Parte de Mim

4 Ninguém é Perfeito


Notas iniciais
Hum... Esses próximos capítulos vão ter bastante informação... Especialmente o próximo, imagino que ele vai ser um pouco surpreendente, mas nunca se sabe (°3°)

Eu me ajoelhei e rezei.

Fiz uso de toda minha catequização naquele momento.

Afrodite apenas ficou de cabeça baixa e no mais profundo silêncio. Helena, por outro lado, também se ajoelhou e rezou, limpou o túmulo e o enfeitou com algumas flores.

“Prefiro ter caráter e não agradar gregos e troianos, do que atuar a caráter e atingir a comoção hipócrita a nível universal…”

Era um excelente epitáfio, ele falava isso ao término de todas as aulas. Nunca irei me esquecer.

Ele foi um homem de muitas qualidades, sempre disposto a ajudar todos que precisavam. Eu devia muito à ele, em muitos sentidos, mas nenhuma recompensa além de palavras poderiam alcançá-lo naquela altura.

“Obrigado”.

Aquela era minha despedida, era tudo o que eu tinha e podia oferecer.

E mesmo que eu pudesse voltar no tempo, não creio que seria diferente.

“Leninha! Minha doce, Leninha! Que alegria revê-la!”

Do cemitério paroquial fomos direto para casa de Helena, pouco mais de quinze minutos de distância da casa da minha família, e fomos recebidos pela governanta.

Mas é estranho… Helena não parece feliz de voltar…

“E vocês são…?”

“Martino. Fui um dos alunos do mest-…!”

“Ah! Martino! Você sempre é bem falado nesta casa! É um prazer finalmente conhecê-lo! Venha! Venha! Você e seu amigo são muito bem-vindos! Leninha, querida, vá na frente com eles que já vou pôr a mesa! A Signora os está esperando na sala de visitas!”

Em pouco tempo estávamos na dita sala de visitas, onde uma mulher muito bonita nos esperava. Ela nos cumprimentou e convidou para sentar, sendo que a filha sentou ao lado dela.

“Por favor, aceite nossas desculpas. A lista de contatos não estava tão completa quanto gostaríamos”.

“Está tudo bem… Não é como se eu fosse alguém próximo…”

Eu realmente faltei em meu compromisso, foram anos e só agora eu venho. Eu podia ter feito isso há qualquer momento, mas eu escolhi agora.

“Mesmo assim. Queríamos que os entes queridos estivessem presentes, especialmente você, o aluno favorito dele…”

Estava um pouco desconfortável, não entendia bem o porquê, mas me sentia assim. Acho que era a vergonha.

“Fiquei surpreso quando sua filha me deu a notícia. Então, eu agradeço a consideração”.

Um silêncio estranho pairou no ar por alguns instantes, percebi que Afrodite se remexeu desconfortável.

Ele endireitou a postura, estava muito mais altivo. Ele está se preparando para alguma coisa, ele sempre faz isso quando sente que vai ser atacado.

“Eu agradeço por permitir que Helena fique em sua casa. É muito gentil de sua parte”.

Voltei a atenção para mulher imediatamente e dei um sorriso amarelo, quase constrangido.

“Não se preocupe com isso…”
“Mask…”

Fui chamado em tom baixo, tão baixo que quase não ouvi, e quando olhei fui direcionado para Helena.

Ela estava encolhida, a cabeça baixa e as mãos torcendo os dedos de nervosismo.

Por que essa postura miserável?

“Eu também ouvi que é um célebre ator”.

Novamente a mulher me chamou atenção e eu sorri amarelo mais uma vez. Por mais que o clima estivesse ameno, algo estava errado.

“Não é pra tanto… Quer dizer, sou conhecido, mas não sou um dos galãs”.

“Sua profissão ainda é de alto nível. Eu me sinto tranquila em deixar Helena sobre seus cuidados”.

Nesse momento foi como se algo tivesse quebrado dentro da minha cabeça e atrapalhasse meu raciocínio.

Eu fiquei tão devagar que não tive reação, a reação veio de Afrodite.

“Perdão. Helena só está em nossa casa por um tempo, a acolhemos quando ela chegou, mas viemos imediatamente após sua chegada. Imaginamos que ela tinha fugido por conta da tristeza”.

“Ah! Ela não disse?”

Mais alguma coisa quebrando.

Mas essa acionou o meu gatilho, eu imediatamente mudei a minha postura. Me inclinei um pouco para frente e meu tom ficou tão áspero quanto o normal.

Eu estava com raiva, mas ainda não sabia o motivo.

“Disse o que, signora?...”

“É uma esquecida… Meu filho mais velho está estudando para entrar numa escola de alto nível. Porém, ele é muito apegado à Helena, em verdade, todos meus filhos são. E eles são tão apegados que não largam dela um minuto sequer, então Helena ficar aqui vai servir apenas para distraí-lo e eu não posso permitir isso…”

Outra quebra letárgica. Trazer o Afrodite foi a melhor coisa que eu fiz!

“Espera um pouco! Ela não é sua filha também?!”

“Helena é filha da primeira esposa do meu marido, falecida. Quando eu conheci o pai dela, Helena já tinha cinco anos”.

Helena se encolheu ainda mais.

Outra quebra. Eu não vou aceitar essa merda nem FODENDO!!!

Eu levantei e puxei a garota pelo pulso, a fazendo levantar num rompante e bater contra o meu peito.

“Vamos embora”.

Tanto Afrodite quanto a madrasta se levantaram um tanto assustados pela minha reação, a madrasta ainda fazia cara de coitada preocupada.

“Não me ouviu?! Vamos embora! Afrodite, vai ligando o carro, por favor!”

Ele não discutiu, mas estava preocupado, vi pelo olhar dele. Ele estava me implorando para não fazer besteira enquanto estivéssemos ali.

“Aconteceu alguma coisa?”

Esse tom de matriarca preocupada nunca me irritou tanto.

Puxei Helena com um pouco mais de força para a saída, eu não queria ouvir mais nada. Mas ela não tava entendendo e tentava me frear agoniada.

“Vamos! Anda logo!”

“Senhor Martino, aconteceu..?”

Deus! Dai-me paciência! Se me der força eu mato essa puta!

“Você já ajudou o bastante!”

Ajudou muito! Tanto que agora eu entendo!

Essa garota nunca fugiu, ela foi expulsa de casa quando a única pessoa que a amava se foi! Ela foi jogada na rua ainda no meio do processo de luto e foda-se!

Ela foi atrás de mim por necessidade! Ela não tinha mais nada e nem ninguém!

“Vai indo!”

Eu a empurrei pra fora, assim ela ia para o carro enquanto eu finalizar aquele assunto.

“Senhor…”

“Só me diz uma coisa”.

Meu tom ficou muito mais sombrio, minha voz ficou muito mais rouca. Afrodite diz que eu encarno o demônio quando furioso.

E olha, dessa vez acho que seja realmente possível.

“Como alguém tão digno do meu respeito escolheu alguém tão podre quanto você?”

A mulher gelou, se calou frente minha pergunta, se encolheu.

Se tem uma coisa que aprendi com meu pai foi que você nunca se encolhe frente uma mentira, você se encolhe para verdades vergonhosas.

“Ninguém é perfeito”.

Eu saí, quero DISTÂNCIA dessa mulher!

Me sinto podre. Quero um banho!

Continuei andando e me coçando, dava ganas. Isso até eu esbarrar em alguém e ter que segurar a pessoas para evitar uma queda.

“Você ainda tá aqui?! Vamos embora!”

“Estava me despedindo dos meus irmãos!”

Agora eu a levava pessoalmente para fora. Ela não fica mais aqui! Afrodite não fica mais aqui! Eu não fico mais aqui!

“Senhor Martino! Espera!”

Ela me chamou em tom agoniado, tentando se soltar. A insistência foi tanta que eu tive que parar.

“Que foi?!”

Meu tom era o grosseiro de sempre, mas me arrependi um pouco quando ela se encolheu e desviou o olhar.

Tô acostumado a lidar com o Afrodite, perdi o tato com as mulheres.

“Pode soltar minha mão…”

Eu olhei para baixo e percebi que a segurava pela mão. Nesse momento, minha reação não poderia ter sido a mais vergonhosa.

Eu soltei e pedi desculpas.

Fiquei profundamente constrangido, mas decidi ignorar este autoflagelo à minha masculinidade e continuei levando-a para o carro.

No fim das contas, acabamos almoçando em casa. Minha mãe me encheu de perguntas e Afrodite respondeu todas, eu não tinha paciência pra essa tarefa.

Já Helena não quis almoçar, apenas chegou e adormeceu no sofá da sala.

Ela parecia bastante tranquila.

“E então?”

Afrodite se apoiou em mim com um sorriso e indicou a garota adormecida. Eu precisei dar risada, um pouco de bom humor para aquele dia que já começou desgastante.

“Já aturo você. Por que não mais um?”

Ele apenas negou com um riso e se retirou para ajudar minha mãe com alguma coisa. Eu fiquei e a levei para dormir no quarto.

Não me entenda mal.

Eu não fiz o que fiz por compaixão ou algum senso de justiça. Eu só acho que é o mínimo a fazer depois de tudo que o pai dela fez por mim.

Quem sabe isso não me tira do colo do capeta.

Notas finais
Madrasta infeliz não? Espero que tenham gostado :3