Parte alguma de uma história sem fim
16 Confronto
Notas iniciais
Era uma boa caminhada da loja até sua casa, mas ela não se importou. Tinha sido idiota, é claro, não precisava de muito tempo para chegar a essa conclusão. Mas era só que… não podia dar mesmo certo, não é? Uma hora ou outra as coisas desandariam. Ela estava a muito tempo só para se acostumar tão rápido a alguém. Ela gostava de estar só, era muito mais simples. Sua independência era tudo o que tinha.
Só que, pra ser sincera, não era sua independência que estava ameaçada, e sim seu coração. Se forçasse ainda mais, acabaria admitindo que não queria que ele a conhecesse porque tinha medo de sua reação quando descobrisse quem era a verdadeira Catarina Guedes. Não tinha nada de extraordinário nela, muito pelo contrário, tudo nela era sombras e sentimentos confusos.
Ela tentou apagar aquela cena para evitar a vergonha que lhe abatia sempre que lembrava. Sinceramente, só ela mesmo para se sabotar dessa forma. Vinte minutos depois, ela finalmente chegou e se jogou na cama, pretendendo dormir.
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Pedro pensou ter visto um elefante, um rinoceronte, uma girafa? Sua consciência queria achar que algumas daquelas nuvens realmente tomavam uma forma conhecida, seu mecanismo natural querendo sempre saber, pra não ser surpreendido. Já o próprio Pedro queria não saber, não sentir, e ainda assim ele sentia. A mão de Eric passeava preguiçosamente pelo seu peito e barriga, descendo.
O outro lhe passou a garrafa de vodka, ao qual ele se apoiou no cotovelo para tomar, deitando novamente após engolir e fazendo uma careta.
– Muito bom, hein? — Eric riu à menção da careta dele. Desceu o rosto até a curva do seu pescoço e inalou ali.
– Se você diz. Álcool é remédio, não se sente o gosto, só… põe pra dentro.
Pedro levou a mão direita pra detrás da nuca e a esquerda agarrou o cabelo de Eric, sem saber se puxava seu moicano ou segurava ali. Desde o acidente alcóolico, ele só conseguia pensar em uma coisa, duas palavras: “Quero mais”, “Quero mais”. Não mais álcool, mais vida. Ele queria se encher de vida, estava pateticamente vazio, só. De imediato se lembrou de André, e somado ao vazio, entristeceu. Nunca era o suficiente, por quê?
– Onde você está? — Perguntou Eric a ele após dar uma tragada na garrafa.
– Muito longe dentro de mim.
Provavelmente era a resposta mais sincera e genuína que ele já havia te dado, estava muito distraído para ponderar e responder vagamente, como costumava fazer. Eric tinha te caçado após a festa, voltou para casa, em outra cidade, mas retornou e não o deixou em paz desde então. Pedro se sentira extremamente irritado, era um infortúnio ter um filhinho de papai na sua cola, e Eric era demais. Era muito, um gênio forte que sempre batia de encontro ao dele. Faíscas voavam sempre que estavam juntos e não era em um sentido sexual. Mas, ao mesmo tempo, ele não podia evitar.
Aquele garoto era… diferente. De tudo o que ele já presenciara, vivera. O instigava de uma forma dolorosa, e o atraia na mesma dimensão. Ele prendia o que era a todo custo dele, mantendo seu eu afastado, ou sentia que ele o levaria de si. A força que ele emanava, as coisas que contava, de outros lugares…
– Me conte mais uma vez sobre a Irlanda. — Pediu Pedro com os olhos fechados.
E ele contou.
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O pessoal queria afogar o domingo no Pontop, aproveitar que Carlos estava de serviço para comer umas fritas grátis e falar bobagem até a lanchonete fechar, depois fazer alguma coisa tarde da noite, vagar pela cidade, subir o morro até a árvore sagrada ou, em caso extremo, ir até a praia, o que desse na telha. Fora ver Carlos, tava tudo ok pra ela, mas sobre isso não podia fazer nada, eles eram um grupo e, como tal, ela não ia submeter a união do mesmo a esse dramazinho adolescente.
Como Rob pareceu estranho sobre o fato da Cris ir junto, quando ela lhe perguntou, Lou conseguiu seu endereço e se dirigia agora até a casa dela. Já era pôr-do-sol, seu horário preferido, e até aquele lugar perdido ficava lindo em tom laranja.
Quando chegou, bateu duas, três vezes e nada aconteceu. Na quinta vez, uma voz arrastada responde do outro lado da porta, perguntando:
– Quem é?
– Louisa, Cris. Que demora! Os nós dos meu dedinhos estão rosas. Jesus, o que você estava fazendo? — Despejou antes mesmo da outra abrir a porta, quando o fez, olhou a anfitriã de olheiras e cara amarrotada de cima abaixo. — Dormindo a essa hora.
– É domingo...
– Você tem razão.
– ...pretendia dormir até amanhã. — Ca terminou sua fala.
– Tá, mas já tenho a solução. Pontop, 5 minutos, vá se aprontar.
– Antes, entre. — Ca deu espaço para ela entrar, ao que Louisa logo se jogou no sofá. — Segundo, não acredito que eu vá.
– Por quê?
– Rob sabe que você está aqui?
– Deve saber, ele que me deu seu endereço.
– Sério? — Ca apertou as mãos em frente ao corpo. — E disse mais alguma coisa?
– Pffff. — Lou suspirou alto, batendo na testa. — Não acredito que vocês brigaram… Minha vida é uma merda, de modo que preciso de alguém tendo sucesso no jogo que é “sobreviver à Azaret” para que o equilíbrio do universo seja alcançado.
– Não conte comigo. — Ca respondeu, sorrindo. — Nasci virada para o sol, queimando.
Lou riu, um som rouco e muito suave para ela.
– Me conta
– Nem chegamos a brigar, eu só agi como a idiota que sou e fui embora.
– Hmmm… mas como o Rob não é idiota, tenho certeza que ele não se importará se você for. No máximo, ele ignorará sua presença.
– Ah, valeu, porque isso é muito gostoso.
– E você vai passar a fugir? Se esconder sempre que ele estiver por perto, faltar ao colégio…? Me poupe, não banque a estúpida ainda mais, suba logo e ponha uma roupa decente.
– Não fale assim comigo! — Ca cruzou os braços.
– Oh, esqueci o por favor: Por favor, sério! — Lou sorriu docemente para ela, ao que Ca revirou os olhos e subiu.
Tomou uma ducha, mas vestiu a mesma calça de moletom verde exército, mudando a blusa para uma folgada, branca, de ombro caído. Fez uma trança, calçou os all stars e guardou documento e dinheiro no bolso, logo indo até Louisa.
– Tá, vamos! — Foi só o que disse.
Todos já estavam lá. E ela sentou após Louisa no “sofá” em que Débora se encontrava, enquanto que Rob, Ben e Ana estavam no oposto, do outro lado da mesa. É claro que a primeira coisa que fez foi olhá-lo. Primeira coisa mesmo, nem cumprimentou os outros, mas também ela nunca foi muito educada. Pensando nisso, teve vontade de sorrir, mas não o fez. Por algum motivo, ele retribuiu o olhar, e esperou. Sem saber o que fazer, ela só torceu a boca, em uma careta que ela pretendia passar uma imagem de “eu fui idiota”. Como ele não fez nenhum sinal de entendimento, ela suspirou, frustrada, e disse:
– Eu fui idiota.
Ele sorriu e retrucou:
– Foi? — Duvidou, inocentemente. — Convivo com idiotas todos os dias, você nem chegou perto.
– Então eu fui muito tola. — Insistiu.
– Não vou te salvar disso. — Ele deu um sorrisinho de lado e ela entendeu que por agora estava tudo certo.
Relaxando, aproveitou a noite com os outros, rindo e conversando besteira. Carlos ia ali de meia em meia hora e sempre dizia que aquela porção era a última, ficava 10 minutos com eles e ia embora. Quando pareceu que havia se passado 2 horas naquela, Ca virou-se para encontrar alguém te olhando. Só quando os olhares se encontraram é que entendeu o por quê de ter olhado exatamente naquela direção, alguém já vinha te encarando e ela sentiu. Reconheceu de imediato e seu corpo todo tensionou.
Rob estava rindo do que Ben tinha dito, de modo que quando a olhou, ainda sorria, divertido, mas o sorriso sumiu quando percebeu que ela não estava ok.
– O quê? — Perguntou baixinho.
– O cara do hospital. — Ela sussurrou. — Não para de me encarar.
Sem discrição, ele procurou pelo homem até encontrá-lo. Fez questão de endurecer a fisionomia, quando o cara tinha percebido ele ali, desviou o olhar, envergonhado.
– Isso tá ficando bizarro. — Ele disse e levantou, tomando sua mão e a levantando. Murmurando alguma coisa para os seus amigos, saiu para a rua, parando ao lado da entrada.
– Por que fez isso? — Ela perguntou, curiosa. Mas ele só sorriu, ainda segurando sua mão.
Poucos segundos depois, a porta abriu e o cara saiu, encarando a rua enquanto a porta do restaurante ainda fechava e, então, encontrando-os ao lado.
– Oh. — Exclamou, surpreendido.
Por um momento eles só se encararam sem saberem o que dizer, mesmo que atrair o desconhecido até ali fosse o que Rob queria.
– Quem é você? — Ele perguntou.
O desconhecido pigarreou, como se a garganta estivesse enferrujada.
– César. César Magalhães. Eu… — Ele começou, mas, de fato, não sabia como dizer.
– Vamos embora, Rob. — Catarina disse baixinho, e depois mais alto: — Só gostaríamos que o senhor não ficasse nos encarando por aí, será que é possível? — Ela usou o “nos” porque era muito estranho admitir que a atenção dele voltava-se apenas para ela.
– Desculpe, sinceramente, é só que… A semelhança… a que eu já tinha dito, no hospital.. Eu sei que você negou e eu não quero ser indelicado, mas, me responda apenas isso e eu os deixarei em paz. Você conhece alguma Laura?
O por quê dela ter respondido o que respondeu, não sabia. Mas o fez, não aguentando mais aquilo e ao mesmo tempo pensando que não tinha por quê se esconder, não devia a ninguém.
– Sim, conheço, o que o senhor tem a ver com isso? Laura Guedes, minha mãe.
Os olhos do homem se arregalaram.
– E quantos anos você tem? — Ele conseguiu dizer.
– Pensei que seria apenas uma pergunta. Mas responderei essa, e irei. Tenho 17 anos.
Ca puxou Rob, querendo sair apressadamente dali, e passando pelo homem, que havia paralisado. Sua mão estava quase na maçaneta da porta, quando César voltou a falar.
– Quem é seu pai? — Sua voz soou sombria ou triste, ela não saberia dizer.
Catarina sentiu um tremor passar por ela da cabeça aos pés, sua boca ficou seca e um frio se instalou no pé da barriga, ela nunca tinha desmaiado, mas pensou que a sensação pré-desmaio devia se igualar ao que ela sentia agora. Só que não ia desmaiar, não ia.
– Não é você. — Disse por fim, a voz rachada.
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