Parte alguma de uma história sem fim
1 Para entender
Era o que poderia se esperar de uma tarde no estacionamento de um supermercado. Um mercado razoavelmente grande…?! Um supermercado com cara e familiaridade de mercadinho. Os balcões gastos, as prateleiras encardidas, o cheiro pungente de salgadinhos e amaciante. O estacionamento à céu aberto em que o irmão sempre a pegava após sua dose vital de ChapaMix acompanhado de sanduíche de atum. ChapaMix, com letra maiúscula, porque era importante, e de que era constituído ninguém sabia, pois era o segredo da casa. Algo viciante, ela pensava, eles deviam esconder sempre que havia uma vigilância sanitária. Se houvesse, ela duvidava seriamente. Aquele estabelecimento enraizado entre as placas de “Bem-vindo” e “Volte Sempre” na estrada, era mais esquecido do que a própria cidade.
E lá estava ela, em uma tarde poeirenta e escaldante que não combinava com seu all star preto de cano alto. Nada naquela paisagem desértica combinava consigo, e, mesmo assim, dava certo. Por enquanto, ainda.
Mais 2 minutos e ela puxou a saia jeans pra baixo, soltou o rabo de cavalo e o prendeu de novo, suspirou e bateu palma. Achou que estava formando uma melodia, mas era só sua mente que acreditava nisso.
“Pá! Pá, pá! Pá! Pá! Pá!”
E… foi.
– Finalmente! Uai, então “ocê” chegou, “sôr”!. — Abriu a porta com estrondo, fechou a porta como um trovão.
– Sem sotaque…
– Curto e grosso! O que André te fez?! Um ChapaMix pra tudo ficar melhor!
– Não vou beber isso… — Você ganha uma frase e leva uma careta grátis.
– Ha! Eu sei! Comprar um segundo como se fosse para você é mais confortante do que simplesmente comprar para mim de novo! Mas, droga!, se eu não precisasse te esperar e fingir e blá blá blá, pelo menos não teria derretido!
Ele nem se dignou a responder.
– Estou agitada! Entendiada! Quero pular e gritar!
– E você não cansa, Carmim…?
Ele acelerou para ultrapassar o carro a frente, porque não suportava estar atrás de ninguém.
– Já cansei! — Ela bufou teatralmente antes de falar e mais um pouquinho quando terminou. — JÁ CANSEEEEI DESSAS VACAS! PERSONIFICAÇÃO DO TEMPO! MALDITAAAS!
Quando acabou, tirou a cabeça de fora da janela e se jogou de volta no banco.
– Estou vazia! Preciso daquela bebida que não sei mais o nome!
– Só esvazia mesmo quando outro tipo de merda sai por outro tipo de orifício…
– Outro tipo de merda precisa entrar pelo seu orifício! A cada estocada, um sorriso, que tal?!
– Vadia…
– Viado!
– Maldita…
– ...vaca! Ei, aquele não é o André?! — Apontou para o ponto de ônibus que se aproximava!
– Pode ser… — Mas cantou pneu bruscamente para encostar no meio-fio em frente à ele.
André entrou dando uma bitoca rápida nela.
– Merda! Confundi o gêmeo…
– Isso não aconteceria se ele cortasse o cabelo e não parecesse tanto com uma menina!
– Ainda assim… Vocês se parecem tanto que minha cabeça gira!
– Exceto que eu sou mais bonita!
– Por que vocês só não me matam logo…?
– Porque ainda não tirei a carteira e você é o meu motorista! Dré, o que vamos fazer hoje?! Algo com bolas, por favor!
– Não tem “nós”, hoje. Sai do meu pé...
Ela fez cara de zangada, mas sabia que não poderia persistir naquilo, ter uma irmã mais nova no seu pé já devia ser um saco, imagina se, além disso, fosse também uma empata-namoro-foda-tempo junto.
– Tá, me deixa no Henrique, eu posso voltar pra casa sozinha!
Cinco minutos depois de cantoria em um dueto estridente com seu cunhado, com uma seleção totalmente aleatória do rádio que foi desde “Pelados em Santos” até “Maybe I’m Amazed”, do Paul, Pedro parou na loja “Pop feat. rock” que Henrique, seu já amigo de meses que parecia anos, tratava como um depósito de todas as sensações de livros, hqs, cds, vinis, dvds, dos anos 80 até os atuais. Era um caos, e ela adorava.
– Tchaau, meu irmão — smack– que eu adoro! — smack– André, não me beije, por favor, não quero causar uma DR! Sinta-se abraçado, não coma meu iorgute, até mais!
Abriu a porta com estrondo, fechou a porta como um trovão.
– Olha só quem veio me vistar. — Cumprimentou-a Henri.
– Por favor, só fale comigo depois que eu encontrar o primeiro vinil da ABBA!
– Então, como sempre, eu nunca falarei, você está nessa busca por décadas.
– Porque você, meu caro, esconde para que eu passe mais tempo aqui e não te abandone! Você não aguentaria não me ver!
– Traduzindo: você não sabe procurar
– Quem dera eu se fosse fácil!
Ela partiu para o fundo da loja, com as três paredes rodeadas de estantes e caixas grandes e abertas espalhadas no chão. Se ajoelhando, ela começou a cavar. Em algum momento, Henrique colocou uma lata fechada de iced tea de limão ao seu lado, mas não se engane, ia pra conta dela. Ela gostava da atividade, parecia sempre descobrir algo novo, anotava alguns nomes, comprava outros, algumas vezes se surpreendia com o som, mas na maioria ela voltava pra trocar, porque era doido demais para seu gosto.
– Como bagunçar um estoque de vinis: você está fazendo isso certo!
Ela virou a cabeça pra trás com força, o rabo de cavalo batendo no olho direito. Achava que era falta de comida já anunciando em seu sistema o fato de ter demorado para focar. Primeiro franziu a testa para reconhecer, depois para entender.
– Se fosse possível bagunçar mais! — Disse, ainda desconfiada.
– Eu poderia ajudar…
– Não precisa! Você é empregado da loja?!
– De uma maneira informal, talvez... — Ele se balançou nos calcanhares, pra frente e pra trás. Ela desviou o rosto, como se a conversa tivesse morrido antes de começar. Silêncio incômodo de "o que você ainda faz aqui" pairava entre eles. — Hã... Você vem sempre aqui?
– Cara!!! Essa cantada nããão! — Bateu a mão na testa e viu ele parecer desconfortável.
– Não foi exatamente isso. Eu só… quer dizer… eu literalmente nunca te vi e eu venho muito, então...
– Você talvez trabalhe aqui, não diz exatamente uma coisa, você tem certeza de algo?!
– Você é rude, tenho certeza disso. — Ele rebateu na hora, com um pequeno sorriso se insinuando. Ainda um pouco envergonhado pela confusão, mas não o suficiente para não se divertir. Alguns pensariam que ele cantar uma garota seria um acidente cósmico, ele também. — E agora você vai gentilmente se retirar, pra me dar espaço.
Era uma sala pequena, talvez nem tanto que não coubesse dois, mas tanto que não caberia o constrangimento de fazer algo particularmente prazeroso na presença de um único estranho.
– Eu vou não tão gentilmente dizer “cai fora!”, cheguei aqui primeiro!
– E, por isso, já teve seu tempo.
– Se você vem tanto aqui, então teoricamente já teve muito mais tempo que eu, de modo que…! — fez um gesto como que para guiá-lo para fora.
– Impressão minha ou as coisas estão se invertendo? Foi um interesse o que eu ouvi... uma perguntada disfarçada...? — Ele cerrou os olhos em provocação, como que buscando suas intenções.
– O quê?! — C arqueou as sobrancelhas, a boca caindo aberta. Ele deu um sorrisinho.
– Caramba, você também não é nada sutil. Eu tenho certeza.
– Você é louco, não ponha palavras em minha boca!
Ele riu, se sentindo vingado ao ouvir seu tom de indignação.
– Ok, ok, eu entendi, mas do que devia, até. Depois dessa... só posso deixar que continue aqui. Sua lisonja me deixou sem graça a esse ponto.
– Ei, não! — Ela bufou, espalhafatosa. — Volte aqui! Volte! — Exclamava, se levantando e puxando a saia. — Quer saber, dê pulinhos por todo o canto, abrace... abrace as prateleiras. Já deu, não quero mais.
Ela marchou para fora, mas não foi muito longe.
– E, garota. — Ele disse, fazendo-a voltar para trás depois de meio caminho andado. — Sim, eu venho sempre aqui. Só pra não ficar na curiosidade.
– Pois eu não, e ainda virei muito menos agora que sei o tipo que frequenta.
Seu sorriso iluminou todo o rosto, mudou todas as feições, ela se sentiu ainda mais revoltada.
– Então como ainda nos veremos bastante?
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