Ter epifania era um porre quando não queria, mas talvez se quisesse, não seria epifania. Via-se com a urgência, um sentimento de pressa, um friozinho na barriga. E ela analisava tudo, sua vidinha pacata, vivendo com sua amiga, mas tendo uma família até que equilibrada (minimamente). E, apesar disso, o vazio, que o frio na barriga ocupava. Era desconfortável como sempre que sentia que estava deixando as coisas perderem o controle, via a urgência de sair do marasmo, fazendo sua bunda formigar. Sim, riam, ela não era normal.

Ultimamente era assim que se encontrava, totalmente farta, tolamente oca. E então estava cuidando de alguma criança fofa dos Silva ou algum melequento dos Santos e um par de olhos invadia sua mente. Mas não, não era um momento macabro, eram momentos fofos e extremamente revoltantes. Aquelas olheiras, aquela sobrancelha falhada, aquelas mãos. Miserável, ela odiava se sentir desse jeito. Às vezes até mesmo doía, o que era loucura, certo? Ele ria e seu sistema nervoso dançava.

Na segunda, quando ela saiu no intervalo, ele estava no montinho ao lado de Aninha e eles conversavam; até aí, tudo ok, mas então ele entregou a ela seu caderno, o que ele escrevia coisas maravilhosas, ela podia apostar, e nada mais estava ok. Uma sensação de mal estar lhe perpassou, como quando você pega gripe e fica sem vontade de comer. Não era ciúmes, era exclusão. Ele nunca tinha pedido a opinião dela ou mostrado nenhuma das suas criações, mal sabia ele que ela amaria, vomitaria borboletas e arco-íris se ele tivesse lhe dado chance, a mínima que fosse. Se sentia uma completa idiota nessa babaquice que era o amor platônico. Platão que se fodesse..

– Ei, calma aí, o chão está pegando fogo. — Ben estendeu a mão, como que a impedindo de se aproximar mais, e ela revirou os olhos em resposta. “Por quê não o Ben?”

– O que houve agora? — Ela perguntou.

– A Debs está soltando veneno.

– Me diga uma novidade…

– Acho que ela está mesmo chateada.

– Não fale de mim como se eu não estivesse aqui… E Ben, como sua amiga devo dizer, para de se inclinar para ela como se fossem um casal quando ela claramente não está a fim de você.

Porque era o Ben, ele não se sentiu atingido. Pelo menos isso. Lou fulminou a colega de casa, e amiga, com o olhar, não que ela soubesse de alguma coisa, mas odiava como a Débora podia ser má, não se importar com os sentimentos alheios e isso só jogando com base em conjecturas.

– Se vai fazer show, que pelo menos se dê por satisfeita, porque eu, no momento, só estou com pena.

Como não cai fácil, Débora só dá de ombros.

– Loua, ninguém vai te culpar se fugir de casa essa noite. — Carlos sorri para ela.

“Não, merda, não sorria.”

– Uhum.. — Ela solta com um sorriso sem graça e já abaixa a cabeça, fingindo que tem um coelho prestes a ser tirado da mochila.

Olhando o seu grupo, ela viu Cris e Rob conversando baixinho entre eles, um caderno entre os dois; Ana estava lendo; Débora estava resmungando para o celular; Carlos olhava para o nada, como sempre em seu próprio mundo, e relutantemente ela desviou o olhar para seu amigo-às-vezes-mais-que-amigo. Ele estava com um livro no colo, e ela não pôde evitar sorrir.

– Fim do mundo?

– Oi? — Ele levantou a cabeça, um pouco desnorteado.

– Você, lendo. Fim do mundo?

– Ha ha engraçadinha. — Ele diz, puxando de leve sua orelha. — Prova decisiva, mesmo.

– E como você está indo?

– Péssimo, lendo o mesmo parágrafo há meia hora. Eu só não tô afim… Não consigo me obrigar.

Ele fez um biquinho, em outro momento ela estaria o beijando.

– Pra quando é a prova?

– Sexta.

– Uh-oh, é mesmo importante se você já está tentando desde segunda.

– Infelizmente.

– Ei. — Ela bate seu ombro no dele. — Continue assim, quarta eu passo lá e te dou uma força, ok? Diga pra minha sogra preparar aquele pudim que eu adoro.

Ben acenou e então riu, passando um braço pelo pescoço dela e beijando seu cabelo verde.

– Ei, você. — Carlos vinha na direção de Louisa com seu sorriso tímido. Ela estava encostada no capô do fusca, esperando por Débora.

– Ei. — Ela lhe respondeu, olhando-o rapidamente e, em seguida, para o movimento atrás dele, verificando se os outros já viriam.

– Você… Está tudo bem?

– Claro, por que não estaria?

– Você parece distante.

Ela só deu um sorrisinho e meneou a cabeça ligeira e negativamente, logo fugindo do seu olhar.

– Louisa, eu te fiz alguma coisa? — Ele estava sério, e havia uma nota de tristeza em sua voz.

– O que é isso, Ca. Claro que não. — Ela gesticulou com a mão, fazendo pouco caso.

– Odeio sua voz “lidando-com-as-crianças”.

Ela olhou para ele, mas dessa vez nenhum sorriso saiu.

– Você está brava?

– Não, ok? — L deu um suspiro alto.

– Então o quê?

– Então nada, Carlos.

– Nada o quê? — Nesse momento eles já estavam quase gritando. — Fala! Tem algo fervilhando aí, eu sei, eu te conheço. Vai mesmo mentir na cara dura para mim? Vai? Nada o quê? O que é nada? -

– Ai, meu Deus. Nada! Me deixa em paz!

– Louisa! — Ele se aproximou, puto pelo o que deveria ser a primeira vez na vida.

– Você diz que me conhece, mas não, você não sabe de nada. Você. Não. Entenderia.

– Então me faça entender, eu sou tão burro assim que não valho o esforço? Só.. me diz. O que você está sentindo?

Ela rosnou de frustração, e antes que pudesse segurar, soltou:

– SAUDADE!

– De quê? — Ele franziu o cenho, confuso, sua voz voltando ao normal. — É você que não está falando comigo ou me olhando. Eu estava sentindo algo estranho, então lentamente percebi, como sempre ocorre comigo, de modo lento, que estávamos há dias sem nos falar. E hoje, quando você mal me respondeu naquela hora da Debs… Não é um simples silêncio, é? Me ajude aqui, você deveria ser alertada para não me deixar mais confuso do que já sou. — Ele tentou brincar, mas ela não estava na vibe.

– Você não entenderia. — Repetiu baixinho, olhando bem no fundo dos seus olhos.

Sim, ele não entenderia, porque nem ela mesma conseguia. Saudades de quê? De algo que nunca teve.

Para sua sorte os outros chegaram. Ela deu uma olhadela nele, só para encontrá-lo ainda a encarando, sério.

– ...foda, com “ph”. — Ben dizia, e ela tratou de guardar aquilo enquanto se voltava para eles.

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Era uma droga quando os pais se atrasavam, ela podia estar ali cuidando dos filhos deles, mas isso não queria dizer que não tinha uma vida. Tinha que fazer um monte de atividade acumulada, arrumar a casa, porque Débora não faria, cuidar de si mesma... Ela não podia ter um cabelo verde fabuloso se não gastasse horas da sua semana para que ele fosse assim, aí ele só seria verde. E estragado.
Finalmente ela tinha conseguido hipnotizar dois garotos com os episódios de backyardigans que passava no discovery Kids quando a mãe deles apareceu como se saída de Aruba. Estava meio alta, e L teve que se segurar para não lembrá-la que era só segunda.

– Lou-Lou, querida. Consegui chegar cedo hoje!

– Na verdade, sra. Ferraz, está 30 minutos atrasada. Vou precisar cobrar os R$7,5. — Era R$15 a hora.

– Mas foi tão pouquinho, e o valor...

Mais uma vez L se segurou para não dar uma boa resposta, como, "se você tem dinheiro para encher a cara em plena segunda, tem também para pagar justamente a pessoa que cuida de seus filhos. E os trata bem.". Aquele emprego ia acabar lhe dando uma úlcera, ou câncer... Era muita opressão.

– Se é tão pouco, tenho certeza que a senhora não se importaria. Agora.

– Tá bom, tá bom... — Ela retirou o dinheiro da carteira. — Mas você já tem tanto tempo cuidando dos pestinhas que poderia dar um desconto.

– Eu tenho tanto tempo que poderia ganhar um aumento.

Dona Ferraz deu um risadinha sem graça e a dispensou.

– Até amanhã, Lou-Lou.

"Não me chame de Lou-Lou", pensou Louisa, irritada, antes de sair dali. Próxima parada, casa dos Marques.

– Pense pelo lado positivo, isso já é um treinamento. Já tem tanta experiência que será uma ótima mãe. — Ben disse na quarta quando ela foi ajudá-lo com os estudos.

– E quem disse que eu quero ser mãe?

Ele arregalou os olhos.

– Você não quer?

– Não.

– Como você pode não querer? — Ele estava realmente surpreso.

– Pelo visto VOCÊ está certo sobre ser pai, mas eu não vou ter. Não posso colocar um ser humano NESSE mundo.

– Mas Lou, você não vai ficar aqui pra sempre. — Ele deu um sorriso fofo para ela.

– Você diz isso agora. — Ela tentou não soar pessimista, mas quanto aquilo, ela estava. — Muda. Agora, onde estávamos? Sim, fótons.