o seu corpo. Caiu no chão pela mesma. Encolhia-se sentindo como se estivessem morrendo.

Mas aos poucos a dor foi passando. O que estava acontecendo? Onde estava toda a dor que sentia? Aos poucos abriu os olhos que nem mesma percebera ter fechado em meio a toda dor que sentia e percebeu Kevin não estar mais ali.

Explicações, todas, quando as teria? Não sabia, tudo o que poderia saber era que teria de ir pra casa. Precisava deitar, dormir e esquecer tudo o que acontecerá, ou então, até mesmo, escrever em seu diário pra, sempre que quiser, lembrar de quando seu irmão, de onde quer que esteja, veio lhe visitar...

“I feel so empty

Since you left me

It's like.. I don't even know how to explain

You see I'm sayin'”

Notas finais
Iai, ficou bom?! Bem, é isso, é só um teste para mim mesma, nada demais! Usei bastante figura de linguagem?! Ficou apreciável?? Mereço comentários??
Chu~~ ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!