Passado
1 Passado
Como tradição, quando uma princesa completa vinte e quatro anos, um baile é dado. Com Brianda não foi diferente, embora ela pedisse e implorasse aos pais que não lhe dessem um baile. Tradição era tradição.
— Mas papai... por favor! Eu não quero festa. Por favor, só vamos fazer algo como dos outros anos... — Ela voltou a insistir com o pai, enquanto estavam reunidos na biblioteca. Charlie suspirou baixinho enquanto encaixava alguns livros de volta em seus lugares, Irina baixou os olhos para o livro que tinha aberto no colo e Elizabeth, que escutava tudo enquanto lia alguns documentos de reinos aliados, também suspirou pesadamente. Os três sabiam o motivo de Brianda estar sendo tão teimosa, e admitiam que ela tinha razão. Mas, novamente, tradição era tradição.
No canto mais afastado, no grande sofá de cor carmim, Anna ouvia com atenção enquanto segurava a filha de quase dois anos nos braços, tentando distrai-la com um pequeno balanço de seu próprio corpo. Á seu lado, uma criada estava de pé, pronta para qualquer emergência ou pedido da consorte do príncipe Sebasthian.
Para Anna, recém-chegada na corte Argoniana, não fazia sentido que Brianda não quisesse uma festa. E muito menos que discutisse com o resto da família sobre isso. Se havia algo que ela nunca havia visto era a família de seu marido discutindo. Sebasthian estava sentado a seu lado e avaliava alguns mapas e estratégias com a ajuda do chefe dos militares. Pressentiu o que a esposa queria saber e beijou-lhe a testa.
— Vamos sair daqui Eurus... —Chamou, levantando-se e usando o apelido carinhoso que lhe dera antes do casamento. Anna sorriu e se ergueu também, entregando Penélope para a criada, que fez uma pequena reverência e se afastou com a criança nos braços. Anna e Bast prestaram uma pequena reverência para Charlie, Elizabeth e Brianda –que, embora fossem de sua família, continuavam a ser os monarcas de Argon- e saíram da biblioteca.
— Pode me explicar o que foi aquilo, Sebasthian? — Ela pediu. Bast assentiu com a cabeça, oferecendo-lhe o braço. Anna aceitou-o de bom grado para assim evitar as fofocas das mulheres da Corte, que adoravam implicar com a inusitada visitante que havia conquistado o coração do príncipe e se casado com ele em menos de um ano, sendo que muitas delas tentavam fazer isso há anos.
Os dois se dirigiram em silêncio pelos corredores, recebendo reverências de serviçais que passavam pelos dois. Anna olhava ansiosa para o marido, mas ele tinha o olhar distante. Caminharam até a grande sacada mais afastada o possível da biblioteca, que ficava perto dos quartos. Os guardas abriram as portas de vidro após um aceno de mão do príncipe, revelando um local amplo que se projetava para fora da estrutura do castelo. O símbolo de Argon, o lindo “A” trançado com flores e fios de ouro, foi delicadamente pintado no chão como em todas as sacadas, e a vista era magnífica, dando em direção à Floresta Prateada.
O vento gelado envolveu os dois no mesmo instante e Anna se sentou sobre o balaústre de pedras, geladas por conta do inverno, como se acostumara a fazer. Ali era o pequeno recanto dos dois, o lugar mais afastado o possível do resto da família. Sebasthian falou algo com os guardas em voz baixa e fechou as portas atrás de si, mas sem as trancar. Anna ainda se impressionava com o quanto os reis e príncipes eram respeitados e amados ali no reino.
— Eu acho que deveria ter contado isso antes... Antes de tudo — A voz de Sebasthian não passava de um sussurro, mas dava pra Anna escutar perfeitamente. O príncipe se apoiou ao lado da mulher, olhando para o sol que começava a se pôr. Anna olhou para ele, mas Bast estava perdido em pensamentos.
— Me contar o que, Bast? — Ela perguntou, entrelaçando seus dedos na mão quente do marido. Ele sorriu fraco com o gesto mas suspirou ao mesmo tempo, um suspiro baixinho e levemente triste.
— O porquê de Brianda odiar seus aniversários. E qualquer baile. O porquê de não termos dado um baile no nosso casamento, embora você tenha me dito que não se importava. Ela simplesmente odeia, e desde sempre nossos pais aceitaram o fato e não deram o baile para ela. Mas a tradição dos vinte e quatro anos é... — Sebasthian estava perdido em pensamentos e simplesmente murmurava frases e mais frases.
Anna desceu do balaústre e ficou ao lado do marido, entrelaçando seus braços e descansando sua cabeça no ombro dele.
— Por que os vinte e quatro anos são tão importantes? — Ela decidiu levar a conversa um pouco para outro caminho. Internamente, Sebasthian agradeceu pela mudança.
— É a partir dessa idade que um príncipe ou uma princesa pode assumir o trono... — Ele explicou e se virou para ela. Pegou com os dedos gelados uma mecha do cabelo dela e a colocou atrás da orelha dela, fazendo-a corar. Mesmo depois de alguns anos casados, Anna não se acostumava com as carícias e o jeito fofo dele.
— Mas então por que ela odeia o aniversário? Ela não quer assumir o trono? — Ela perguntou com cuidado. Sebasthian voltou a olhar para a frente, apertando ligeiramente os dedos da esposa em busca de conforto.
— É um assunto delicado para todos nós. Até os nove anos, a Brianda amava festas de aniversário. Ela corria de vestido e de meias pelo castelo o dia inteiro. Ia até as cozinhas para provar dos brigadeiros, ficava animada com as carruagens que chegavam, brincava com as outras princesas... tudo o que tinha direito — Sua voz estava melancólica como se ele falasse de um passado muito distante — Foi quando tudo mudou. Você já deve ter visto, na entrada do Grande Salão, uma pintura de todos nós. Já reparou que há um membro a mais na pintura? Um garotinho? — Ele perguntou. Ela assentiu.
Anna fechou os olhos e esforçou-se para lembrar. Na grande parede do Salão, ela lembrava-se de ter visto uma moldura gigantesca e dourada. Não se lembrava dos detalhes, mas conseguia reproduzir na mente a imagem de Charlie e Elizabeth sentados em seus tronos, com um fundo totalmente escuro. Conseguia ver Brianda no colo de Charlie, os cabelos dela trançados de forma caprichosa e jogados por cima do ombro, e Irina no colo de Elizabeth, ainda uma criança pequena. De pé atrás dos tronos ela vira Sebasthian de um lado, com a mão apoiada no ombro da rainha, e um menino do outro lado, com a mão entrelaçada na de Brianda. Na época que havia visto, imaginara que era algum amigo de Bast, e nem se dera o trabalho de perguntar.
— Eu me lembro... achei que era um amigo seu... — Ela comentou, e automaticamente seu dedão começou a fazer movimentos circulares nas costas da mão do príncipe. Sebasthian riu e envolveu-a em um abraço com um apenas um braço.
— De certo modo ele era. Um de meus melhores amigos... O nome dele era Adam e ele era o filho legítimo mais velho de meu pai e da Elizabeth. — Ele respondeu. Anna estranhou no mesmo momento, enquanto deitava a cabeça no peito dele, abraçando sua cintura.
— Mas Brianda não era a filha legítima mais velha? E por que Adam não estava em nosso casamento? — As perguntas saíram de forma inocente e doce. Sebasthian a apertou contra si, já segurando algumas lágrimas no olhar.
— Você não sabe o quanto essas perguntas me doem, Eurus... Mesmo que eu saiba que você não tem culpa.
— Então me explique, Sebasthian — Ela pediu, se pendurando no pescoço dele e voltando a se sentar no balaústre.
Como num passe de mágica, o sol terminou de se pôr no horizonte, e as tochas se acenderam iluminando Argon no mesmo instante. Anna amava a visão, e olhou por cima de seu ombro com as mãos ainda cruzadas no pescoço dele. Bast sorriu e se aproximou mais ainda, envolvendo-a num abraço caloroso e beijou-lhe na testa.
— Adam morreu aos onze anos — Sebasthian murmurou baixinho encaixando o rosto no pescoço dela. Anna prendeu a respiração, e em sua mente ela conseguiu ver novamente o menino que estava com Brianda no quadro. Como se sua visão ficasse desembaçada, viu claramente os cabelos ruivos e os olhos castanhos pintados com maestria, em tonalidades iguais aos do rei e da rainha. — Brianda era muito apegada a ele, muito mesmo e nunca mais foi a mesma. Desde a morte dele ela não quer mais festas. Ela não quer mais nada na verdade...
— Me desculpe meu amor... eu não fazia ideia. — Ela voltou a encarar os olhos do marido, que estavam brilhantes e á ponto de transbordar. Ela sorriu caridosa. Entendia perfeitamente a dor dele.
— Brianda era muito apegada a ele — Ele repetiu — E ela se culpa pela morte de Adam. — Ele comentou, olhando para as estrelas que surgiam no céu. Depois, olhou para ela e beijou-lhe a ponta do nariz. Bast sorriu mais triste ainda. — Eu pensei que perderia a Bri também, Anna...
Anna decidiu mais uma vez descer do balaústre e o dar um abraço apertado, envolvendo sua cintura e descansando a cabeça em seu peito. Ela amava a sensação, poder escutar aquele coração que ela tanto amava e que, segundo ele, batia apenas por ela e pela filinha dos dois. Para Bast, abraça-la significava protege-la, como jurara fazer. Mas, naquele momento, ele apenas a apertou forte, segurando um soluço e buscando conforto nos braços gélidos dela.
— Por que pensou isso, Bast? Se não se importa que eu pergunte... — Ela questionou, ainda aconchegada no abraço. Os ventos frios tornaram-se mais fortes e velozes, fazendo ela agradecer pelo calor que emanava de Bast. Ele suspirou baixinho.
— Logo depois do enterro, ela saiu correndo e se trancou no quarto, Anna. Ela me contou que vira que nossos pais a culpavam por ter matado o Adam, o que é tolice visto que Elizabeth e meu pai nem conseguiram falar com ela direito. Ela ficou trancada por oito meses...
— Oito meses? — Anna perguntou assustada. Sebasthian deu de ombros e de algum modo, ainda abraçado a ela, se sentou no chão, deixando-a em seu colo. Encostou as costas nas pedras geladas e entrelaçou novamente seus dedos nos dela.
Quando se conheceram, Anna costumava brincar e falar que “Os espaços entre meus dedos encaixam perfeitamente entre os espaços de seus dedos”. E isso se tornou tão certo e verdadeiro quanto sabemos que o céu e azul e o sol é quente.
— É. Ela quase não comia, apenas mordiscava algumas coisas que eu e Irina conseguíamos levar para ela. Além disso, nós dois éramos os únicos que ela deixava entrar no quarto e nós passávamos os dias em silêncio... nem os serviçais e os mordomos ela permitia que entrassem, e embora ela tivesse apenas 9 anos, uma ordem sua deveria ser cumprida. O tanto de vezes que Irina chorou quando não estávamos lá, com medo de perder a Bri também... — Ele parou de falar para tentar se recompor. Suas mãos tremiam entrelaçadas nas de Anna, e sua voz também estava trêmula.
Anna já o vira chorar em seu casamento e no nascimento de Penélope e, ao questionar para Irina, soube que ele não esperava achar alguém para passar o resto da vida juntos. Mas o choro que ela presenciava ali era um choro diferente. Diferente sentimento. Era um choro de dor, de perda. De tristeza. Ela aguardou calada, afagando os cabelos loiros dele a fim de fazer ele criar coragem para continuar.
— Quando completou oito meses da morte do Adam, chegou o dia que seria aniversário dele. Nesse dia, eu e Irina fizemos nossa rotina de sempre, que basicamente era informar o papai e a Elizabeth sobre como ela estava, pegar comida e sumir novamente no gigantesco quarto dela. Mas foi diferente. Ela não deixou a gente entrar e disse que não estava aguentando mais a falta dele. — Ele a encarou nos olhos — Eu pedi para Irina ir buscar o papai e tentei fazer ela abrir a porta... ela não abriu e teve um momento, segundos antes do papai chegar, em que eu escutei um gritinho abafado. Se você reparar, ou pedir para olhar, Brianda tem uma cicatriz no pulso esquerdo. — Bast não precisava dizer mais nada.
Anna conseguia imaginar a cena. Sebasthian, criança, tentando abrir a porta a todo custo. Charlie chegando, conseguindo abrir a porta e encontrando a filha desmaiada no chão, com provavelmente uma pequena faca ou um vidro largado a seu lado. Conseguia imaginar o desespero, e acima de tudo SABIA do desespero. Afinal, ela própria já havia visto uma cena parecida com uma de suas alunas.
— Brianda não chegou na artéria... — Bast retornou a falar. — Mas ela estava sem se alimentar direito, parecia um fantasma, e ela nunca havia visto muito sangue antes. Por isso ela...
— Desmaiou — Anna completou, escutando sua própria voz fanha e embargada. Era como se ela tivesse vivido a história, mas a verdade é que ela amava tanto Brianda que não conseguia imaginar que a princesa tivesse passado por tanta coisa. Sebasthian assentiu e olhou novamente para o céu, tentado a mudar de assunto.
— Eu costumava dizer para Irina que o Adam estava lá em cima. Olhando por nós, cuidando de nosso futuro... eu falava para ela que ele não deixaria a gente perder a Brianda também, que ele faria ela sair daquele quarto. E ele fez... — Ele falou, e Anna ajeitou-se no colo dele para que também pudesse olhar para o céu extremamente estrelado. Sentiu as mãos de Sebasthian envolverem mais uma vez sua cintura, como se quisesse ter a certeza de que ela estaria ali.
— Obrigada Adam. Por cuidar dos meus príncipes — Ela disse olhando e sorrindo para as estrelas, acreditando fielmente que o jovem príncipe escutaria, onde quer que estivesse. Bast sorriu com lágrimas ainda escorrendo por seu rosto e apertou Anna mais forte contra si, agradecendo ás estrelas por terem lhe dado tão maravilhosa esposa, amiga e confidente.
***
— Agora só precisamos esperar o baile... pelo menos vocês estarão lá e assim não terei que forçar meu sorriso para todo mundo que meus pais convidaram... — A voz de Brianda saia alta e levemente irritada do outro lado das portas do Closet.
Estavam todas no quarto de Brianda. Anna havia dado a ideia de se trocarem todas juntas, e também de levarem suas criadas. A maioria delas se conhecia, e era bom para Irina e Brianda escutarem as fofocas das criadas. Mary, a criada mais velha de Brianda, fazia penteados incríveis. Havia também Charlotte e Liana, as meninas que ajudavam Anna no castelo, e que tinham mãos maravilhosas para massagens e para fazer a maquiagem. Além disso, havia também Alana e Elise, as outras criadas de Brianda, e Lindsay e Isa, as ajudantes de Irina. Resumidamente, era uma reunião de meninas.
Vestidos se amontoavam na cama extremamente grande de Brianda. Já que as três tinham corpos parecidos e por isso precisavam apenas de pequenos ajustes nos vestidos, elas reuniram os das três para que cada uma escolhesse o seu, e no fim as meninas estavam vestidas ligeiramente iguais, em diferentes tons de azul. Anna trazia no pescoço, como sempre, o colar que a levara até ali.
Ouviram uma batida na porta. Irina, que estava mais próxima, abriu-a, e Sebasthian entrou. Ele era, depois do rei, o único homem que podia entrar na ala dos quartos femininos sem pedir permissão para a rainha antes. Beijou a testa da irmã mais nova, fez alguma piadinha sem-graça para Brianda e sorriu para a esposa. Esta bateu palmas chamando a atenção de todos, e em seguida ficou vermelha como um pimentão ao sentir todos aqueles olhares sobre si, arrancando outra risadinha de deboche do marido, que tentou disfarçar com uma tosse.
— Obrigada Bast — Falou sarcasticamente — Meninas, obrigada por nos ajudarem. Agora precisamos ficar a sós. — Pediu. Uma a uma, as criadas foram fazendo reverência e saindo. Quando não havia mais ninguém no quarto, apenas os três príncipes e a viajante do tempo, Sebasthian fechou a porta e se sentou no banco ao lado de Brianda, tomando a mão dela na sua e sorrindo fraternalmente. Não sabia o que ia acontecer, apenas que a esposa havia pedido para ele estar ali e ele estava.
Anna caminhou até o criado mudo, onde havia deixado os pequenos embrulhos que comprara na aldeia de Kon. Seus olhos bateram no porta-retratos que tinha ali, uma réplica menor da mesma pintura que havia no Grande Salão, e mais uma vez ela teve a certeza que estava fazendo o certo.
— O que foi Anna? — A voz de Irina estava cheia de curiosidade, e ela estava sentada de pernas cruzadas sobre o sofá circular que tinha no meio da sala, acariciando o pequeno gato que ás vezes aparecia no castelo. Anna riu.
— Sei que o aniversário é da Bri... E que ela falou para eu não comprar nada e provavelmente quer me matar por eu estar tocando nesse assunto... — Ela se virou vendo a princesa mais velha fechar o rosto. Sorriu para ela e segurou os três embrulhos na frente do corpo. — Eu fui sim até Kon e comprei algo. Para os três.
— Para os três? — Sebasthian estanhou. Ela assentiu e se sentou na cama, suspirando baixinho.
— Bast me contou sobre o Adam. — Ela revelou. As duas irmãs já sabiam, e acenaram com a cabeça. — Eu... talvez vocês me odeiem agora assim que eu falar isso, mas eu procurei os pais de vocês para conversar sobre ele.
— Você... o quê? — A voz de Brianda não passava de um sussurro. — Você não tinha o direito, Anna.
— Eu sei que não tinha. Me desculpem de novo, só peço que me deixem terminar — Ela pediu. Brianda cruzou os braços sobre o peito, Sebasthian olhou desesperado para Anna, sem saber o que fazer. Apenas Irina sorriu para a mulher do irmão.
— Discordo de Brianda. Você tinha sim o direito, Anna. Adam é um assunto de família, e você faz parte dela. — Comentou, mesmo sabendo que receberia a ira da irmã toda para si. Antes que fosse novamente interrompida, pegou as três caixinhas e entregou uma para cada um.
— Eu estava em Kon procurando algo e vi essas pulseiras. Elas pareceram dizer exatamente o que eu queria, e eu comprei pensando em vocês. Soube que o Adam contava história sobre as estrelas para vocês... apenas não me odeiem, eu não queria que vocês ficassem bravos ou tristes hoje, eu só queria dar a vocês algo que significasse muito...
Enquanto Anna tagarelava, os três abriram os embrulhos. Eram pulseiras idênticas, com fita de couro e uma plaquinha de prata com os dizeres “As estrelas sempre cuidarão de nós” gravados com uma letra cursiva delicada. A própria Anna trazia uma réplica em seu pulso. Brianda se esforçou para não chorar e interrompeu a frase de Anna a envolvendo em um abraço apertado.
— Não precisa dizer mais nada, Anna. Muito obrigada — Ela falou, assim que soltou a cunhada. Anna sorriu e Irina imitou a irmã. Sebasthian ainda olhava atônito para a pulseira, sem saber o que fazer e o que dizer.
— E mais uma coisa... um presente para todos vocês, porque havia apenas uma e há apenas essa em todo o mundo — Anna puxou um pacote um pouco maior. Brianda o abriu, era uma delicada caixinha de música que, ao ser aberta, contava a história, linha por linha, do livro preferido dos três, O Pequeno Príncipe, livro que era o preferido de Adam e que ele lia sempre para os irmãos.
Novamente, os três ficaram sem reação. Mas Anna não precisava que eles dissessem e nem fizessem nada. Para ela, o brilho nos olhos dos três já falava tudo o que ela precisava ouvir. E, em seguida, o abraço agrupado sobre ela demonstrava todo o resto.
***
Ao cair da noite, assim que o baile de aniversário teve um fim, Anna se sentou sobre um dos milhares de pufes que havia no canto direito do salão. “Se sentar” é um jeito mais sutil de falar que a consorte se jogou, extremamente cansada. Estava tão cansada que nem vira quando sua filha havia adormecido e sido levada para a cama. Passara a noite dançando, passando de convidado em convidado, cumprimentando todos, se apresentando e correndo atrás da filha, que tinha energia de sobra.
Seu vestido branco e vinho estava amassado e ligeiramente sujo pela hora em que teve que correr atrás de Penélope nos jardins. Seus saltos eram brancos e comiam seus pés, criando bolhas que doíam á cada passo. Seu cabelo que antes estava trançado agora caia em grandes ondas por suas costas, bagunçados e naturais.
— Consegue andar? — Sebasthian perguntou ao se aproximar dela ainda com uma taça de vinho nas mãos. Seu traje de príncipe estava impecável, os cabelos ainda penteados e ele não parecia ter dançado e perseguido a filha durante quase cinco horas. Anna se perguntava como ele conseguia ainda ter energia para ficar de pé, assim como o resto de sua família, e como eles se mantinham arrumados. Ela choramingou, atraindo atenção de Elizabeth e Irina, que riram.
— Me diz que posso tirar esse sapato, por favor! — Pediu manhosa. Charlie passava por ali e acabou gargalhando ao ouvir o pedido, fazendo Bast rir também.
— Pode perder seus sapatos, Cinderela. — Ele garantiu. Ela comemorou sonolenta e tirou os sapatos, segurando-os com os dedos de uma mão. Suspirou agradecia ao sentir os dedos deixarem de ser esmagados e os apoiou em outro pufe. Se segurou para não deitar, pois se o fizesse acabaria dormindo ali mesmo.
— É exatamente por isso que a Cinderela perdeu os sapatos dela. Eles estavam machucando-a e ela arrancou um pé, mas não teve tempo de arrancar o outro porque se não perderia a carona... — Ela falou cabeceando de sono. Depois, ergueu as duas mãos. — Me puxa por favor. Se não eu não vou levantar. — Ela pediu.
Ele largou a taça em uma das mesinhas dispostas por ali. Depois, pensou por um segundo antes de se abaixar e pegá-la no colo. Anna jogou os sapatinhos em sua própria barriga e cruzou os braços no pescoço dele, deitando a cabeça em seu ombro.
— Você não me carrega assim há dois anos. — Comentou, enquanto ele saia do salão. Acenou deliberadamente para o resto de sua família, que acenaram de volta.
— Há dois anos nós tivemos uma filha que não deixa que eu te carregue assim, Cinderela Adormecida — Ele riu sozinho com a junção dos nomes das princesas. Anna revirou os olhos.
— Seus trocadilhos são horríveis, Sebasthian Brunier. — Ela reclamou, sentindo que ele estava subindo as escadas para o quarto.
— Adam que me ensinou. Você deve reclamar com ele, princesa. — Ele comentou. Passaram por uma janela e Anna, bêbada de sono, olhou para fora.
— Podia ter ensinado trocadilhos bons, Adam! — Reclamou para as estrelas. Sebasthian jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Com um aceno de mão, um dos guardas que fazia rota nos dormitórios abriu a porta do quarto de casal. Lá, ele a ajudou a se trocar e depois e deitou na cama. Exausta, ela dormiu rapidamente. Ele se deitou a seu lado e a abraçou. Ao se inclinar para assoprar a vela que iluminava o local, viu a pulseira ali. Sorrindo, apagou a vela e voltou a se deitar nos travesseiros, adormecendo em seguida.
Do lado de fora, uma estrela brilhou mais forte que todas as outras, como se risse da reclamação inusitada feita pela esposa de Sebasthian.
Notas finais
Como sempre, vou agradecer ao Bast e á Anna por terem me contado essa história magnífica.
Espero que tenham gostado ^^
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