Paris Nights/New York Mornings
2 Empire State Of Mind
Notas iniciais
Primeiramente, chamo-me Ramanesh Dakar Ravi. Sou indiano e pertencente à casta Brahmin, a mais alta e nobre casta entre os hindi. Mesmo nascendo em Ponducherry, cidade dividida entre as áreas francesa e indiana – respectivamente, a mais rica, local onde morava com meus pais, e a mais pobre da cidade — , na Índia, minha pele é obviamente parda, mas meus olhos são claros e meu cabelo, apesar de nascer completamente escuro e escorrido, como de todo e qualquer indiano, foi branquecendo gradativamente até chegar aos meus 30 anos, idade na qual eles já eram absolutamente grisalhos.
Qualificado, como costuma ser o meu povo, mostrava excelência e gosto pela Física, vim financiado por meu pai para os Estados Unidos da América em meus 21 ou 23 anos para que pudesse adquirir mais conhecimento e estudar tal matéria, uma vez que a intenção de meu genitor era, no final do ano, prestar um disputado exame de integração em uma universidade. Caso eu fosse alguém realmente bom e passasse no concurso, passaria a lecionar Física na instituição, em Nova York.
Eu havia me mudado para a “Cidade Que Nunca Dorme” havia aproximadamente dois meses e meio e eu, no meu jeito excessivamente acanhado e tímido, preferia me excluir em minha própria zona de conforto que era minha casa ou, se chamado para algum evento de confraternização dos amigos de influência de meus pais, isolar-me nos cantos, calado e apenas observando o decorrer do evento.
Não é de se surpreender que, assim que pus meus pés na “Grande Maçã”, fiquei estarrecido com tamanho movimento, mesmo vindo de um país caótico como a Índia. Mas os contrastes, as misturas de rostos tão diferentes e iguais que se juntavam em um só com movimentos infinitos e constantes que jamais paravam e aquela confusão de luzes e línguas sobrepujando-se umas às outras... Era um delírio. Era um fascínio.
Mas, mesmo assim, sujeitinho tímido como eu era, minha admiração transformava-se em certo anseio e, confesso, um pouco de medo daquela cidade que, não importasse o quando eu andasse nem o que descobrisse de novo, continuava com sua essência e caminhos um tanto obscuros e misteriosos para mim. Portanto, não era incomum me ver sair do meu apartamento alugado apenas para fazer o necessário, como comprar comida ou assistir aulas do preparatório para o exame que eu prestaria em breve.
As únicas exceções eram quando eu tinha minhas constante noite de insônia, uma vez que sou do tipo de pessoa que dorme pouco e nos horários mais variados existentes. Assim, eu saía para dar uma volta pela cidade noturna, evitando o máximo possível o excesso de luz para evitar de desencadear um ataque epiléptico, uma vez que sofro de convulsões, herdadas por parte materna, mesmo tomando medicamentos para controlá-las.
Em uma dessas noites, após enfurnar-me em horas a fio de exercícios e mais exercícios para preparar-me para a prova que chegava, ao empacar em uma das questões do grosso livro de Física, resolvi sair um pouco para tentar “arejar” a cabeça. Quem sabe não conseguiria ter um insight que me ajudaria a achar a solução do problema?
Enfiando folhas, o livro e as chaves do apartamento em minha bolsa transversal marrom, vesti um casaco sintético da mesma cor, porém mais escuro, e retirei-me para sentir o fresco e suave ar da noite, fazendo frio naquele setembro que vivenciei. Ajeitei meus óculos – por sinais, grandes demais para meu rosto — , levando-os novamente a se apoiarem no começa de meu septo nasal e ajeitei meus cabelos compridos, sentindo os fios que tingiam-se lentamente de grisalho chicotearam de leve minhas omoplatas. Uma leve brisa afagou minha franja de corte reto que atrapalhava um pouco minha visão, mas, ainda assim, agarrando a alça da bolsa e curvando-me um pouco, segui meu rumo pela cidade das luzes.
Via as rus, as lojas abertas até às cinco ou seis da manhã, os transeuntes, tudo. Mas não parecia enxergar nada, tão distraído eu era. Vez ou outra erguia meus olhos claros para fitar o céu, na esperança de encontrar alguma estrela no céu noturno.
When it gets dark enough, you can see the stars, eu repetia a frase que lera de um psicólogo, talvez procurando algum conforto em meu inexplicável vazio.
Mas eu jamais as conseguia enxergar. O problema não estava na escuridão, e sim no excesso de luz que a cidade de Manhattam oferecia, ocultando o brilho dos astros. Porém, mesmo que eu não as enxergasse, eu sabia que elas estavam lá.
E, com este pequeno consolo em mente, forçava-me a seguir meu caminho que nem eu mesmo sabia qual era, de cabeça baixa e fitando o chão de concreto perfeitamente regular e amplo sob meus pés.
Tão imerso estava em meus pensamentos que sequer percebi os poucos e finos pingos que começaram a cair, apenas voltando ao presente quando a chuva engrossou e o frio perfurou o tecido da jaqueta, molhando minha pele com suas gotas penetrantes como agulhas. Olhei em volta, e, vendo que me achava completamente perdido, mas definitivamente não querendo ficar ensopado, corri para dentro do primeiro estabelecimento que encontrei.
Assim que entrei, fechando a porta atrás de mim, sequer lendo o anúncio em neon verde e rosa do lado de fora, deparei-me em um apertado e rústico barzinho, destes que abrem as portas às 21 horas e fecham às 6 da manhã.
Eram exatamente 4: 47 da madrugada quando a chuva começou e, acanhado por ter entrado de modo tão súbito e sem ser muito percebido pelos presentes, escolhi uma mesinha de carvalho envernizado bem no cantinho excluído e escuro do estabelecimento, pedindo qualquer bebida alcóolica apenas para não ser expulso. Tirei a bolsa de meus ombros, colocando-a em uma cadeira ao meu lado e só então parecei me dar conta de que havia um homem fazendo cover artístico e tocando um instrumento.
Minha nossa...
Aquele homem era lindo.
Fale com o autor