Parte de mim. Metade de mim.
2 Só mais uma gota de Ti.
Alaric desceu as escadas, entrou na conzinha e pegou uma taça de sobremesa no armário. Ao se virar, Ric deu de cara com Elena atrás dele, ela olhava para ele abatida e com as pálpebras inchadas. Ele fechou as cortinas da cozinha por causa do sol que podia refletir nela, pois os anéis não funcionavam por causa do feitiço dos viajantes que ainda estava se espalhando pela cidade.
Alaric pegou Elena pelo braço e colocou-a sentada numa banqueta preta junto à mesa da cozinha. Ela não dizia uma palavra, a mesma só o observava com aquele olhar zonzo, parecia que estava dopada.
Ric pegou algumas frutas na fruteira e as colocou encima da copa. Ao cortá-las em pedaços quadrados ele puxou assunto.
– Elena eu sei que é difícil, eu sei que está complicado e eu sei como você sente falta dele, mas temos que sair da cidade. – Disse Alaric com certa dificuldade em tocar no assunto. – Sinto muito!
– Sair? Sair daqui? Não, Ric... – Elena levantou um olhar transtornado para ele ao ouvir aquilo. – Não posso, eu... – Continuou. – Eu não posso Ric, eu... Eu não quero esquecer, eu não quero abandonar tudo, eu não posso!
–Eu sei Elena, eu sei – Ele aumentou a velocidade ao fatiar as frutas. – Mas não há como ficar aqui, a purificação dos imigrantes está se espalhando e logo você não poderá mais se alimentar, nem sair ao sol e nem ao menos usar suas presas. Temos que sair e voltar apenas quando tudo isso acabar. Eu vou cuidar de vocês.
– Ah, meu Deus, Ric. – Elena estava com os olhos lacrimejados novamente. – Está tudo preso á mim, se você soubesse como eu sinto falta...
– Eu sei, eu sei. Juro que não faço isso por mim Elena, eu faço por você e pelos outros. Eu não queria tirar você daqui, eu juro que não queria, aqui é sua casa agora.
– Ah. – Elena abriu um sorriso fingido e negativo. – Minha casa? Eu não tenho mais casa Ric! Eu não tenho mais família, eu perdi meu irmão outra vez, perdi minha melhor amiga pela segunda vez, perdi todos os meus familiares, queimei minha própria casa, perdi tudo, Ric, tudo! – Elena cobriu o rosto com as mãos envoltas pelas mangas grandes da blusa dos anos 60 de Damon que ela ainda vestia.
– Hei, hei Elena, calma... Calma. – Ric colocou a taça com uma salada de frutas na mesa a frente de Elena, ele a abraçou tentando acalmá-la.
– E por fim eu perdi quem me fez sobreviver à tudo isso. – Elena chorava novamente nos braços de Ric, em meio aos soluços ela continuou. – Perdi quem me fez forte, perdi quem me confortava quando eu chorava Ric, perdi quem mais me fez sentir viva em todo esse tempo, eu perdi, eu perdi!
–Elena, ah meu Deus Elena, eu sinto muito, muito! – Ele a abraçava forte, mas não era o bastante. –Querida, coma, por favor, precisa se acalmar, tá bom? E preciso que saiba que você não perdeu tudo, ainda tem a Caroline, tem eu, tem o Stefan... – Antes que ele continuasse Elena o interrompeu.
– Não estou com fome, Ric! Obrigada.
– Elena, eu não estou pedindo. Eu sei que essas frutas estão péssimas, faz tempo que estão aí, Damon não permitiria que elas estragassem. – Junto à taça ele colocou uma bolsa de sangue, então se retirou.
Ele subiu as escadas e entrou no quarto de Damon. Ele observou os aparadores e criado-mudos empoeirados. Ele, então pegou um pano e começou a tirar o pó das peças no quarto. Ao passar pela poltrona, ele observou que Damon tinha deixado um blazer preto pendurado na cabeceira dela. Ele sorriu. Porém, aquele sorriso foi interrompido ao ver Damon sair do banheiro super egocêntrico e feliz. O rapaz estava bem vestido e aquele blazer era a peça fundamental de um Black Tie que ele estava usando. Ele pegou o blazer da poltrona, se vestiu em frente ao espelho e olhou para Alaric dizendo:
– Fora do meu quarto!
– Nossa! Isso é jeito de tratar um amigo? – Respondeu Ric sorrindo.
Damon sorriu enquanto abria a gaveta da penteadeira, e pegava uma gravata estilo borboleta e a envolvia no pescoço em frente ao espelho. Quando Damon começou a fazer o trabalho do nó, imediatamente arrancou a gravata do pescoço.
– Droga! – Disse Damon zangado por se atrapalhar com uma simples gravata.
Alaric se aproximou de Damon balançando a cabeça negativamente com um sorriso irônico.
– Caramba! Com essa idade e com tanta experiência o Salvatore mais velho realmente ainda não aprendeu a dar um nó numa gravata? – Disse Ric sarcasticamente fazendo o nó com grande praticidade.
Assim que Alaric terminou, Damon saiu andando feliz e sorridente em direção à sua pequena mesa de whiskys no canto do quarto.
– Você vai vê-la não vai? – Perguntou Ric observando o comportamento de Damon. Ele sorriu e respondeu.
– Ah, você me conhece! – Disse Damon enchendo um copo de Whisky. – Quer beber, amigo?
– Ah, você me conhece! – Retrucou Alaric.
– Pensa rápido! – Gritou Damon lançando o copo cheio em direção ao amigo.
Ric estendeu a mão no alto da cabeça no mesmo instante, agarrando agilmente o copo no ar. Ele foi abaixando lentamente o copo até o alto de seus olhos, até perceber que em sua mão não havia nada, ela apenas assumia um posicionamento de estar segurando um.
– Sinto sua falta, amigo! – Finalizou Ric assistindo Damon passar por de trás de uma coluna no quarto e não aparecer do outro lado. Era melancólico lembra-se desses diálogos e interações.
– Ora, ora, ora... – Flagrou Elena encostada na lateral da porta. Ela já finalizava sua taça de salada de frutas. – Parece que não sou eu apenas quem o vejo nessas quatro paredes.
– São sete paredes, Elena! Veja o tamanho desse quarto. – Ric forçou um sorriso olhando para o blazer que permanecia no mesmo lugar, na cabeceira da poltrona, adormecido, nem ao menos tinha sido tocado como aconteceu em sua mente. A gaveta da penteadeira também nem havia sido aberta e continuava cheia de pó.
– A blusa que uso diz muita coisa! — Comentou Elena sobre seu estado emocional.
– Diz mesmo! – Respondeu Enzo invadindo o quarto com o nariz empinado. – Diz que vocês são dois hipócritas! Como podem sentir falta de quem fez tanto mal a vocês? Como podem sentir falta de quem matou quem vocês mais amavam na vida? Elena ele matou seu irmão e Alaric ele matou sua esposa!
– E você andou investigando minha vida desde que chegou, não foi? – Perguntou Ric ironicamente.
– Não precisei aquele idiota falava muito de você!
– Falava? Hum, interessante. Mas isso fez dele um idiota? Idiota seria se ele falasse de você, não é? Porque, aliás, ele nunca o fez! – Ric riu.
– Agora eu entendo, é por isso que você o perdoou. Você é como ele, um troglodita, um imbecil mal caráter!
– Não ouse insultá-lo Enzo, você não tem esse direito. Mal o conhece! – Defendeu Elena.
– Posso até ser isso que você diz Enzo. Porém obtive um dos melhores amigos que alguém poderia ter, sendo tudo isso e tendo todas essas más qualidades. Isso não faz de você alguém melhor do que eu ou ele, mas ao contrário de você, eu posso dizer que mantinha Damon na linha.
– Chega! Os dois! – Pediu Elena se colocando entre os dois que se aproximavam se enfrentando.
– Hahahaha... – Riu Enzo. – O anjinho Salvador. Estou vendo que não vamos nos entender mesmo, Alaric. É ridículo.
– Amizade como a sua não me faz falta! – Retrucou. – Você só está em pé nas nossas frentes por que ele não está mais.
– E isso só torna minha história mais interessante. Ressuscitei sob o cadáver de meu inimigo. – Enzo sorriu olhando para Elena.
– Você é muito cínico! — Criticou Elena
– E você ficou muito... Excitante com essa blusa, mesmo que o cheiro dela me cause asco. – Enzo brincou com o cordão preto na abertura do peitoral da blusa, próximo ao sutiã de Elena.
Elena se afastou e lhe meteu um tapa bem dado, mas não pela ousadia de Lorenzo e sim pelo comentário dele sobre a Blusa.
– Hei! Não ouse... Se encostar um dedo nela eu juro que... – Ric não terminou. Ele segurava firmemente apertando o braço de Enzo.
– Veja minha cara de medo. – Enzo fitava Alaric sorrindo. Ele se soltou bruscamente na mão dele e saiu do quarto encarando Elena.
Elena ficou sem reação, mas com a postura firme.
– Me desculpe Elena. – Pediu Alaric. — Mas gostei que tenha aprendido o golpe! — Ric se orgulhava quando Elena fazia aquilo.
– Tudo bem Ric, o Enzo ainda não perdoou Damon pela Maggie. Mas mudando de assunto, tem um favor que quero pedir antes que nos mudemos, eu quero que me leve á um lugar.
– Claro, onde?
Elena cochichou no ouvido dele.
– Elena, outra vez?
– Ssshhhh... As sete paredes têm ouvidos.
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