Parker
22 Rebecca tem algo a contar
Notas iniciais
Em uma tarde, mãe e filha receberam uma notícia.
— Oi tia Sara!- a menina cumprimentou com alegria. — Oi tio Grissom!
Eles responderam o "oi" animado dela. Nunca viram Rebecca de outro jeito.
— Mamãe está no banho, mas ela já vai sair. Ela esqueceu o Skype aberto sem querer.
— Não tem problema, meu amor. Como você está? E a escola? O ano letivo começou bem?
— Começou sim.- ela sorriu. — Geralmente é mais puxado no fim do semestre. Mamãe me deu a primeira câmera digital dela.- ela contou entusiasmada.
— Sério? Que bacana! Vai fotografar tão bem quanto ela.
— Epa, epa! Que história é essa? Já querem me substituir?- brincou a fotógrafa ao sair do banheiro com uma toalha na cabeça.
Gil e Sara riram.
— Claro que não, sua boba. Como estão as coisas?
— Espera aí, eu preciso do meu óculos, seus rostos parecem borrões.- os três riram da mais recente míope da família. Rayle ficou uma graça de óculos. — Corridas.- ela respondeu a pergunta de Sara ao voltar. — Vou tirar férias mês que vem. Já deixei avisado aos clientes que se quiserem agendar, a hora é agora ou depois que eu voltar.
— Ai que bom que vai tirar férias.- Sara sorriu para Grissom. — Estamos pensando em ir pra Vegas, ficar uns nove meses lá na casa.
Jogaram a dica pra ver se elas pegavam.
— Só um ano no mar e já se cansaram?- Rayle riu sem entender.
— Não, amamos navegar.- Gil respondeu. — É que no momento precisamos ficar em terra por precaução.
— Precaução por quê?
— Amiga, você é lenta demais.
— Como assim?
Rebecca tapou a boca surpresa, pois entendeu o que eles quiseram dizer, e riu da mãe por não chegar à mesma conclusão.
— Rayle, eu falei que ia ficar uns nove meses.
— Eu sei, Sara, eu ouvi. Eu sou cega, não surda.
Gil bateu na própria testa rindo e Sara gargalhou dizendo "ah não".
— Mãe, ela está grávida!!
— Rebecca, não pira.
Quando olhou para o casal de novo e os viu esperando pela sua reação, ela voltou a olhar pra filha que ria, e voltou a olhar pra eles, repetidamente.
— Espera, ela… ela acertou?
O casal assentiu sorrindo e Rayle levantou com tudo fazendo a toalha que estava em sua cabeça tombar e ficar na sua cara.
Rebecca caiu na risada e Rayle arrancou a toalha em choque.
— Você disse que ela ia dar um berro.- Grissom sussurrou pra esposa em divertimento.
— É que a ficha não caiu ainda.- Sara respondeu no mesmo tom. — Espera alguns segundos. Três… Dois… Um…
— MEN-TI-RA!!!
— Verdade.- Sara riu.
— Aaaaaa!! Não acredito!- gritou.
— Viu?- Sara olhou para Grissom que sorriu.
— Amiga, como assim?
— Você… quer que eu explique como acontece?- Sara riu. — Bom, quando um homem e uma mulher…
— Não, não, tia Sara, por favor, não…- Rebecca quase implorou para ela não continuar e Grissom deu risada.
— Eu sei como acontece, besta, eu só… não consigo acreditar… Isso é…
— Incrível?- Sara completou com um lindo sorriso.
— Incrível!- Rayle repetiu e deu uns pulinhos. — Parabéns! Estou muito feliz por vocês! Cuidar de uma criança é difícil, mas vale a pena.- abraçou a filha ao dizer isso.
O casal sorriu.
— Que venham trigêmeos!!- Rebecca gritou com os braços pro alto só pra zoar.
— Não!!- Gil e Sara disseram ao mesmo tempo, fazendo mãe e filha gargalharem.
— Ai ai…- parou de rir, mas não de sorrir. — Bom, vocês vão pra Vegas mesmo? Posso encontrar vocês lá mês que vem.
— Sim, seria ótimo.- falou Sara. — Estamos indo pra lá agora. Talvez amanhã ou depois de amanhã já vamos estar lá.
Rayle sorriu.
— Já vou procurar mimos. Meu sobrinho merece.
— Como sabe que é menino? Nem dá pra saber ainda.- indagou Sara.
— Simplesmente sei, Sarita. E tenho certeza que Nick vai fazer um bolão com o pessoal do laboratório. Já contou pra eles?
— Não, você foi a primeira a saber.- Rayle sorriu fazendo cara de convencida e fazendo o casal sorrir mais uma vez.
— Ele está em Vegas, nos falamos há menos de uma hora.
— Ai que bom! Assim peço pra Catherine reunir todo mundo e já conto.
— Ai então vai lá que eu estou ansiosa pra ele me ligar gritando aqui.
Todos sorriram e depois se despediram.
Rayle e Rebecca foram pra lá no mês seguinte e levaram as primeiras roupinhas de presente pro bebê. O casal quase morreu de amores.
Faltavam apenas quatro dias pro natal e eles resolveram fazer a ceia na casa de Gil e Sara/Rayle já que agora dava. Já tinham combinado tudo, cada um ia levar alguma coisa. Gil, Sara, Rayle e Rebecca ficaram com o principal, o peru e a decoração do ambiente. Gil e Sara o peru e a mesa de jantar, Rebecca e Rayle a árvore e a sala.
— Tia Sara, acha que já dá pra saber?
Rebecca passou a semana toda perguntando se já dava pra saber o sexo do bebê.
— Talvez, meu amor, eu vou saber só semana que vem.- a morena respondeu enquanto terminava de arrumar a mesa. Estava descalça, pois não ia arriscar usar salto e ficar com o pé doendo. Seu vestido era mais estilo gala pra manter a tradição, mas era bem clarinho e levinho.
— Eu estou ansiosa!- ela deu uns pulinhos, balançando sua linda saia com suspensório, e Sara riu.
— Seu tio com certeza está do mesmo jeito que você. Só falta dar pulinhos.
Becca também riu.
— O bolão está rolando solto, né?- Abby comentou encostando na mesa esbanjando seu vestido vinho até um pouco abaixo dos joelhos.
— Não acredito que foram adiante com isso.- Sara riu. — As apostas já passaram de três mil dólares.
— Caraca!- exclamou Rebecca. — Tudo isso? Quem apostou em quem?
— Nick está com tudo anotado.- Rayle apareceu com sua câmera em uma das mãos e o vestido preto em outra pra não tropeçar no salto. — Eu não lembro é de mais nada. Só sei que quem foi em "menino" vai ganhar comigo.
— Rayle está confiante.- Grissom comentou enquanto andava até a esposa, lindo com seu smoking. — Estou começando a cogitar a ideia de apostar também.
— Nem pense nisso.- Sara deu um tapa no braço dele fazendo todos rirem. — Nós estamos de fora.
— Podíamos ganhar uma grana pra reformar o quarto de hóspedes pro bebê, honey. Pense nisso como um investimento.
Abby riu da apelação dele.
— Boa, Gil!- Rayle concordou.
— Não incentivem.
Todos sorriram e Grissom lhe deu um beijo na bochecha tocando sua barriga.
Nick chegou depois de um tempo, outros convidados chegaram antes dele. Rayle foi correndo abraçá-lo. Aqueles encontros periódicos só lhes deixavam saudosos, mas por enquanto era o que dava.
— Ah, minha fotógrafa favorita!- ele retribuiu o abraço forte dela. — Que saudade, meu amor.
— Achei que não viria, não respondeu minha mensagem.- ela desfez o abraço e tocou o rosto barbudo dele fazendo um leve carinho.
— Perdão, eu não vi.- ele tirou o celular do bolso e checou. — Devo ter ficado sem sinal.- ele então guardou e voltou a apoiar sua cintura. — Está brincando né?! Eu não ia deixar de te ver nem se surgissem mil assassinatos pra resolver em San Diego hoje.
Rayle riu e lhe deu um beijo.
Sara quase deu um berro.
— Que bonitinho.- disse Greg. — O Nick é carinhoso, olha só.
Acharam que o texano não tinha escutado até ele levantar o dedo do meio para Greg mesmo ainda abraçado a Rayle. A galera deu risada.
O dia de saber veio e Rayle acertou que era menino.
Nick tinha tudo anotado então ninguém deu uma de engraçadinho no bolão, quem perdeu, perdeu, e quem ganhou era só alegria.
— Eu sabia! Eu sabia!- Rayle saltitava pela sala depois de chegar de San Diego.
Ela e Becca tinham ido passar a semana lá com Nick depois do natal, voltaram pra passar a virada do ano com Sara e em seguida voltaram pra San Diego pra passar mais uma semana com Nick. As férias de fim de ano de Rayle foi viajando de carro pra lá e pra cá com Nick e a filha. Os três eram os serzinhos mais felizes. Assim que o passou a primeira semana de janeiro, ela voltou pra Las Vegas, dessa vez sem Nick, pra ficar o fim de semana com a amiga antes de voltar pra São Francisco.
— O neném de titia é menino, eu tinha certezaa!
— Eu ainda não sei como tinha tanta certeza, era 50/50.- disse Sara ainda chocada.
— É a primeira coisa que mamãe acerta, ela nunca teve sorte em acertar palpites.- Rebecca fez o casal rir.
— Por isso mesmo eu estou desacreditada, não faz sentido.
— Olha só, esse é meu momento, não tirem meu mérito, poxa!
Riram novamente.
~ ☺ ~
Os meses que se seguiram foram tranquilos. Por estar em Vegas nos últimos meses de Sara, Rayle via Nick mais vezes, pois eram só algumas horas de carro de San Diego pra lá.
Rebecca estava adorando ver a mãe tão feliz!
Em certo dia da quadragésima semana de gravidez de Sara, Rayle teve um evento de fotografia pra ir e Rebecca ficou com Abby e os tios. Foi ajudar Grissom com as compras e bem quando estavam colocando tudo no porta-malas, Abby ligou dizendo que Sara estava em trabalho de parto.
Rayle foi o mais rápido que pôde pro hospital e a espera era angustiante.
— Mãe, tá demorando muito. Por que ainda não temos notícias?
— Você acha que todos os bebês nascem rápido só porque você foi?- Rayle sorriu segurando a mão da filha enquanto Abby segurava a outra na sala de espera. — Ninguém forçou o parto da Sara como o meu. Alguns demoram horas mesmo pra nascer. Está tudo bem com sua tia, ela é uma mulher muito forte. O bebê deve estar sentado, ou algo assim. Não se preocupe, logo vamos vê-los.
— Eu estou sentindo um aperto muito grande.- comentou Abby. — E se…
— Nada disso, Abby! Não pense em coisas ruins. Seja positiva.- sorriu.
Abby já ia responder quando viu Grissom entrar cabisbaixo na sala.
— Gil?- Abby se levantou na mesma hora. — O que houve? Eles estão bem?
Gil não conseguiu responder, simplesmente uma onda de choro veio, sem que ele pudesse conter. Caiu de joelhos numa cena que jamais pensou que alguém fosse ver.
Sara teve uma parada cardíaca assim que deu a luz, mas foi só um susto. Enquanto ela estava em observação, Gil e as meninas foram ver o bebê.
Ele estava usando a roupinha que Rayle deu, e a fotógrafa quase morreu de amores, não conseguiu segurar a emoção. Era a cópia perfeita dos dois. Branquinho, cabelos castanhos, olhos azuis, o nariz era igualzinho ao da mãe. Estavam apaixonadas por ele.
Só depois que Sara acordou, amamentou o bebê e que Grissom e Abby saíram do quarto, Rebecca e Rayle puderam entrar pra ver Sara com o neném.
Sara o ninava com movimentos suaves mesmo estando sentada na cama. O neném dormia tranquilamente no colo quentinho da mãe.
— Ai meu Deus!- Rayle sussurrou na porta do quarto, pois percebeu que o bebê dormia e não queria acordá-lo.
Sara sorriu abertamente pra ela e disse oi.
Rayle se aproximou também com um sorriso de orelha a orelha e lágrimas não olhos, e respondeu o "oi" dela com outro.
Olhou para aquela coisinha pequena dormindo no colo da amiga e ficou ainda mais feliz por ela.
Ambas trocaram um olhar afetivo, Rayle acariciou o cabelo dela e beijou sua testa. Não era novidade que as duas tinham um imenso carinho fraternal.
— Ele é lindo, Sarita.
Sara sorriu em agradecimento.
— Quer segurar?
— Ele não vai acordar? Rebecca acordava com um soprinho.
A menina riu atrás da mãe.
Rayle pegou o sobrinho, ansiosa. Parecia hipnotizada olhando pra ele, agora de pertinho, não só por ele parecer um anjinho dormindo em seus braços, como o fato dele estar usando o macacão que deu pra ele.
— Tia Sara?!
— Oi, princesa.
— Você tá bem?
— Estou sim.- sorriu. — Foi só um susto.
Rebecca foi abraçá-la e suspirou aliviada.
— Que bom que você tá bem. Fiquei assustada.
— Eu imagino.- Sara a abraçou de volta e beijou sua testa. — Mas está tudo bem agora.
— Então mamãe e eu podemos levar o Ricky pra São Francisco, né?
— Nem pensar.- as duas riram.
— Ricky? Esse é o nome dele? Por que Rebecca sabe e eu não?
Sara sorriu.
— Pra não correr o risco de você deixar escapar pro Nick. Queríamos fazer uma surpresa. O nome dele é Warrick.
Rayle puxou na memória.
— Seu amigo que morreu? O que você veio "investigar" em 2000?- Sara assentiu. — Que linda homenagem, Sarita. Eu lembro vagamente de você falar dele. Ele foi mesmo muito querido então.- sorriu de lado.
— Foi sim.- deu o mesmo sorriso.
~ ☺ ~
— E como ela está?- Nick indagou sentando ao lado de Rayle no sofá.
— Está bem, já está em casa.
— Vou visitá-los assim que possível.
— Ele é a coisa mais lindinha! Vou dar muitos all star pra ele usar.
Nick sorriu.
— Nada mais estiloso.
— Ela disse o nome do bebê. É Warrick.
Gotinhas de água salgadas deslizaram por seu lindo rosto ao lembrar do melhor amigo e do quanto era bonita aquela homenagem. Rayle secou as lágrimas dele e acariciou seu cabelo.
— Sara me contou como você ficou quando ele morreu. Eu nem consigo imaginar como é perder o melhor amigo. Nem sei o que eu faria se Sara morresse. Quando ela teve a parada cardíaca, eu quase tive uma também.
— Foi uma dor que eu não desejo pra ninguém, Ray. Eu sofri muito, muito mesmo. Mas eu acredito que onde quer que ele esteja, ele está bem. E está feliz por mim, pela gente.- sorriu. — Ele teria gostado muito de você.
Rayle sorriu e lhe deu um beijo.
Rebecca tentou passar despercebida pra cozinha, mas Nick fez um "Psiu" assim que parou de beijar a mãe dela.
— É a terceira vez que você vem pra cozinha pegar um pedaço de pizza.- ele sorriu. — Pode levar a caixa, Becca. Eu peço outra depois.
— Tá doido? Ela não vai comer o resto da pizza inteira, Nick!
— Adolescente é um poço sem fundo, amor, e eu digo mais: eu como duas, tranquilamente.
Rayle arregalou os olhos e ele riu.
— Leva, princesa, eu vou pedir mais uma pra gente.
Rebecca abriu um baita sorriso e agradeceu.
— Ah, eu vi que você estava triste por ficar longe da Amy. Eu sei que as vezes sua mãe vem sozinha me ver, e eu espero que você não fique chateada.
— Eu achei que você que ficava… por eu não vir as vezes.
— Eu fico triste, porque eu adoro sua companhia também. Você é minha melhor parceira de video game.
— Achei que fosse eu.- Rayle cruzou os braços.
— Sinto muito, loira, mas a loira mirim tomou seu lugar com louvor nessa função.- ela abriu a boca chocada. — Mas você continua sendo uma exímia jogadora, meu amor.- lhe abraçou e lhe deu vários beijinhos.
Rebecca sorriu. Era fofo demais ver os dois juntos.
— Enfim, não se sinta mal por preferir ficar com seu tio e sua amiga, tá? Até nas vezes que eu que vou pra lá.
— Que nada, eu não tenho preferências. Você não me faz sentir uma vela e mesmo que eu seja as vezes, é legal ficar com vocês. Como uma família de verdade.
Rayle se emocionou com isso. Sua filha sentia que tinha uma família completa agora, mesmo que a família de duas pessoas também fosse boa, uma de três também era ótima, ainda mais ela que não teve exemplo paterno.
Viver aquela felicidade era bom demais pra ser verdade.
~ ☺ ~
Mais um ano se passou. Renê não deu as caras, Rebecca tinha feito quinze anos, o relacionamento de sua mãe com Nick ainda estava dando certo do jeito que estava, tudo bem, tudo certo. Não tinham pressa de morar junto, fazer mudança, nada disso. Estavam indo com muita calma.
Rebecca e Amy também foram com muita calma, principalmente quando entenderam seus sentimentos. Mas "calma" era uma palavra que os pais de Amy não conheciam.
Um dia, Rayle estava em casa com Pipoca. Sempre que não estavam em casa, era Thomas quem cuidava dele.
A fotógrafa estava limpando as lentes de suas câmeras quando sua filha entrou em casa com a carinha mais triste que já viu. Mas além de triste, dava pra perceber o quanto estava com medo. Aquilo a preocupou.
— Mãe…
— O que houve, filha?
— Eu… eu estou namorando.
Rayle abriu um lindo sorriso.
— Ah, que maravilha! Mas por que essa carinha? Achou que eu ia brigar? Normal da adolescência.
— Não, é que… eu… é…
Rebecca nunca teve dificuldade de falar com Rayle. Elas sempre foram transparentes uma com a outra, eram, além de mãe e filha, amigas. Então Rayle achou estranho ela estar insegura de falar com ela. Mas logo entendeu.
Sorriu.
— É a Amy… não é?
— Você está sorrindo?- sua reação foi confusa e esperançosa.
— E tem outra reação? Eu percebi, depois de um tempo, que vocês gostavam uma da outra, ainda mais depois de ficarmos viajando pra lá e pra cá com frequência. Amizade sofre longe, mas amor sofre muito mais. Fico feliz que seja a Amy, ela é uma menina maravilhosa.
Lágrimas escorreram do rosto de Rebecca.
— Você não vai ficar uma fera? Gritar comigo?
— Meu amor, por que eu faria isso?- Becca soltou o choro e correu para abraçá-la. — Oh filha…- Rayle estava com o coração partido por vê-la chorar. — Eu sabia antes de você, sabia? Mãe sempre sabe. E agi naturalmente porque é natural, não tem nada de errado. Por que achou que eu reagiria mal, Becca? Você mais que ninguém sabe o quanto abomino homofobia, eu tenho amigo gay, tenho amigo bi, e olha, eu dou graças a Deus por você ser lésbica. Gostar de homem é um castigo.
Fez Rebecca rir mesmo sem querer e a apertou em seus braços.
— Eu queria que a tia Amélia tivesse reagido assim.
— Ãhn?- desfez o abraço para olhá-la.
— Amy!
Rebecca chamou a amiga/namorada que esperava do lado de fora, a postos, caso acontecesse algo que não esperavam. Amy entrou com os olhos vermelhos, inchados, emocionada com o que ouviu e triste por não ter ouvido o mesmo dos pais.
— Colocaram ela pra fora de casa, mãe.
— O que?????- Rayle era puro espanto e indignação. — Como assim, Becca???
— A gente falou pra eles antes, porque foi na pracinha perto da casa dela que a gente oficializou. Eles reagiram muito mal… falaram coisas horríveis que… eu não quero nem repetir. Mesmo te conhecendo, fiquei com medo de você reagir igual porque… a gente não tem pra onde ir.
As duas caíram no choro e Rayle puxou as duas para o seu abraço.
— Oh minhas meninas…- abraçou forte as duas. — Meu Deus, que coisa horrível. Como ela teve coragem de fazer isso?? Colocar a própria filha na rua??
— Ela…- Amy soluçou. — Ela não me deixou pegar nada… Nada, tia.
— Isso é ridículo!!! Jamais pensei que Amélia faria algo assim. Que tipo de mãe ela é?? A gente vai lá, agora!!
— Não, não, eu não quero voltar lá.
— Não, tia, por favor.
Elas estavam desesperadas, o choro partia o coração.
— Olha só, eu vou buscar um calmante pra vocês. A gente vai sentar, vocês vão me contar tudo o que aconteceu e depois que estivermos todas calmas, eu vou lá resolver isso com a sua mãe, Amy. Isso é imperdoável, é desumano, é cruel.
— Obrigada, mãe…- Becca não conseguia parar de chorar, mas era um choro de alívio.
— Eu amo você, filha.- Rayle segurou o rosto dela e olhou em seus olhos ao dizer isso, secando as lágrimas dela. — Você é tudo pra mim.- beijou sua testa. — Eu nunca faria qualquer coisa pra te magoar, eu jamais abandonaria você, ainda mais por um motivo desses. Amélia é desprezível, eu jamais achei que fosse dizer isso.
— Você é a melhor mãe do mundo, tia Rayle.- Amy soluçou mais uma vez e a fotógrafa a amparou em seus braços como fez com a filha.
— Ninguém vai fazer mal pra vocês duas, eu prometo.
Depois de calmas, como pretendido, Rayle pegou as meninas e foi até a casa dos pais de Amy. Bateu na porta com ódio, porque não tinha saco pra ser civilizada.
— Quê que é isso?- Amélia questionou a força da batida ao abrir a porta. — Rayle?
— Que tipo de mãe é você, criatura?
— Veio defender as duas, eu já imaginava.- largou as três na porta e entrou. Rayle entendeu como um convite pra entrar e entrou. — Eu só não concordo com isso, é crime? Ter opiniões diferentes da sua?
— Quando se trata de jogar sua filha menor de idade no olho da rua por ela amar uma menina? É crime sim! Eu não acreditei quando eu ouvi! Uma mãe desprezando uma filha pela sexualidade dela, você não tem vergonha na cara, não??
— Olha, Rayle, eu sempre admirei você, mãe solteira, batalhadora, responsável, a gente sempre se deu bem, sua filha foi a única amiga da minha filha na infância, mas tudo tem limite. Isso é errado! Com certeza é influência da internet, tá na moda isso de ser gay, né? Mas na minha casa, eu não vou admitir essa pouca vergonha! Isso é doença!
Rayle nunca ouviu tanta merda metralhada de uma vez só.
— Eu tenho pena de você, do seu cérebro de sardinha. Aliás, é até ofensa pra sardinha eu dizer isso. Você me enoja, Amélia. Eu tenho é dó da sua filha mais nova.
— Não se atreva a falar assim comigo na minha casa!- ela se alterou. — Que direito você tem?? Eu gostava da amizade delas, mas eu percebi agora o quanto a Becca é uma má influência. Ela colocou essa coisa de lésbica na cabeça da Amy! Ela não presta!
O estalo da mão de Rayle na fuça de Amélia fez eco pela sala.
— Pode falar o que quiser de mim, mas não abre a boca pra falar da minha filha. Ela faz o que você devia fazer: amar a sua filha!- Rayle abaixou o dedo que apontou pra ela após o tapa. — Perdi a paciência. Amy, querida, vai pegar suas coisas. Faz uma mala, pega tudo o que precisa e vamos embora.
Rebecca e Amy, que estavam no canto, se olharam e correram escada acima.
— O que pensa que está fazendo, Rayle??- o marido de Amélia interveio, ele estava no banheiro e ouviu a confusão.
— Acolhendo sua filha!- exclamou. — O que vocês deviam fazer! Amy vai morar comigo agora, e lá ela vai ter o amor e o carinho que merece.
Rayle teve que ouvir o discurso ridículo de Amélia de novo, agora dito pelo marido, e quando ele terminou a asneira, as meninas desceram com uma mala, e a irmãzinha chorava pra ela não ir embora.
Amy chorava copiosamente, pois não queria deixar a irmã com aqueles monstros.
— Eu tenho nojo de vocês!
Rayle despejou, deu as costas e saiu com as meninas para sua casa.
Instalaram Amy lá e ficaram em silêncio por um tempo, cada uma em seus pensamentos.
— Nunca estive numa situação tão horrível.- Amy quebrou o silêncio. — Obrigada por me deixar ficar aqui. Vocês sempre foram minha segunda família.
— Bom, pelo jeito somos a única agora, porque seus pais são patéticos.- Rebecca suspirou.
Rayle sentou de frente pras duas e segurou uma mão de cada.
— Não quero que sintam medo, tá? Foi muito corajoso o que fizeram. Infelizmente, muitos tem a mesma reação que seus pais, Amy. Jerry passou por isso e foi muito difícil pra ele. Mas eu estou aqui pra vocês e não vou deixar ninguém destratar ou desrespeitar vocês. Está bem?
Mais uma onda de choro e abraço, e Rayle selou essa promessa.
~ ☺ ~
O aniversário de um aninho de Warrick estava chegando em algumas semanas e os pais já estavam planejando sua primeira festinha. Rayle ia viajar uma semana antes pra fazer um ensaio fotográfico do pequeno e já ajudar Sara com os preparativos junto com Catherine e Greg.
Estavam planejando tudo pelo celular antes.
— Bom, o ensaio vai ser em estúdio mesmo, então? Eu achei que você ia querer ao ar livre.
— Eu ia, mas achamos melhor fazer ao ar livre quando ele já souber andar. Como não fizemos ensaio newborn quando ele nasceu, achamos que seria melhor fazer foto em estúdio no primeiro aninho dele, pra depois a gente partir pros externos. Porque, sim, eu vou te contratar muitas vezes pra registrar o crescimento dele nesse trabalho incrível que você faz.
Rayle sorriu, pois Sara sempre a colocava lá em cima, ainda mais quando o assunto era sua profissão. Parker realmente era muito boa no que fazia.
— Terei o maior prazer em sempre fotografar essa coisa fofa com o passar dos anos.- ambas sorriram. — Já definiu o tema da festa, né? Vai ser Baby Shark mesmo?
— Vai.- Sara suspirou. — Apesar de não aguentar mais ouvir essa música, é o que Ricky mais gosta de ver, e ele adora tubarões e peixinhos.
Rayle riu, pois ela mesma cantava a musiquinha só pra irritar a amiga.
— Então você assume a culpa de ter mostrado a versão atualizada do ponei maldito pro teu filho? Isso é ótimo.
Rayle tinha visto a propaganda de carro brasileira rodar pela internet uns anos atrás e ficou com a música infernal na cabeça por muito tempo. Baby Shark assumiu o lugar dela de música mais irritante e que não sai da cabeça quando se escuta, assim que foi lançada.
— Não tinha como ele não ouvir em algum momento. Joshua, o filho do legista, vive cantando e você também não me deixa esquecer essa porcaria.
Rayle riu mais ainda.
— Falando em esquecer, quase esqueço de te contar a novidade.- Sara arqueou a sobrancelha, curiosa. — Adivinha quem está namorando?!
— Rebecca?- os olhos de Sara se arregalaram, mas brilharam, pois Rayle contou empolgada, então significava que Becca estava feliz.
— Ela está tão radiante, Sarita!- comentou feliz. — Mais do que já é. E não fiquei preocupada porque é geralmente nessa idade que a galerinha começa a se apaixonar e tal.
— Pois é, quinze anos é comum. Abby foi um ano ou dois a menos.
— Geralmente nessa idade é coisa passageira, mas eu realmente espero que não seja, como aconteceu com a gente.
— Pois é, demoramos um bocado pra achar nossa metade da laranja.- Sara riu.
— Mas aproveitamos bem nossa juventude, não podemos negar.- piscou e Sara riu novamente. — Eu até contaria detalhes, mas tenho que desligar.
— Está bem. Diga que estou feliz por ela e que quero conhecer o sortudo.
Rayle sorriu com a palavra “sortudo” e decidiu não contar mais nada de propósito. Queria ver a reação de Sara ao saber que era “sortuda” com “a”.
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