Parfaite
10 Capítulo 10 - Our first kiss.
Notas iniciais
Capítulo 10.
[ Uruha’s POV ]
Vida de enfermeiro é uma merda mesmo.
Olha, é realmente raro alguém me ouvir reclamar, sendo que mesmo agora eu estava me recusando terminantemente a reclamar, mas tinha de admitir que às vezes, até eu tinha surtos. Qualquer coisa que acontece de errado num hospital, por culpa de médicos ou do que for, cai nos ombros da enfermagem.
E, Deus, era fácil tirar muitos enfermeiros do sério por causa disso.
Amo meu trabalho, mas de vez em quando me pego pensando que deveria ter feito medicina. Pelo menos a culpa do mundo não cairia sempre nas minhas costas. Já seria um grande avanço.
Hoje de manhã uma menina morreu. Acidente, envolvendo cinco carros numa batida violenta aqui perto. A emergência ficou uma zona para tentarmos salvar os que conseguiram chegar com vida. No meio do caminho, dois morreram, então, foram direto para as mãos de Ruki, no subsolo.
Entretanto, a menina chegou com vida. Menos de 10% de chance de sobrevivência, mas com vida.
O único médico que aceitou encostar a mão nela para tentar salvá-la foi Amano Shinji. Porque, uma coisa era mais do que certa: quando alguém morre no hospital, muitas vezes a culpa cai em cima da última pessoa que tocou no paciente vivo. E não importa que a pessoa tenha chego ao hospital com metade do pulmão esmagado e a outra metade perfurada por uma viga, os parentes da vítima tendem a falar que foi incompetência médica.
Até aí, tudo bem, nós fomos cuidar da menina. Amano, mais duas residentes e eu.
Claro, ela não conseguiu resistir e morreu vinte minutos depois de chegar, enquanto tentávamos, cirurgicamente, remover as ferragens do carro que tinham atravessado seu abdômen. Se ela sobrevivesse, nunca mais moveria o corpo da cintura para baixo e seu sistema reprodutor se resumiria a nada.
Bem, não tivemos a chance de descobrir se a teoria sobre as sequelas estava certa.
Mas eu era o único enfermeiro na sala de cirurgia.
Também fui eu a avisar a família sobre o óbito da menina de quatorze anos.
O que aconteceu foi que começaram me culpar, gritar comigo e falar que eu seria processado por incompetência, mas foda-se que a menina só tinha dez por cento de chance de sobreviver e que eu estava bem longe no momento do acidente. A culpa ainda assim era minha.
Essa é a merda de ter cargo baixo.
Não sei que o que se passa pela cabeça dessas pessoas. Eu não virei enfermeiro à toa! Não queria que ela morresse! Escolhi essa profissão porque queria salvar todas as vidas que conseguisse, não tem graça nenhuma em ver as pessoas morrendo na sua frente, mesmo com todo o seu esforço para salvá-la. Não é divertido ver os pais mais fortes chorando na sua frente, desesperados. Não existe o mínimo senso de humor sonhar com cada vida que deixou de salvar, todas as noites e depois ficar se culpando pela morte.
Trabalhar no meu lugar, ninguém quer.
Mas tacar a culpa do mundo nos meus ombros, ah, isso é fácil!
Minhas mãos tremiam de nervoso, fazendo o cigarro meio tragado que eu segurava entre os dedos quase cair. Estava tentando parar de fumar, não precisava de uma crise de nervoso para provar o quanto eu era incapaz de largar essa porcaria.
Vi o cigarro ser arrancado de minha mão e nem quis saber quem era para já sair gritando.
- ENFIA A MÃO NO RABO ANTES DE MEXER NA MERDA DO MEU CIGARRO! – Mas parei, em choque, quando encontrei Yuu ali, tragando-o, antes de me devolver, sentando-se ao meu lado, com um sorriso calmo.
- Já deixei meu advogado avisado, caso realmente abram um processo contra você, ele assume o caso. É muito profissional e eu nunca o vi perder uma causa. A culpa não foi sua, não dê tanta atenção ao que os outros dizem. Tenho certeza de que, por você, a menina estaria viva agora. – Sua voz era calma e seu braço roçava levemente contra o meu.
- Como ficou sabendo disso tudo e ainda conseguiu me achar aqui? – Perguntei, voltando a tragar, com menos vontade dessa vez.
- Tinha descido pra tomar um café, coincidentemente, na mesma hora em que você foi avisar aos parentes dela. Depois de ligar pro meu advogado, saí perguntando pra onde você tinha ido. Reita me disse que provavelmente estava no terraço e acertou. – Ele passou um braço por meus ombros, trazendo-me para si delicadamente.
Apoiei a cabeça em seu ombro, o sentindo fazer um carinho leve em meus cabelos.
Só nos conhecíamos há dois meses agora, porém eu o considerava alguém... Bem mais importante do que a ética deixaria.
Seu toque me acalmava.
- Não deveria aceitar que me pagasse um advogado só que... Eu não entendo nada dessas coisas. Então, obrigado, por tudo e perdão por gritar, eu não consigo me acalmar direito. – Admiti, apagando a bituca no chão ao meu lado, sem tirar a cabeça do ombro dele.
Meus sentimentos por Yuu mudavam constantemente. Às vezes eu o via exatamente como o que ele era: pai heterossexual de um paciente meu. Em outras, o via como o homem mais bonito e mais doce que já tinha conhecido. E, de uns tempos pra cá, vez ou outra, me pegava com o coração acelerado na presença dele. Era como uma paixão adolescente, daquelas estranhas.
Eu criava suposições ilusórias, onde, pegava suas ações e palavras, transformando-as em algo com significados que não existiam e essas coisas.
Ele se mantinha educado como sempre fora, agradecido por eu ajudar seu filho e carinhoso por considerar a minha pessoa um amigo.
Era complicado, se querem saber. Mas me distraía.
- Não precisa se preocupar. – O moreno garantiu, mantendo o carinho e o sorriso. – Mas eu vou querer uma coisa em troca.
Nem ergui meu rosto para encará-lo. Ele tinha todo o direito de pedir algo em troca. Faria qualquer coisa, com prazer.
- O que quer?
- Que saia comigo pra jantar hoje. Precisa se distrair. Na verdade, só estou retribuindo o favor, já que fez o mesmo por mim quando nos conhecemos. – Soltei um riso baixinho. Ele se lembrava de cada coisa...
- Tudo bem, só me dizer que horas e onde. – Um jantar não iria me fazer mal. Principalmente gostando de comida como eu gostava.
- Às oito horas eu passo para te buscar na sua casa. Reita falou que vai pegar plantão hoje e que vai trazer Sati pra dormir com Touya, então, acho que você não vai ter problemas em sair, nem eu. – É, não ia ter problema algum.
- Certo, vou estar pronto. – Garanti, soltando-me dele para me levantar.
E então um impulso me acometeu. Não sei de onde, nem porquê, mas apoiei as mãos em seus joelhos, selando seus lábios com os meus, rapidamente, afastando-me em seguida para sair dali.
Seus olhos se arregalaram e ele tentou segurar meu braço, porém eu consegui desviar.
Sentia meu rosto fervendo.
Por que diabos eu tinha feito aquilo?
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