Aaron

6 dias depois

Havia uma semana que minha irmã havia chego e eu quase não passara tempo com ela. Quando eu não estava cumprindo minhas obrigações como rei, ela estava ocupada. Arrumando suas coisas, mandando fazer mais vestidos e sapatos, supervisionando o funcionamento do palácio. (Estava quase um caos, mas felizmente ela redefiniu as funções dos criados e as regras), ou organizando o festival para o Solstício, Já que decidiu (corretamente) que era mais apropriada para organizar o evento do que eu, já que faltam pouco mais que um mês e eu ainda não havia planejado nada.

No tempo em que ela estava ocupada e eu não, a dor me consumindo e incendiando cada célula de mim, eu pegava Felicity e cavalgava para o bosque. Duas das vezes que fui Ela estava lá. Com aqueles olhos enormes que me deixavam momentaneamente sem ação. De repente, já não sentia tanta dor, nem se sentia tão sozinho. Se trocávamos duas dúzias de palavras durante toda a tarde era muito, mas fazíamos companhia um ao outro, mesmo sem precisar de conversas.

Pensava sobre ela quando saí da sala de reunião com os ministros. Cansado. Estressado. Minha cabeça latejava e parecia estar prestes a explodir a qualquer instante. Ia me trancar no meu quarto sem jantar, sem realizar o treinamento semanal de técnicas de combate, sem ao menos pegar o livro que deixei na biblioteca do castelo. Já tinha aberto a porta do meu quarto quando percebi que deveria falar com minha irmã. Mariah deveria estar esperando por isso, e eu sentia tanta falta dela! Fechei a porta do meu quarto e segui em direção ao dela.

Mariah sempre fora minha única amiga. A única pessoa que sabia do meu fardo e tentava fazê-lo ser menos pesado. Minha mãe morreu poucos anos depois que eu nasci e a relação que tive com meu pai foi toda baseada com a preparação para a responsabilidade que receberia quando assumisse o trono. Ele não demonstrava afeto, ou orgulho, ou ao menos um lampejo de compreensão. Mas eu não o culpava, e não o culpo. Infelizmente serei assim com meu filho, primogênito. Aquele que herdará, infelizmente, mais do que o trono.

Mas não Mariah. Ela sempre trazia risadas e diversão para o meu quarto durante as noites. Tentava fazer minha vida ao mínimo suportável enquanto não fosse eu, o rei. Hoje, ela sabe que não pode fazer nada para mudar o que o fardo impõe sobre mim. Bato na porta do quarto dela polidamente. Ela atende poucos segundos depois.

—Olá, Aaron. Entre.- Ela cumprimenta animada. Ela fecha o piano que tocava antes de ser interrompida e senta-se junto a mim no sofá do seu quarto.

—Como você está?- pergunto-lhe e ela sorri.

—Estou bem, senti muita falta de casa. Toda essa loucura no castelo, a agitação da proximidade do solstício- ela solta uma risadinha.- Durante a viagem havia tanta calma! Algumas noites o ruído natural era tão tranquilizante que eu passava minutos, horas sem pensar em nada. Era bom, mas nada comparado com a agitação do castelo.

Formávamos uma dupla estranha. Mariah ria sempre, tinha traços leves e divertidos. Eu, no entanto, era sempre reservado. Expressões pesadas estavam sempre marcando meu rosto e eu nunca ria.

—Como Você está? — ela perguntou atenta.

—Como sempre: cansado, estressado, triste, angustiado e depressivo.- Ela me deu um sorriso tímido, o máximo que ela podia chegar de compreensão do que eu sentia o tempo todo, no lugar de todos do reino.

—As coisas mudaram tanto- ela comentou quieta, apoiando a cabeça no meu ombro.

Conversamos baixinho durante algumas horas até que ela parou de responder. adormecera no meu ombro como costumava fazer quando éramos crianças. Fiquei alguns minutos com ela recostada em mim. Matando a saudade que sentia dela. Depois de alguns minutos levei-a para a cama e saí do quarto.

Dormi uma noite inteira sem sonhos ou pesadelos.

***

Novamente ela veio. Chegou ao bosque antes de mim, e me esperava sentada no tronco que costumávamos nos recostar. Ela sorriu ao me ver descendo do cavalo e trazendo-o para repousar ao nosso lado. Felicity já a adorava por todas as frutinhas que ela lhe dava e deitou ao lado dela. Sentei recostado ao nosso tronco ao outro lado do cavalo.

—Ei garoto, Como você está?- olhei-a achando que falava comigo, mas ela olhava e acariciava o cavalo. Repousou o livro ao lado dela, com um flor marcando a página. Estava inclinada sobre o cavalo, brincando com ele. Creio que sempre teve receio de o fazer, já que o cavalo é meu e eu sempre o amarrava distante. Porém hoje eu o trouxe para perto e ela parecia genuinamente feliz com isso.

—Qual o nome dele?- perguntou, dessa vez direcionada à mim. Aquela voz extremamente doce e inocente.

—Felicity. -respondi simplesmente. Observei seu rosto. Ela levantou uma sobrancelha, compreendendo a ironia. Sorriu largo e acariciou um pouco a crina dele.

—Felicity.- repetiu saboreando o tom que o nome adquiria em seus lábios. Recostou-se de volta à arvore e recolheu o livro novamente. Longos minutos de silencio quebrado apenas pelo som de nossas respirações e vez ou outra de algum animal que passava.

—Qual seu nome? Não pude evitar perguntar. Faziam dias que nos víamos e eu ao menos sabia o nome dela. Ela demorou de responder, provavelmente achou estranha minha repentina pergunta, ou não acreditou que era direcionada à ela.

—Helena, Majestade.- respondeu prendendo um sorriso, os olhos semicerrados. Voltei a olhar para frente. sério e levemente triste.

—Como você está?- perguntou baixinho e tímida. Por educação. Olhei surpreso para ela. Poderia ela não saber sobre o encantamento que existia sobre Pasárgada que me tornava triste para que ela pudesse ser incondicionalmente feliz?

—Como sempre estou.- a compreensão transpassou sue olhar e quase me arrependi de ter sido tão seco. -Hellena.

Ela me olhou devagar. abandonando novamente o livro. Procurei algo para dizer.

—Está lendo novamente esse livro?- nunca a vi lendo outro.

—É o único que eu tenho, Alteza. É meu favorito.

Assenti e voltei a encarar as trevas da floresta.

Ouvi as páginas passando rapidamente e de repente o som de sua voz.

—"Era uma vez um lago. Azul, límpido, Encantado..."- Mal pude acreditar que ela estava lendo para mim. Olhei incrédulo, mas ela não notou meu olhar. Continuou lendo para mim enquanto eu a encarava.

Passamos toda a tarde assim. Eu já conhecia aquela história, já havia lido aquele livro, mas parecia estar em transe observando-a, as risadas leves quando chegava um trecho engraçado, a tranquilidade com que pronunciava as palavras, e o som da sua voz. Ah o som da sua voz parecia me enfeitiçar. Durante toda a tarde não houve dor, não houve tristeza, angústia ou inquietação da minha parte. Tampouco houve alegria ou qualquer sentimento semelhante que pudesse ter caso não fosse rei. Interrompeu a leitura apenas quando pegou os pães que trouxera para comer. Repartiu igualmente para nós dois e prosseguiu com a leitura.

Não ousei interrompe-la. Nem quando percebi que havia passado do horário de voltar para o palácio, para minhas obrigações. Não era capaz de me mover. Meus olhos observaram suas mãos delicadas pegar a cenoura que havia trago e presentear para Felicity. Sem desviar os olhos do livro, sem parar de ler.

A risadinha que deu quando Felicity terminou a cenoura e lambeu a mão dela ecoou durante toda a noite. Mesmo depois dela bocejar, fechar o livro e se despedir com um "Até mais". Mesmo depois que ela vestiu a capa vermelha e saiu correndo de volta ao reino. Mesmo depois que voltei ao castelo à galope sem pensamentos na minha cabeça.

Sua risada ecoou mesmo depois que eu dormi.

Notas finais
Espero que gostem e desculpem se houver erros. ♥