Parvati
1 Rancho
Notas iniciais
Eu não sei como vim parar aqui, e sinceramente, estou um caco, puro stress, revoltado, praticamente surdo e aparentemente abandonado pela sorte! Juro que não estou fazendo drama. Estou realmente na merda.
Não sei por onde começar, ou se vou começar, o desanimo é tanto que está até me impedindo de gesticular com a minha própria mente.
– Se eu fosse seu pai já tinha descido tanta porrada em você moleque, que sua cabeça ia ficar azul. – Era mais inteligente ficar quieto, eu não quero retrucar uma provocação dessas, principalmente porque a pessoa está no volante, e não quero sofrer um acidente duplo: capotar o carro e ser espancado por um cara furioso ao mesmo tempo.
Já fazia duas boas horas que eu estava naquele carro, não aguentando mais! Pude sentir os olhos do motorista me dissecando todo o tempo, sem falar as vezes que resolvia me xingar. Eu sou tão estressante assim?
– Quando a gente chegar, pode apostar que vou fazer da sua vida um inferno, do mesmo jeito que você está fazendo comigo.
O que querem que eu faça? Peça perdão? Eu não fiz nada! Ou melhor, o que aconteceu não foi culpa minha.
Semana passada avisaram na escola que teríamos uma excursão, um fim de semana todo em um rancho, fazendo atividades em equipe, entre outras coisas que dão nojo. Eu concordei em ir porque não tinha mais o que fazer. Papo vai papo vem, já na excursão, acertei uns retardados com uma arma de chumbinho que tinha na garagem do rancho, e só por isso me expulsaram, e agora tenho que aturar uma viagem de volta sozinho com esse parasita. Tá aí porque estou um caco e revoltado. Surdo é porque gritaram demais no meu ouvido.
– Não da pra parar não? Eu quero mijar.
– Se eu parar agora vai ser pra te enforcar na estrada. Tem noção do quanto vão falar merda pra mim? Sou eu o responsável pelos garotos que você quase aleijou!
– Eu já disse que foi sem querer.
– Sem querer? – Urrou. – Você acertou três garotos com uma arma que precisa ser recarregada a cada disparo!
– E daí? Foi coincidência... – Estou ficando sem argumento.
– Você acertou eles no mesmo lugar! Na virilha! Porra, quem é que faz isso?
– Olha aqui! Para de me acusar!– Brecou sem aviso, me fazendo bater a cara no porta-luvas por estar sem cinto. – Ow!!
– Você merece por fazer maldade com aqueles garotos, e também por não usar o cinto, vacilão.
– Eu vou contar pra escola! Pra secretaria da educação! – Freou de novo, a minha batida no porta-luvas se repetiu.
– Vamos ver se eles acreditam no aluno mais lixo ou no professor dele.
– Você é um bosta. – Me atrevi, imerso no ódio. – Sua namorada não tem dado pra você não? – Ele freou mais uma vez, e eu, não aprendendo a lição, bati a cara de novo. Consequência? Um beiço inchado.
– Põe o cinto caralho!
– Fala pra sua namorada por pra mim!
– Fala pro seu cabeleireiro por pra você! – Zoar meu cabelo já é sacanagem.
Resolvi calar a boca, apesar dele não ser do tipo que não fede nem cheira, não é muito inteligente duvidar da autoridade de professor dele. Fechei a cara e cruzei os braços, reclamando da dor na boca. Lá se vai minha excursão que não virou merda nenhuma, agora tenho que aturar meu professor de Ed. Física me insultando e ameaçando minha pessoa por atrapalhar as paqueras dele no rancho.
Mas que dor no beiço!
– Aqui. – Com um tom de voz mais tranquilo jogou uma latinha gelada de refrigerante pra mim.
–... Valeu. – Até que enfim um pouco de compaixão.
– Coloca isso na boca pra desinchar, não quero que pensem na escola que te espanquei. Aproveita e abre pra mim, estou com sede e não posso largar o volante.
Mas que filho da puta.
***
Quando chegamos à cidade depois de uma viagem longa pela estrada, minha boca tinha desinchado com o tempo, aliás, quem bebeu o refrigerante foi eu só pra deixar ele um pouco mais fodido.
– Se liga aqui garoto. – Chamou antes de descer do carro e entrar na escola. – Se falar que eu te ameacei eu arrebento você.
– Tenta aí, bostão. – Ele não respondeu, só saiu do carro e me seguiu pra dentro do colégio. Eu já sinto cheiro de interrogatório e começão de cu.
A escola já sabia desde o rancho o que tinha acontecido –porque os idiotas tiveram que ser levados pro hospital. E por isso a conversa ia ser intensa, mas claro, não seria tão tensa quanto para o professor. E eu acho é muito bom.
Ouvi isso, ouvi aquilo, ouvi também que eu estava proibido de ir a qualquer excursão que a escola fizesse, mas tinha sido pior pro cara do lado, que além de tomar uma pressão deliciosa, levou uns gritos na cara e quase um afastamento. Não sei como, mas ele conseguia perceber que eu ria internamente.
Isso me rendeu um pé arrebentado por uma pisada que ele deu por debaixo da mesa. Mostrei o dedo quando o nosso agressor se virou de costas pra atender um telefonema do hospital de que os babacas estavam bem.
– Vocês tem sorte que nada muito grave aconteceu com os garotos. Agora com licença. Terminamos por enquanto. – O “com licença” foi o mesmo que um “rala”, e exatamente por isso a gente não demorou nem um segundo pra levantar e sair dali no maior gás.
– Você estava achando bom né?
– Claro que sim... Quem não? – Brinquei com as mãos enquanto via ele se contendo pra não me agredir física e verbalmente ao mesmo tempo. – Não precisa ficar com tanta raiva de mim! Nem foi tão ruim assim o rala.
– Pra você não. E outra que eu podia estar naquele rancho agora, aproveitando o passeio. Que mandassem você sozinho de volta!
– Quer saber, eu nunca gostei das suas aulas mesmo. São um lixo! Na verdade vocês professores de educação física são uns bostas.
– Eu pelo menos tenho alguma formação. – Riu, achando que tinha me atingido com o diploma dele. – Aliás, você sabe que sou responsável e estou ansiosíssimo pra tomar uma atitude.
– É, eu estou sabendo mesmo... – Sabia como funcionavam as coisas aqui em casos como esse. – Atividades extras nessa bosta de escola.
– Já é um saco ver você matando minhas aulas, mas ter que te acompanhar nas atividades extras vai ser ainda pior, então faz o seguinte, facilita ok? – Deu passos mais rápidos pelo corredor do colégio, me deixando pra trás. – Eu vou pra casa agora. Se vira com seus pais. Infelizmente te vejo na segunda.
Mostrei o dedo enquanto estava de costas, na minha frente, indo embora. Um fim de semana inteiro em casa me espera.
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