Notas iniciais
Olá, meus amores! 🇫🇷✨ Bienvenue à Paris, o início de uma nova aventura cheia de romance, caos, diferenças culturais, amizades inesperadas e, claro... um certo francês perigosamente charmoso. 😏 Neste primeiro capítulo conhecemos uma Bella completamente fora da sua zona de conforto, tentando conquistar Paris enquanto sobrevive ao trabalho dos sonhos, aos parisienses nem tão amigáveis e às armadilhas da voltagem europeia. Talvez ela tenha causado um pequeno incidente internacional... mas vamos fingir que isso é apenas um detalhe. 🤭 Espero que vocês se apaixonem por essa nova história tanto quanto eu estou apaixonada por escrevê-la. Peguem um croissant, um café quentinho e embarquem comigo nessa jornada. Boa leitura! 💕

Capítulo 1: Bienvenue à Paris

O céu de Paris naquela manhã de outono ostentava um tom cinzento-perolado, uma abóbada gélida e úmida que parecia filtrar a luz solar através de uma camada de seda fina. Sob essa luz difusa, as fachadas de pedra calcária dos edifícios haussmannianos erguiam-se com uma elegância austera, suas sacadas de ferro forjado negro parecendo rendas delicadas contra o cenário pálido. Bella Swan desceu do táxi parisiense com as pernas trêmulas pela exaustão de um voo transatlântico de mais de onze horas, seus pulmões colhendo o ar frio que carregava um aroma inconfundível de fumaça de cigarro, café torrado e o frescor úmido do rio Sena que corria a poucas quadras dali. Ela estava cercada por uma fortaleza de malas de rodinhas — quatro volumes imensos que pareciam conter toda a sua vida anterior em Seattle, uma bagagem visivelmente exagerada para os padrões minimalistas da capital francesa. Vestindo um sobretudo de lã vermelha que gritava seu otimismo americano a quilômetros de distância, Bella sentia o coração martelar contra as costelas, uma mistura avassaladora de pânico absoluto e uma excitação eletrizante que a fazia esquecer a severa privação de sono. Ela era, afinal, Isabella Swan, a jovem e ambiciosa executiva de marketing digital que acabara de herdar a oportunidade que deveria pertencer à sua chefe, Victoria, cuja gravidez de risco de última hora mudara o destino de ambas. Em vez de passar o próximo ano analisando relatórios de métricas no escritório cinzento e chuvoso de Seattle, Bella estava ali, na Place de l’Estrapade, prestes a revolucionar uma das agências de marketing de luxo mais tradicionais da Europa.

O motorista do táxi, um homem de meia-idade com um bigode espesso e uma expressão de profundo tédio existencial, descarregou as malas na calçada com uma lentidão deliberada que beirava o protesto silencioso. Ele murmurou um preço em um francês rápido e gutural que fez o estômago de Bella revirar; ela não compreendia uma única palavra além dos numerais básicos que havia decorado no aplicativo de idiomas durante o voo. Após pagar com um sorriso excessivamente aberto — o tipo de sorriso americano que os parisienses costumavam interpretar como um sinal de loucura ou ingenuidade —, Bella arrastou seus pertences para dentro do saguão do edifício. O hall de entrada era imponente, com piso de mármore desgastado pelo tempo e uma escadaria de madeira escura que espiralava em direção aos andares superiores como uma obra de arte antiga. Não havia elevador. Bella olhou para cima, engolindo em seco ao lembrar-se das instruções que recebera da imobiliária: seu novo lar temporário era uma *chambre de bonne*, os antigos alojamentos de empregados localizados no último andar, sob os telhados de zinco da cidade. O que a corretora francesa havia descrito por e-mail como um "charme rústico incomparável" começou a parecer, à medida que Bella subia o primeiro lance de degraus carregando duas malas pesadíssimas, um teste de resistência militar.

A contagem dos andares na França, contudo, provou-se o primeiro grande enigma cultural daquela jornada. Para Bella, o nível da rua era o primeiro andar; para os franceses, era o rez-de-chaussée, o térreo, o que significava que o quinto andar francês correspondia, na verdade, ao sexto nível de escadas infinitas. Já ofegante, com as palmas das mãos ardendo pelo esforço de erguer a bagagem degrau por degrau e o suor frio colando a blusa de algodão às suas costas, ela parou diante de uma porta de madeira maciça pintada de azul-escuro, onde o número cinco brilhava em metal polido. Convicta de que havia alcançado seu destino, Bella soltou as malas com um suspiro ruidoso de alívio, pegou a chave que lhe fora enviada e a enfiou na fechadura. A chave girou, mas a porta permaneceu firmemente trancada. Franzindo a testa, tomada por aquela persistência impetuosa que a definia, ela começou a forçar a maçaneta, empurrando a madeira com o ombro enquanto girava a chave com uma força desmedida, fazendo um barulho estrondoso que ecoou por todo o vão da escadaria residencial.

A porta abriu-se abruptamente de dentro para fora, fazendo com que Bella perdesse o equilíbrio e desse um passo desajeitado para a frente, quase caindo nos braços do homem que acabara de abrir a fechadura. Bella congelou, as palavras de desculpa morrendo instantaneamente em sua garganta seca. O homem parado à sua frente era, sem sombra de dúvida, a visão mais impactante que ela já testemunhara. Ele parecia ter saído diretamente de uma pintura clássica ou de um comercial de perfume de alta costura: alto, de constituição esguia mas visivelmente atlética por baixo de uma camisa de linho branco levemente amassada com as mangas dobradas até os antebraços. Seus cabelos eram de um tom bronze desgrenhado, caindo em desalinho perfeito sobre a testa, e seus olhos, de um castanho-claro que lembrava a cor do topázio ou de um uísque envelhecido, fixaram-se nela com uma mistura de surpresa e uma ponta de irritação aristocrática. O aroma que emanava dele era uma combinação inebriante de Alecrim fresco, manteiga derretida e o perfume amadeirado de colônia cara.

Oui? Posso ajudar? — a voz dele era um barítono texturizado, o sotaque francês envolvendo as palavras em inglês com uma suavidade aveludada que fez a espinha de Bella estremecer.

— Ah! Meu Deus, me desculpe! — Bella gaguejou, sentindo as bochechas arderem em um tom escarlate que contrastava violentamente com sua pele pálida. Ela deu um passo para trás, gesticulando freneticamente com as mãos. — Eu achei... eu pensei que este era o meu apartamento. Eu sou a Bella Swan, a nova inquilina do quinto andar. A chave não estava funcionando e eu tentei forçar...

O homem observou o desespero dela por alguns segundos, os lábios se curvando lentamente em um meio-sorriso divertido que revelou dentes perfeitamente alinhados e uma covinha sutil na bochecha esquerda. Ele olhou para as quatro malas imensas estacionadas no corredor e depois voltou a fixar aqueles olhos cor de topázio na jovem americana desajeitada.

— Você está no quarto andar — ele explicou, apontando com o indicador longo e elegante para o lance de escadas que continuava a subir. — Na França, nós não contamos o térreo como o primeiro andar. O seu apartamento fica logo acima do meu. Eu sou Edward. Edward Mansen.

— Edward... — Bella repetiu o nome dele quase em um sussurro, sentindo um frio estranho e agradável no estômago enquanto sustentava aquele olhar magnético. Ela balançou a cabeça rapidamente, tentando recuperar a postura profissional. — Certo! Claro. O térreo é zero. Isso faz muito sentido... ou nenhum sentido. Bem, obrigada, Edward. E desculpe por tentar arrombar a sua casa no meu primeiro dia na cidade.

— Sem problemas, Bella — ele disse, a pronúncia do nome dela soando como "Be-llá" em seus lábios franceses. Edward deu um passo para o corredor, avaliando o tamanho da bagagem dela com um arquejar de sobrancelhas. — Você vai precisar de ajuda com tudo isso até o próximo andar?

— Não, não, imagine! Eu sou uma mulher independente de Seattle, posso dar conta — Bella apressou-se em dizer, orgulhosa demais para admitir que suas costas já imploravam por misericórdia. Ela agarrou a alça da maior mala e começou a puxá-la degrau acima, soltando um gemido involuntário de esforço físico no primeiro centímetro.

Edward soltou uma risada baixa, um som musical que ecoou pelo corredor úmido. Sem pedir permissão, ele passou por ela com uma facilidade descomunal, pegou as duas maiores e mais pesadas malas como se fossem feitas de penas e subiu os degraus em direção ao verdadeiro quinto andar. Bella o seguiu, observando o movimento dos músculos das costas dele sob a camisa fina, sentindo uma ponta de culpa misturada a uma admiração puramente estética. Quando finalmente alcançaram a porta correta, Edward depositou as malas no chão enquanto Bella abria a fechadura verdadeira, que cedeu com facilidade. Ao empurrar a porta, a realidade do mercado imobiliário parisiense desabou sobre os ombros da americana. O apartamento era minúsculo — uma verdadeira chambre de bonne de doze metros quadrados onde a cama de solteiro funcionava também como sofá, a cozinha consistia em uma bancada de um metro com duas bocas de fogão elétrico e uma mini-geladeira, e a janela, embora oferecesse uma vista de tirar o fôlego dos telhados cinzentos de Paris e da cúpula distante do Panthéon, mal permitia que uma pessoa ficasse de pé sem esbarrar em algum móvel.

— É... aconchegante — Edward comentou, encostando-se no batente da porta e cruzando os braços, os olhos brilhando com uma ironia refinada enquanto observava o choque estampado no rosto de Bella.

— É menor que o meu closet em Seattle — confessou ela, deixando os ombros caírem, a exaustão finalmente cobrando o seu preço. Ela se virou para ele, forçando um sorriso de gratidão. — Mas a vista é linda. E você foi o meu primeiro milagre parisiense, Edward. Muito obrigada.

De rien, Bella. Bienvenue à Paris... — ele disse, dedicando-lhe mais um daqueles olhares profundos que pareciam ler seus pensamentos mais íntimos antes de se virar e descer as escadas com passos leves e decididos.

Bella fechou a porta e encostou-se nela, o coração ainda acelerado pela presença do vizinho. No entanto, o relógio em seu pulso não dava trégua: eram quase duas da tarde, e ela precisava se apresentar na Platt, a agência de marketing de luxo, em menos de uma hora. Ignorando o cansaço que pesava em suas pálpebras, ela abriu a menor das malas, retirou um vestido de tweed rosa-choque com botões dourados e um par de botas de salto alto pretas — um visual que ela considerava o ápice do profissionalismo chique da Costa Oeste americana. Retocou o batom, ajeitou os longos cabelos castanhos que caíam em ondas pelos ombros e, armada com seu notebook e um bloco de notas dourado, saiu correndo em direção ao seu destino, cruzando as ruas de paralelepípedos com a determinação de quem estava prestes a conquistar a Europa.

A sede da agência Platt localizava-se em um dos endereços mais caros e aristocráticos do 8º arrondissement, a poucos passos da icônica Rue du Faubourg Saint-Honoré. O edifício era um hôtel particulier do século XVIII, cuja fachada de pedra ornamentada exalava uma opulência discreta, típica da velha riqueza francesa que desdenha exibições extravagantes. Ao cruzar o arco da entrada e subir a imponente escadaria de mármore que levava aos escritórios, Bella sentiu o ambiente mudar drasticamente. O ar ali dentro cheirava a cera de abelha antiga, flores frescas de jasmim e um perfume cítrico incrivelmente sofisticado que parecia impregnado nas paredes de painéis de madeira dourada. O silêncio era quase reverencial, quebrado apenas pelo sussurro suave de saltos altos sobre os tapetes persas e o murmúrio baixo de conversas em francês.

Quando Bella entrou na recepção principal, deparou-se com duas figuras que pareciam saídas de um editorial de moda vanguardista. Paul, um homem alto, de traços angulares pronunciados, cabelos cortados milimetricamente e vestindo um terno sob medida cinza-chumbo sem gravata, lia um calhamaço de papéis com uma expressão de desdém permanente. Ao seu lado, Benjamin, mais jovem, com óculos de armação de tartaruga intelectualizada, um suéter de gola alta preto e uma postura elegantemente desleixada, digitava em um tablet enquanto bebericava um espresso em uma xícara de porcelana minúscula. Ambos ergueram os olhos simultaneamente quando Bella se aproximou, e o escrutínio foi imediato. Os olhos de Paul desceram do chapéu de boina rosa de Bella até a ponta de suas botas, uma varredura visual tão fria e cirúrgica que fez Bella se sentir instantaneamente despida de qualquer dignidade profissional.

Bonjour! — Bella exclamou, a voz ecoando alta demais para o ambiente silencioso, o tom agudo e o sotaque americano cortando o ar como uma navalha. — Eu sou a Bella Swan. A nova executiva de marketing de Seattle. Eu vim para ocupar o lugar da Victoria.

Paul e Benjamin trocaram um olhar rápido, uma comunicação silenciosa repleta de um tédio profundo. Benjamin soltou um suspiro audível, deixando a xícara de café sobre a mesa com um estalo seco.

— Ah, sim. A americana — disse Paul, falando em um inglês impecável, embora arrastado e impregnado de uma condescendência gélida. — Estávamos informados de sua... chegada. Mademoiselle Esme está à sua espera em seu gabinete. Por aqui.

Ele nem sequer esperou que ela respondesse. Paul levantou-se e caminhou em direção a uma imensa porta de vidro jateado no final do corredor, seus passos firmes e silenciosos. Bella o seguiu, apertando o bloco de notas contra o peito como se fosse um escudo protetor contra a hostilidade palpável que emanava daqueles homens. Ao entrarem na sala, Bella deparou-se com Esme Cullen.

Esme era a personificação da elegância parisiense mítica. Ela não parecia fazer esforço algum para ser deslumbrante: usava uma calça de alfaiataria preta de cintura alta, uma blusa de seda branca com os primeiros botões abertos com uma casualidade estudada, e seus cabelos castanhos-claros estavam presos em um coque frouxo e impecável. Seus traços faciais eram suaves, quase maternais à primeira vista, mas seus olhos cinzentos eram afiados como lâminas de gelo, brilhando com uma inteligência implacável e uma total falta de paciência para frivolidades. Ela estava de pé junto à imensa janela que dava para o pátio interno, segurando um cigarro longo cuja fumaça subia em espirais preguiçosas em direção ao teto decorado com afrescos.

— Mademoiselle Swan — disse Esme, apagando o cigarro em um cinzeiro de cristal com um movimento lento e deliberado. Ela caminhou até sua escrivaninha de jacarandá, onde não havia um único papel fora do lugar, e fixou os olhos cinzentos em Bella. A voz de Esme era baixa, pausada e fria como o inverno ártico. — Sente-se, por favor.

Bella acomodou-se em uma cadeira de couro e metal, tentando manter a coluna ereta e o sorriso que começava a parecer congelado em seu rosto.

— É um prazer absoluto estar aqui, Esme! — Bella começou, inclinando-se para a frente com um entusiasmo transbordante. — A Gilbert Group, nossa empresa controladora em Seattle, está incrivelmente animada com essa fusão. Eu trouxe um plano completo de reestruturação digital para a Platt. Nós vamos transformar as redes sociais de seus clientes de luxo, criar campanhas interativas no Instagram, engajamento em tempo real...

— Pare, por favor — Esme interrompeu, erguendo uma das mãos de dedos longos e unhas perfeitamente lixadas em um gesto que silenciou Bella instantaneamente. Esme soltou um suspiro tedioso, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos. — Mademoiselle Swan, os americanos têm uma obsessão vulgar com o barulho, com a velocidade e com os números. Aqui na Platt, nós não vendemos produtos. Nós vendemos desejo. Nós vendemos mistério. O luxo não se comunica através de enquetes vulgares ou postagens diárias em redes sociais para as massas. O luxo é exclusivo. E, francamente, a sua presença aqui é um erro de percurso decorrente da inconveniência biológica da sua antiga chefe.

As palavras de Esme atingiram o peito de Bella com a força de um soco físico. O estômago da jovem americana contraiu-se dolorosamente, e ela sentiu uma onda de humilhação ameaçar trazer lágrimas aos seus olhos, mas ela se recusou a demonstrar fraqueza. Ela engoliu o nó que se formava em sua garganta e sustentou o olhar da chefe francesa.

— Com todo o respeito, Esme — a voz de Bella tremeu ligeiramente, mas ganhou firmeza a cada palavra —, o mistério é ótimo, mas se os novos consumidores, os jovens ricos do mundo inteiro, não virem os seus clientes no ambiente onde eles passam cinco horas por dia, que são os seus celulares, esse mistério vai se transformar em esquecimento. Eu vim para somar, não para destruir a tradição de vocês.

Esme arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpresa com a audácia da garota, embora sua expressão tenha retornado rapidamente à indiferença habitual. Ela levantou-se e caminhou até a porta, abrindo-a para sinalizar que a audiência havia terminado.

— Veremos, Mademoiselle Swan — disse Esme, um sorriso gélido e sem dentes brincando nos cantos de seus lábios. — Vá para a sua mesa. Tente não fazer muito barulho. E, por favor, aprenda a falar o nosso idioma. É o mínimo que se espera de alguém que deseja sobreviver nesta cidade.

Bella levantou-se com as pernas trêmulas e saiu da sala. Ao passar pela área comum, ouviu Paul murmurar algo para Benjamin em francês, uma frase onde a palavra "La Plouc" foi pronunciada com uma risadinha abafada. Bella não sabia o significado exato da expressão, mas o tom de deboche cortante foi o suficiente para ela compreender que acabara de ganhar seu primeiro apelido pejorativo: a Caipira.

O restante da tarde foi um borrão de isolamento e frustração. Ninguém falava com Bella, ninguém lhe oferecia trabalho ou explicações sobre as contas dos clientes. Ela permaneceu sentada em sua mesa em um canto isolado do escritório, encarando a tela do computador enquanto o silêncio hostil dos colegas de trabalho pesava sobre seus ombros como uma armadura de chumbo. Quando o relógio finalmente marcou dezoito horas, Bella recolheu seus pertences e saiu do edifício, sentindo-se a menor criatura do planeta Terra.

O ar da noite parisiense estava ainda mais frio, e uma garoa fina começava a cair, transformando o asfalto das ruas em um espelho negro que refletia as luzes douradas dos postes coloniais. Com o coração apertado pela solidão e a mente orbitando o fracasso do seu primeiro dia, Bella caminhou sem rumo até encontrar uma pequena praça arborizada no Quartier Latin, não muito longe de seu apartamento. O local exalava uma melancolia poética, com folhas secas de plátano cobrindo os bancos de ferro verde-escuro. Bella sentou-se em um dos bancos, encolhendo-se dentro de seu sobretudo vermelho, sentindo-se uma intrusa em um mundo de beleza inalcançável.

Ela pegou o celular, o único elo com a sua antiga realidade, e abriu o aplicativo do Instagram. Em um impulso de pura necessidade de autoexpressão, para provar a si mesma que sua voz ainda tinha algum valor, ela tirou uma foto de suas botas pretas contra o tapete de folhas secas da praça parisiense, com o fundo levemente borrado focando na silhueta de uma luminária antiga. Pensou por alguns segundos e criou uma nova conta, digitando o nome de usuário: @Bellainparis. Na legenda, escreveu: “O primeiro dia em Paris pode ser frio e cinzento, mas até as folhas secas aqui parecem saber como cair com elegância. #BellaInParis #NovaVida”. Ela postou a imagem, vendo o feed atualizar com o número zero na contagem de seguidores. Era um começo solitário, mas era dela.

— É uma bela foto — uma voz feminina, vibrante e cheia de uma energia luminosa, ecoou ao seu lado, interrompendo os pensamentos melancólicos de Bella.

Bella ergueu os olhos rapidamente e deparou-se com uma jovem que parecia o oposto absoluto da frieza parisiense que conhecera na Platt. A garota era pequena, magra, com cabelos curtinhos repicados que apontavam para todas as direções de um jeito incrivelmente estiloso, e olhos grandes e expressivos que cintilavam com uma curiosidade genuína. Ela usava um casaco de pele sintética amarelo-neon, calças jeans rasgadas e um par de coturnos metalizados. Ela segurava um carrinho de bebê de alta tecnologia, onde uma criança francesa rechonchuda dormia profundamente sob um cobertor de cashmere.

— Obrigada — respondeu Bella, abrindo um sorriso tímido, o primeiro sorriso sincero daquele dia. — Eu sou a Bella. Estou tentando encontrar alguma beleza no meio do meu colapso nervoso do primeiro dia.

— Ah, uma americana! Que alívio ouvir esse sotaque maravilhoso! — a garota exclamou, sentando-se no banco ao lado de Bella com uma informalidade calorosa que fez a alma de Bella respirar aliviada. — Eu sou a Alice. Alice Brandon. Sou australiana, mas moro aqui há dois anos. Sou babá de uma família de aristocratas franceses terrivelmente ricos e esnobes, embora, tecnicamente, eu não precise do dinheiro porque meu pai é dono de metade das minas de opala da Austrália. Mas eu amo a liberdade de Paris e amo cantar... embora os parisienses prefiram que eu fique calada.

A torrente de palavras de Alice foi tão rápida e cheia de vida que Bella não pôde evitar soltar uma gargalhada alta, a primeira do dia. Em menos de dez minutos, a timidez de Bella desmoronou diante da energia contagiante de Alice. Bella desabafou sobre tudo: sobre as malas pesadas, sobre a chambre de bonne, sobre a humilhação perpetrada por Esme e o apelido de La Plouc que recebera de Paul e Benjamin.

— Oh, aqueles idiotas da Platt! — Alice exclamou, jogando as mãos para o alto em um gesto dramático. — Não ligue para eles, Bella. Os parisienses são como croissants: duros por fora, mas se você souber aquecê-los no ponto certo, eles se tornam macios e deliciosos. Esme é apenas uma mulher insegura com medo do futuro brilhante que você representa. E *La Plouc* significa caipira, o que é um absurdo, porque aquele seu sobretudo vermelho é simplesmente divino! Nós vamos ser melhores amigas, eu já decidi. Paris não vai saber o que a atingiu com nós duas juntas.

O calor das palavras de Alice funcionou como um bálsamo para o espírito ferido de Bella. Pela primeira vez desde que pousara no aeroporto Charles de Gaulle, ela sentiu que não estava completamente sozinha no mundo. Elas trocaram números de telefone e perfis de redes sociais, e Alice prometeu levá-la para explorar os segredos mais vibrantes e menos esnobes da cidade nos próximos dias.

Quando Bella finalmente retornou ao seu edifício, a noite já havia caído completamente, trazendo consigo um frio cortante que fazia o vapor de sua respiração clarear o ar diante de si. Ela subiu os lances de escada infinitos com os músculos clamando por repouso, mas com o coração um pouco mais leve graças ao encontro com Alice. Ao passar pelo quarto andar, olhou discretamente para a porta azul de Edward, perguntando-se se ele estaria ali dentro, preparando alguma de suas iguarias gastronômicas misteriosas. Um tremor sutil de expectativa percorreu sua espinha, mas ela continuou subindo até seu pequeno refúgio sob o telhado.

O apartamento estava gelado. Bella acendeu as luzes e deparou-se com a sua montanha de malas ainda fechadas. A exaustão emocional e o fuso horário combinado de Seattle começaram a cobrar uma fatura pesada. Ela sentia saudades de casa, saudades do conforto previsível de sua antiga rotina e, acima de tudo, sentia a falta de uma conexão íntima. Sentando-se na cama estreita, pegou o celular e discou para Riley, seu namorado que ficara em Seattle. Ele era um jovem engenheiro de software, bonito de uma forma convencional e americana, cujo universo orbitava em torno de códigos e jogos de futebol nos fins de semana.

A chamada de vídeo conectou após várias tentativas, revelando o rosto de Riley iluminado pela luz azul do monitor de seu computador no apartamento deles em Seattle, onde ainda era o início da tarde.

— Oi, Bella! — disse ele, a voz soando distante e um pouco distraída enquanto seus olhos piscavam, visivelmente focados em outra tela ao lado. — Como está a terra do croissant? Conseguiu se instalar?

— Riley... oi — Bella disse, deixando o cansaço transparecer em sua voz, os olhos fixos na imagem dele na tela pequena. — É tudo tão diferente aqui. O apartamento é minúsculo, as pessoas no trabalho me odeiam, eles me chamam de caipira em francês... Eu sinto tanto a sua falta. Eu queria que você estivesse aqui comigo para dividirmos isso.

— Poxa, amor, que chato — Riley respondeu, o tom de voz carecendo da empatia profunda de que Bella necessitava desesperadamente naquele instante. Ele soltou uma risada curta. — Mas você sabe como os europeus são esnobes, né? Logo você conquista todo mundo com aquele seu jeito mandão de marketing. Olha, eu adoraria conversar mais, mas tenho uma reunião de código em dez minutos e o pessoal está me chamando no Slack.

— Ah... claro — Bella murmurou, sentindo uma pontada fria de decepção apertar seu peito. Ela olhou para as próprias mãos, o sentimento de desconexão crescendo entre eles como um abismo intransponível. — Tudo bem. Bom trabalho na reunião.

— Ei, espera aí — Riley disse, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios enquanto ele se inclinava mais perto da câmera do celular. — Já que a distância está brava e nós não vamos nos ver por um bom tempo... por que a gente não faz um sexo virtual agora rápido? Você sabe, para matar a saudade e desestressar desse seu primeiro dia tenso.

Bella piscou, surpresa com a proposta abrupta e desprovida de qualquer romance. Ela olhou ao redor do quarto minúsculo e gelado, sentindo uma onda de carência misturada com a necessidade mecânica de sentir algum tipo de prazer ou calor humano que a fizesse esquecer as humilhações sofridas na agência Platt.

— Tudo bem... — ela consentiu em um sussurro, a voz carregada de uma hesitação que Riley nem sequer notou.

Ela colocou o celular apoiado na pequena mesa de cabeceira, direcionando a câmera para a cama. Com movimentos lentos e constrangidos, desfez os botões de seu vestido de tweed rosa e deitou-se na cama vestindo apenas sua lingerie de renda preta. Riley soltou um assobio do outro lado da linha, seus olhos brilhando através da tela de alta definição.

Bella esticou o braço até a sua bolsa de viagem e retirou de lá o seu vibrador de última tecnologia americana, um aparelho potente, recarregável, feito de silicone cirúrgico rosa-pastel que ela comprara poucas semanas antes de viajar. O aparelho, contudo, estava com a bateria fraca, e Bella percebeu que precisava conectá-lo à tomada para que ele funcionasse com a potência máxima desejada. Sem pensar nas consequências técnicas e desconhecendo completamente a incompatibilidade feroz entre a voltagem da rede elétrica europeia de 220 volts e os aparelhos eletrônicos americanos de 110 volts, Bella pegou o cabo de carregamento, conectou-o a um adaptador de tomada universal de plástico barato e o enfiou diretamente na tomada antiga localizada na parede descascada acima de sua cama.

No exato instante em que ela pressionou o botão de ligar do aparelho, o quarto foi invadido por um estalo ensurdecedor, um som agudo de curto-circuito que ecoou como uma pequena explosão. Uma faísca azul-brilhante saltou da tomada da parede, acompanhada por um fio de fumaça negra com um cheiro acre de plástico queimado. O vibrador em sua mão tremeu violentamente por meio segundo antes de morrer por completo, emitindo um último chiado melancólico.

Imediatamente após a faísca, todas as luzes do apartamento de Bella apagaram-se, mergulhando o ambiente em uma escuridão absoluta. Do lado de fora da janela, Bella ouviu o som de lâmpadas estourando e o clamor repentino de vozes nas ruas e nos apartamentos vizinhos. Ao olhar através do vidro, seu coração parou de bater por um segundo inteiro: não apenas o seu quarto estava às escuras, mas todas as janelas do edifício, os postes de luz coloniais da Place de l’Estrapade e as luzes de todo o quarteirão haviam se apagado simultaneamente, mergulhando aquela porção do Quartier Latin em um breu medieval.

A conexão de vídeo com Riley caiu instantaneamente com a queda do sinal do Wi-Fi do prédio. No silêncio sepulcral e escuro que se seguiu, Bella permaneceu estática na cama, segurando o brinquedo eletrônico queimado contra o peito, as bochechas queimando em um nível de humilhação tão estratosférico que ela desejou genuinamente que o chão do quinto andar se abrisse e a engolisse para sempre. Ela, Isabella Swan, a brilhante mente do marketing americano, acabara de apagar a luz de parte de Paris com um vibrador defeituoso.

Passaram-se menos de dois minutos até que o som de passos firmes e rápidos subindo a escadaria de madeira quebrasse o silêncio do edifício residencial. Bella cobriu-se rapidamente com o lençol até o queixo, o pânico paralisando seus movimentos enquanto ouvia os passos aproximarem-se de sua porta. Três batidas firmes ecoaram na madeira escura.

— Bella? — a voz de Edward Mansen soou do outro lado, carregada de uma preocupação genuína misturada com uma ponta de confusão. — Você está bem aí dentro? Toda a luz do prédio e da rua caiu no exato momento em que ouvi um barulho vindo do seu teto.

Bella fechou os olhos com força, amaldiçoando sua própria existência. Ela limpou a garganta, tentando fazer sua voz soar o mais normal e menos culpada possível no meio da escuridão.

— Estou! Estou bem, Edward... — ela respondeu em um tom de voz que falhou miseravelmente, saindo como um guincho agudo. — Eu só... eu acho que tive um pequeno problema com uma tomada aqui. Uma coisa simples.

— Eu estou com uma lanterna aqui. Posso entrar? — ele perguntou, e antes mesmo que Bella pudesse formular uma desculpa plausível para impedi-lo, a maçaneta girou e a porta abriu-se lentamente.

O feixe de luz branca e intensa da lanterna de Edward cortou a escuridão do quarto minúsculo, varrendo o ambiente até focar no rosto pálido e assustado de Bella, que estava encolhida sob os lençóis. Edward entrou no aposento com passos cuidadosos para não esbarrar nas malas espalhadas pelo chão. Ele usava calças de moletom cinza e uma camiseta preta simples, parecendo ainda mais devastadoramente bonito sob a iluminação dramática e contrastante da lanterna.

Edward direcionou o feixe de luz para a parede acima da cama, revelando a mancha negra de fuligem ao redor da tomada e o adaptador universal que havia derretido parcialmente, transformando-se em uma massa disforme de plástico cinzento. Seus olhos desceram lentamente pela colcha até encontrarem o objeto que Bella tentava, sem sucesso, esconder sob o lençol: o cabo USB preto conectado a um aparelho cilíndrico de silicone rosa-choque que exalava um odor inconfundível de circuito eletrônico frito.

Houve um silêncio prolongado no quarto, um silêncio tão denso e grávido de significado que Bella podia ouvir o tique-taque de seu próprio relógio de pulso. Edward observou a tomada queimada, olhou para o objeto rosa na mão dela e depois fixou os olhos cor de topázio no rosto de Bella. Os cantos de sua boca começaram a tremer de forma incontrolável, e seus olhos brilharam com uma torrente de divertimento absoluto que ele tentava, por pura cortesia francesa, conter.

— Eu não aguento mais isso... — disse Bella, sussurrando de forma dramática e olhando para Edward com os olhos marejados de pura vergonha, deixando a cabeça cair contra o travesseiro com um gemido de desespero. — Por favor, me diga que eu não apaguei a luz do bairro inteiro com um... com isso.

Edward não conseguiu mais segurar. Ele soltou uma gargalhada alta, um som rico, caloroso e completamente contagiante que preencheu o espaço confinado do quarto escuro. Ele apoiou a mão na parede para se sustentar enquanto ria, a lanterna tremendo em seus dedos e criando padrões de luz dançantes no teto.

— Ah, mon Dieu... — Edward disse, recuperando o fôlego aos poucos, embora seus olhos ainda transbordassem uma alegria genuína enquanto olhava para a americana totalmente derrotada na cama. Ele deu um passo à frente e sentou-se na beirada da cama dela, a proximidade fazendo o coração de Bella dar um salto errático no peito. — Bella, a voltagem na França é de duzentos e vinte volts. Os aparelhos americanos simplesmente explodem se você não usar um transformador de voltagem real, não apenas um adaptador de plástico de cinco euros. Você literalmente causou um blecaute na Place de l’Estrapade com o seu... acessório pessoal.

—Eu quero morrer. Eu quero pegar o primeiro voo de volta para Seattle e fingir que eu nunca pisei na Europa — Bella murmurou, cobrindo o rosto com as duas mãos, sentindo o calor de sua humilhação queimar suas palmas. — Meu primeiro dia e eu já sou a funcionária mais odiada da agência, ganhei o apelido de caipira e agora sou uma terrorista elétrica internacional.

Edward esticou a mão e, com um toque incrivelmente suave e sutil, afastou os lençóis das mãos dela, forçando-a a olhar para ele. O toque dos dedos dele contra a pele do pulso dela enviou uma descarga elétrica real e calorosa por todo o corpo de Bella, uma sensação completamente diferente daquela que destruíra a tomada do quarto. Os olhos dele amoleceram, perdendo toda a ironia e preenchendo-se com uma simpatia profunda e reconfortante.

—Não morra ainda, Bella — Edward disse, a voz caindo para um tom mais baixo e íntimo que fez o ar entre eles parecer subitamente mais denso. — Paris pode ser uma cidade difícil e cruel no começo, especialmente para quem chega cheia de entusiasmo como você. As pessoas aqui usam a frieza como uma defesa. Mas eu garanto que a cidade melhora. E quanto ao blecaute... bem, os técnicos da companhia elétrica já estão trabalhando lá embaixo na caixa principal da rua. Em uma hora a luz deve voltar. Até lá, você está segura aqui na escuridão comigo.

Bella sustentou o olhar dele, sentindo o medo e a solidão daquele dia caótico desaparecerem gradualmente, substituídos por uma sensação estranha, intensa e magnética de segurança que emanava daquele vizinho quase desconhecido. Ela soltou um sorriso fraco, os olhos fixos nos lábios dele que estavam a poucos centímetros dos seus.

— Obrigada, Edward... — ela sussurrou, a voz carregada de uma sinceridade profunda. — Por não me deixar no escuro. Em todos os sentidos.

Edward sorriu de volta, um sorriso terno que fez o estômago de Bella revirar de uma forma inteiramente nova. Ele levantou-se lentamente da cama, direcionando a lanterna para a porta para dar-lhe privacidade, mas parou antes de sair, olhando-a por cima do ombro.

— Durma um pouco, Bella — ele disse suavemente. — Amanhã é um novo dia. E a Platt ainda não sabe o que espera por ela com uma americana tão... eletrizante na cidade.

Ele fechou a porta atrás de si com um clique suave, deixando Bella sozinha na escuridão que agora não parecia mais tão fria ou assustadora. Ela ajeitou-se sob as cobertas, o aroma de alecrim e madeira de Edward ainda flutuando no ar de seu pequeno quarto, sabendo no fundo de sua alma que, apesar de todos os desastres daquele início, sua história em Paris estava apenas começando.

Notas finais
E assim termina o primeiro dia de Bella em Paris... Ela ganhou um apartamento minúsculo, uma chefe que já a odeia, colegas insuportáveis, uma nova melhor amiga e, de quebra, um vizinho francês que parece ter saído diretamente de uma campanha da Dior. Não foi exatamente o começo tranquilo que ela imaginava. 😅 Mas convenhamos: se você consegue provocar um blecaute no seu primeiro dia usando um vibrador americano, talvez esteja destinada a viver grandes histórias. 🤭⚡ Quero saber tudo: o que vocês acharam da Bella? Da Alice? E principalmente do Edward Mansen? 👀 Obrigada por lerem! Nos vemos no próximo capítulo. Afinal, dizem que Paris é sempre uma boa ideia... mas ninguém disse que seria uma ideia tranquila. 🤭🇫🇷❤️