Parte alguma de uma história sem fim

15 Assuntos não ditos, discussões não evitadas


Era difícil sentir tédio quando seus dias eram bem ocupados, e os seus tinham ganhado uma nova rotina:

Ela acordava, cuidava da higiene, ia para o trabalho com Suzana, comia algo no intervalo, dava almoço à Suzana antes de ir embora, a levava para o colégio, ia para o seu, quando as aulas acabavam, ela continuava no montinho com Rob e eles estudavam juntos, até às 19h30, quando ele a deixava em casa e ela fazia o jantar para o dia seguinte, comia, tomava banho e ia dormir.

Tinha um bom ar nisso tudo, era satisfatório, se sentia útil, responsável. E compensava bastante. Ela não sabia onde estava com Rob, eles nem ficavam direito, pra falar a verdade, estavam muito focados em recuperar as notas dele. Mas ela não se importava, ao fim do dia ele sempre a abraçava forte e era tão bom. Desde a praia eles estavam nesse encaixe, como se muito mais conectados um com o outro. Intimidade ia muito além do físico.

Desde a praia ela também não precisou reviver Laura. Duas semanas já haviam se passado e Laura tinha continuado lá. Era sábado à noite e Pedro tinha saído, de modo que ela e Suzana se esparramaram no sofá, desligou tudo e só deixou a TV funcionando. Passava filme de terror e elas dividiam uma barra de chocolate, gritando nos momentos certos, viajando no restante do tempo.

– Filmes de terror é estúpido. — Suzana bufou.

– São estúpidos.

– Tá vendo, você também acha.

– Estou te corrigindo, você falou “filmes”, plural, então deve usar o verbo no plural também. “São” e não “é”.

– Ok, ok, professora. — Suzana revirou os olhos e Ca deu um pulo pra frente para assoprar.

– CATARINA!!!!

Suzana deu um pulo de susto, saindo do sofá, e tampou os olhos.

– Desfaça! Desfaça agora. — Gritou para a irmã mais velha, mas Catarina não conseguia parar de rir. Ria tanto que a barriga começou a doer. Suzana começou a choramingar, pulando no meio da sala, os olhos ainda fechados.

– Tá, vem cá. — Ca controlou o riso e puxou sua irmã pelo braço. — Se eu assoprei a frente do seu rosto, devo assoprar por trás para reverter o feitiço. — Ela virou Suzana de costas e o fez. — O feitiço está desfeito, você está livre agora. — Falou com pompa.

Já de frente para a irmã, Suzana abriu os olhos devagar.

– Como estou? — Perguntou, temerosa.

– Feia como sempre.

– Argh!!! — Suzana pulou em cima de Catarina no sofá e a outra voltou a rir descontroladamente, ao mesmo tempo que tentava se defender daquelas mini garras que doía pra caramba, independente do tamanho.

– Eu disse “como sempre”... o que você acha?... Desfaço feitiços... mas não realizo milagres. — Conseguiu dizer entre um riso e outro, quase sem fôlego.

Revertendo a situação, Ca prendeu Suzana no sofá e começou a lhe fazer cócegas.

– E agora, sua pirralha?

– Catarina, não!!! — Mal dizia ela, enquanto gargalhava. — Sua chata! Me solta!

Ca soltou, e elas voltaram a suas posições normais, um sorriso ainda pairando nos rostos.

– Você é uma péssima irmã. — Disse Suzana, deitando a cabeça em seu colo.

– Então estamos quites. — Respondeu Catarina.

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Para disfarçar a sensação de viver um domingo, Pedro deixou Ca no pop feat. rock no caminho à casa da amiga de Suza, onde a deixariam a tarde toda.

– Pensei que não me amasse mais. — Henri a saudou quando ela entrou.

– A caça nunca termina, meu caro. — Ca dá uma bitoca estalada na bochecha dele.

– Sempre o jogo, nunca o amor. Tsc, tsc.

– Por isso lhe pergunto, quanto te devo?

Henrique olhou fixo para ela, nunca não conheceu alguém tão bem. Há anos a guria ia em sua loja e caçoava com ele e se davam maravilhosamente, mas se tinha alguém difícil de ser íntimo, era essa garota. Ainda assim, era sua melhor cliente, mesmo quando cliente não era a palavra certa. Sabia como as coisas andavam difíceis, a loja, mesmo, era mais um hobbie, um capricho, do que um trabalho de verdade. Aquele tipo de coisa não dava mais dinheiro ali, tudo o que era arte havia partido.

– Deixe disso. — Ele abanou a mão em frente ao rosto, descartando.

– Sério, Henri. Larga o verbo, ou melhor, a quantia. Todos os chás, alguns vinis.

– Você sempre devolve os vinis.

– Nem todos, e bebo todos os chás.

– Você me paga com sua companhia. — Ele sorriu, mas como era dura na queda, ela já ia contestar dizendo que ficava a maior parte do tempo nos fundos, longe dele. Pressentindo, ele continuou. — Agora vai, vai, ABBA te espera.

– Quanta provocação, sabemos bem onde você enfiou esse vinil.

Henri gargalhou com a afronta.

– Sua menina da boca suja!

Uma hora depois, Ca se encontrava jogada num sofá lendo uma hq do homem aranha. Henri tava sentado atrás do balcão, mexendo no notebook.

– Sem dúvidas o Homem-Aranha é o melhor herói de todos.

– Batman. — Henri respondeu.

– Batman só é rico.

– E tem algo melhor?

– Eu não saberia dizer, no meu dicionário “dinheiro” significa “dos outros”.

– E o que você pretende? — Henri lhe pergunta depois que se recupera do riso.

– Sobre o quê?

– Sobre mudar essa situação.

Antes de responder, Ca respira fundo. Odiava falar sobre o futuro. Futuro para ela significa o presente, pois ontem, o hoje ainda não existia. Era assim que ela via e seguia com a vida, um dia após o outro, sem planos.

– Estou mais para não deixar a peteca cair.

– A vida toda?

– Até a vida determinar o próximo jogo.

– Não acha mesmo que você tem algum papel nisso? A vida é sua, você joga o que quiser, quando quiser.

– Henri…

– Cata, você é tão esperta. Não consigo te ver nesse lugar para o resto da vida.

– E você, por que está aqui?

– Porque eu quero, você pode dizer o mesmo?

– Não, e é por isso que eu gostaria de mudar de assunto.

Henri suspira, mas ele nem precisa dizer alguma coisa porque o sino da porta soa, anunciando a entrada de alguém, e ele logo vê Rob Jones. Se alguém frequenta aquela loja mais do que Catarina, era aquele cara. Era incrível como de um lugar tão seco podia nascer pessoas que valiam tanto a pena.

– Rob, e aí, cara? Hoje é um dia coringa, meus clientes preferidos aqui.

– Não vem puxar meu saco! — Ca se pronunciou e Rob varreu a sala, até chegar na fonte daquele som.

O sofá não era tão longe do balcão, mas algumas prateleiras pequenas quase o escondiam. Um “click” devia ressoar toda vez que os olhos deles se encontravam.

– Cris.

Henrique não deve ter entendido nada, ou talvez tudo, com o “Cris”, com o “caminha até”, com o inclinar e beijar. Supôs, no mínimo, que eles já se conheciam, o que pareceu muito certo, o que o deixou bastante feliz. Mal sabia ele que tinha começado em sua loja.

– Que bom te encontrar aqui.

Ela levantou as pernas para que ele se sentasse, apoiando-as nele logo em seguida.

– De novo.

– De novo. — Ele sorriu. — Vai me expulsar dessa vez também?

– Depois de você.

– Então não será preciso. A senhorita gostaria de me acompanhar até o fundo da loja?

– Que indecente!

Rob riu, prontamente beijando seu pescoço.

Então era por isso que garotas puxavam o cabelo umas da outras, era nisso que novelas, filmes e séries tanto falavam, era por isso que ter alguém era uma necessidade tão grande hoje em dia. Essa sensação de estar dentro de um abraço e ser beijada e beijada e beijada até perder o fôlego, de ser traçado uma trilha pelo seu pescoço, de ter e ainda assim querer mais e ainda assim ser muito, muito bom.

Eles estavam dando um amasso, o que, ela descobriu, era mais literal que metafórico, atrás das estantes. Pensou, por um momento, se devia se sentir mal por isso? Mas acabou chegando à conclusão de que o local não era público, de certa forma, nem sagrado, e eles estavam só se beijando. Loucamente.

– Então você gosta de heróis? — Ele perguntou a ela mais tarde. Estavam sentados um de frente para o outro, no chão. A mão esquerda de Rob estava parcialmente dentro da sua blusa e seu dedão afagava a lateral do seu corpo, logo acima da sua calça de moletom.

– Não, realmente.

– Só do homem-aranha?

– O homem-aranha é o melhorzinho. — Eles riram antes que ela continuasse. — Super heróis só… são demais para mim.

– Como assim?

– Ninguém pode chegar a ser um super herói, eles são inalcançáveis, estão ali como um lembrete de quão perfeitos não podemos ser.

– Ou estão ali para nos motivar.

– Não precisam nos motivar, o fato da comida faltar na mesa já é motivação o bastante. Não preciso, além disso, que suas carinhas lindas e perfeitas com ou sem máscaras estejam ali para me lembrar de algo que nunca serei ou terei.

– Acredita mesmo que você não é uma super heroína.

Ela o olhou contrariada.

– Pois você não acha que salva a vida de sua irmã todos os dias? Você e Pedro, não são super heróis?

– Tá, pára. — Ela disse, já se distanciando mentalmente da conversa. Não gostava daquilo, de elogios, expectativas, de que a olhassem diferente de como ela se olhava. Não podia lidar com a decepção, para alguém que já foi muito decepcionada, se negava a decepcionar os outros.

– Cris. — Ele virou o rosto dela para ele, que ela, petulantemente, tinha virado. — Não seja tão dura consigo mesma.

– Não é o que estou fazendo. De fato, é mais fácil que você esteja sendo duro comigo.

– Como?

– Não sei, esses olhos pretos tentando me definir quando eu não preciso disso. Não preciso de ninguém se esforçando para me entender ou me colocando lá em cima, em um pedestal, ou me dizendo que sou bonita ou um exemplo. Eu não sou, eu odeio isso. Odeio que me vejam como não sou.

– Ah, então você não é?

– Não.

– E como você é? Cínica, amarga, triste? Quer que eu tenha pena de você ao invés de valorizar e reconhecer todas as qualidades maravilhosas que você tem?

Rob já não mais fazia carinho nela, apesar de seu dedão continuar ali, em sua pele, quente. Ela podia sentir seu toque muito além, todos os lugares em que ele a havia tocado nos últimos 30 minutos estavam ali, marcados. Ela podia sentí-lo na alma.

– Você nem me conhece. — Ela disse, magoada por estarem conversando sobre aquilo, mas não por achar que ele não a conhecia, preferia. Não queria que ele conhecesse.

– E você não quer que eu conheça. — Respondeu, como se lesse seu pensamento. Ela abriu a boca, como se fosse responder, mas nenhum som saiu.

– Eu tenho que ir. — Terminou dizendo. Levantou e foi embora.