Pas de Deux
1 Arabescos e floreios
Notas iniciais
A música suave preencheu a sala sorrateiramente, como um gato percorrendo canto por canto com sua patas pequenas e leves. Estava baixa o suficiente para que o par de respirações hesitantes e ansiosas pudesse ser ouvido — tal qual ele imaginara quando abaixara o volume ligeiramente. Os carros e ônibus que passavam na rua em frente à academia pareciam agora distantes, uma vez que tudo o que ele se importava em ouvir era sua companhia.
Afastando-se da bancada do aparelho de som e virando-se para ela, sentiu seu coração esquecer-se de executar algumas batidas. Suas mãos suavam frio e o trabalho do ventilador ao fundo parecia insignificante. Discretamente, ele procurou secar o suor nas coxas da calça de malha escura, temendo provocar asco em sua companhia.
Cada vez que repetiam a sessão particular de passos, gestos e toques lhe ocorria como se fosse a primeira.
– É uma música bonita – ela comentou, erguendo-se do linóleo e alongando o pescoço mais uma vez.
Os fundos entre seus músculos e tendões sumiam e apareciam com os movimentos. Lentamente, ele extinguiu a distância entre seus corpos, levando suas mãos — com toda a sutilidade que seus desejos permitiram — até o pescoço exposto. Seus dedos foram percorrendo as trilhas já memorizadas, massageando os músculos tensos da base, descendo até a volta e o busto. As pontas repercutiram o osso da clavícula, encontrando-se sobre o esterno.
Senti-la era ainda melhor do que apenas admirá-la. Sentir todos os seus fundos e os ossos ressaltados. Tornava-a ainda mais bela em suas divagações.
Lentamente, suas mãos tomaram as delas, posicionando-as num arranjo de valsa. Os troncos grudaram-se, compartilhando os batimentos cardíacos que, involuntariamente, procuravam um ritmo de comunhão.
Ela respirou fundo, procurando o odor marcante de sua colônia. Então, ergueu os olhos escuros e brilhantes, que tão bem combinavam com os cabelos desgrenhados presos num coque mal-feito, e sorriu. Um sorriso infantil de cumplicidade que não exibia os dentes, apenas a tênue paciência pelo fim da introdução da música.
Os pés começaram a se mover calmamente em pas de valse, tornando-se mais ágeis conforme a música ia ganhando velocidade gradativamente. Aqui e ali surgiam um floreio com um cambré, um attitude rápido.
Sua mão esquerda espalmou as costas dela com um baque abafado de carne encontrando carne. Foi um movimento seco, ardido. Mas ela não grunhiu nem demonstrou dor pelo impacto. Sua expressão continuou serena, como uma bailarina tinha de ser nos braços de seu parceiro.
Ele gostava daquilo. Gostava daquele sentimento de possessão, de marcá-la e guiá-la pelo espaço com a música lambendo os ouvidos de ambos. Gostava desse conjunto principalmente quando não era obrigado a fazê-lo, quando era só os dois e uma música de que gostavam reverberando pelas caixas de som. Gostava mais ainda quando não precisava assistir o professor ou algum de seus colegas tomando seu lugar e dançando tão próximo a ela.
– Vai ficar vermelho – ela sussurrou com um riso abafado, ainda que só estivessem os dois na sala.
– Como sempre fica – ele acrescentou, apoiando as mãos nas laterais do quadril dela com firmeza.
Sem esforço, ele a levantou, esticando os braços fortes o mais alto que podia. A música ia chegando ao clímax quando ela empertigou-se para fazer mais um arabesque elaborado. E ele achava a visão linda, como se sua parceira realmente estivesse flutuando como um pena, fazendo um port de bras gracioso enquanto descia e se segurava em seus ombros expostos pela regata folgada.
Piruetas seguiram-se, emendando-se com sautés e suspiros. Seus dedos longos encaixavam-se nos espaços entre as costelas dela.
O linóleo manchava as sapatilhas de ambos. As respirações iam se tornando mais pesadas os toques mais urgentes e possessivos.
Ele a segurou pela parte interna da coxa esquerda e pela lateral direita do tronco delgado, inclinando-se com ela suavemente num ponché. E então, com um giro, ela estava em seus braços, enlaçando seu pescoço e roçando os lábios em sua pele sensível.
As respirações uniam-se, bailavam como eles. Os lábios dela iam formando um sorriso contra a volta do pescoço dele.
– Isso faz cócegas – ele a afagou com os polegares.
Com cuidado, como se portasse uma delicada peça de porcelana, ele a pôs no chão. Os olhos escuros dela absorveram o azul dos dele. Os sorrisos leves pareciam se completar, esboçando expressões satisfeitas.
Por breves instantes, ele pensou em emoldura o rosto dela com a mãos e trocar um cálido beijo. Mas lhe ocorreu que, para ela, ainda eram e sempre seriam amigos infância.
Então ele retirou as mãos da cintura dela e deitou-se no linóleo.
Seus músculos pediam trégua e a garganta parecia estar rasgada e seca. Os pulmões queimavam fazendo-o respirar com a frequência dobrada. Era uma sensação boa, tão boa quanto os curtos minutos que ela reservava para deitar-se ao seu lado e respirar.
Uma outra música começava. E ele se perguntava até quando aguentaria aquelas sessões particulares, as aulas, as apresentações; os colegas de classe e o professor tocando nela como ele tocava, os amigos — os quais ele só conhecia por fotos e festas de aniversário — vindo abraçá-la com buquês e elogios no final dos espetáculos.
Mas eles eram apenas amigos de infância, parceiros de travessuras e risadas, confidentes fiéis. Eram amigos que às vezes trocavam um toque ou outro um pouco mais íntimo e sugestivo — não mais do que isso. Amigos que encantavam os espectadores com pas de deux e se demoravam na separação.
– Eu tenho que ir. Uma montanha de lição de casa me espera – ela revirou os olhos, dando um soquinho amigável em seu ombro e se levantando.
Ela colocou o vestido florido por cima das roupas de ensaio, pouco se importando com a fina camada de suor em seu tronco. Calçou os chinelos, apanhou a bolsa e lhe soprou um beijo. Um beijo de amiga.
– Até mais.
– Até – ele acenou antes de a porta fechar-se atrás dela.
O murmúrio da música, a cacofonia da rua lá fora, seus pensamentos desordenados. Tudo o atingiu de uma vez só, com força. Doeu quase tanto quanto seus músculos que vinham sendo forçados desde de cedo.
Lentamente, ele caminhou até as grandes janelas abaixo do ventilador, recebendo os preguiçosos e alaranjados raios solares do fim de tarde. Apoiou-se nos antebraços no parapeito de sua janela favorita. A barra de exercícios impedia que ele se aproximasse mais e apertava-se contra sua barriga.
Afinal de contas, estava tudo bem se ser amigos de infância garantia a preferência dela por sua parceria no pas de deux.
– Está tudo bem – ele sussurrou, respirando fundo.
Mal podia esperar pelo próximo pas de deux com ela.
Notas finais
Pas de deux (pá dê dê): em francês, passo a dois. Coreografia executada por uma bailarina e um bailarino, na qual o homem serve de apoio para a parceira na execução de saltos, giros e poses mais complexas e elaboradas.
Pas de valse (pá dê váls'): em francês, passo de valsa. Constituído por passos menores e executado em tempo de valsa ou de oitavas.
Cambré (cambrê): em francês, arqueado. Deslocamento do tronco para trás, criando um arco.
Attitude (atitid'): em francês, atitude. Pose do ballet inspirada em uma famosa estátua de Hermes/Mercúrio. O joelho fica prevento dobrado e a perna sustentada.
Arabesque (arabésq'): em francês, arabesco. Inspirado em ornamentos árabes, esse movimento consiste em sustentar a perna derrière (atrás).
Port de bras (pôr dê brá): em francês, portagem de braços. Pode ser a passagem de uma posição de braços para outra, ou a sequência de movimentos com os braços.
Sauté (sotê): em francês, saltado. Pequeno salto no lugar.
Linóleo: tipo de revestimento impermeável para piso levemente emborrachado.
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