Faltava meia hora ainda, mas ele a deixou em frente ao colégio da irmã e foi embora e ela sentou na calçada para esperar. Não tinha muita coisa que pudesse fazer, não tinha um celular para mexer, porque não tinha condições de comprar um, e em sua mochila basicamente havia um caderno para o colégio, algumas barras de cereal, o que a fez lembrar que não tinha tomado o ChapaMix, droga!, um livro que ela não tava afim de ler e um game boy antigo de Pedro, que ela tirou pra brincar.

E então bateu 12 hrs, ela pegou a sua irmã e foi no Suze’s para um pf caprichado. Susana chorou por uma sobremesa e C passou o olho para que ela deixasse de birra, mas no fim Suze, a proprietária que também atendia ali, se solidarizou com a situação, o que a deixou puta da vida.

– Nunca mais faça isso, não podemos nos dar a esse luxo e você não pode achar que uma carinha chorosa vai resolver.

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No dia seguinte ela ainda não tinha resposta sobre a transferência, então assistiu aula normalmente e foi pra casa de tarde. Não aguentando ficar parada, limpou e arrumou todos os cômodos, passou pano em todos os móveis e objetos, tudo ao som de Emicida, e quando acabou, a música “Levanta e anda” ficou ecoando na sua cabeça. Àquela hora, Susana já deveria estar chegando em casa com Pedro. Tinha um resto de bife na geladeira que ela desfiou e juntou ao molho de tomate já pronto. Cozinhou o macarrão do miojo e descartou o pozinho para temperar, misturou ao molho feito e guardou no fogão, para que não esfriasse tão rápido. Até fez limonada, pensando que eles iam chegar logo. Mas demorou meia, 1 hora a mais que o normal e ela começou a se preocupar, até ouvir alguém batendo na porta.

– Boa noite, srta. Guedes. — Era uma funcionária da escola de Susana, com ela ao lado. — Ninguém passou para buscá-la, não podíamos esperar mais tempo, porque a escola já está fechando. É caminho de casa, então..

– Sim, sim, muito obrigada. Muito obrigada mesmo, eu não sei o que aconteceu para o Pedro não tê-la buscado. Sinto muito pelo incômodo, isso não irá se repetir.

Susana tinha um bico do tamanho do mundo e C a colocou para dentro. Apertou a mão da funcionária, de quem ela não se lembrava o nome, mas também não iria perguntar e fechou a porta.

– Por que o Pedro não foi me buscar? — Perguntou a menina.

– Eu sinceramente não sei o que houve. — Disse C confusamente.

– Se ele ainda está zangado comigo então é bom que ele supere isso e pare de infantilidade, era só o que me faltava.

– Era só o que me faltava esse modo de gângster. — Respondeu, recriminado-a pelos gestos e pelo tom de voz. — Agora vá lavar as mãos, que o jantar já está mais que pronto, provavelmente esfriou.

Elas jantaram silenciosamente, só por algumas exceções em que Susana contou algo “inacreditável” de uma garota do seu colégio, e então de um garoto que brigou com o outro pelo carro de brinquedo e mais um porque “sua mina” preferiu sentar ao lado do amigo. Isso sim era inacreditável, crianças de 6 anos que queriam se igualar aos adultos.

Após o jantar Susana se sentou para fazer o dever, assistiu um pouco de televisão, e nada de Pedro. C estava assustada de verdade, porque isso nunca tinha acontecido e não era do seu feitio. Se ao menos tivesse um telefone para que pudesse ligar pra ele ou André. O que adiantava Pedro ter um celular, para o caso de haver uma emergência, se ela não tinha e nem havia um em casa?

Ela colocou Susana na cama antes do horário, o que a fez resmungar, e então sentou no sofá com a TV ligada, mas não assistia ou ouvia nada. Foi até o lado de fora e andou um pouquinho ao redor, sem se distanciar, então voltou pra casa e estava prestes a enlouquecer, já estava chorando, na verdade, de impotência, quando uma mão bateu na porta. Ela estancou, parada, no meio da sala. Pedro tinha a chave. Ele tinha. Estavam ela e Susana sozinhas em casa, sem ter como pedir ajuda a não ser que gritasse pedindo socorro aos vizinhos. Ela queria se esconder, e o “toc toc” soou mais forte.

– Quem é? — Ela pergunta com um fio de voz.

– É um amigo do Pedro que está aqui com ele.

Ela apelou para a janela ao lado da porta, que ela não gostava de usar porque sempre pensava que haveria alguém ali com a cara encostada pronta para lhe dar uma baita susto, e afastou um pouco a cortina. Havia duas pessoas lá fora, era tudo o que ela conseguia ver.

Destrancou, mas não tirou o trinco, a corrente, o que fosse que lhe garantia o mínimo de segurança, e pela brecha viu um Pedro inconsciente, com um dos braços no pescoço do cara, e ela gelou. Nada passou pela sua cabeça por um segundo interminável. Suas ações estavam paralisadas, e seu pensamento também, e ainda naquele estado de choque ela retirou o trinco e deu espaço para o cara passar. O cheiro de álcool invadiu a sua narina e fez arder.

– Aí não. — Ela conseguiu se recuperar com um fiapo de voz ao ver que o cara ia jogá-lo no sofá. — Lá em cima no banheiro.

Ela não se preocupou em dar trabalho ao cara, ele a olhou por um segundo antes de fazer o que ela tinha mandado, e tudo o que ela queria era deixar o cara e Pedro subindo as escadas e sair pela mesma porta que eles entraram.

Ela tinha medo, tanto. Ele não parecia ferido, mas mal parecia vivo e ela nunca tinha presenciado aquela situação antes. Ela não queria ficar a sós com ele, porque se ele era capaz de estar naquele estado, ela não queria presenciar nenhuma outra faceta desconhecida dele. Não mais. Subiu lentamente as escadas, o cara o tinha posto sabiamente no box, sentado no chão. Parecia desconfortável ali, naquele banheiro pequeno e fez um aceno desajeitado para ela antes de ir embora. Ouviu a porta da frente bater e só então ela respirou, e rapidamente se arrependeu. O cômodo tinha sido tomado por aquele fedor pungente, penetrante, aquela inhaca que um bêbado tinha, que era mais do que álcool, mas também o fedor da vergonha, da derrota. Seus olhos se encheram de lágrimas, e antes que ela pudesse lidar com ele, sentou na privada com a tampa fechada e chorou.

Quando o impacto da água gelada bateu sem dó em sua cabeça, tudo o que ele fez foi grunhir. Grunhir, a única resposta de que estava vivo. Ela tirou a camisa e o movimento o fez cair de lado, e um líquido amarronzado saiu de sua boca. Ela queria estar morta antes de presenciar aquilo, e mais uma vez sentiu vontade de encolher e chorar feito um bebê. O puxou por um braço, com muito esforço devido a seu peso, na tentativa de colocá-lo o mais ereto possível. Passou sabão por toda a extensão do peito e abdômen, e quando chegou nas costas, o movimento vai e vem de sua mão o fez vomitar ainda mais. C desviou o olhar e continuou alisando até sair o máximo que ele conseguia pôr pra fora.

Ao cair de novo, ela aproveitou para tirar a calça, mas se recusou a tirar a cueca. Passou sabão em toda a pele disponível e ligou mais uma vez o chuveiro. Suor e vômito iam embora pelo ralo, mas o fedor ficava. Chamou por ele, sacudiu, deu tapinhas em seu rosto.

– Pedro — ela pedia. Mas ele só grunhia. — Pedro! — ela implorou e seu nariz queimava e a garganta doía com o choro contido. — Por favor, Pedro! Eu não sou forte, eu não sou, Pedro! Por quê? Por quê, seu idiota?

Só depois ali, agachada ao seu lado, que ela veio lembrar do celular e da carteira. Não estavam no bolso do jeans, ela ficou aturdida, olhando ao redor no banheiro, até mirá-los na peça, ao lado da pia.

Tudo o que ela era, o que sabia ser, gritava naquele momento para não apertar aquele botão. “Os Guedes não pedem ajuda.”, “Os Guedes não precisam de ninguém”, “Os Guedes podem fazer isso”. Por quê diabos ela ia querer ser de uma família tão fracassada?

No terceiro toque a pessoa atendeu?

– Pedro? — A voz era de sono.

– André? — A voz foi morrendo, e ela pigarreou para consertar.

– Gêmea, o que houve? — Ele começou com um tom que era de brincadeira, mas já parecia sentir que não era esse o caso.

– Você pode vir aqui? É urgente! O Pedro, ele... ele fez uma burrada e… — Sua voz embargou. — Ele tá mal e… e não tem mais ninguém...

André já estava vestido e saindo de casa.

– Ca, eu já estou indo praí, querida. Não se preocupe, eu já tô chegando.

Ela jogou o celular de lado e fechou os olhos, segurando com força na cômoda. Lembrou de Susana, e foi até seu quarto para verificar se continuava dormindo. Ela agradeceu a quem quer que fosse que estivesse ouvindo por constatar que a garota não tinha percebido nada, e fechou a porta do quarto. 15 minutos sentada ali na privada, com a certeza do tempo apenas por causa do visor do celular, senão teria pensado que tinha se passado horas, até que André chegou. A porta da frente abriu, passos soaram na escada e André, mais branco do que o possível apareceu na entrada do banheiro. Mirou nela, mas antes que pudesse chegar até à cunhada, seu olhar desviou para o montinho deitado no chão molhado, quase nu.

– Ele não aguenta ficar sentado...

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O pequeno e único hospital da cidade estava vazio, ela não sabia se era comum ou não aquilo, porque nunca antes tinha precisado de uma assistência mais grave do que a a clínica podia oferecer. Até Pedro.

Pelo o que eles sabiam, o cara que tinha levado Pedro o tinha feito no carro do próprio Pedro, ou alguém veio seguindo e o deixou ali, porque a questão é que quando se deram conta de que Pedro precisava ir para emergência para receber soro, glicose, o que quer que fosse devido à sua desidratação e quase coma alcoólico, o carro estava estacionado em frente à casa e a chave estava junto às coisas dele no banheiro. Bendito seja aquele cara!

Devido ao pouco movimento do hospital, Pedro foi logo atendido. Só podia ficar uma pessoa com ele na UTI e por ser menor de idade, André tomou a frente. Mesmo que não fosse, ela não queria ter que fazer aquilo.

Ficou na recepção, e colocou uma moeda na máquina de café, tirando um chocolate quente antes que fosse sentar em um daqueles bancos duros. Ela não sabia rezar, então não o fez. Se soubesse pediria sua cama. Estava tão puta com Pedro, mas mais que isso estava tão horrorizada, triste, decepcionada. Ela viu, presenciou, vivenciou aquilo, e uma parte dela se recusava a acreditar que seu irmão responsável, meticuloso, organizado, tenha se rendido da maneira mais vil e egoísta. Ela, a própria Carmim, a Carmim dele, não sofria? Susana não tinha sido roubada da sua vida de criança, de uma mãe e um pai? O que o fazia achar que era o único ali que era mais sacrificado. Quem ele pensava que era? Quem…-

Sem que tivesse percebido, C esmagou o copo com um resto da bebida e queimou a mão, mas não sentia dor, não agora que doía tanto por dentro. Na verdade a dor externa só fez diminuir um pouco a dor interna, e ela agradeceu. Havia agradecido e pedido e falado com o além mais naquele dia do que em toda a sua vida. E ela nem sabia o que o além era, não acreditava, de fato, mas de algum modo aquele ato estava ali, fazendo-a se sentir menos só. Mas só um pouco. Passado algum tempo, seus olhos pesaram, porém eles estavam vidrados, incapazes de fecharem antes que aquilo terminasse.

– Ca. — Uma mão no seu ombro, ela se virou para que pudesse vê-lo. — Ele vai sobreviver. — E um sorriso ínfimo despontou daquele rosto amarrotado com barba por fazer, e mesmo com a frase, ela não sentiu que já pudesse relaxar.

Notas finais
Alguma chance de eu ganhar um comentário?