Parte alguma de uma história sem fim
2 Verdades
Ele tinha pupilas? Ela não conseguia lembrar, seu olhos eram tão pretos como parecia ou era só a má iluminação da loja? Ela precisava ter uma conversa séria com Henrique, sobre todos os tipos de coisas, desde parar de esconder os melhores objetos até deixar a loja para ela no testamento, mas agora algo mais urgente surgiu: Melhorar a iluminação do lugar, para que ela parasse de ficar tão encabulada tentando descobrir a cor dos olhos de alguém. Definitivamente a luz não poderia escurecer seu sorriso, que sorriso, o cara sabia sorrir! E também sabia…
– EU QUEEEERO, EU QUERO AGORA!
...encherosacocomoninguém, terminou o pensamento rapidamente, antes de sair do quarto e descer a escada. Susana estava em pé no sofá, tentando ficar o mais alta possível aos seus 6 anos para atingir Pedro em cheio com a almofada. Incrível que só quando ela fazia birra, as palavras saíam límpidas e certeiras de sua boca, sem nenhuma palavra errada, sem nenhum tom dengoso. Ela era afiada, e só tinha 6 anos.
– Agora, Pedro! Eu quero agora!
– Cale a boca, Susana, pelo amor de Deus, de Jah, de Odin, do diabo que for. — Ele dizia segurando seus ombros, e sacudindo-a o mais delicadamente possível para alguém que estava P da vida. — Não tem mais suco. O que você não consegue entender sobre isso? ACABOU! E eu não vou sair às 22 hrs só porque você está se sentindo a própria bruxa má.
– Nããão, Pedro. — Dizia agora choramingando. — Bruxa má, não, eu sou uma princesa!
Ele a empurrou para baixo, para que sentasse, e se jogou ao seu lado com as mãos cobrindo o rosto, já muito cansado para sentir qualquer coisa que não fosse fadiga.
– Então, Susana — C disse suavemente, um tom que lhe era estranho, mas por diversas vezes necessário — você tem que ser legal, porque as princesas são. Você consegue? Ser legal?
Susana assentiu com a cabeça, muito devagar, esperta o suficiente para saber que estava perdendo.
– Ótimo, então peça desculpas ao pedro por ter gritado.
Ela baixou a cabeça, como se aquilo custasse muito, e C rapidamente reprimiu sua raiva, não só da irmã, mas de tudo, da situação deles, por ser ela quem tinha que fazer aquilo, ou Pedro. Susana era uma criança, eles sabiam, mas como se já não bastasse o trabalho que uma criança normalmente dá, Susana estava revelando muita personalidade já tão nova, uma índole insuportável, e ela sentia que eles não eram capazes de fazer aquilo sozinhos, educá-la direito para que não se tornasse uma pessoa ruim. Era muita responsabilidade.
– Susana… — Ela disse, levemente ameaçadora. Pedro já estava levantando, catando as almofadas do chão.
– Desculpa, Pedro. — Tom de dengo. Era um vai-e-vem irritante.
– Agora, se estiver com sede, beba água ou leite. — Quando Susana negou, ela completou. — Não? Então vamos para o banheiro escovar os dentes, já tá na hora de criança dormir.
Enquanto Susana descia do sofá e ia com uma lentidão pirracenta até a escada, Pedro fechava a casa, garantindo que as portas e janelas estivessem fechadas, apagando as luzes que não ficavam nem 5 horas ligadas direto por dia, para que a conta viesse a menor possível no fim do mês.
– E dá próxima vez que você quiser alguma coisa, Susana, — C disse, segurando seu braço enquanto subia as escadas. — peça “por favor”.
– Princesas não pedem “por favor”.
– Só princesas mal-educadas. E sabe o que eu faço com princesas mal-educadas? Eu bato nelas para que aprendam.
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– Carmiiiiiim, acorda, Carmiiiiim, que o dia vem aíiii
– Susa, saia de cima de mim, ok? Já estou acordada. — Respondeu, enquanto rolava na cama pra se desvencilhar e metia um travesseiro em cima da cabeça. — E não me chame de Carmim.
– O Pedro chama.
– Bom, eu não posso fazer muito quanto a isso, posso? Já tomou banho, comeu e escovou os dentes?
– Sim, sim, sim.
– hmmmm, droga. Esperava um tempo a mais comigo mesma. — Ela ficou mais um tempo na cama, exatamente uns 10 segundos, e levantou antes que Susana voltasse a falar. — Tá, vou tomar banho, vá arrumar sua mochila.
– Já arrumei!
– Então arrume de novo!
Saiu do quarto arrastando o lençol atrás de si e bateu a porta do banheiro, tendo um momento de contemplação em frente ao espelho antes de escovar os dentes. — Quem é essa menina? — perguntou ao seu reflexo. — Caramba, porque a mãe natureza não gosta de você?. — Após deixar que a água lavasse seu sono da cabeça aos pés e de passar o sabonete pelo corpo, ela esfregou a toalha no cabelo crespo, sabendo que ele só ficaria razoavelmente comportado até secar, quando parecesse que tomou um choque, e se enrolou para que pudesse se vestir no quarto.
– O que você ainda faz aqui? — Perguntou à Susana.
– Tô te esperando, já fiz tudo o que tinha pra fazer e o Pedro ainda não me perdoou, então não tá falando comigo.
– Bem feito.
– Quando o meu cabelo vai ficar grandão igual ao seu?
– Quando crescer.
– Eu gosto de cabelo assim grandão, abaixo dos peitos. Quando eu vou ter peitos?
Ela suspirou, terminando de passar creme no cabelo e penteá-lo, deixando que ele seque um pouco mais antes de prender.
– Você deveria estar pensando em quando é que vai para faculdade e assim nos dar um tempo, ou algo mais imediato, como sair do meu quarto para que possa ficar mais confortável.
C colocou as peças íntimas e vestiu uma blusa branca que estava jogada em cima da escrivaninha.
– Ana já tem peitos e ela só é 7 meses mais velha que eu.
– Ana deve comer muita galinha.
– Eu quero comer muita galinha…
Tendo encontrado sua jardineira jeans surrada (que ela tinha comprado por R$20 reais 3 anos antes no brechó e que ainda cabia) no fundo do armário, ela rebolou um pouco para passar dos quadris e abotoou as alças.
– Para isso precisaríamos de dinheiro, querida. Por enquanto você terá que comer o que a sua creche-escola der.
– Eu já tenho 6 anos, não sou mais bebê pra ficar na creche! — Ela fez bico, cruzando os bracinhos magros.
– Não é você quem decide isso.
Por fim, seu velho amigo all star, com o qual não se desgrudava.
– Mas eles disseram isso! Estou comendo menos que as outras crianças e eles pensam que eu não escuto, mas escuto sim quando dizem que se vocês não derem um jeito, terão que simplesmente me expulsar.
C parou, chocada e envergonhada, e olhou para sua irmã. Dando um longo suspiro, disse:
– Sinto muito, Susana. Daremos um jeito nisso, ok? Por hoje, eu passo lá na hora do almoço e vamos comer em algum lugar.
Susana já se sentia um pouco melhor, pulou da cama e jogou os braços em volta da cintura da irmã. Era mesmo fácil esquecer que ela é só uma criança, pensou C.
– Agora vamos! — Pegou a mochila do chão, Susana passou no seu quarto para pegar a dela e desceram as escadas, chamando por Pedro e indo esperar do lado de fora perto do carro.
– Ei, não vai comer? — Perguntou Susana enquanto se equilibrava de um lado para o outro no meio fio.
– Tô sem fome. — mentiu.
Quando deixaram Susana na creche, 20 minutos a pé da escola de “Carmim” e 30 minutos dirigindo em direção contrária do trabalho de Pedro, C tirou uma barra de cereal da mochila.
– Não querem mais a Susana na creche, ela já passou da idade.
– Estamos na metade do ano. Eles não podiam apenas segurar isso até ano que vem? — Respondeu, suspirando.
– Não estão nem a alimentando direito. Que tipo de pessoas fazem isso?
– Aposto que se ela fosse doce e boazinha não estaríamos nessa situação.
– Pedro!
Outro suspiro.
– Que saco, Carmim… Quando eu buscá-la, conversarei com eles. Odeio ter que apelar, esses mesquinhos filhos de uma puta.
– Mas se não der, teremos mais um problema.
– Ha!
– Eu já não estava indo pro colégio mesmo, então…
– Você o quê?! — Interrompeu-a ele. — O que você estava fazendo então, garota? Perdeu a cabeça? Escola não é brincadeira, e a menos que você queira sair desse fim de mundo, é o que terá que fazer. Esse sacrifício enorme que é sentar numa sala de aula e descobrir coisas, conhecer assuntos e ESTUDAR PRA SER ALGUÉM.
– EU QUERO SER ALGUÉM, PEDRO, E QUERO QUE VOCÊS TAMBÉM SEJAM, E MAIS DO QUE QUERER SAIR DAQUI, QUERO QUE ENQUANTO EU ESTEJA AQUI EU NÃO TENHA QUE DEIXAR DE COMER PARA QUE A SUSANA COMA!
Ela respirou fundo, reprimindo as lágrimas de raiva e cansaço, se sentindo um lixo. Por que eles?
– Eu faço bico no Supermercado, eles me pagam por hora, é uma mixaria, mas já consegui juntar alguma coisa. Quando não dinheiro… — Ela sacudiu a barra de cereal já quase toda comida. — Você não deveria ser o único a prover as coisas, eu também posso fazer isso. Posso te ajudar. E quando puder estudar, eu o farei, mas não é a prioridade.
– É a prioridade, garota, é a prioridade.
Ela deu um beijo na bochecha dele quando ele estacionou em frente ao colégio. Não ia dizer mais nada, não queria brigar. Ela daria um jeito nisso, e já começava a pensar como.
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